Um Crime Adormecido
Richard Erskine
Antell Manor tinha um aspecto desagradável. Era um a casa branca atrás da qual se viam colinas áridas. Chegava-se à casa por um a alam eda cheia de curvas em m eio a densos arbustos.
- Por que é que viem os? disse Giles a Gwenda. - O que vam os dizer?
- Já com binam os tudo.
- Bem , até certo ponto... Tivem os sorte de a prim a da tia da irm ã do cunhado da Miss Marple, ou sej a lá qual for o parentesco, m orar aqui perto... Mas daí para se fazer um a visita e perguntar ao dono da casa sobre seus casos de am or antigos vai um a grande distância.
- E foi há tanto tem po. Talvez... talvez ele nem se lem bre dela.
- Talvez. E talvez nem tenha havido casa de am or nenhum .
- Giles será que estam os fazendo papel de palhaços?
- Não sei... Às vezes tenho essa sensação. Não sei porque estam os nos m etendo nisso tudo. A esta altura, que im portância tem isso?
- Tanto tem po depois... Sim , eu sei... Tanto Miss Marple quanto o Dr. Kennedy nos disseram que não devíam os nos m eter nisso. Por que não desistim os, Giles? O que é que nos faz insistir? Será ela?
-
Ela?
- Helen. Será por isso que m e lem bro? Será que m inha lem brança infantil é a única ligação que ela tem com a vida... com a verdade? Será que Helen está m e usando -
e a você tam bém - para que a verdade apareça?
- Porque ela teve um a m orte violenta?...
- É. Dizem ... os livros dizem ... que às vezes elas não encontram repouso...
- Acho que você está fantasiando, Gwenda.
- Talvez. De qualquer m odo, podem os. . . escolher. Isto é apenas um a visita social. Não precisa ser m ais do que isso. . , a m enos que a gente queira que sej a...
Giles sacudiu a cabeça.
- Vam os continuar. Não podem os desistir.
- Sim ... Você tem razão. Mesm o assim , Giles, acho que estou com m edo...
II
- Estão procurando um a casa? perguntou o Maj or Erskine.
Estendeu para Gwenda um prato de sanduíches. Gwenda serviu-se e olhou para o dono da casa. Richard Erskine era um hom em baixo, de cabelos grisalhos, olhar cansado e pensativo. Sua voz era grave, ligeiram ente arrastada, agradável. Não tinha nada de extraordinário, pensou Gwenda consigo m esm a, m as era, sem dúvida, atraente...
Na realidade não era tão bonito quanto Walter Fane, m as enquanto que a m aioria das m ulheres passavam por Walter Fane sem olhar para ele, não podiam passar por Erskine sem prestar atenção. Fane era indefinido. Erskine, apesar de seu ar tranqüilo, tinha personalidade. Falava de assuntos banais, de m aneira banal, m as havia algum a coisa...
algo que as m ulheres reconhecem logo e diante do que reagem apenas com o m ulheres.
De m aneira quase inconsciente, Gwenda arrum ou a saia, passou a m ão num cacho de cabelo e retocou os lábios. Há dezenove anos atrás Helen poderia ter-se apaixonado por aquele hom em . Disso Gwenda tinha certeza.
Levantou os olhos e encontrou o olhar da dona da casa, observando-a fixam ente.
Enrubesceu sem querer. A Sra. Erskine estava conversando com Giles, m as olhava para Gwenda e seu olhar era um m isto de aprovação e desconfiança. Janet Erskine era um a m ulher alta e de voz grave, quase tão grave quanto a de um hom em . Tinha um a com pleição atlética e usava um casaco de tweed m uito bem cortado, com grandes bolsos. Parecia m ais velha que o m arido, m as talvez na realidade não fosse, pensou Gwenda. Tinha um a expressão abatida. Um a m ulher infeliz, carente.
Aposto que ela inferniza a vida dele, pensou Gwenda consigo m esm a.
E, interrom pendo seus pensam entos, continuou a conversar em voz alta.- A tarefa de procurar um a casa é desanim adora, disse ela. As descrições dos corretores são m aravilhosas, m as quando se vai ver a casa é sem pre horrível.
- Estão pensando em m orar nas vizinhanças?
- Bem ... este é um dos lugares em que pensam os. Na realidade é porque fica perto da Muralha de Adriano. Giles sem pre teve fascinação pela Muralha de Adriano.
Com preende, talvez o senhor ache estranho, m as qualquer lugar da Inglaterra é m ais ou m enos igual para nós. Eu sou da Nova Zelândia e não tenho nenhum a ligação aqui. E
Giles passou férias em casa de diversas tias, em diversos lugares, de m odo que tam bém não tem nenhum a ligação especial. A única coisa que não querem os é m orar perto de Londres. Querem os o cam po.
Erskine
sorriu.
- Não tenha dúvidas de que aqui é cam po m esm o! É com pletam ente isolado.
Tem os poucos vizinhos, e em casas m uito afastadas.
Gwenda percebeu um tom levem ente am argo naquela voz tão agradável. Teve um a súbita visão de um a vida solitária - dias de inverno curtos e escuros, com o vento assobiando na cham iné, as cortinas fechadas, ele trancado, trancado com aquela m ulher de olhar infeliz - e os poucos vizinhos m orando em casas bem afastadas.
Em seguida a visão desapareceu. Era verão novam ente, com as portas abertas para o j ardim , o perfum e das rosas entrando pela sala.
- Esta casa é antiga, não é? perguntou Gwenda.
Erskine fez sinal que sim .
- Pertence a m inha fam ília há quase trezentos anos.
- É um a linda casa. O senhor deve ter bastante orgulho dela...
- Hoj e em dia está m uito velha. Os im postos são tão altos que fica difícil conservar as coisas direito. Mas agora que as crianças j á não m oram conosco a pior fase j á passou.
- Quantos filhos o senhor tem ?
- Dois rapazes. Um deles é oficial do exército. O outro acabou de se diplom ar em Oxford. Vai trabalhar num a editora.
Seu olhar se dirigiu para a lareira e Gwenda acom panhou-o, vendo um retrato de dois rapazes - de uns dezoito e dezenove anos, m ais ou m enos. Deve ter sido tirado há alguns anos, pensou Gwenda. A expressão de Erskine era de orgulho e afeto.
- Não é por serem m eus filhos, m as são bons m eninos, disse ele.
- São m uito sim páticos, respondeu Gwenda.
- Sim , disse Erskine. - Acho que vale a pena - realm ente. Refiro-m e a fazer sacrifícios pelos filhos, acrescentou ante o olhar interrogativo de Gwenda.
- Suponho que... m uitas vezes... tenha-se de abrir m ão de m uita coisa, observou Gwenda.
- Muita coisa, às vezes...
Mais um a vez Gwenda sentiu um tom som brio, porém a Sra. Erskine interrom peu, perguntando com sua voz grossa e autoritária:
- Vocês estão m esm o procurando casa por aqui? Acho que não conheço nenhum a que sirva, nos arredores.
E se soubesse não m e diria, pensou Gwenda com súbita m alícia. Essa velha boba está com ciúm es. Está com ciúm es porque estou conversando com o m arido dela e porque sou j ovem e atraente!
- Depende do prazo de vocês, observou Erskine.
- Não tem os pressa nenhum a, respondeu Giles em tom anim ado. - Querem os encontrar um a coisa da qual gostem os m uito. Por enquanto tem os um a casa em Dillm outh, na costa sul.
O Maj or Erskine levantou-se e foi pegar um cigarro num a caixa em cim a de um a m esa j unto à j anela.
- Dillm outh, repetiu a Sra. Erskine. Sua voz era inexpressiva. Seus olhos estavam fixos na nuca do m arido.
- Um lugarej o m uito bonitinho, disse Giles. - Conhece?
Houve um instante de silêncio e em seguida a Sra. Erskine respondeu no m esm o tom inexpressivo:
- Há m uitos anos atrás passam os algum as sem anas lá, no verão. Não gostam os m uito do clim a.
- Isso m esm o, disse Gwenda. - É exatam ente o que acham os. Giles e eu preferim os um clim a m ais revigorante.
Erskine aproxim ou-se com a caixa de cigarros. Ofereceu um a Gwenda.
- Isto aqui é m uito revigorante, disse ele. Sua voz continha certa am argura.
Gwenda olhou para Erskine enquanto acendia o cigarro.
- Lem bra-se bem de Dillm outh? perguntou ela com ar ingênuo.
Os lábios de Erskine trem eram no que pareceu a Gwenda um súbito acesso de dor. A resposta veio em tom neutro.
- Acho que m e lem bro m uito bem . Ficam os hospedados no... deixe-m e lem brar...
no Roy al George... não, no Roy al Clarence!
- Ah, sim , é aquele hotel antigo e tão sim pático! exclam ou Gwenda. - Nossa casa fica ali perto. Cham a-se Hillside, m as antigam ente o nom e era... St. Mary... não é isso, Giles?
- St. Catherine, corrigiu Giles.
Dessa vez não houve dúvida quanto à reação. Erskine virou-se abruptam ente de costas. A xícara de chá da Sra. Erskine por pouco não caiu no chão.
- Gostariam de ver o j ardim ? perguntou ele subitam ente.
- Oh, com o m aior prazer!
Saíram pela porta j anela. O j ardim era m uito bem tratado com canteiros com pridos e cam inhos de pedra. Gwenda achou que quem cuidava daquilo era o Maj or Erskine, pois ao falar sobre as rosas, sobre as plantas, o rosto triste de Erskine se ilum inava. Era evidentem ente um entusiasta da j ardinagem .
Quando finalm ente se despediram e j á estavam dentro do carro, Giles perguntou hesitante: - Você... deixou lá?
Gwenda fez sinal que sim .
- Perto da segunda m oita de delfínios, respondeu ela. Olhou para o dedo e rodou a aliança com ar distraído.
- E se nunca m ais encontrar?
- Bem , não é m eu verdadeiro anel de noivado! Não ia correr esse risco!
- Que bom !
- Sou m uito sentim ental em relação àquele anel. Lem bra do que você m e disse quando o colocou no m eu dedo? Um a esm eralda verde para um a gatinha m isteriosa de olhos verdes.
- Acho que nossa linguagem am orosa deve parecer esquisita para um a pessoa da geração de Miss Marple, por exem plo.
- Tão boazinha! O que será que está fazendo a um a hora dessas? Tom ando sol?
- Está preparando algum a, se é que eu a conheço! Fazendo perguntas aqui, bisbilhotando ali... Espero que não exagere.
- Para um a senhora idosa é coisa m uito natural. Se fôssem os nós as pessoas estranhariam .
- Por isso é que não gosto... Interrom peu a frase e depois prosseguiu. - Não gosto de você ter que fazer isso. Não suporto a sensação de que fico sentado em casa e m ando você fazer tudo.
Gwenda passou carinhosam ente a m ão no rosto do m arido.
- Eu sei, querido, eu sei, m as você tem que concordar que é com plicado! É um a insolência interrogar um hom em sobre sua vida am orosa pregressa - m as é um tipo de insolência em que um a m ulher se sai m uito bem ... se for esperta. E eu acho que sou esperta.
- Eu sei. Mas se Erskine for o hom em que estam os procurando...
- Acho que não é, observou Gwenda com ar pensativo.- Você acha que estam os na pista errada?
- Não. Acho que ele esteve m esm o apaixonado par Helen, m as ele é bom , Giles, m uito bom . Não é um estrangulador!
- Você não tem m uita experiência de estranguladores, não é, Gwenda?
- Não, m as tenho intuição fem inina.
- Acho que m uitas vítim as de estranguladores disseram isso. Mas, falando sério, Gwenda, tom e cuidado, por favor!
- É claro. Fiquei com tanta pena dele... com aquela m ulher que é um a fera!
Aposto que ele é m uito infeliz.
- Ela é um a m ulher estranha... Meio assustadora, não sei por que.
- É, tem um j eito sinistro. Você viu com o ela ficou olhando para m im o tem po todo?
- Bem , espero que o plano dê certo!
III
Na m anhã seguinte o plano foi posto em execução. Giles, sentindo-se com o um detetive contratado para um flagrante num caso de divórcio, colocou-se num local de onde podia observar o portão da entrada de Antell Manor. Por volta de onze e m eia com unicou a Gwenda que tudo estava bem . A Sra. Erskine saíra num pequeno Austin, dirigindo-se para o m ercado, que ficava a três m ilhas de distância. A pista estava livre.
Gwenda estacionou o carro em frente à porta e tocou a cam painha. Perguntou pela Sra. Erskine e foi inform ada de que ela não estava. Perguntou pelo Maj or Erskine e responderam que se encontrava no j ardim . Ao ver Gwenda se aproxim ar, ele parou de cuidar do canteiro de flores.
- Desculpe incom odá-lo, disse Gwenda, - m as acho que ontem deixei m eu anel cair aqui no j ardim . Lem bro que quando acabam os de tom ar chá ele estava no m eu dedo. É m eio largo. Eu ficaria tristíssim a se o perdesse, porque é m eu anel de noivado.
A busca teve início. Gwenda refez o cam inho da véspera, tentou se lem brar onde ficara em pé, em que flores tinha tocado. Finalm ente o anel foi encontrado j unto a um a grande m oita de delfínios. Gwenda dem onstrou efusivam ente sua alegria.
- Aceita um drinque, Sra. Reed? Um copo de cervej a? Um sherry? Ou prefere café?
- Muito obrigada, m as não quero nada. Só um cigarro. Sentou-se num banco e Erskine sentou-se ao seu lado. Durante alguns m inutos ficaram em silêncio. O coração de Gwenda batia em ritm o acelerado. Não podia recuar. Precisava agir.
- Queria lhe perguntar um a coisa, disse ela. - Talvez o senhor m e ache terrivelm ente introm etida, m as eu preciso m uito saber... e o senhor é provavelm ente a única pessoa que pode m e contar. Acho que o senhor j á esteve apaixonado por m inha m adrasta.
Erskine virou-se para Gwenda com ar atônito.
-
Sua
m adrasta?
- Sim . Helen Kennedy. Depois de casada o nom e dela era Helen Halliday.
- Com preendo. O hom em sentado ao lado de Gwenda ficou m uito quieto. Seus olhos fixavam a gram a com ar ausente. A cinza do cigarro ia aum entando. Por trás daquele ar tão quieto Gwenda sentiu o turbilhão interior daquele hom em cuj o braço estava encostado ao seu.
Com o se estivesse respondendo a um a pergunta que fizera a si m esm o, Erskine disse: - Cartas, suponho que...
Gwenda não respondeu.
- Nunca escrevi m uito para ela... duas cartas, talvez três. Ela disse que havia j ogado fora... m as as m ulheres nunca j ogam cartas fora, não é? E então caíram em suas m ãos e a senhora quer saber.
- Quero saber m ais coisas sobre ela. Eu... eu gostava m uito dela, se bem que fosse bem pequena quando Helen foi em bora.
- Ela foi em bora?
- O senhor não sabia?
O olhar cândido e surpreso de Erskine encontrou o de Gwenda.
- Não tenho notícias dela, disse ele, - desde... desde aquele verão em Dillm outh.
- Então não sabe onde ela está agora?
- Com o é que posso saber? Isso foi há anos atrás... há anos! Tudo acabado e liquidado. Esquecido.
-
Esquecido?
Ele sorriu com am argura.
- Não, talvez não estej a esquecido... A senhora é m uito observadora, Sra. Reed.
Mas fale sobre ela. Ela não... não m orreu, não é?
Um vento frio soprou de repente, fazendo am bos estrem ecerem .
- Não sei se está m orta ou não, respondeu Gwenda. - Não sei nada sobre ela.
Achei que talvez o senhor soubesse.
Erskine sacudiu a cabeça e Gwenda prosseguiu.
- Com preende, ela foi em bora de Dillm outh naquele verão. De repente, certa noite, sem falar com ninguém . E nunca m ais voltou.
- E a senhora achou que talvez eu tivesse notícias dela?
-
Exato.
Ele tornou a sacudir a cabeça.
- Não. Nem um a só palavra. Mas certam ente o irm ão dela - o tal m édico - m ora em Dillm outh. Ele deve saber. 0u será que tam bém m orreu?
- Não, está vivo. Mas tam bém não sabe. Todos pensaram que ela fugira... com alguém .
Erskine virou a cabeça e olhou para Gwenda. Um olhar triste e profundo.- Pensaram que Helen fugiu com igo?
- Bem , era um a possibilidade.
- Será que era? Acho que não. Não foi nada disso. Ou será que fom os loucos...
loucos que perderam conscientem ente a oportunidade de serem felizes?
Gwenda não respondeu. Mais um a vez Erskine virou-se e olhou para ela.
- É m elhor eu lhe contar. Não há m uito o que dizer, m as não quero que faça m au j uízo de Helen. Conhecem o-nos num navio, a cam inho da Índia. Um a das crianças tinha ficado doente e m inha m ulher ia tom ar o navio seguinte. Helen se casaria com um hom em que estava na Índia. Não o am ava. Era apenas um velho am igo, bom e delicado, e ela queria sair de casa porque não era feliz. Ficam os apaixonados.
Erskine fez um a pausa.
- Sei que sem pre se diz isso, m as não foi - quero deixar isso bem claro - não foi apenas um caso de am or com um . Foi sério. Nós dois ficam os... bem , profundam ente abalados. E não havia nada a fazer. Eu não podia largar Janet e as crianças. Helen concordava com igo. Se fosse apenas por causa de Janet... m as havia os m eninos. Não havia esperança. Com binam os dizer adeus e tentar esquecer.
Deu um a risadinha seca e irônica.
- Esquecer? Nunca esqueci, nem um instante. A vida era um inferno. Não conseguia parar de pensar em Helen...
Bem , ela acabou não casando com o tal suj eito. Na hora H não conseguiu enfrentar a situação. Voltou para a Inglaterra e na viagem conheceu outro hom em -
im agino que sej a seu pai. Escreveu-m e poucos m eses depois contando o que fizera.
Disse que ele estava m uito infeliz por ter perdido a esposa e que tinha um a filha. Ela achou que podia fazê-lo feliz e que era a m elhor decisão. Escreveu de Dillm outh. Uns oito m eses depois m eu pai m orreu e eu voltei para a Inglaterra. Queríam os tirar um as férias antes de vir m orar aqui e m inha m ulher sugeriu Dillm outh. Um a am iga inform ou-lhe que era um lugar bonito e tranqüilo. Evidentem ente ela não sabia de nada sobre Helen. Im agine só m inha tentação! Vê-la de novo! Ver que tal era o hom em com quem se casara!
Houve um a pequena pausa e Erskine prosseguiu.
- Fom os, e ficam os no Roy al Clarence. Foi um erro. Foi um inferno tornar a ver Helen... Ela parecia estar bastante feliz - não sei... Evitava estar a sós com igo... Não sabia se ela ainda gostava de m im ou não... Talvez tivesse esquecido. Acho que m inha m ulher desconfiou de algum a coisa... Ela... ela é m uito cium enta -sem pre foi.
E term inou bruscam ente: - É só isso. Partim os de Dillm outh ...
- No dia 17 de agosto, com pletou Gwenda.
- Foi dia 17? É possível. Não m e lem bro com exatidão.
- Era sábado, disse Gwenda.
- Tem razão. Lem bro que Janet disse que talvez fosse um dia ruim para viaj ar para o norte... m as não sei...
- Por favor, tente se lem brar, Maj or Erskine. Quando foi que o senhor viu m inha m adrasta - Helen - pela últim a vez?
Ele sorriu. Um sorriso suave, cansado.
- Não preciso fazer força. Vi-a na véspera de partir, à noite, na praia. Eu cam inhei até a praia depois do j antar... e ela estava lá. Não havia ninguém por perto.
Andei com ela de volta para casa. Atravessam os o j ardim ...
- A que horas?
- Não sei . . . Deviam ser um as nove horas.
- E disseram adeus?
- E dissem os adeus. Erskine tornou a rir. - Oh, não foi o tipo de adeus que a senhora está im aginando. Foi m uito rápido e brusco. Helen m e disse: - Por favor, vá em bora. Vá depressa. Prefiro não... Ela interrom peu a frase e... e eu... fui em bora.
- Voltou para o hotel?
- Voltei m ais tarde. Prim eiro dei um a longa cam inhada pelo cam po.
- É difícil lem brar datas... depois de tantos anos, m as acho que nessa m esm a noite ela foi em bora... e nunca m ais voltou.
- Com preendo. E com o eu e m inha m ulher fom os em bora no dia seguinte as pessoas espalharam o boato de que ela fugira com igo. Que gente encantadora!
- Bem , quer dizer que ela não fugiu com o senhor?
- Meu Deus, não! Nunca pensam os nisso!
- Então, perguntou Gwenda, - por que acha que ela foi em bora?
Erskine franziu as sobrancelhas. Mudou de atitude, tornou-se interessado.
- Com preendo, disse ele. - É um a pergunta difícil. Ela não... não deixou nenhum a explicação?
Gwenda ficou pensativa e em seguida exprim iu sua opinião pessoal.
- Acho que ela não deixou explicação nenhum a. O senhor acha que ela foi em bora com alguém ?
- Não, é claro que não.
- O senhor parece ter certeza disso.
-
E
tenho
m esm o.
- Então por que ela foi em bora?
- Se ela foi em bora... subitam ente... assim ... só vej o um a explicação possível. Ela estava fugindo de m im .
- Do senhor?
- Sim . Talvez estivesse com m edo de que eu tentasse vê-la de novo... de que eu a perseguisse. Deve ter visto que eu ainda estava... louco por ela... Sim , deve ter sido isso.
- Isso não explica, retorquiu Gwenda, - por que ela nunca m ais voltou. Diga um a coisa... Helen contou-lhe algum a coisa sobre m eu pai? Estava preocupada com ele, ou...
com m edo dele?
- Medo dele? Por quê? Oh, com preendo, a senhora acha que ele podia estar com ciúm es. Era cium ento?
- Não sei. Ele m orreu quando eu ainda era m uito criança.
- Ah, entendo. Não, pensando bem , ele sem pre m e deu a im pressão de um a pessoa norm al e agradável. Gostava de Helen, orgulhava-se dela. Não, eu é que tinha ciúm es dele.
- Pareciam felizes?
- Pareciam . Fiquei contente... e ao m esm o tem po m agoado... ao verificar isso...
Não, Helen nunca m e disse nada sobre ele. Com o j á lhe falei, raram ente ficávam os sozinhos e não fazíam os confidências. Mas agora, j á que a senhora falou no assunto, lem bro que achei Helen preocupada...
-
Preocupada?
- Sim . Achei que talvez fosse por causa de m inha m ulher... Mas era m ais do que isso.
Olhou de m odo penetrante para Gwenda.
- Estaria com m edo do m arido? Estaria ele com ciúm es de outros hom ens?
- O senhor parece achar que não.
- O ciúm e é um a coisa m uito estranha. Às vezes pode estar tão escondido que ninguém desconfia. Erskine estrem eceu. Mas pode ser assustador... m uito assustador...
- Gostaria de saber m ais um a coisa, disse Gwenda.
Um carro subia a alam eda. - Minha m ulher está chegando das com pras, disse o Maj or Erskine.
Num instante ele se transform ou num a pessoa com pletam ente diferente. Tornou-se form al e sua fisionom ia era inexpressiva. Um leve trem or dem onstrava que estava nervoso.
A Sra. Erskine aproxim ou-se da casa e seu m arido foi ao seu encontro.
- A Sra. Reed deixou cair um anel no j ardim , ontem à tarde, disse ele.
- É m esm o? retorquiu a Sra. Erskine com rispidez.
- Bom dia, disse Gwenda. - Felizm ente j á o encontrei.
- Que sorte!
- É m esm o. Não queria perdê-lo. Bem , preciso ir em bora.
A Sra. Erskine ficou em silêncio.
- Vou acom panhá-la até o carro, disse o Maj or Erskine.
E seguiu atrás de Gwenda pelo terraço. A voz de sua m ulher cham ou-o em tom agudo.
- Richard! Um telefonem a urgente para você! Explique à Sra. Reed.
- Oh, não faz m al! apressou-se Gwenda em dizer. - Por favor, não se incom ode!
Correu pelo terraço e deu a volta na casa para chegar ao lugar em que tinha deixado o carro.
Subitam ente estancou. A Sra. Erskine estacionara seu carro de tal m aneira que Gwenda achou que não poderia passar. Hesitou, e em seguida voltou lentam ente para o terraço.
Chegando j unto às portas-j anelas, parou subitam ente. A voz da Sra. Erskine, em tom alto e profundo, chegava a seus ouvidos.
- Não m e interessa o que você está dizendo. Você com binou tudo. Com binou ontem . Com binou com essa m oça ela vir aqui enquanto eu estava em Daith. Você continua o m esm o... qualquer garota bonitinha serve! Não adm ito isso, ouviu? Não adm ito!
A voz de Erskine interrom peu-a num tom baixo, quase de desespero.
- Janet, às vezes acho que você está m aluca!
- Não estou m aluca coisa nenhum a! Quem está doido E você! Não deixa em paz as m ulheres!
- Janet, você sabe que não é verdade!
- É verdade sim ! E há m uito tem po... na m esm a cidade de onde essa m oça veio...
Dillm outh. Você ousa m e dizer que não estava apaixonado por aquela loura, a m ulher de Halliday ?
- Será que você não consegue esquecer nada? Por que fica rum inando essas coisas? Só serve para perturbar você e...
- A culpa é sua! Você m e m agoa profundam ente!... Não adm ito, estou avisando.
Não vou adm itir isso! Marcando encontros! Rindo de m im pelas costas! Você não liga para m im ... nunca ligou! Vou m e m atar! Vou m e atirar de um penhasco... Eu queria m orrer...
- Janet... Janet... Pelo am or de Deus...
A voz da Sra. Erskine sum ira. Ouvia-se apenas o som de soluços desesperados.
Gwenda afastou-se na ponta dos pés e voltou para j unto do carro. Pensou por um instante e em seguida tocou a cam painha.
- Será que alguém pode... tirar esse carro daí? perguntou ela. Acho que assim não dá para o m eu passar.
A em pregada foi para dentro de casa e logo um hom em se aproxim ou, vindo do pátio. Tirou o boné para cum prim entar Gwenda, entrou no Austin e levou-o para o pátio. Gwenda pegou seu carro e dirigiu à toda para o hotel onde Giles a esperava.
- Com o você dem orou! exclam ou ele à guisa de saudação.
- Conseguiu algum a coisa?
- Consegui. Agora conheço toda a história. É m uito patética. Ele estava loucam ente apaixonado por Helen.
E contou os acontecim entos da m anhã.
- Acho, disse ela, finalizando, - que a Sra. Erskine é m eio doida. Estava fora de si. Agora entendo o que ele quis dizer quando contou que ela era cium enta. De qualquer m odo, ficam os sabendo que não foi Erskine quem fugiu com Helen e que ele não sabe nada sobre a m orte dela. Estava viva na noite em que se despediram .
- É... retrucou Giles. - Pelo m enos é o que ele diz.
Gwenda fez um ar indignado.
- Isso, repetiu Giles, - é o que ele diz!
CAPÍTULO XVIII