Um Crime Adormecido
Lily Vai ao Encontro
- Raios, não entendo m ais nada! exclam ou Giles.
Acabara de abrir um a carta que chegara pelo correio da tarde e olhava-a com ar atônito.
- O que foi?
- É o relatório dos peritos em grafologia.
- E não foi ela quem escreveu a carta?
- Aí é que está, Gwenda. - Foi ela!
Gwenda e Giles se entreolharam fixam ente.
- Então as cartas não eram falsas! exclam ou Gwenda com ar incrédulo. Eram autênticas! Helen foi em bora da casa, naquela noite. E escreveu do exterior. E quer dizer que não foi estrangulada?
- Parece, respondeu Giles. - Mas é m uito estranho. Não com preendo. Logo agora, que tudo indica outra coisa...
- Quem sabe os peritos se enganaram ?
- Pode ser, m as eles estão m uito seguros do que dizem . Gwenda, eu realm ente não entendo m ais nada. Será que estam os fazendo papel de palhaços?
- Baseados no que m e aconteceu no teatro? Olha, Giles, vam os conversar com Miss Marple. Dá tem po para ir lá e chegar em casa de Kennedy às quatro e m eia.
Miss Marple, no entanto, reagiu de m aneira bem diferente da que eles haviam im aginado. Achou que era m uito bom .
- Mas, m inha querida Miss Marple, disse Gwenda, - o que é que a senhora quer dizer com isso? ~
- Quero dizer, querida, que alguém não foi tão esperto quando podia ter sido.
- Mas com o? De que m odo? .
- Foi um esquecim ento, afirm ou Miss Marple com ar satisfeito.- Mas com o?
- Bem , Sr. Reed, o senhor certam ente está com preendendo com o isso torna as coisas m ais definidas.
- Suponho que Helen realm ente tenha escrito as cartas, a senhora acha que m esm o assim ela pode ter sido assassinada?
- Acho que era m uito im portante, para alguém , que as cartas fossem escritas com a letra de Helen.
- Com preendo.. . Ou, pelo m enos, acho que com preendo. É possível que, diante de certas circunstâncias, Helen tenha sido forçada a escrever essas cartas... Isso tornaria as coisas m ais definidas. Mas que circunstâncias seriam essas?
- Ora, Sr. Reed, o senhor não está raciocinando! É sim plíssim o!
Giles fez um ar teim oso e aborrecido.
- Garanto que para m im não é tão sim ples assim .
- É só questão de raciocínio. . .
- Venha, Giles, disse Gwenda. - Vam os chegar atrasados.
Partiram , e Miss Marple ficou sorrindo sozinha.
- Às vezes essa velha m e irrita, disse Giles. - Não sei onde ela quer chegar!
Às quatro e m eia estavam em casa de Kennedy. Foi o próprio m édico quem abriu a porta.
- Mandei a em pregada passar a tarde fora, disse ele. Achei que seria m elhor.
Levou o casal para a sala, onde estava um a bandej a com xícaras e pratinhos, pão, m anteiga e bolos.
- Achei que tom ar chá era um a boa idéia, não é? perguntou ele a Gwenda. - Para botar essa Sra. Kim ble à vontade...
- Acho ótim o! respondeu Gwenda.
- Bem , e vocês dois? Devo apresentá-los logo, ou será que isso vai atrapalhar?
- As pessoas do interior são m uito desconfiadas, observou Gwenda. - Acho m elhor o senhor recebê-la sozinho.
- Tam bém acho, disse Giles.
- Se vocês ficarem na sala ao lado e deixarm os a porta de com unicação entreaberta, poderão ouvir a conversa, sugeriu Kennedy. - Acho que, diante das circunstâncias, isso se j ustifica.
- Acho que é um a indiscrição, m as não m e incom odo, respondeu Gwenda.
Kennedy deu um vago sorriso. - Acho que não estam os quebrando nenhum princípio ético. De qualquer m odo não pretendo prom eter segredo, apesar de estar disposto a dar o conselho pedido.
Olhou para o relógio.
- O trem chega em Woodleigh Road às quatro e trinta e cinco, isto é; daqui a poucos m inutos. Da estação até aqui se leva uns cinco m inutos a pé.
Kennedy andava para um lado e para outro. Estava agitado e abatido.
- Não com preendo, disse ele. - Não com preendo o que isso significa. Se Helen nunca saiu da casa... se as cartas eram falsas... Gwenda ia dizer algum a coisa, m as Giles fez-lhe sinal para que ficasse em silêncio. O m édico prosseguiu. - Se Kelvin, coitado, não a m atou, o que pode ter acontecido?
- Outra pessoa a m atou, respondeu Gwenda.
- Mas, m inha cara, se outra pessoa a m atou, por que havia Kelvin de insistir que foi ele?
- Porque ele achava que era ele. Encontrou-a caída na cam a e achou que tinha sido ele. Isso pode ter acontecido, não pode?
Kennedy esfregou a ponta do nariz, com ar irritado.
- Com o é que posso saber? Não sou psiquiatra! Choque? Esgotam ento nervoso?
É, suponho que sej a possível... Mas quem podia querer m atar Helen?
- Estam os pensando em três pessoas, disse Gwenda.
- Três pessoas? Quem são essas três pessoas? Ninguém tinha m otivo para m atar Helen... a m enos que estivesse louco! Ela não tinha inim igos. Todos gostavam dela.
Aproxim ou-se da escrivaninha e abriu a gaveta.
- Encontrei isto outro dia. . . quando estava procurando as cartas.
Estendeu um a fotografia am arelada, na qual se via um a m enina alta, de uniform e de ginástica, rabo-de-cavalo, um sorriso radioso. Kennedy, um Kennedy m ais m oço, com ar feliz, estava a seu lado, segurando um cachorrinho.
- Tenho pensado m uito nela, ultim am ente, disse ele. - Há m uitos anos não pensava nela.. . tinha quase conseguido esquecer... Agora não paro de pensar nela. Isso é culpa de vocês!
Falava em tom acusador.
- Acho que a culpa é dela, retorquiu Gwenda.
- Com o assim ?
- Isso m esm o. Não sei explicar, m as não som os nós. É a própria Helen.
Um apito de locom otiva ecoou ao longe. Kennedy olhou pela j anela. Ao longo do vale via-se um rastro de fum aça.
- Lá vai o trem , disse Kennedy.
- Chegando na estação?
- Não, partindo. Fez um a pausa.
- Ela vai chegar a qualquer m om ento.
Mas os m inutos passavam e Lily Kim ble não chegava.
II
Lily Kim ble saltou do trem em Dillm outh Junction e atravessou a ponte para chegar ao lado oposto, onde o pequeno trem local estava à espera. Os passageiros eram poucos. No m áxim o uns seis. Era um a hora m orta e, de qualquer m odo, era dia de m ercado em Helchester.
O trem partiu através do vale tortuoso. Havia três estações antes do final da linha, em Lonsbury Bay : Newton Langford, Matchings Halt, ou Woodleigh Cam ps, e Woodleigh Bolton.
Lily Kim ble olhava pela j anela com olhos que não viam o verde da paisagem , m as sim um conj unto de sofá e poltronas estofados de verde j ade.
Foi a única pessoa a descer na pequenina estação de Matchings Halt. Entregou seu bilhete e saiu através do escritório de reservas da estação. Mais adiante, no cam inho, havia um a placa com a inscrição "Woodleigh Post", indicando o atalho que subia por um a íngrem e colina.
Lily Kim ble tom ou o atalho e subiu pelo cam inho em passos rápidos. 0 atalho passava ao longo de um bosque e, do outro lado, a encosta da colina era coberta de toj o e urzes.
Alguém saiu de dentro do bosque e Lily Kim ble recuou, am edrontada.
- Que susto! exclam ou ela. - Não esperava encontrá-lo aqui!
- Que surpresa, não é? Pois tenho m ais um a surpresa para você!
O bosque era deserto. Ninguém poderia ouvir um grito ou um barulho de luta.
Na realidade não houve grito e a luta logo term inou. Um pom bo selvagem levantou vôo...
III
- O que será que aconteceu com a m ulher? perguntou Kennedy com ar irritado.
Os ponteiros do relógio m arcavam dez para as cinco.
- Será que se perdeu a cam inho daqui?
- Expliquei m uito bem qual era o cam inho. Aliás, é sim plíssim o. Basta virar à esquerda ao sair da estação e depois pegar a prim eira estrada à direita. Com o j á disse, é urna cam inhada de apenas alguns m inutos.
- Talvez tenha desistido, observou Giles.
- Está parecendo que sim .
- Ou talvez tenha perdido o trem , sugeriu Gwenda.
- Não. Acho m ais provável que ela tenha decidido não vir. Talvez o m arido tenha proibido. Essa gente do interior é sem pre im previsível.
Continuou andando para um lado e para outro.
Em seguida aproxim ou-se do telefone e fez um a ligação.
- Alô! É da estação? Aqui fala Dr. Kennedy. Eu estava esperando um a pessoa que vinha no trem de quatro e trinta e cinco. Um a m ulher de m eia-idade. Alguém perguntou onde ficava m inha casa?
Giles e Gwenda estavam suficientem ente perto para ouvir a voz arrastada do único carregador de Woodleigh Bolton.
- Acho que essa pessoa não veio, doutor. Não tinha ninguém desconhecido no trem das quatro e trinta e cinco. Tinha só o Sr. Narracott, de Meadows, Johnnie Lawes e a filha do velho Benson. Não tinha m ais nenhum passageiro.
- Bem , quer dizer que ela m udou de idéia, disse Kennedy. - Bom , posso tom ar chá com vocês. A água está fervendo na chaleira. Vou preparar o chá.
Voltou com o bule de chá e todos se sentaram .
- É um atraso apenas tem porário, disse ele em tom m ais anim ado. - Tem os o seu endereço. Talvez possam os ir lá conversar com ela.
O telefone tocou e Kennedy levantou-se para atender.
-
Dr.
Kennedy ?
-
Sim .
- Aqui fala o Inspetor Last, da polícia de Longford. 0 senhor estava esperando um a m ulher cham ada Lily Kim ble - Sra. Kim ble?
- Estava. Por quê? Houve algum acidente?
- Não se trata propriam ente de um acidente. Ela está m orta. Estou lhe telefonando porque encontram os um a carta sua j unto ao corpo. Será que o senhor pode vir à polícia o m ais rápido possível?
- Irei im ediatam ente.
IV
- Bem , vam os esclarecer bem os fatos, dizia o Inspetor Last.
Olhou para Kennedy, Giles e Gwenda, que tinham acom panhado o m édico.
Gwenda estava m uito pálida e apertava fortem ente as m ãos um a contra a outra.
- O senhor Estava esperando essa m ulher pelo trem que sai de Dillm outh Junction às quatro e cinco, e chega em Woodleigh Bolton às quatro e trinta e cinco?
Dr. Kennedy fez sinal que sim .
O Inspetor Last olhou para a carta que encontrara j unto ao corpo.
Prezada
Senhora
Kim ble:
Terei o m aior prazer em lhe dar a m elhor orientação possível. Com o poderá ver, no alto desta página, não m oro m ais em Dillm outh. A senhora pode tom ar o trem que sai de Coom beleigh às três e trinta, fazer um a baldeação em Dillm outh Junction e tom ar o trem de Lonsbury Bay para Woodleigh Bolton. Minha casa fica no final do cam inho, à direita. No portão há um a placa com m eu nom e.
Atenciosam ente,
Jam es Kennedy.
- Não se falou em sua vinda num trem que chegava m ais cedo?
- Mais cedo? Kennedy fez um ar espantado.
- Foi isso o que ela fez. Saiu de Coom beleigh à um a e m eia - e não as três e m eia
- pegou o trem das duas e cinco em Dillm outh Junction e saltou em Matchings Halt, a estação que fica antes de Woodleigh Bolton.
- Mas isso é fantástico!
- Tratava-se de um a consulta profissional, doutor?- Não. Deixei a clínica há m uitos anos.
- Era o que eu achava. O senhor a conhecia bem ?
Kennedy sacudiu a cabeça.
- Não a via há quase vinte anos.
- Mas o senhor. . . reconheceu-a agora.
Gwenda estrem eceu, m as um cadáver não perturba um m édico. Kennedy respondeu, pensativam ente: - Diante das circunstâncias, acho difícil dizer se a reconheci ou não. Suponho que tenha sido estrangulada, não foi?
- Exatam ente. O corpo foi encontrado num bosque próxim o ao atalho que vai de Matching Halt para Woodleigh Cam p. Quem o encontrou foi um excursionista que estava cam inhando a pé, vindo de Woodleigh Cam p. Isso foi às dez para as quatro.
Nosso legista calcula que ela m orreu entre duas e quinze e três horas. Provavelm ente foi assassinada pouco depois de sair da estação. Nenhum outro passageiro saltou em Matchings Halt. Ela foi a única pessoa a descer nesse lugar.
- Bem , por que foi que ela saltou em Matchings Halt? prosseguiu o inspetor. -
Terá se enganado? Acho que não. De qualquer m odo, estava com um adiantam ento de m ais de duas horas para o encontro com o senhor, e não tom ou o trem que foi sugerido, apesar de trazer sua carta na bolsa. Sobre que assunto iam conversar, Dr. Kennedy ?
Kennedy enfiou a m ão no bolso e retirou a carta de Lily. - Trouxe isto com igo.
O recorte é um anúncio colocado pelo Sr. e Sra. Reed.
O Inspetor Last leu a carta de Lily Kim ble e o anúncio. Em seguida olhou para Giles e Gwenda.
- Gostaria de conhecer a história que está por trás de tudo isso. Suponho que rem onte há m uito tem po atrás, não é?
Aos poucos, com m uitos parênteses e acréscim os, a história foi contada. 0
Inspetor Last era bom ouvinte, Deixou que as três pessoas a sua frente contassem as coisas à sua m oda. Kennedy foi seco e prático. Gwenda m ostrou-se ligeiram ente incoerente, m as sua narrativa tinha um grande poder de im aginação. A contribuição m ais valiosa foi dada por Giles, que falou com clareza, sem sair do assunto, de m odo m enos reservado que o de Kennedy e m ais coerente que o de Gwenda. A história toda dem orou m uito tem po.
O Inspetor Last suspirou e fez um resum o.
- A Sra. Halliday era irm ã do Dr. Kennedy e era sua m adrasta, Sra. Reed.
Desapareceu da casa onde a senhora m ora atualm ente há dezoito anos atrás. Lilly Kim ble, cuj o nom e de solteira era Abbott, era em pregada da casa naquela época. Por algum m otivo, depois de anos, Lily Kim ble acha que houve um crim e. Na ocasião, concluiu-se que a Sra. Halliday tinha fugido com um hom em de identidade desconhecida. O Maj or Halliday faleceu num a clínica psiquiátrica há quinze anos atrás, ainda com a idéia fixa de que tinha estrangulado sua m ulher... se é que era um a idéia fixa . . .
Fez um a pausa.
- Todos esses fatos são m uito interessantes, m as o principal é saberm os o seguinte: A Sra. Halliday está viva ou m orta? Se estiver m orta, quando m orreu? E o que é que Lily Kim ble sabia?
- Parece, diante das circunstâncias, prosseguiu o inspetor, - que ela sabia algum a coisa m uito im portante. Tão im portante que foi assassinada para evitar que falasse sobre o assunto.
- Mas com o é que alguém ., a não ser nós, podia saber que ela falaria sobre o assunto? exclam ou Gwenda.
- O fato de ela ter tom ado o trem das duas e cinco em Dillm outh Junction, em vez do de quatro e cinco, é bastante significativo, Sra. Reed. Deve ter havido algum a razão para isso. E por que saltou na estação anterior a Woodleigh Bolton? Por quê?
Parece-m e possível que, depois de ter escrito ao Dr. Kennedy, ela tenha feito o m esm o a outra pessoa, m arcando um encontro em Woodleigh Cam ps. Caso esse encontro não fosse satisfatório, iria então aconselhar-se com o Dr. Kennedy. É possível que ela suspeitasse de alguém e que tenha escrito para essa m esm a pessoa, insinuando que sabia algum a coisa e m arcando um encontro.
- Chantagem ... observou Giles.
- Acho que não era essa a sua m aneira de ver a coisa, respondeu o Inspetor Last.
- Ela era apenas am biciosa e estava m eio confusa quanto ao que conseguiria obter.
Vam os ver... Talvez o m arido possa nos dizer m ais algum a coisa.
V
- Eu avisei a ela, bem que avisei, disse o Sr. Kim ble em tom deprim ido. - Não se m eta nessa encrenca! Foi assim que falei para ela. Saiu escondida de m im . Achou que ela sabia o que fazer. Lily era assim m esm o. Toda m etida a esperta.
O interrogatório m ostrou que o Sr. Kim ble pouco tinha a contar.
Lily trabalhara em St. Catherine antes de ele conhecê-la e com eçar a sair com ela. Gostava m uito de cinem a e lhe dissera que, quer acreditasse ou não, ela havia trabalhado num a casa onde tinha havido um assassinato.
- Não prestei m uita atenção, nem liguei. Achei que era tudo im aginação. Lily nunca se contentava com explicações sim ples. Contou um a história incrível, dizendo que o patrão tinha m atado a patroa e talvez tivesse escondido o corpo no porão... e falou tam bém num a m oça francesa que olhou pela j anela e viu algum a coisa ou alguém . Eu disse a ela: - Minha filha, não ligue para o que esses estrangeiros contam . São todos uns m entirosos. Não são com o nós. E quando, ela ficava falando nisso eu nem prestava atenção, porque ela estava im aginando tudo. Lily gostava m uito de crim es. Com prava sem pre o Sunday News para ler a seção de Assassinos Fam osos. Ficara toda em polgada e, afinal, se ela gostava de achar que tinha trabalhado num a casa onde houve um crim e...
bem , pensar não faz m al a ninguém , não é? Mas, quando ela com eçou a querer responder a esse anúncio, eu disse para ela: - Deixe isso para lá. Não se m eta nessa encrenca! Se tivesse feito o que eu falei, estaria viva.
Ficou pensativo durante alguns instantes.
- Ahn. . . m urm urou finalm ente. - Estaria viva. . . Era m uito m etida a esperta.
Lily era assim m esm o...
CAPÍTULO XXIII
Q UAL DELES?
Giles e Gwenda não foram interrogar o Sr. Kim ble j unto com o Inspetor Last e Kennedy. Por volta das sete horas foram para casa. Gwenda estava pálida e indisposta.
Kennedy dissera a Giles que fizesse Gwenda tom ar um pouco de conhaque, com er algum a coisa e ir para a cam a, pois tivera um grande choque.
- É horrível, Giles, repetia ela sem cessar. - Horrível! Coitada da m ulher, m arcou um encontro com o assassino e foi toda confiante... para ser assassinada! Com o um carneirinho...
- Não pense m ais nisso, querida. Afinal de contas nós não sabíam os que havia m ais alguém - um assassino.
- É verdade. Não sabíam os que havia um assassino agora. Quer dizer, havia um assassino naquela época... há dezoito anos atrás. É um a coisa m eio irreal. Quem sabe foi tudo engano?
- Bem , isso prova que não foi engano. Você tinha razão, Gwenda.
Giles alegrou-se ao encontrar Miss Marple em Hillside. Miss Marple, assim com o a Sra. Cocker, insistiram para que Gwenda tom asse um conhaque, m as ela se recusou, alegando que conhaque sem pre lhe lem brava a travessia da Mancha. Finalm ente acabou aceitando um uísque quente com lim ão e depois, por insistência da Sra.
Cocker, sentou-se e com eu um om elete.
Giles queria falar de outro assunto, m as Miss Marple, com sua tática especial, fez questão de discutir o crim e de m odo tranqüilo e distante.
- Horrível, m eu caro, disse ela. - E tam bém m uito chocante, m as inegavelm ente significativo. Evidentem ente, com o sou m uito velha, a m orte não m e choca tanto quanto a vocês, a não ser que se trate de um a coisa prolongada e que faça sofrer, com o um câncer, por exem plo. O ponto m ais im portante é que isso prova em definitivo, sem qualquer som bra de dúvida, que a pobre Helen Halliday foi assassinada. Sem pre acham os isso e agora temos certeza.
- E, segundo a senhora, devíam os saber onde está o corpo, disse Giles. -
Suponho que estej a no porão.
- Não, Sr. Reed. Lem bre-se de que Edith Pagett disse que na m anhã seguinte foi ao porão, porque estava im pressionada com o que Lily tinha falado, e não encontrou nenhum sinal de nada. E se houvesse algum sinal ela teria achado.
- Então o que foi feito do corpo? Levaram em bora de carro e atiraram ao m ar, do alto de um penhasco?
- Não. Escutem , queridos, o que foi que cham ou a atenção de vocês - ou m elhor, a sua atenção, Gwenda, quando veio aqui pela prim eira vez? O fato de que da j anela da sala não se via o m ar. No local em que você achou, e com toda razão, que deveria haver degraus para descer até o gram ado, havia um a porção de arbustos. Mais tarde você descobriu que os degraus originais eram ali, m as que em algum a época construíram outros degraus na ponta do terraço. Por que foi que m udaram o local?
Gwenda olhou-a fixam ente, com eçando a com preender.
- A senhora acha então que foi ali que. . .
Deve ter havido algum m otivo ara a alteração, pois foi um a alteração que não tem sentido. Um lugar idiota para colocar degraus que descem até o gram ado. Mas aquela ponta do terraço é um lugar m uito sossegado - só é visto da casa através de um a j anela - a j anela do quarto de crianças, no prim eiro andar. Vej am bem , se alguém quer enterrar um corpo a terra vai ficar rem exida, e é preciso que haj a um m otivo para isso. 0
m otivo alegado foi o de que se decidiu m udar os degraus para a ponta do terraço.
Kennedy m e contou que Helen Halliday e o m arido gostavam m uito do j ardim e viviam m exendo nele. 0 j ardineiro se lim itava a cum prir ordens e se, ao chegar para o trabalho, encontrasse algum as pedras fora do lugar, acharia apenas que o casal com eçara o trabalho durante sua ausência. Naturalm ente, o corpo pode ter sido enterrado em qualquer dos dois lugares, m as acho que podem os ter quase certeza de que foi enterrado na ponta do terraço, e não na frente da j anela da sala.
- Com o podem os ter certeza? perguntou Gwenda.
- Por causa do que a pobre Lily Kim ble disse na carta - que m udou de idéia quanto ao corpo ter sido enterrado no porão por causa do que Léonie viu quando olhou pela j anela. Isso torna as coisas bem m ais claras, não acham ? Durante a noite a m oça olhou pela j anela e viu escavarem um buraco na terra. Talvez ela tenha visto até quem estava cavando.
- E nunca foi dizer nada à polícia?
- Minha cara, naquela época ninguém estava pensando em crim e. A Sra.
Halliday tinha fugido com um am ante. Léonie só sabia disso e, de qualquer m odo, m al falava inglês. Contou para Lily que tinha visto um fato estranho, quando olhou pela j anela naquela noite, e isso aum entou a crença de Lily de que tinha havido um crim e.
Pode ser que tenha contado isso m ais tarde, e não no m esm o dia. Mas não tenho dúvida de que Edith Pagett disse a Lily que parasse de inventar bobagens, e a m oça suíça resolveu seguir esse conselho porque não queria se m eter com a policia. Os estrangeiros sem pre têm m edo da polícia quando estão em outro país. De m odo que ela voltou para a Suíça e provavelm ente nunca m ais pensou no assunto.
- Se ela ainda estivesse viva... m urm urou Giles. - Se pudesse ser encontrada...
- Quem sabe? disse Miss Marple.
- O que devem os fazer? perguntou Giles.
- A polícia saberá m elhor que nós o que se deve fazer, respondeu Miss Marple.
- O Inspetor Last vem aqui am anhã de m anhã.
- Então acho que devia falar a ele... sobre os degraus. - E quanto ao que vi... ou acho que vi... no saguão? perguntou Gwenda em tom nervoso.
- Bem , querida, acho que você fez m uito bem em não ter falado nada sobre isso até o m om ento. Fez m uito bem . Mas acho que está na hora de contar tudo.
- Ela foi estrangulada no saguão, disse Giles lentam ente, - e depois o assassino a carregou para cim a e colocou-a na cam a. Kelvin Halliday chegou em casa, ficou inconsciente com a droga que tinham posto no uísque e foi, por sua vez, carregado para o quarto. Voltou a si e pensou que m atara a m ulher. O assassino devia estar à espreita em algum lugar. Quando Kelvin saiu para ir procurar Kennedy, o assassino pegou o corpo e provavelm ente o escondeu no m eio dos arbustos da ponta do terraço. Depois esperou até que todos estivessem dorm indo, cavou um buraco e enterrou o corpo. Isso quer dizer que ele deve ter ficado por aqui, dentro de casa, quase toda a noite.
Miss Marple assentiu com a cabeça.
- Ele tinha de estar no local, prosseguiu Giles. Lem bro-m e de que a senhora falou que isso era im portante. Tem os que ver qual dos nossos três suspeitos encaixa na história. Vam os com eçar por Erskine. Não há dúvida de que estava no local. Ele m esm o disse que subiu com Helen até aqui, vindo da praia, por volta das nove horas. Disse-lhe adeus. Mas será m esm o que disse adeus, ou a estrangulou?
- Mas estava tudo acabado entre eles! exclam ou Gwenda. - Há m uito tem po! Ele m esm o disse que quase nunca ficava a sós com Helen.
- Você tem que entender, Gwenda, que agora não podem os m ais nos basear em nada do que qualquer pessoa disse!
- Fico m uito satisfeita em ouvi-lo falar isso, observou Miss Marple, - porque fiquei um pouco preocupada ao ver vocês dois aceitarem com o verdadeiras todas as coisas que as pessoas disseram . Talvez eu sej a um a pessoa bastante desconfiada, m as, num caso de assassinato, faço questão de não acreditar em nada que não possa ser provado. Por exem plo, parece certo que Lily Kim ble disse que as roupas que desapareceram não seriam as roupas escolhidas por Helen Halliday. Edith Pagett contou que Lily disse isso a ela, e a própria Lily referiu-se ao fato na carta para Kennedy. Bem , então isso é um fato. Kennedy nos disse que Kelvin Halliday achava que sua m ulher estava lhe dando drogas e, no seu diário, Kelvin Halliday o confirm a. Portanto, há outro fato... e um fato bastante interessante, não acham ? Bem , m as não vam os falar nisso por enquanto.
- Mas o que eu gostaria de ressaltar, prosseguiu Miss Marple, - é que m uitas das suposições que vocês fizeram se baseavam no que foi dito a vocês, e provavelm ente foram afirm ações m uito plausíveis.
Giles olhou fixam ente para ela.
Gwenda, j á refeita, tom ava café e estava apoiada sobre a m esa.
- Vam os verificar o que três pessoas nos contaram , disse Giles. - Vam os com eçar por Erskine. Ele disse...
- Você cism ou com ele, interrom peu Gwenda. - É perda de tem po, porque agora ele está definitivam ente afastado. Não poderia ter m atado Lily Kim ble.
Giles prosseguiu sem se deixar perturbar.
- Ele disse que conheceu Helen no navio a cam inho da Índia, e que os dois se apaixonaram , m as que ele não conseguiu tom ar a decisão de abandonar a m ulher e os filhos, concordaram , então, em se dizerem adeus. Vam os supor que não tenha sido bem assim . Vam os supor que ele se tenha apaixonado perdidam ente por Helen e que e1a não quis fugir com ele. Vam os supor que ele a am eaçou de m orte caso se casasse com outro hom em .
- É m uito pouco provável, observou Gwenda.
- Essas coisas acontecem . Lem bre-se do que você ouviu a m ulher dele dizer.
Você acha que é tudo ciúm es, m as pode ter sido verdade. Talvez ela tenha passado um m au bocado com ele em relação a m ulheres. Pode ser que ele sej a um m aníaco sexual.
- Acho que não.
- Você acha que não porque ele atrai as m ulheres. Pessoalm ente, acho que há algum a coisa estranha em relação a Erskine. Bem , m as vam os continuar m inha teoria sobre ele. Helen rom pe o noivado com Fane, volta para a Inglaterra, casa com seu pai e vem m orar aqui. De repente, Erskine aparece. Vem passar as férias aqui com a m ulher.
É um a coisa realm ente m uito esquisita. Ele adm ite que veio para tornar a ver Helen.
Bem , vam os supor que Erskine fosse o hom em que estava na sala com ela no dia em que Lily a ouviu dizer que tinha m edo dele. - Eu tenho medo de você... Sempre tive medo de você... Acho que você é doido...
- E, porque ela está com m edo, planej a ir m orar em Norfolk, m as faz segredo disso. Ninguém deve ficar sabendo. Ninguém deve ficar sabendo até o casal Erskine ir em bora de Dillm outh. Até aí tudo encaixa. Agora vam os à noite fatídica. Não sabem os o que o casal Halliday estava fazendo naquela noite, m ais cedo. . .
Miss
Marple
pigarreou.
- Por falar nisso, tornei a conversar com Edith Pagett. Ela se lem bra de que naquela noite j antaram cedo - às sete horas porque o Maj or Halliday ia a um a reunião -
ela acha que era no Golf Club ou então na igrej a. A Sra. Halliday saiu depois do j antar.
- Certo. Helen encontra Erskine, tendo m arcado um encontro na praia. Ele vai partir no dia seguinte. Talvez não queira m ais ir. Insiste para que Helen fuj a com ele.
Ela volta para casa e ele vem j unto. Finalm ente, num acesso de loucura, ele a estrangula. Quanto ao que se segue estam os todos de acordo. Ele quer que Kelvin Halliday pense que foi ele quem a m atou. Mais tarde, Erskine enterra o corpo.
Lem brem -se de que ele disse a Gwenda que voltou para o hotel m uito tarde porque ficou andando por Dillm outh.
- O que será que a m ulher dele estava fazendo? perguntou Miss Marple.
- Provavelm ente estava louca de ciúm es, disse Gwenda, - e fez um escândalo quando ele chegou.
- É o que im agino, disse Giles. - E é possível.
- Mas ele não poderia ter m atado Lily Kim ble, observou Gwenda, - porque ele m ora em Northum berland. Portanto, pensar que foi ele é pura perda de tem po. Vam os a Walter Fane.
- Certo. Walter Fane é um suj eito reprim ido. Parece dócil, am ável, facilm ente com andado. Mas Miss Marple nos deu um testem unho m uito valioso. Em certa ocasião Walter Fane ficou com tanta raiva que quase m atou o irm ão. Evidentem ente, era apenas um a criança, m as foi um fato que espantou a todos, porque aparentem ente tinha um tem peram ento tão bom ... Bem , Walter Fane apaixona-se por Helen Kennedy. Fica louco por ela. Ela não liga para ele e este vai para a Índia. Mais tarde ela escreve dizendo que vai casar com ele. Parte para a Índia. Aí vem o segundo golpe. Assim que chega lá ela rom pe tudo. Conheceu alguém no navio. Volta para a Inglaterra e se casa com Kelvin Halliday. Possivelm ente Walter Fane acha que Kelvin Halliday foi o pivô da história.
Fica ressentido, com ódio, louco de ciúm es, e volta para cá. Com porta-se de m aneira toda afável e am iga, freqüenta a casa, torna-se aparentem ente um bichinho de estim ação. Mas talvez Helen perceba que não é verdade. Vê o que está por trás das aparências. Talvez, m uito tem po antes, tenha percebido algo estranho no j ovem Walter Fane. Diz para ele: - Acho que sem pre tive m edo de você. Planej a secretam ente ir em bora de Dillm outh e m orar em Norfolk. Por quê? Porque está com m edo de Walter Fane.
- Bem , voltam os à noite fatídica, prosseguiu Giles. - Agora não estam os pisando em terreno firm e. Não sabem os o que Walter Fane estava fazendo naquela noite e não vej o possibilidade de chegarm os a descobrir. Mas ele estava no local, visto que m orava num a casa localizada a dois ou três m inutos a pé. Pode ser que tenha dito que ia para a cam a cedo porque estava com dor de cabeça, ou que ficaria trabalhando no escritório, qualquer coisa nesse gênero. Podia ter feito todas as coisas que acham os que o assassino fez e, na m inha opinião, seria o m ais suscetível dos três de com eter erros ao arrum ar a m ala, pois não conhece as m ulheres e não saberia escolher as roupas certas.
- Foi estranho... disse Gwenda. - Naquele dia que fui ao escritório dele tive um a sensação esquisita de que ele parecia um a casa de j anelas fechadas... e fiz até um a fantasia a respeito - achei que dentro da casa tinha um a pessoa m orta.
Olhou para Miss Marple.
- A senhora acha que é bobagem m inha? perguntou.
- Não, querida. Acho que talvez você estej a certa.
- E agora, disse Gwenda, - chegam os a Afflick. O Afflick dos ônibus de turism o.
Jackie Afflick, que sem pre foi m etido a esperto. A prim eira coisa contra ele é que Kennedy achava que ele tinha um a m ania de perseguição incipiente, isto é, nunca foi perfeitam ente norm al. Contou-nos tudo sobre ele e sua irm ã, m as agora concordam os que era tudo m entira. Ele não achava apenas que Helen era um a m enina bonitinha.
Estava loucam ente apaixonado por ela. Mas ela não estava apaixonada por ele. Apenas se divertia. Era louca por hom ens, com o diz Miss Marple.
- Não, m inha cara, eu não disse isso. Não disse nada disso.
- Bem , era ninfom aníaca, se prefere usar esse term o. De qualquer m odo, teve um caso com Jackie Afflick e depois quis acabar tudo. Ele não queria que isso acontecesse.
0 irm ão dela aj udou-a a sair da encrenca, m as Jackie Afflick j am ais esqueceu nem perdoou. Ficou sem o em prego e, segundo ele, caiu num a cilada preparada por Walter Fane. Isso m ostra um sinal definitivo de m ania de perseguição.
- Sim concordou Giles, - m as, por outro lado, se isso for verdade, é m ais um ponto contra Fane... e um ponto im portante.
Gwenda
prosseguiu.
- Helen vai para o exterior e ele vai em bora de Dillm outh. Mas j am ais a esquece e, quando ela volta para Dillm outh, casada, ele vem visitá-la. Prim eiro ele disse ter vindo um a vez, m as depois adm ite que veio m ais de um a vez. E... oh, Giles! Você não lem bra? Edith Pagett se referiu a "nosso hom em m isterioso num carro bacana". Isso quer dizer que ele vinha aqui o suficiente para dar o que falar entre as em pregadas. Mas Helen tom ou o cuidado de não convidá-lo para j antar, de não deixá-lo conhecer Kelvin.
Talvez tivesse m edo dele. Talvez...
Giles
interrom peu.
- Pode ser um a explicação, disse ele. Suponham os que Helen estivesse apaixonada por ele - o prim eiro hom em de quem gostou, e suponham os que continuasse gostando dele. Talvez tenham tido um caso e ninguém chegou a saber disso. Mas talvez ele quisesse que ela fugisse com ele e a essa altura ela j á se sentisse farta e não quisesse ir, e daí... e daí... ele a m atou, e o resto nós j á sabem os. Na carta para Kennedy, Lily disse que naquela noite havia um carro últim o tipo parado na porta. Era o carro de Jackie Afflick. Jackie Afflick tam bém estava no local.
- É apenas um a hipótese disse Giles - m as parece-m e razoável. Porém precisam os nos lem brar das cartas de Helen. Andei quebrando a cabeça, pensando nas
"circunstâncias", com o disse Miss Marple, sob as quais ela poderia ter sido forçada a escrevê-las. Tenho a im pressão de que, para explicar as cartas, tem os que adm itir que Helen tinha realm ente um am ante e que pretendia fugir com ele. Vam os exam inar de novo as três possibilidades. Com ecem os por Erskine. Vam os supor que Erskine não quisesse abandonar a m ulher e os filhos, m as que Helen estivesse disposta a abandonar Kelvin e se m udar para um lugar onde Erskine pudesse estar com ela de vez em quando.
A prim eira coisa a fazer é acabar com a desconfiança da Sra. Erskine. Para isso, Helen escreve duas cartas que vão chegar a tem po às m ãos de seu irm ão e que lhe farão crer que ela foi para o exterior com alguém . Por isso ela se m ostrou tão m isteriosa quanto ao nom e do hom em em questão.- Mas se ela ia largar o m arido por causa dele, por que foi que ele a assassinou?
perguntou Gwenda.
- Talvez ela tenha m udado de idéia de repente. Talvez tenha achado que, apesar de tudo, gostava do m arido. Erskine perdeu a cabeça e a estrangulou. Em seguida, pegou as roupas e a m ala e aproveitou as cartas. É um a explicação que resolve tudo.
- O m esm o pode ser dito sobre Walter Fane, observou Gwenda. - Acho que um escândalo seria um a coisa desastrosa para um advogado do interior. Helen pode ter decidido ir para um lugar nos arredores, onde Fane pudesse ir vê-la, m as fingindo que fora para o exterior com outra pessoa. As cartas estavam prontas e aí ela m udou de idéia. Walter ficou com ódio e a m atou.
- E quanto a Jackie Afflick?
- Aí j á se torna m ais difícil encontrar um a explicação para as cartas. Um escândalo não o afetaria. Talvez Helen estivesse com m edo de m eu pai, e não dele, e então achou que era m elhor fingir que tinha ido para o exterior... Ou talvez, naquela época, a m ulher de Afflick tivesse dinheiro e ele precisasse dele para investir nos negócios. Oh, há m uitas possibilidades quanto às cartas!
- O que é que a senhora acha, Miss Marple? perguntou Gwenda.
- Não acho que tenha sido Walter Fane... m as...
A Sra. Cocker entrou na sala para retirar as xícaras de café.
- Desculpe senhora, disse ela, - m as esqueci de lhe dar um recado. Fiquei tão perturbada com esse crim e, e a senhora e o Sr. Reed envolvidos num a coisa dessas! Não é coisa para a senhora! Bem , o Sr. Fane esteve aqui hoj e à tarde e perguntou pela senhora. Esperou m eia-hora. Pelo j eito pensou que a senhora estava à espera dele.
- Que coisa estranha! exclam ou Gwenda. - A que horas foi isso?
- Deve ter sido às quatro horas, ou pouco depois disso. Depois, m ais tarde, veio aqui outro senhor, num grande carro am arelo. Afirm ou que a senhora estava à sua espera. Ficou aborrecido. Aguardou vinte m inutos. Achei que talvez a senhora os tenha convidado para tom ar chá e tenha esquecido.
- Não, disse Gwenda. - Que coisa estranha!
- Vam os telefonar para Fane, disse Giles. - Ainda não deve ter ido dorm ir.
- Alô! É Fane? Aqui fala Giles Reed. Ouvi dizer que o senhor veio nos procurar hoj e à tarde... Com o?... Não... não, tenho certeza... não, que coisa estranha! É, tam bém não sei.
Desligou
o
telefone.
- Aconteceu um a coisa esquisita. Hoj e de m anhã telefonaram para o escritório de Fane e deixaram um recado para ele vir aqui à tarde. Disseram que era um assunto im portante.
Giles e Gwenda entreolharam -se. Em seguida Gwenda disse: - Telefone para Afflick!
Giles tornou a pegar o fone e fez a ligação.
- Sr. Afflick? Aqui fala Giles Reed. Eu...
Era evidente que, do outro lado da linha, alguém o interrom pera com um a torrente de palavras, ao final das quais ele conseguiu falar novam ente.
- Mas nós não... não, eu garanto que não... nada disso... sim , sim ... eu sei que o senhor é um hom em ocupado. Nem m e passaria pela cabeça... Sim , m as escute aqui, quem foi que lhe telefonou?... Um hom em ?... Não, não fui eu. Não... não... Ah, sim , com preendo!... Bem , concordo que é fantástico!
Recolocou o fone no gancho e voltou para a sala.
- Bem , disse ele, alguém , - um hom em que disse que era eu, telefonou para Afflick pedindo que viesse aqui. Era urgente - havia m uito dinheiro envolvido.
Os três estavam perplexos.
- Pode ter sido qualquer um deles, disse Gwenda. - Você não com preende, Giles? Qualquer dos dois pode ter matado Lily e ter vindo até aqui para forjar um álibi!
- Seria um álibi m uito fraco, querida, observou Miss Marple.
- Bem , não seria propriam ente um álibi, m as um a desculpa para se ausentarem do escritório. O que quero dizer é o seguinte: um deles está dizendo a verdade e o outro está m entindo. Um telefonou para o outro, pedindo-lhe que viesse aqui... para torná-lo suspeito... m as não sabem os qual deles foi. Só pode ter sido um dos dois. Fane ou Afflick. Eu acho que foi Jackie Afflick.
- E eu acho que foi Walter Fane, retorquiu Giles.
Am bos olharam para Miss Marple, que sacudiu a cabeça.
- Há outra possibilidade, observou ela.
- Erskine, é claro!
Giles correu para o telefone.
- O que é que você vai fazer? perguntou Gwenda.
- Vou pedir um a ligação interurbana para Northum berland.
- Oh, Giles! Você não pode estar achando...
- Tem os que saber! Se ele estiver lá, não pode ter m atado Lily Kim ble esta tarde. É im possível ter arranj ado um avião particular ou um a coisa qualquer no gênero.
Esperaram em silêncio até o telefone tocar. Giles atendeu.
- Sua cham ada para o Maj or Erskine, senhor, disse a telefonista. - Pode falar. 0
Maj or Erskine está na linha.
Pigarreando nervosam ente Giles disse : - Erskine? Aqui fala Giles Reed . . . Sim , Reed.
Lançou um olhar agoniado, para Gwenda, sem saber o que dizer.
Gwenda levantou-se e pegou o fone.
- Maj or Erskine? Aqui fala a Sra. Reed. Ouvim os falar de um a casa aí perto...
Cham a-se Linscott Brake. O senhor a conhece? Acho que fica aí perto da sua.
A voz de Erskine respondeu: - Linscott Brake? Não, acho que nunca ouvi falar nessa casa. Qual é o código postal da cidade?
- Está quase ilegível, respondeu Gwenda. - O senhor sabe com o são horríveis esses anúncios datilografados que os corretores m andam . Mas diz que a casa fica a quinze m ilhas de Daith, e então pensei que...
- Sinto m uito, m as nunca ouvi falar nessa casa. Quem é que m ora lá?
- Oh, o anúncio não diz! Mas não faz m al, porque na realidade nós... nós j á escolhem os um a casa. Sinto m uito tê-lo incom odado. Provavelm ente o senhor estava ocupado.
- Não, de m odo algum ! Isto é, estava ocupado com afazeres dom ésticos. Minha m ulher foi para fora e cozinheira teve que ir ver a m ãe, de m odo que estou às voltas com problem as dom ésticos. Acho que não dou m uito para isso. Gosto m ais do j ardim .
- Prefiro sem pre cuidar do j ardim a ter que fazer trabalhos dom ésticos, respondeu Gwenda. - Espero que sua m ulher não estej a doente?
- Oh, não! Ela teve de ir passar uns dias na casa da irm ã. Volta am anhã.
- Bem , boa noite! Desculpe ter incom odado o senhor.
Gwenda desligou o telefone.
- Erskine está fora de tudo isso, disse ela em tom de triunfo. - A m ulher dele viaj ou e ele está cuidando da casa. De m odo que restam apenas os outros dois.
Concorda com igo, Miss Marple?
Miss Marple estava com um ar m uito sério.
- Queridos, acho que vocês não pensaram o suficiente sobre esse assunto. Oh, estou realm ente m uito preocupada! Se m enos soubesse exatam ente o que fazer...
CAPITULO XXIV