Um Crime Adormecido

Agatha Christie · Capítulo 22 de 23

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Um Crime Adormecido

As Patas de Macaco

Gwenda pôs os cotovelos sobre a m esa e apoiou o queixo nas m ãos, enquanto seus olhos percorriam , sem interesse, os restos de um alm oço apressado. Precisava levar a louça para a copa, lavar os pratos, guardar tudo e providenciar algum a coisa para o j antar.

Não havia, porém a m enor pressa. Sentia que precisava de um pouco de tem po para pensar. Tudo acontecera depressa dem ais.

Ao rever os acontecim entos da m anhã, eles lhe pareciam caóticos e im possíveis.

Tudo acontecera depressa dem ais e de m aneira absolutam ente inverossím il.

O Inspetor Last chegara cedo - às nove e m eia. Estava acom panhado pelo Inspetor Prim er e pelo chefe de polícia do condado. Este últim o não ficara lá m uito tem po. Agora, quem estava à testa do caso da m orte de Lily Kim ble, e de todas as suas conseqüências, era o Inspetor Prim er.

Tratava-se de um hom em com um ar de falsa am abilidade e voz suave, falando sem pre num tom de quem pedia desculpas. O inspetor perguntara a Gwenda se podia m andar seus hom ens escavarem o j ardim .

Pelo seu tom de voz, dava a im pressão de que queria apenas que seus hom ens fizessem um pouco de exercício, não parecendo que iam procurar um cadáver enterrado há dezoito anos.

Giles dissera ao inspetor que talvez pudesse aj udá-lo através de algum as sugestões.

Contou-lhe, então, sobre a m udança nos degraus de pedra que levavam ao gram ado, e acom panhou-o até o terraço.

O inspetor olhara para a j anela de grades do prim eiro andar e observara que ali devia ser o quarto de crianças.

Giles

respondera

afirm ativam ente.

Em seguida Giles e o inspetor voltaram para dentro de casa e dois hom ens m unidos de pás se dirigiram ao j ardim . Antes que o inspetor com eçasse a fazer perguntas, Giles lhe dissera:

- Inspetor, sugiro que o senhor ouça um a coisa que m inha m ulher ainda não contou para ninguém , a não ser para m im ... e... para um a outra pessoa.

O olhar am ável, porém bastante constrangedor, fixou-se em Gwenda com ar especulativo. Gwenda pensou consigo m esm a: Ele está querendo adivinhar se pode confiar em m im ou se sou do tipo de m ulher que im agina coisas.

A sensação era tão forte que ela com eçou a falar em tom defensivo.

- Pode ser que eu tenha im aginado isso tudo, disse ela. - Talvez tenha m esm o.

Mas parece-m e um a coisa verdadeira. O Inspetor Prim er falou em tom am ável e conciliador.

- Bem , Sra. Reed, vam os ouvir o que a senhora tem a dizer.

E Gwenda contou tudo. Com o a casa lhe parecera conhecida assim que a viu pela prim eira vez. Com o viera a saber, depois, que ela m orara ali quando criança. Com o se lem brara do papel de parede do quarto de crianças, da porta de com unicação e da certeza de que num determ inado local deveriam existir degraus para ir até o gram ado.

O Inspetor Prim er ouvia em silêncio. Não chegou a dizer que as lem branças infantis de Gwenda não tinham m aior interesse, m as Gwenda sentiu que era essa a sua opinião.

Finalm ente ela chegou ao ponto m ais difícil e contou que se lem brara subitam ente, no teatro, de ter olhado através da balaustrada da casa e ter visto um a m ulher m orta no saguão.

- Com o rosto azulado... tinha sido estrangulada... e o cabelo louro... e era Helen... Mas era um a coisa idiota, porque eu não tinha a m enor noção de quem era Helen!

- Tem os a im pressão de que... com eçou Giles a dizer. Mas o Inspetor Prim er, com ar subitam ente autoritário, interrom peu-o fazendo um sinal com a m ão.

- Por favor, deixe a Sra. Reed contar com suas próprias palavras.

Gwenda prosseguira aos arrancos. Seu rosto estava afogueado, e o Inspetor Prim er, com extraordinária destreza técnica, procurava aj udá-la.- Webster? m urm urou ele em tom pensativo. - Ahn. A Duquesa de Malfi. Patas de m acaco?

- Mas isso provavelm ente foi um pesadelo, disse Giles.

- Por favor, não interrom pa, Sr. Reed.

- Talvez tenha sido tudo um pesadelo, observou Gwenda.

- Não, acho que não foi, respondeu o Inspetor Prim er. - Seria m uito difícil explicar a m orte de Lily Kim ble, a não ser que soubéssem os que um a m ulher, foi assassinada nesta casa.

Seu tom era com preensivo, quase confortador. Gwenda anim ou-se e prosseguiu.

- E não foi m eu pai quem a m atou. Tenho certeza disso. Até o Dr. Penrose disse que ele não era desse tipo. E o Dr. Kennedy tinha certeza de que ele não com etera o crim e, que apenas pensara que sim . De m odo que só pode ter sido alguém que queria dar a im pressão de que foi m eu pai, e acho que sabem os quem foi... ou, pelo m enos, sabem os que foi um a entre duas pessoas...

- Gwenda! interrom peu Giles. - Não podem os...

- Sr. Reed, interrom peu o Inspetor Prim er por sua vez, - Será que o senhor se incom oda de ir até o j ardim para ver o trabalho de m eus hom ens? Diga a eles que fui eu quem m andei o senhor lá.

Quando Giles saiu da sala, o Inspetor Prim er fechou as portas-j anela, passando o trinco de segurança, e voltou para j unto de Gwenda.

- Bem , conte tudo o que acha, Sra. Reed. - Não se preocupe se suas idéias parecerem incoerentes.

Gwenda lhe contara todas as especulações e raciocínios feitos por ela e por Giles. Contou tudo o que fizeram para descobrir o m áxim o possível de inform ações sobre os três hom ens que participaram da vida de Helen. Contou tam bém a que conclusões tinham chegado, e inform ou-o sobre os telefonem as da véspera para Walter Fane e J. J. Afflick, pedindo-lhes que fossem a Hillside e usando o nom e de Giles.

- Acho que o senhor concorda, Inspetor, que um dos dois pode estar m entindo, não é?

Em tom afável, porém cansado, o inspetor respondeu: - Isso é um a das principais dificuldades no m eu trabalho. Tantas pessoas podem estar m entindo! Tantas pessoas geralm ente estão m entindo... Às vezes m entem por m otivos diferentes dos que a gente im agina, e às vezes nem sabem que estão m entindo.

- O senhor acha que eu sou assim ? perguntou Gwenda com ar apreensivo.

- Acho que a senhora é um a testem unha m uito verdadeira, Sra. Reed, respondeu sorrindo o inspetor.

- E acha que estou certa quanto a quem a m atou?

O inspetor suspirou. - Para nós não se trata de achar isto ou aquilo, respondeu ele.- Trata-se de verificar tudo. Onde estavam as pessoas, o que cada um a delas diz sobre seus m ovim entos... Sabem os com bastante precisão a que horas Lily Kim ble foi m orta. Entre duas e vinte e duas e quarenta e cinco. Qualquer pessoa podia ter com etido o crim e e depois ter vindo para cá, ontem à tarde. Pessoalm ente não entendo a razão dos telefonem as. Não dá nenhum álibi às pessoas de quem a senhora falou.

- Mas o senhor vai descobrir o que estavam fazendo nessa hora, não é? Entre duas e vinte e duas e quarenta e cinco. O senhor vai interrogá-los?

O Inspetor Prim er sorriu.

- Pode estar certa de que farem os as perguntas necessárias, Sra. Reed. Mas vam os esperar o m om ento adequado. Não adianta apressar os acontecim entos. É preciso pensar com calm a.

Gwenda com preendeu a m aneira de trabalhar do inspetor. Calm a e paciente.

Sem pressa, sem rem orsos...

- Com preendo. . . m urm urou ela. - O senhor é um profissional e Giles e eu som os am adores. Poderíam os acertar por sorte... m as não saberíam os trabalhar de m odo organizado.

- É m ais ou m enos isso, Sra. Reed.

O inspetor tornou a sorrir. Levantou-se e abriu as portas-j anela. Em seguida, quando ia passar para o terraço, estancou. Parece um cão de caça, pensou Gwenda consigo m esm a.

- Sra. Reed, aquela senhora ali é Miss Marple, por acaso?

Gwenda aproxim ou-se dele. No fundo do j ardim , Miss Marple continuava lutando com a trepadeira.

- Sim , é ela m esm a. Um am or de pessoa. Tem nos aj udado tanto no j ardim !

- Miss Marple, m urm urou o inspetor. - Estou com preendendo...

Gwenda olhou-o com ar interrogativo e ele acrescentou: - É um am or de pessoa.

Miss Marple é um a pessoa m uito fam osa. Já passou para trás pelo m enos três chefes de polícia de diversos condados. Ainda não conseguiu passar m eu chefe para trás, m as acho que isso ainda vai acontecer. Quer dizer que Miss Marple está m etida neste caso...

- Ela fez sugestões m uito úteis, observou Gwenda.

- Oh, não tenho a m enor dúvida! Onde é que ela disse que o cadáver da Sra.

Halliday deve estar enterrado?

- Ela falou que Giles e eu devíam os saber m uito bem onde procurar, respondeu Gwenda, - e ficam os com cara de bobos por não term os pensado nisso antes.

O inspetor deu um a risadinha e aproxim ou-se de Miss Marple, dizendo-lhe: -

Acho que não fom os apresentados, Miss Marple, m as o Coronel Melrose j á m e falou na senhora:

Miss Marple levantou-se e enrubesceu, com as m ãos cheias de ram os de trepadeira.

- Oh, sim ! Gosto m uito do Coronel Melrose! Sem pre foi m uito atencioso. Desde a ocasião em que...

- Desde a ocasião em que um sacristão foi assassinado no escritório do vigário, disse o inspetor. Faz bastante tem po isso. Mas a senhora foi bem sucedida em outros casos, depois desse, com o aquele problem inha com um determ inado veneno, próxim o a Ly m stock.

- O senhor sabe m uitas coisas sobre m im , Inspetor...

- Inspetor Prim er. Pelo j eito a senhora tem trabalhado m uito aqui!

- Bem , tento fazer o que posso neste j ardim . Está bastante abandonado. Esta trepadeira, por exem plo, é incrível, respondeu Miss Marple, olhando com ar cândido para o inspetor. - As raízes percorrem um cam inho fundo por baixo da terra... um cam inho m uito longo...

- Acho que a senhora tem razão, disse o inspetor. - Muito longo. Muito fundo.

Com o esse crim e... Dezoito anos...

- Talvez a trepadeira sej a ainda m ais antiga que isso, respondeu Miss Marple. -

Correndo por baixo da terra... E é um bocado nociva, inspetor, porque estrangula as flores pequenas...

Um policial. aproxim ou-se. Transpirava m uito e sua testa estava suj a de terra.

- Encontram os... algum a coisa, inspetor. Parece que é ela.

II

E foi aí, pensou Gwenda consigo m esm a, que a sensação de pesadelo com eçou.

Giles tinha entrado em casa, bastante pálido, dizendo: - Gwenda, ela... ela está lá, naquele lugar.

Em seguida um policial dera um telefonem a e o m édico legista chegou.

E foi aí que a Sra. Cocker, a calm a e im perturbável Sra. Cocker, saiu para o j ardim - não para satisfazer sua curiosidade, m as apenas a fim de colher um tem pero para a receita que estava preparando. E a Sra. Cocker, cuj a reação à notícia do crim e, no dia anterior, fora de censura e de preocupação com a saúde de Gwenda - pois decidira que o quarto de criança tinha de ser ocupado após um certo núm ero de m eses - a Sra.

Cocker deu em cheio com a descoberta feita no j ardim . Im ediatam ente com eçou a se sentir m uito m al.

- É horrível, senhora. Nunca suportei esqueletos. E pensar que havia um aqui no j ardim , pertinho do pé de hortelã! Meu coração está batendo à toda... estou com palpitações... quase não consigo respirar. Desculpe a ousadia, m as será que posso tom ar um pouquinho de conhaque?

Assustada com as palpitações da Sra. Cocker e com sua palidez, Gwenda correu até o arm ário, serviu um copinho de conhaque e deu-o à cozinheira.- Era exatam ente o que eu estava precisando, senhora... com eçou a dizer a Sra.

Cocker depois de tom ar um gole. Mas subitam ente sua voz foi se tornando fraca, e ela pareceu estar se sentindo tão m al que Gwenda gritou por Giles que, por sua vez, gritou pelo m édico legista.

- Foi um a sorte eu estar por perto, disse ele m ais tarde. - Se não houvesse um m édico por perto, ela teria m orrido na hora!

Em seguida o Inspetor Prim er pegara a garrafa de conhaque e discutira longam ente com o m édico a respeito. Depois perguntou a Gwenda quando fora que ela e Giles tom aram conhaque pela últim a vez.

Gwenda respondeu que j á fazia vários dias - tinham viaj ado para o norte e, depois disso; só tinham tom ado gin. - Mas ontem quase tom ei conhaque, acrescentou ela. - Mas conhaque sem pre m e lem bra a travessia da Mancha, e então Giles abriu um a garrafa de uísque para m im .

- A senhora teve m uita sorte, Sra. Reed. Se a senhora tivesse tom ado conhaque ontem , acho que hoj e não estaria viva. - Giles quase tom ou, m as afinal resolveu beber uísque.

Gwenda

estrem eceu.

Mesm o agora, sozinha na casa, achava difícil acreditar no turbilhão de acontecim entos. A polícia fora em bora e Giles os acom panhara após um alm oço im provisado, pois a Sra. Cocker estava no hospital.

Um a coisa era clara: na véspera, à tarde, Jackie Afflick e Walter Fane tinham estado na casa, Qualquer dos dois podia ter colocado veneno no conhaque... E qual a finalidade dos telefonem as, senão proporcionar a um deles a oportunidade de envenenar o conhaque? Gwenda e Giles tinham se aproxim ado excessivam ente da verdade... Ou teria um a terceira pessoa entrado na casa, talvez pela porta da varanda, enquanto ela e Giles estavam em casa de Kennedy esperando a chegada de Lily Kim ble? Um a terceira pessoa que forj ara os telefonem as para atirar suspeita sobre os outros dois?

Mas um a terceira pessoa... pensava Gwenda consigo m esm a, isso não faz sentido... Afinal, um a terceira pessoa teria telefonado para apenas um dos hom ens.

Havia de querer um suspeito, e não dois. De qualquer m aneira, quem poderia ser essa terceira pessoa? Estava provado que Erskine não saíra de Northum berland. Não. Ou Walter Fane tinha telefonado para Afflick e fingira que recebera um telefonem a, ou então fora Afflick quem telefonara para Fane. Fora um dos dois, e a polícia, que tinha m ais recursos que ela e Giles, ia descobrir qual deles tinha sido. Enquanto isso am bos estavam sendo vigiados. Não poderiam ... tentar um a outra vez.

Gwenda novam ente estrem eceu. Era difícil acostum ar-se à idéia de tinha tentado assassinar a gente. Há que alguém tem pos atrás Miss Marple dissera que era um a tarefa perigosa, m as Giles e ela não levaram a sério a palavra perigo. Mesm o depois da m orte de Lily Kim ble, não ocorrera a Gwenda a idéia de que alguém tentaria m atá-la, assim com o a Giles. Só porque estavam m uito perto da verdade sobre o que acontecera dezoito anos antes, tentando descobrir o que se passara... e quem era o responsável por tudo . . .

Walter Fane e Jackie Afflick...

Qual dos dois?

Gwenda fechou os olhos, revendo-os sob a luz do que sabia agora.

O tranqüilo Walter Fane, sentado no escritório... a aranha branca no centro da teia. Tão sossegada, tão inofensiva... Um a casa de j anelas fechadas... Um a pessoa m orta dentro da casa. Um a pessoa que m orrera há dezoito anos... m as que ainda estava lá.

Agora o tranqüilo Walter Fane parecia um a pessoa sinistra. Walter Fane, que em certa ocasião queria m atar o irm ão... Walter Fane, com quem Helen não quis se casar, na Inglaterra, e novam ente na Índia. Um a recusa dupla. Um a dupla ofensa. Walter Fane, tão calm o, frio... só podendo se exprim ir, talvez, através de um súbito im pulso hom icida

. . . Gwenda abriu os olhos. Estava convencida de que o culpado era Walter Fane.

Bem , m as não custa pensar em Afflick. Mas de olhos abertos. O terno xadrez vivo, seu ar autoritário... o oposto de Walter Fane. Não era nem reprim ido nem tranqüilo. Mas provavelm ente essa aparência era devida a um com plexo de inferioridade. Os entendidos dizem que é sem pre assim . Quando um a pessoa é insegura, sente necessidade de se afirm ar e dom inar. Desprezado por Helen porque não servia para ela... A ferida continuando, j am ais esquecida. A vontade de vencer na vida.

Perseguição... Todos contra ele... Dem itido do em prego devido à falsa acusação feita por um "inim igo"... Isso m ostrava que Afflick não era norm al. E um assassinato daria a um hom em desses enorm e sensação de poder. Aquele rosto sim pático e j ovial era, na realidade, um rosto cruel. Era um hom em cruel. . . e sua m ulher, m agra e pálida, sabia disso e tinha m edo dele. Lily Kim ble o am eaçara e m orrera. Gwenda e Giles tinham interferido - então Gwenda e Giles tam bém precisavam m orrer, e ele envolveria Walter Fane, que o despedira há tanto tem po atrás... Parecia m uito plausível...

Gwenda interrom peu seus pensam entos e voltou à realidade. Giles ia chegar e pedir chá. Era preciso arrum ar tudo e lavar a louça do alm oço.

Pegou um a bandej a e levou tudo para a cozinha, que estava prim orosam ente lim pa. A Sra. Cocker valia ouro.

Ao lado da pia estava um par de luvas de borracha. A Sra. Cocker sem pre usava luvas para lavar a louça e as panelas. Sua sobrinha, que trabalhava no hospital, com prava-as a preço reduzido.

Gwenda calçou as luvas e com eçou a lavar os pratos. Não custava nada proteger as m ãos.

Colocou-os no escorredor, lavou e enxugou todo o resto e guardou tudo cuidadosam ente em ordem .

Em seguida, ainda im ersa em seus pensam entos, subiu a escada. Já que estava de luvas, podia aproveitar para lavar as m eias e alguns suéteres.

Aparentem ente era nisso que pensava, m as no fundo havia m ais algum a coisa.

Ela achava que era Jackie Afflick ou então Walter Fane. Ou um ou outro. E

construíra um a boa versão para acusar cada um . Talvez fosse isso o que a preocupava, porque, na realidade, seria m uito m elhor se só conseguisse um a boa versão. A esta altura era preciso ter certeza das coisas. E Gwenda não tinha certeza...

Se ao m enos houvesse m ais alguém . . . Mas não podia haver m ais ninguém , porque Richard Erskine estava definitivam ente afastado. Estava em Northum berland quando Lily Kim ble foi assassinada e quando envenenaram o conhaque. Sim , Richard Erskine estava definitivam ente afastado.

Isso alegrava Gwenda, porque ela gostava do Sr. Erskine. Era um hom em atraente, m uito atraente. Que pena ter-se casado com aquela m ulher de olhar desconfiado e voz grossa. Com o um a voz de hom em ...

Com o um a voz de hom em ...

Um a idéia passou-lhe subitam ente pela cabeça.

Um a voz de hom em ... Poderia ter sido a Sra. Erskine, e não seu m arido, quem falara com Giles ao telefone, na véspera? Não, é evidente que não. É claro que não. Ela e Giles teriam percebido. E, de qualquer m odo, a Sra. Erskine não podia ter adivinhado quem estava telefonando. Não, e claro que quem atendeu foi Erskine, e sua m ulher, com o ele disse, estava fora.

Sua mulher estava fora.

Talvez... não, isso era im possível. . . Poderia ter sido a Sra. Erskine? A Sra.

Erskine, enlouquecida pelo ciúm e? Teria Lily Kim ble escrito para a Sra. Erskine? Teria Léonie visto um a m ulher no j ardim , quando olhou pela j anela naquela noite?

Um a porta bateu no saguão. Alguém entrara pela porta da frente.

Gwenda saiu do banheiro, dirigiu-se para o patam ar da escada e olhou por cim a da balaustrada. Sentiu um alívio ao verificar que era o Dr. Kennedy.

- Estou aqui! disse ela.

Ela estava com as m ãos estendidas para a frente... m olhadas brilhantes, com um tom rosa acinzentado... lem brando-lhe algum a coisa...

Kennedy olhou para cim a, tapando os olhos.

- É você, Gwennie? Não consigo ver seu rosto... Meus olhos estão ofuscados...

Gwenda deu um grito de horror...

Olhar para aquelas patas de m acaco e ouvir aquela voz no saguão...

- Foi você... balbuciou ela. - Você a m atou... m atou Helen... Agora eu sei! Foi você... Você...

Kennedy subiu a escada. Lentam ente. Olhando para Gwenda.

- Por que não m e deixaram em paz? disse ele. - Por que se m eteram nisso? Por que foram trazer... ela... de volta? Logo quando eu tinha com eçado a esquecer...

esquecer. Vocês a trouxeram de volta. . . Helen. . . m inha Helen. Trouxeram tudo de volta. Tive que m atar Lily. . . e agora vou ter que m atar você. Com o m atei Helen . . .

Sim , com o m atei Helen . . .

Estava perto de Gwenda... as m ãos estendidas para a frente... em direção a seu pescoço... Aquele rosto agradável, sim pático, norm al, era o m esm o... m as o olhar... o olhar não era norm al. . .

Gwenda recuou lentam ente, com um grito paralisado em sua garganta. Já gritara um a vez. Não podia gritar de novo. E, se gritasse, ninguém ouviria.

Porque não havia ninguém em casa - nem Giles, nem a Sra. Cocker... Nem m esm o Miss Marple estava no j ardim . Ninguém . E a casa vizinha ficava longe dem ais para ouvir algum a coisa se ela gritasse. De qualquer m odo, não conseguia gritar...

Porque estava aterrorizada dem ais. Aterrorizada ante aquelas m ãos estendidas. . .

Poderia correr, e ele a seguiria até que ela se visse encostada a porta do quarto, e aí... então... aquelas m ãos apertariam seu pescoço . . .

Um soluço lhe saiu dos lábios.

E então, subitam ente, Kennedy estancou e cam baleou, ao ser atingido entre os olhos por um j ato de um líquido turvo. Abriu a boca, piscou e levou as m ãos ao rosto.

- Foi um a sorte, disse a voz de Miss Marple, um tanto ofegante por ter subido correndo pela escada de serviço, - foi um a sorte eu estar j ustam ente pulverizando as roseiras!

CAPÍTULO XXV