Um Crime Adormecido

Agatha Christie · Capítulo 4 de 23

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Um Crime Adormecido

O Papel de Parede

Passara-se um m ês desde que Gwenda se m udara para Hillside. A m obília da tia de Giles fora retirada do guarda-m óveis e arrum ada na casa. Eram peças antigas e de boa qualidade. Gwenda vendera dois arm ários grandes dem ais, m as o resto coube m uito bem e estava de acordo com a casa. Na sala ficaram m esinhas de papier-m ache com incrustações de m adrepérola e pintura de castelos e rosas. Além disso, um a pequena escrivaninha com um a banqueta de cetim , um a m esa de trabalho de pau-rosa e um a m esinha de centro em m ogno.

As espreguiçadeiras tinham sido colocadas nos quartos e Gwenda com prara duas enorm es e confortáveis poltronas para que ela e Giles pudessem ficar perto da lareira.

Junto às j anelas ela colocou um grande sofá estilo Chesterfield. As cortinas escolhidas eram de chintz azul bem clarinho, estam padas com buquês de rosas e pássaros am arelos.

Gwenda achava que agora a sala estava exatam ente com o queria.

Não estava com pletam ente instalada, pois ainda havia operários trabalhando. Já deviam ter concluído o serviço, m as Gwenda achou que enquanto não se m udasse eles não iriam em bora.

A reform a da cozinha j á acabara e os banheiros novos estavam quase prontos.

Quanto ao resto da decoração, Gwenda decidira esperar um pouco. Queria tem po para saborear sua nova casa e escolher as cores exatas para os quartos. A casa estava m uito bem arrum ada e não havia necessidade de fazer tudo ao m esm o tem po.

Na cozinha reinava a Sra. Cocker, m uito am ável e condescendente, inclinada a repelir o tom dem ocrático e am igável da dona da casa. No entanto, depois de ter colocado Gwenda em seu devido lugar, tornara-se m ais descontraída.

Naquela m anhã, a Sra. Cocker pôs a bandej a do café no colo de Gwenda, que se sentara na cam a.

- Quando não há um cavalheiro em casa, disse a Sra. Cocker - as senhoras preferem tom ar o café na cam a.

Gwenda curvou-se ante a suposta regra britânica.

- Hoj e de m anhã são ovos m exidos, prosseguiu a Sra, Cocker. - A senhora falou em haddock, m as no quarto não é bom . Deixa m uito cheiro. Vou preparar haddock ao m olho branco e torradas para o j antar.

- Oh, obrigada, Sra. Cocker

Esta sorriu am avelm ente e se dispôs a sair do quarto.

Gwenda ainda não se instalara no espaçoso quarto de casal, pois aguardava a chegada de Giles. Escolhera, por enquanto, o quarto dos fundos, de parede redonda e j anela envidraçada. Sentia-se à vontade e feliz ali.

Olhando em volta, exclam ou subitam ente:

- Com o gostei deste quarto!

A Sra. Cocker olhou em torno, com indulgência.

- É um quarto m uito sim pático, senhora, apesar de pequeno. Deve ter sido de criança, porque tem grades na j anela.

- Nunca pensei nisso. É possível.

- Ah, bem ! exclam ou a Sra. Cocker, num tom repleto de subentendidos. E

retirou-se.

Parecia estar dizendo que, quando houvesse um hom em na casa, quem sabe talvez passasse a ser necessário ter um quarto de criança.

Gwenda enrubesceu. Olhou em torno. Um quarto de criança? Sim , seria um quarto de criança m uito sim pático. Com eçou a arrum á-lo m entalm ente. Um a casa de bonecas ali, encostada na parede; arm ários baixos cheios de brinquedos. O fogo aceso na lareira, um anteparo bem alto em torno, peças de roupa penduradas para arej ar. Mas não essa horrenda parede cor de m ostarda. Não, forraria com um papel bem alegre, estam pado com ram inhos de papoula e de centáureas... Sim , ficaria um am or. Procuraria um papel de parede assim . Tinha certeza de j á ter visto esse estam pado em algum lugar.

O quarto não precisava de m uitos m óveis. Havia dois arm ários em butidos, m as um deles, o do canto, estava trancado e a chave tinha-se perdido. Aliás o arm ário inteiro havia sido pintado. Provavelm ente não o abriam há m uitos anos. Ela precisava pedir aos operários que o abrissem antes de irem em bora pois não havia espaço suficiente para todas as suas roupas.

Sentia-se cada vez m ais à vontade em Hillside. Através da j anela aberta ouviu alguém pigarrear e tossir. Tom ou o café bem depressa. Foster, o j ardineiro tem peram ental, nem sem pre cum pridor de suas prom essas, devia estar no j ardim , conform e o com binado.

Gwenda tom ou banho, vestiu um a saia de tweed e um suéter e correu para o j ardim . Foster trabalhava perto da j anela da sala de estar. Ela decidira m andar fazer um cam inho que a partir dali, atravessasse o j ardim de pedras e flores. Foster relutara, argum entando que as forsítias, os arbustos e os lilases teriam que ser cortados. Gwenda, porém , ficara irredutível e agora Foster estava quase entusiasm ado com a tarefa.

Cum prim entou Gwenda com um a risada.

- Pelo j eito vam os voltar aos velhos tem pos, senhorita. Insistia em cham ar Gwenda de senhorita.

- Velhos tem pos? Com o assim ? Foster bateu com a pá no chão.

- Encontrei os degraus antigos - vej a, estavam aqui exatam ente onde a senhorita queria. Alguém os cobriu e plantou flores por cim a.

- Foi um a grande bobagem , observou Gwenda. - É agradável olhar o gram ado e o m ar pela j anela da sala.

Foster pouco ligava para a vista, m as concordou de m á vontade.

- Não digo que não vá m elhorar, com preende? Vai poder ter a vista, e os arbustos escurecem a sala. Mas estavam ficando lindos... Nunca vi forsítias tão bonitas.

Os lilases não valem grande coisa, m as essas outras flores custam caro... E olhe, estão velhas dem ais para serem replantadas.

- Sim , eu sei. Mas assim vai ficar m uito, m uito m elhor.

- Bem . . . m urm urou Foster, coçando a cabeça. - Pode ser...

-

Tenho

certeza retorquiu Gwenda sacudindo a cabeça afirm ativam ente. - Quem m orava aqui antes do casal Hengrave? perguntou subitam ente. - Eles viveram pouco tem po aqui, não é?

- Mais ou m enos seis anos. Antes deles? O pessoal da Srta. Elworthy. Gente com m ania de igrej a. Eram m issionários. Um a vez chegaram a hospedar um padre negro.

Eram quatro e m ais o irm ão, m as ele não opinava m uito no m eio de tantas m ulheres.

Antes deles... deixe-m e lem brar... era a Sra. Findey son. Ah! Essa sim , era um a pessoa fina. Tinha classe! Antes de eu nascer ela j á m orava nesta casa.

- Morreu aqui? perguntou Gwenda.

- Morreu no Egito ou coisa parecida. Mas trouxeram o corpo de volta. Foi enterrada no cem itério da igrej a. Foi ela quem plantou as m agnólias e aquelas outras flores ali. Gostava m uito de arbustos.

- Naquela época, prosseguiu Foster, - não havia nenhum a dessas casas novas construídas na colina. Isto aqui era roça. Não tinha cinem a, nem loj as m odernas... Seu tom era desaprovador. Com o todos os velhos, não gostava de inovações. Mudança...

resm ungou ele. - Só m udanças. . .

- Acho que tudo tem que m udar, observou Gwenda. - E afinal de contas hoj e em dia há m uito m ais progresso, não é?

- É o que dizem . Eu não vej o nada disso. Mudanças!... Fez um gesto em direção à sebe, à esquerda, através da qual se avistava um edifício. - Ali era o hospital, prosseguiu. - Antigam ente. Um lugar bom e pertinho. Depois vão em bora e constroem um prédio enorm e a um a m ilha de distância da cidade. Para visitar alguém a gente tem que andar vinte m inutos a pé... ou então pagar um a passagem de ônibus. Tornou a apontar para a sebe. - Agora é um colégio para m eninas. Estão lá há dez anos. Vivem se m udando. Hoj e em dia as pessoas com pram um a casa, m oram lá dez ou doze anos e depois vão em bora. Agitação. . . O que é que adianta? Não se pode plantar nada direito sem ter bastante tem po pela frente.

Gwenda olhou carinhosam ente para o pé de m agnólia.

- Com o a Sra. Findey son, observou.

- Ah, ela sim ! Chegou aqui recém -casada. Criou os filhos, casou todos eles, enterrou o m arido, recebia os netos no verão e só foi em bora quando tinha quase oitenta anos.

O tom de Foster era de calorosa aprovação. Gwenda voltou sorrindo para casa.

Conversou com os operários, foi para a sala, sentou-se em frente à escrivaninha e escreveu algum as cartas. Precisava deixar a correspondência em dia, respondendo a um a carta de uns prim os de Giles que m oravam em Londres e que insistiam para que se hospedasse na casa deles, em Chelsea, quando fosse a Londres.

Ray m ond West era um conhecido rom ancista e Joan, sua m ulher, era pintora.

Seria divertido ficar na casa deles, se bem que provavelm ente a considerariam um a com pleta ignorante. Nem eu nem Giles som os intelectuais, pensou Gwenda consigo m esm a.

Um gongo sonoro ecoou alto no saguão. O gongo, com um a escura m oldura de m adeira esculpida, fora um dos obj etos preferidos da tia de Giles. A Sra. Cocker parecia gostar m uito de ouvi-lo e sem pre tocava com toda força. Gwenda tapou os ouvidos e se levantou.

Atravessou rapidam ente a sala em direção à parede e estancou de súbito, aborrecida. Era a terceira vez que fazia isso. Parecia até que se achava capaz de atravessar um a parede para ir até à sala de j antar. Era preciso dar a volta, e no inverno seria m uito desagradável, pois a entrada da casa era fria e úm ida. O aquecim ento central só funcionava na sala de estar, na sala de j antar e em dois quartos de dorm ir.

Não posso entender - pensou Gwenda consigo m esm a, ao sentar-se diante da linda m esa de j antar estilo Sheraton que com prara para substituir a grande m esa de m ogno da tia Lawnder - não posso entender porque não m andei abrir um a passagem entre a sala de estar e a de j antar. Quando o Sr. Sim s chegar conversarei com ele.

O Sr. Sim s era construtor e decorador, um hom em de m eia-idade, voz rouca, que tinha sem pre à m ão um caderninho em que anotava todas as idéias dispendiosas que ocorressem a seus clientes.

Consultado, ele aprovou calorosam ente a idéia.

- A coisa m ais sim ples do m undo, Sra. Reed. . . e, na m inha opinião, será um a m elhoria enorm e.

- Sai m uito caro? Gwenda j á aprendera a duvidar um pouco do entusiasm o do Sr. Sim s, pois haviam surgido despesas extras não incluídas no seu orçam ento original.

- Um a ninharia, respondeu o Sr. Sim s em tom indulgente e tranqüilizador.

Gwenda ficou ainda m ais desconfiada. Aprendera a duvidar j ustam ente do que ele cham ava de ninharia.

- Vam os fazer um a coisa, Sra. Reed, disse o Sr. Sim s em tom persuasivo. - Vou pedir a Tay lor que dê um a olhada nisso hoj e à tarde, quando tiver term inado o serviço no quarto de vestir. Só então poderei dar-lhe um orçam ento correto. Depende do tipo de parede.

Gwenda concordou. Escreveu para Joan West, agradecendo o convite e dizendo que naquele m om ento não podia ausentar-se de Dillm outh porque precisava supervisionar os operários. Em seguida foi dar um a cam inhada, respirando com prazer a brisa do m ar. Quando voltou para a sala, encontrou Tay lor, o m estre-de-obras do Sr.

Sim s, que a recebeu com um sorriso.

- Não há o m enor problem a, Sra. Reed, disse ele. - Neste lugar j á houve um a porta. Alguém resolveu que não queria m ais essa passagem e m andou fechá-la com gesso.

Gwenda ficou agradavelm ente surpreendida. Que coisa extraordinária, pensou ela. Sem pre tive a im pressão de que ali havia um a porta. Lem brou-se de que, à hora do alm oço, se dirigira sem hesitação para aquele ponto. E, recordando, sentiu, repentinam ente, um a sensação desagradável. Pensando bem , era m eio estranho... Com o podia ter tanta certeza de que ali havia um a porta? Evidentem ente, seria prático ter um a porta de com unicação entre as duas salas, m as não havia nenhum a m arca na parede.

Com o tinha adivinhado, com o sabia da existência daquela porta? Por que, tão decidida, se dirigira exatam ente aquele lugar? A porta poderia ficar em qualquer lugar da parede, m as ela se dirigira autom aticam ente para aquele ponto, o ponto exato em que tinha havido um a porta.

Espero, pensou Gwenda apreensiva, que eu não estej a m e tornando vidente ou coisa assim . . .

Nunca tivera problem as psíquicos. Não era seu gênero. Ou será que era? O cam inho que descia do terraço, através dos arbustos, até o gram ado... Será que j á sabia de sua existência ao insistir para que fosse aberto precisam ente naquele lugar?

Talvez eu estej a ficando m eio m aluca, pensou ela, inquieta: Ou será que há algum a coisa estranha nesta casa?

Por que perguntara à Sra. Hengrave se a casa era m al-assom brada?

Não era m al-assom brada! Era um am or de casa! Não podia haver nada de errado ali. A Sra. Hengrave pareceu-lhe m uito surpresa com a pergunta.

Ou teria dem onstrado certa reserva, respondido em tom cauteloso?

- Meu Deus, estou com eçando a im aginar coisas! - pensou Gwenda.

Mudou o rum o de seu pensam ento e, com esforço, voltou a se dirigir a Tay lor.

- Tem m ais um a coisa, disse ela. - Um a das portas do arm ário do m eu quarto não abre. Gostaria que o senhor visse isso.

O hom em subiu com ela e exam inou a porta.

- Já levou várias m ãos de tinta, disse ele. - Se não se incom odar de esperar um pouco, am anhã m ando os hom ens darem um j eito nisso.

Gwenda concordou e Tay lor retirou-se.

Nessa noite Gwenda sentiu-se agitada e nervosa. Enquanto lia, sentada na sala, prestava atenção aos m enores ruídos. Mais de um a vez olhou para trás e estrem eceu.

Repetiu diversas vezes para si m esm a que os incidentes da porta e do cam inho não tinham qualquer im portância. Eram sim ples coincidências. De qualquer m odo, era apenas um a questão de bom -senso.

Mesm o sem querer confessar sua sensação, estava com m edo de subir para se deitar. Quando finalm ente se levantou apagou a luz e abriu a porta da sala, sentindo-se apavorada de ter que subir a escada. Subiu apressadam ente, quase correndo, atravessou o corredor e abriu a porta do quarto. Um a vez lá dentro, foi-se acalm ando aos poucos.

Olhou afetuosam ente em torno. Sim , agora estava em segurança. (Em segurança contra o quê, sua boba? perguntou a si m esm a.) Olhou para a cam isola estendida em cim a da cam a e os chinelos no chão.

Francam ente, Gwenda, você parece que tem seis anos! Devia usar chinelos de pelúcia com cara de coelho.

Meteu-se debaixo das cobertas com um a sensação de alívio e logo adorm eceu.

Na m anhã seguinte foi à cidade para tom ar diversas providências e só voltou na hora do alm oço.

- Os operários j á abriram a porta do arm ário do quarto, senhora, disse a Sra.

Cocker ao trazer o linguado frito, o purê de batatas e a cenoura com m olho branco.

- Ótim o! exclam ou Gwenda.

Estava com fom e e alm oçou m uito bem . Tom ou o café na sala de estar e subiu para o quarto. Ao abrir a porta do arm ário, deu um grito assustado e ficou olhando fixam ente.

No seu interior via-se o papel de parede original. O quarto, antigam ente, era forrado com um papel de parede bem alegre, todo de flores, ram agens de papoulas verm elhas e centáureas azuis. . .

II

Gwenda ficou em pé, olhando fixam ente para o papel. Em seguida, dirigiu-se para a cam a e sentou-se, trêm ula.

Estava num a casa onde j am ais estivera antes, num país que j am ais conhecera e há apenas dois dias atrás im aginara um papel de parede para esse m esm o quarto, e o papel que im aginara correspondia exatam ente ao que forrava as paredes antigam ente.

Diversas idéias lhe passavam a toda pela cabeça. Dunne, Experiências com o Tem po... ver o futuro em vez do passado...

O cam inho do j ardim e a porta podiam ser coincidências... m as agora não havia m ais coincidência possível. Era inconcebível im aginar um papel de parede com determ inados m otivos no desenho e descobrir um exatam ente igual ao que fora idealizado... Não, havia algum a explicação que não entendia e que... sim ... a assustava.

A toda hora via o passado, e não o futuro. A casa tal com o fora antigam ente. A qualquer m om ento podia ver m ais algum a coisa - algum a coisa que não queria ver... A casa lhe dava m edo. . . Mas seria a casa ou ela m esm a? Não queria ser um a dessas pessoas que vêem coisas. . .

Suspirou fundo, botou o chapéu e o casaco, saiu apressadam ente.

Chegando ao correio m andou o seguinte telegram a:

WEST, 19 ADDWAY SQUARE. CHELSEA. LONDRES.

MUDEI DE IDÉIA E CHEGAREI AMANHÃ. GWENDA.

CAPÍTULO III

"CUBRAM O SEU ROSTO..."

Ray m ond West e sua m ulher fizeram o possível para que a j ovem esposa de Giles se sentisse bem vinda. Não tinham culpa de Gwenda achá-los um pouco assustadores. Ray m ond, com seu aspecto estranho, parecendo um a ave de rapina e em polgando-se subitam ente num a conversa bastante incom preensível, fazia Gwenda ficar nervosa e de olhos arregalados. Tanto e1e com o Joan pareciam falar um a língua própria. Gwenda nunca freqüentara um am biente de intelectuais e quase todas as suas expressões eram desconhecidas para ela.

- Resolvem os levá-la para ver alguns espetáculos, disse Ray m ond, enquanto Gwenda bebia gim e desej ava ardentem ente tom ar um a xícara de chá no fim do dia.

Gwenda anim ou-se de im ediato.

- Hoj e a noite vam os ao balé do Sadler's Wells e am anhã, para festej ar o aniversário de m inha incrível tia Jane, vam os ver A Duquesa de Malfi, com John Gielgud. Na sexta-feira você não pode deixar de ver They walked without fut. Traduzida do russo - a peça de teatro m ais significativa dos últim os vinte anos. Estão levando no teatro Witm ore.

Gwenda se m ostrou agradecida a todos esses program as para diverti-la. Afinal, quando Giles chegasse, iriam j untos a espetáculos m usicais e outras coisas no gênero.

Não gostou m uito da perspectiva de They walked without fut, m as talvez ainda acabasse gostando. O único problem a é que a gente nunca entende nada dessas peças

"im portantes".

- Você vai adorar m inha tia Jane, disse Ray m ond. - Eu a descreveria com o perfeito exem plar de um a peça de época. Vitoriana até a alm a. Todas as m esinhas da casa dela são forradas de chintz. Mora num a aldeia, num a dessas aldeias onde nunca acontece nada, exatam ente com o um poço estagnado.

- Um a vez aconteceu um a coisa lá, observou Joan secam ente.

- Um reles caso passional, sem nenhum a sutileza. . .

- Na época você se divertiu im ensam ente com o caso, retorquiu Joan com um a piscadela.

- Às vezes gosto de um a intriga de aldeia, respondeu Ray m ond em tom m uito alegre.

- De qualquer m odo, tia Jane revelou grande talento naquele caso de assassinato.

- Oh, ela não é nenhum a boba. Adora problem a.

- Problem as? perguntou Gwenda - e sua cabeça se perdeu na aritm ética.

Ray m ond agitou um a das m ãos.

- Qualquer tipo de problem a, respondeu. - Por que foi que a m ulher do açougueiro saiu de guarda-chuva para ir a um a reunião na igrej a num a noite linda? Por que um vidro de pickles de cam arão foi encontrado em determ inado lugar? O que aconteceu com a sobrepeliz do vigário? Tudo interessa à tia Jane, de m odo que, se você tiver algum problem a, Gwenda, converse com ela. Ela resolve tudo.

Deu um a risada. Gwenda tam bém riu, m as não tão calorosam ente.

No dia seguinte foi apresentada à tia Jane, ou sej a, Miss Marple. Miss Marple era um a atraente senhora, j á idosa, alta e m agra, de m açãs do rosto rosadas, olhos azuis, um j eito am ável e um pouco m eticuloso. Seus olhos azuis tinham sem pre um brilho especial.

Depois de j antarem e beberem à saúde de tia Jane, foram todos para o teatro. O

grupo tam bém incluía m ais dois hom ens - um ator idoso e um j ovem advogado. O ator acom panhava Gwenda e o j ovem advogado dividia sua atenção entre Joan e Miss Marple, cuj as observações m uito o divertiam . No teatro, entretanto, a situação se inverteu e Gwenda sentou-se no m eio da fila, entre Ray m ond e o advogado.

As luzes se apagaram e a peça com eçou.

A representação era m agnífica e Gwenda estava gostando m uito. Não costum ava ver peças teatrais de categoria.

A peça se desenvolvia e chegava a um clím ax de horror. A voz do ator, no tom trágico de um a m ente doentia, disse:

Cubram o seu rosto. Meus olhos se ofuscam, ela morreu jovem ...

Gwenda deu um grito.

Levantou-se da poltrona, passou por toda a fila, tom ou o corredor, correu escada acim a e saiu na rua. Mesm o assim não parou de correr, tom ada de pânico.

Só quando chegou a Piccadilly reparou num táxi vazio que vinha passando. Fez sinal, entrou, deu o endereço da casa em Chelsea. Lá chegando, pagou o táxi com m ãos trêm ulas e subiu os degraus. A em pregada, ao abrir a porta, olhou-a surpresa.

- Voltou cedo, senhorita. Não está se sentindo bem ?

- Eu . . . não . . . sim . . . Estou m e sentindo fraca.

- Desej a tom ar algum a coisa, senhorita? Um pouco de brandy?

- Não, nada. Vou direto para a cam a.

Subiu a escada rapidam ente para evitar m ais perguntas.

Despiu-se, largou a roupa toda am ontoada no chão e enfiou-se na cam a. Ficou deitada, trem endo, o coração aos saltos, olhando fixam ente para o teto.

Não ouviu o barulho de gente chegando lá em baixo, m as cinco m inutos depois a porta se abriu e Miss Marple entrou. Trazia debaixo do braço dois sacos de água quente e segurava um a xícara na m ão.

Gwenda sentou-se na cam a, tentando dom inar o trem or.- Oh, Miss Marple! Sinto m uitíssim o. Não sei o que. . . fiz um papel horrível!

Eles estão m uito aborrecidos com igo?

- Não se preocupe, querida, respondeu Miss Marple. Trate de se esquentar com esses sacos de água quente.

- Não preciso de saco de água quente.

- Precisa sim . Isso, assim m esm o. Agora beba este chá.

O chá estava quente e forte, doce dem ais, porém Gwenda tom ou-o obedientem ente. O trem or dim inuíra.

- Agora deite e durm a, disse Miss Marple. - Você teve um choque, sabe?

Am anhã de m anhã vam os conversar sobre isso. Não se preocupe com nada. Durm a.

Arrum ou o cobertor, sorriu, deu um tapinha no om bro de Gwenda e retirou-se.

Lá em baixo Ray m ond dizia para Joan, com irritação: - Que diabo aconteceu com essa m oça? Será que se sentiu m al?

- Meu caro Ray m ond, não sei! Ela deu um grito! Acho que a peça era um pouco m acabra dem ais para ela.

- Bem , Webster é m eio terrível. Mas não poderia supor que... Interrom peu a frase ante a chegada de Miss Marple. - Ela está bem ? perguntou.

- Acho que sim . Teve um choque m uito grande.

- Choque? Por causa de um a peça de teatro?

- Acho que não deve ter sido só isso, respondeu Miss Marple, com ar pensativo.

Gwenda tom ou o café da m anhã na cam a. Bebeu uns goles de café e com eu um pedaço de torrada. Quando se levantou e desceu, Joan tinha ido para o atelier, Ray m ond estava trancado no escritório e apenas Miss Marple estava sentada j unto à j anela de que se avistava o rio.

Miss Marple tricotava com penetradam ente.

Ergueu os olhos e sorriu placidam ente, quando Gwenda entrou.- Bom dia, querida. Espero que estej a sentindo-se m elhor.

- Oh, sim , estou m uito bem . Não sei com o fui fazer um a coisa estúpida com o aquela ontem à noite! Eles estão... estão m uito zangados com igo?

- Oh, não, querida! Com preendem m uito bem .

- Com preendem o quê?

Miss Marple parou de olhar para o tricô.

- Que ontem à noite você teve um choque m uito grande. E acrescentou com delicadeza: - Não quer conversar com igo sobre isso?

Gwenda andava nervosam ente de um lado para o outro.

- Acho m elhor eu consultar um psiquiatra qualquer.

- Naturalm ente existem ótim os especialistas em Londres. . . Mas você tem certeza de que é necessário?

- Bem ... acho que estou ficando louca... Devo estar ficando louca.

Um a velha em pregada entrou na sala, trazendo um telegram a num a salva de prata, que estendeu para Gwenda.

- O entregador quer saber se tem resposta, senhora.

Gwenda abriu o telegram a. Tinha sido retransm itido de Dillm outh. Ela o olhou por instantes com ar vago e depois o am assou.

- Não há resposta, disse m ecanicam ente. A em pregada saiu da sala.

- Espero que não sej am m ás notícias, querida!

- É Giles, m eu m arido. Está vindo para casa. Vai chegar daqui a um a sem ana.

Sua voz indicava aflição e perplexidade. Miss Marple pigarreou com discrição.

- Bem ... m as isso certam ente é m uito bom , não é?

- Será? Quando não sei se estou m aluca ou não? Se estou m aluca nunca devia ter casado com Giles. E a casa, tudo o m ais. Não posso voltar para lá. Oh, não sei o que fazer!

Miss Marple deu um a batidinha convidativa no assento do sofá.

- Bem , querida, sugiro que se sente aqui e m e conte tudo.

Gwenda aceitou o convite com um a sensação de alívio. Contou toda a história, com eçando pela prim eira vez em que vira Hillside e prosseguindo com os incidentes que a haviam intrigado e depois se tornaram assustadores.

- Aí fiquei com m edo, disse ela. - E achei m elhor vir para Londres... fugir daquilo tudo. Só que, com o vê, não consegui fugir. Aquilo m e perseguiu. Ontem à noite... Gwenda fechou os olhos e conteve a respiração, rem em orando.

- Ontem à noite. . . ? insistiu Miss Marple.

- Acho que a senhora não vai acreditar, disse Gwenda, falando m uito depressa. -

Vai achar que eu sou histérica, excêntrica, ou algo parecido. Aconteceu quase de súbito, bem no fim . Estava gostando da peça. Nem um a vez m e lem brei da casa. E foi aí... sem m ais nem m enos... quando ele disse aquelas palavras...

Repetiu em voz baixa e trêm ula: Cubram o seu rosto. Meus olhos se ofuscam.

Ela morreu jovem.

- Eu m e vi novam ente lá... na escada, olhando para o saguão através da balaustrada, e a vi deitada ali. Estendida... m orta. O cabelo louro e o rosto todo... azul!

Estava m orta, estrangulada, e alguém estava dizendo aquelas m esm as palavras da m esm a m aneira horrível e tripudiante... e eu vi as m ãos dele... cinzentas... enrugadas...

não eram m ãos... eram patas de m acaco... Foi horrível, sabe... Ela estava m orta.

Miss Marple perguntou delicadam ente: - Quem estava m orta?

A resposta veio im ediata e autom ática:

- Helen . . .

CAPÍTULO IV

HELEN?

Durante um m om ento Gwenda ficou olhando fixam ente para Miss Marple. Em seguida afastou o cabelo que lhe caía na testa.

- Por que foi que eu disse isso? perguntou. - Por que disse Helen? Não conheço nenhum a Helen!

Num gesto de desespero, deixou cair os braços ao longo do corpo.

- Está vendo? prosseguiu. - Estou louca! Im aginando coisas! Fico vendo coisas que não existem . Prim eiro era só papel de parede... m as agora são cadáveres! Estou piorando!

- Não tire conclusões precipitadas, querida...

- Ou então é a casa... A casa é m al-assom brada... ou enfeitiçada... Vej o coisas que aconteceram lá... ou então vej o coisas que vão acontecer lá... e isso seria ainda pior.

Talvez um a m ulher cham ada Helen vá ser assassinada lá... Só não sei é por que, se a casa é m al-assom brada, fico vendo essas coisas horríveis m esm o quando não estou lá.

Dessa m aneira, tenho de achar que algum a coisa estranha está ocorrendo com igo. E é m elhor eu ir consultar um psiquiatra já. . . agora de m anhã.

- Bem , Gwenda querida, é claro que se pode tom ar essa providência quando j á se esgotaram todas as outras tentativas de com preensão, m as pessoalm ente sem pre acho que é m elhor, antes disso, analisar as explicações m ais sim ples e com uns. Vam os esclarecer bem os fatos. Houve três incidentes que abalaram você. Um cam inho no j ardim que havia sido escondido pelas plantas m as que você sentiu que existia, um a porta na sala que tinha sido tapada; e um papel de parede que você im aginou com todos os detalhes sem tê-lo visto. Não é isso?

- Bem , a explicação m ais fácil, m ais sim ples seria a de você j á ter visto tudo isso antes.

- Em outra encarnação?

- Não, querida, quero dizer nesta vida. Acho que podem ser lem branças verdadeiras.

- Mas até há um m ês atrás eu nunca tinha vindo à Inglaterra, Miss Marple.

- Você tem certeza disso, querida?

- É claro que tenho. Morei perto de Christchurch, na Nova Zelândia, a vida toda.

- Você nasceu lá?

- Não, nasci na Índia. Meu pai era oficial do exército inglês. Minha m ãe m orreu quando eu tinha um ou dois anos, e m eu pai m e m andou para j unto da fam ília dela, na Nova Zelândia, para que cuidassem de m im . Alguns anos depois ele tam bém m orreu.

- Você não se lem bra da viagem da Índia para a Nova Zelândia?

- Não. . . m uito pouco. Lem bro-m e vagam ente de estar num navio. Um a coisa com a j anela redonda - um a escotilha, é claro. E um hom em de farda branca, rosto verm elho e olhos azuis; com um sinal no queixo... um a cicatriz, talvez. Ele costum ava m e atirar para o alto, m e lem bro de que eu gostava e tinha m edo disso ao m esm o tem po.

Mas são lem branças m uito fragm entárias.

- Você se recorda de um a babá? De um a governanta?

- De um a babá, não. Da governanta - Nannie. Lem bro-m e de Nannie porque ela tom ou conta de m im bastante tem po. . . até eu fazer cinco anos. Ela recortava patos de papel. Sim , ela estava a bordo. Passou-m e um pito porque chorei quando o com andante m e deu um beij o e não gostei da barba dele.

- Bem , isso é m uito interessante, querida, porque, repare, você está confundindo duas viagens diferentes. Num a delas o Com andante usava barba e na outra tinha o rosto verm elho e um a cicatriz no queixo.

- É... respondeu, Gwenda. - Deve ser isso m esm o.

- Parece-m e possível, prosseguiu Miss Marple, - que, quando sua m ãe m orreu, seu pai tenha prim eiro trazido você com ele para a Inglaterra, e que você tenha realm ente m orado naquela casa - Hillside. Você m e falou - lem bra-se? - que se sentiu em casa logo que entrou lá. E que o quarto que você escolheu para dorm ir era provavelm ente seu quarto de criança...

- Era um quarto de criança. Tinha grades nas j anelas.

- Está vendo? Tinha esse bonito e alegre papel de centáureas e papoulas. As crianças se lem bram m uito bem das paredes de seu quarto. Nunca m e esqueci dos íris arroxeados na parede do m eu quarto; e olhe que o papel foi m udado quando eu tinha uns três anos.

- Por isso é que pensei logo nos brinquedos, na casa de bonecas e nos arm ários de brinquedos?

- Exato. E na banheira. A banheira com um a borda de m ogno. Você disse que pensou em soltar uns patos de brinquedo dentro dela assim que a viu.

- É verdade, respondeu Gwenda, pensativam ente. - Eu tinha sem pre a im pressão de que sabia exatam ente onde ficava cada coisa - a cozinha, o arm ário da roupa de cam a. E cism ei que havia um a porta de com unicação entre a sala de estar e a sala de j antar. Mas evidentem ente é im possível eu chegar à Inglaterra e com prar exatam ente a m esm a casa em que m orei há tantos anos!

- Não é im possível, querida. É apenas um a extraordinária coincidência... e as coincidências extraordinárias acontecem ... Seu m arido queria um a casa na costa sul.

Você estava procurando-a, passou por um a que lhe revolveu a lem brança e atraiu você.

Era de bom tam anho, o preço era acessível e então você a com prou. Não, não é tão loucam ente im provável. Se a casa fosse apenas o que se cham a (às vezes com acerto) um a casa m al-assom brada, sua reação seria com pletam ente diversa. Mas você não sentiu nenhum a sensação de violência ou de repulsa a não ser, pelo que m e contou, num determ inado m om ento, quando ia com eçar a descer a escada e olhou para o saguão.

Voltou, nos olhos de Gwenda, um a expressão de pavor.

- A senhora acha... que... que Helen... que tam bém isso é verdade?

Miss Marple respondeu em tom am ável:

- Bem , acho que sim , querida... Acho que devem os reconhecer que, se as outras coisas são lem branças, isso tam bém é um a lem brança...

- Eu realm ente vi um a pessoa m orta... estrangulada... caída ali no chão?

- Não acho que você soubesse conscientem ente que ela tinha sido estrangulada; isso foi sugerido pela peça de teatro ontem à noite, e você, com o adulta, se dá conta do que deve significar um rosto convulso e azulado. Acho que um a criança m uito pequena, descendo um a escada com dificuldade, seria bem capaz de perceber a violência, a m orte, o m al, e associá-los com um certo grupo de palavras... pois acho que não há dúvida de que o assassino realm ente disse aquelas palavras. Isso seria um choque m uito grande para um a criança. As crianças são criaturinhas bastante singulares. Se ficarem seriam ente assustadas, sobretudo por algum a coisa que não entendem , não falam na assunto. Recalcam tudo. Aparentem ente, talvez o esqueçam . Mas lá no fundo a lem brança continua.

Gwenda

suspirou.

- E a senhora acha que foi o que aconteceu com igo? Mas então por que agora não m e lem bro de tudo?

- Não se pode com andar a m em ória. E m uitas vezes, quando se tenta isso, ela se perde m ais ainda. Mas creio que há um ou dois indícios de que foi isso o que aconteceu.

Por exem plo, agora há pouco, quando você m e contou o que sentiu ontem à noite no teatro, você usou um a expressão bastante reveladora. Disse que tinha a im pressão de estar olhando "através da balaustrada"... Mas norm alm ente não se olha para um saguão atrás da balaustrada, m as sim por cim a dela. Só um a criança olharia através.

- A senhora é m uito perspicaz, observou Gwenda adm irada.

- Essas pequenas coisas são m uito significativas.

- Mas quem era Helen? perguntou Gwenda, atônita.

- Diga, querida, você ainda tem certeza de que o nom e era Helen?

- Tenho... É estranhíssim o, porque não sei quem é Helen... m as ao m esm o tem po sei... quer dizer, eu sei que era "Helen" quem estava caída ali... Com o é que vou conseguir descobrir m ais algum a coisa?

- Bem , a coisa m ais óbvia a fazer é descobrir definitivam ente se você esteve na Inglaterra quando criança, ou se poderia ter estado. Seus parentes...

Gwenda interrom peu-a. - Tia Alison. Ela saberia. Tenho certeza.

- Então você poderia escrever-lhe um a carta aérea. Diga que, diante das circunstâncias, se torna im portantíssim o para você saber se algum a vez esteve na Inglaterra. Quando seu m arido chegar, a resposta provavelm ente j á estará aqui.

- Oh, obrigada, Miss Marple. A senhora foi m aravilhosa. E espero que seu raciocínio estej a correto, porque assim fica tudo bem . Quer dizer, não há nada de sobrenatural.

Miss

Marple

sorriu.

- Espero que dê tudo certo. Depois de am anhã vou passar uns dias com uns am igos no norte da Inglaterra. Na volta, daqui a uns dez dias, passo por Londres. Se você e seu m arido estiverem aqui, ou se tiver chegado um a resposta à sua carta, eu estaria m uito interessada em saber do resultado.

- É claro, querida Miss Marple! De qualquer m odo, quero que a senhora conheça Giles. Ele é um am or. E vam os bater um bom papo sobre essa história toda.

Gwenda j á se sentia perfeitam ente bem .

Miss Marple, entretanto, estava pensativa.

CAPITULO V