Um Crime Adormecido
Kelvin Halliday
Na m anhã seguinte, Giles e Gwenda estavam no j ardim quando a Sra. Cocker veio avisar que um certo Dr. Kennedy desej ava falar com Giles ao telefone.
Deixando Gwenda a conferenciar com o velho Foster, Giles entrou e pegou o fone.
- Aqui é Giles Reed, disse ele.
- Aqui é Kennedy. Estive pensando sobre nossa conversa de ontem , Sr. Reed.
Existem alguns fatos sobre os quais acho que talvez o senhor e sua m ulher devam ser inform ados. Posso ir aí hoj e à tarde?
- É claro. A que horas?
- Às três horas. Está bem para vocês?
- Muito bem .
No j ardim , o velho Foster perguntou a Gwenda: - É o Dr. Kennedy que m orava em West Cliff?
- Acho que sim . O senhor o conhecia?
- Ele era considerado o m elhor m édico daqui... se bem que o Dr. Lazenby fosse m ais sim pático. O Dr. Lazenby sem pre dizia algum a coisa engraçada ou ria para anim ar a gente. O Dr. Kennedy era m eio seco... m as sabia trabalhar.
- Quando é que parou de clinicar?
- Há m uito tem po. Deve fazer uns quinze anos. Dizem que ficou doente.
Giles voltou e respondeu à pergunta expressa pelo olhar de Gwenda.
- Ele vem aqui hoj e à tarde.
- Oh! - Gwenda dirigiu-se novam ente a Foster. - Chegou a conhecer a irm ã do Dr. Kennedy ?
- Irm ã? Não m e lem bro. Ela era um a garota pequena. Foi para o colégio interno, depois viaj ou para o estrangeiro, m as ouvi dizer que passou uns tem pos aqui depois que casou. Acho que fugiu com outro suj eito - dizem que ela era m aluquinha. Não sei se cheguei a vê-la pessoalm ente. Passei algum tem po trabalhando em Ply m outh, sabe?
Cam inhando ao lado de Giles em direção à ponta do terraço, Gwenda perguntou:
- Por que é que ele vem aqui?
- Saberem os às três horas.
Kennedy chegou pontualm ente. Olhando para a sala, observou:
- Parece estranho estar aqui de novo!
Em seguida entrou direto no assunto.
- Pelo que vi vocês estão decididos a encontrar o sanatório onde Kelvin Halliday m orreu e descobrir todos os detalhes sobre sua doença e sua m orte, não é?
- Exatam ente, respondeu Gwenda.
- Bem , evidentem ente vocês o conseguiriam com a m aior facilidade, de m odo que cheguei à conclusão de que é m enos chocante ouvirem os fatos contados por m im .
Sinto m uito ter que lhes contar, pois não vai adiantar nada para ninguém e provavelm ente causará um grande sofrim ento a você, Gwennie. O fato é o seguinte: seu pai não estava tuberculoso e o sanatório era um a clínica de doenças m entais.
- Doenças m entais? Ele estava louco?
Gwenda ficou bastante pálida.
- Isso nunca foi provado, e na m inha opinião ele não estava louco no sentido com um dessa palavra. Teve um a estafa m uito séria e passou a ter idéias obsessivas.
Internou-se por vontade própria e poderia, evidentem ente, sair quando bem entendesse.
Mas não teve m elhora e acabou m orrendo lá.
- Idéias obsessivas? Giles repetiu as palavras com ar interrogativo. - Que tipo de obsessão?
- Ele achava que tinha estrangulado a m ulher, respondeu Kennedy secam ente.
Gwenda deixou escapar um grito. Giles rapidam ente estendeu o braço e segurou sua m ão gelada.
- E... ele tinha m esm o feito isso? perguntou Giles.
- Hein? Kennedy olhou-o fixam ente. - Não, é claro que não. Isso é ponto pacífico.
- Mas. . . m as com o é que o senhor pode saber? perguntou Gwenda hesitante.
- Minha cara, isso j am ais aconteceu! Helen deixou-o e fugiu com outro hom em .
Ele estava desequilibrado havia j á algum tem po. Pesadelos, fantasias m órbidas. O
choque liquidou-o de vez. Não sou psicólogo. Eles têm explicações para essas coisas. Se um hom em prefere que sua m ulher m orra em vez de traí-lo, pode acabar acreditando que ela m orreu... até m esm o que ele a m atou.
Prudentem ente, Giles e Gwenda trocaram um olhar de advertência.
- Quer dizer que o senhor tem certeza absoluta de que não há possibilidade de ter ele realm ente feito o que disse? falou Giles, serenam ente.
- Absoluta. Recebi duas cartas de Helen. A prim eira veio da França, cerca de um a sem ana depois de ela ter fugido, e a outra chegou uns seis m eses m ais tarde. Oh, não, era tudo um a obsessão, pura e sim plesm ente!
Gwenda suspirou fundo.
- Por favor, disse ela, - quer m e contar toda a história?
- Vou lhe contar tudo o que sei, m inha cara. Kelvin estava, havia algum tem po, num estado neurótico m uito estranho. Foi m e consultar a respeito. Disse-m e que tivera vários sonhos angustiantes. Os sonhos eram sem pre os m esm os e term inavam da m esm a m aneira - ele estrangulando Helen. Tentei atingir a raiz do problem a - deve ter havido algum conflito na prim eira infância. Parece que os pais dele não viviam bem ... Mas isso não vem ao caso - só tem interesse do ponto de vista m édico. Sugeri que Kelvin consultasse um psicólogo - existem ótim os especialistas - m as ele não queria nem ouvir falar nisso. Parece que não acreditava nessas coisas.
Eu achava que ele e Helen não estavam se dando m uito bem , m as ele nunca falou sobre isso e eu não gosto de fazer perguntas. A coisa explodiu de vez quando, certa noite, ele entrou em m inha casa - lem bro que era um a sexta-feira e eu tinha acabado de chegar do hospital. Encontrei-o à m inha espera no consultório. Já estava lá há uns quinze m inutos. Assim que entrei ele olhou para m im e disse: - Eu matei Helen.
Por um m om ento, fiquei sem saber o que pensar. Ele falara com um ar tão frio e direto. Perguntei-lhe: - Você quer dizer... que teve outro sonho? Ele respondeu: -Desta vez não é sonho. É verdade. Ela está caída, estrangulada. Eu a estrangulei.
Em seguida disse com um ar frio e racional: - É m elhor você ir com igo lá em casa. De lá você cham a a polícia. Eu não sabia m ais o que pensar. Peguei o carro e fom os j untos. A casa estava silenciosa e escura. Subim os para o quarto...
Gwenda interrom peu-o. - Para o quarto? interrogou, atônita.
Kennedy parecia ligeiram ente surpreso.
- Sim , foi lá que tudo aconteceu. Bem , evidentem ente, quando chegam os lá. . .
não havia nada! Nenhum a m ulher m orta caída na cam a. Nada fora do lugar - a colcha nem sequer estava am assada. Tudo não passara de um a alucinação.
- Mas o que disse m eu pai?
- Oh, ele insistiu na história, é claro! Acreditava realm ente que era verdade.
Consegui que tom asse um calm ante e deitei-o na cam a do quarto de vestir. Em seguida exam inei o aposento e a casa toda. Encontrei um bilhete am assado que Helen j ogara na cesta de papéis da sala. Estava escrito m ais ou m enos o seguinte: "Isto é um adeus.
Sinto m uito, m as nosso casam ento foi um erro desde o com eço. Vou-m e em bora com o único hom em que am o. Perdoe-m e se puder. Helen."
Evidentem ente, Kelvin ao chegar em casa e encontrar o bilhete, subiu a escada, teve um a séria crise em ocional e foi falar com igo, convencido de que tinha m atado Helen.
Em seguida interroguei a em pregada. Fora seu dia de folga e ela chegara tarde.
Levei-a ao quarto de Helen e ela exam inou todas as suas roupas. Estava tudo bastante claro. Helen arrum ara a m ala, um a sacola, e partira. Exam inei a casa toda, m as não havia sinal de nenhum a anorm alidade... m uito m enos de um a m ulher estrangulada.
Na m anhã seguinte Kelvin m e deu m uito trabalho, m as finalm ente se convenceu de que fora tudo um a alucinação - ou pelo m enos disse que estava convencido - e concordou em se internar.
Um a sem ana depois, com o j á falei, recebi um a carta de Helen. Vinha de Biarritz, m as ela dizia que estava a cam inho da Espanha. Pedia-m e que dissesse a Kelvin que não queria se divorciar e que ele tratasse de esquecê-la o m ais depressa possível.
Mostrei a carta a Kelvin. Ele não disse grande coisa. Prosseguiu com seu plano.
Telegrafou para a fam ília de sua prim eira m ulher, na Nova Zelândia, pedindo-lhes que cuidassem da criança. Pôs em dia todos os seus negócios e depois se internou num a ótim a clínica particular para doentes m entais, disposto a receber o tratam ento adequado.
Este, no entanto, não serviu para nada. Ele m orreu na m esm a clínica dois anos depois.
Posso lhe dar o endereço. Fica em Norfolk. O atual diretor, naquela ocasião, era m uito j ovem e provavelm ente poderá lhe dar m ais inform ações sobre o caso de seu pai.
- E recebeu m ais um a carta de sua irm ã... depois disso? perguntou Gwenda.
- Sim . Uns seis m eses depois. Escreveu de Florença. Pôs um a caixa-postal em nom e de "Srta. Kennedy ". Disse que com preendia que talvez fosse ruim para Kelvin se divorciar, se bem que ela própria não quisesse isso. Caso ele desej asse um divórcio, eu deveria escrever-lhe para a posta restante e ela tom aria as providências necessárias.
Mostrei a carta a Kelvin. Ele disse im ediatam ente que não queria se divorciar. Escrevi para Helen a dei o recado. Depois disso nunca m ais tive notícias dela. Não sei onde está m orando, nem sei se está viva ou m orta. Foi por isso que respondi ao anúncio, na esperança de ter notícias dela.
Acrescentou
baixinho:
- Sinto m uito, Gwennie, m as você precisava saber. Só queria que você não tivesse com eçado...
CAPÍTULO IX