Um Crime Adormecido
Conversa em Torq Uay
- Mas é claro, querida Gwenda, que nem m e passou pela cabeça ir em bora e deixar você sozinha na casa! exclam ou Miss Marple. - Eu sabia que um a pessoa m uito perigosa estava à solta e eu estava observando do j ardim .
- A senhora sabia... o tem po todo... que era ele? perguntou Gwenda.
Miss Marple, Gwenda e Giles estavam sentados no terraço do Im perial Hotel, em Torquay.
Miss Marple havia sugerido um a m udança de am biente e Giles concordara que isso faria bem a Gwenda. Com a aquiescência do Inspetor Prim er, tinham ido para Torquay.
Respondendo à pergunta de Gwenda, Miss Marple disse: - Bem , eu achava que era, m inha querida, apesar de não ter nenhum a prova, apenas indícios.
Olhando-a com curiosidade, Giles , observou : - Mas eu não vej o nem os indícios . .
- Oh, caro Giles, pense um pouco! Para com eçar, ele estava no local.
- No local?
- Evidente. Quando, naquela noite, Kelvin Halliday foi falar com ele, ele tinha acabado de chegar do hospital. Naquela época, com o várias pessoas nos disseram , o hospital ficava ao lado de Hillside, ou St. Catherine, com o era cham ada a casa. De m odo que isso o coloca no local certo e na hora certa. Além disso havia m ais m il e um pequenos fatos significativos. Helen Halliday disse a Richard Erskine que tinha ido para fora para casar com Walter Fane porque não era feliz em casa. Isto é, não era feliz m orando com o irm ão. No entanto o irm ão era, para todos os efeitos, m uito dedicado.
Então por que ela não era feliz? O Sr. Afflick disse a você que "tinha pena da m enina".
Acho que ele foi m uito sincero ao dizer isso. Tinha m esm o pena dela. Por que ela precisava sair escondida para encontrar o j ovem Afflick? Sabem os que ela não estava apaixonada por ele. Seria porque não podia m arcar encontros norm alm ente, com o todos os j ovens? Seu irm ão era "severo" e "antiquado". Isso lem bra vagam ente o caso do Sr.
Barrett, de Wim pole Street, não acha? Gwenda estrem eceu.- Era louco, disse ela. - Louco!
- Sim , respondeu Miss Marple. - Não era um a pessoa norm al. Adorava a irm ã e essa afeição tornou-se possessiva e doentia. Isso acontece com m ais freqüência do que você im agina. Pais que não querem que as filhas casem ... nem ao m enos que saiam com rapazes. Com o o Sr. Barrett. Pensei nisso quando contaram a história da rede de tênis.
- Rede de tênis?
- Sim , isso m e pareceu m uito significativo. Pense naquela m enina, Helen, voltando do colégio para casa, querendo aproveitar a vida com o todas as m ocinhas, conhecer rapazes, nam orar. . .
- Um pouco m aníaca por sexo.
-
Não! exclam ou Miss Marple com veem ência. - Isso é um dos aspectos m ais m aldosos desse crim e. Kennedy não a m atou apenas fisicam ente. Se você exam inar com cuidado toda a história, verá que o único testem unho de que Helen Kennedy era louca por hom ens, ou - com o é m esm o a palavra que você usa? Ah, sim , ninfom aníaca - foi dado pelo próprio Kennedy. Pessoalm ente, acho que ela era um a m oça perfeitam ente norm al, que queria apenas se divertir, nam orar um pouco, até finalm ente encontrar o hom em certo para se casar. E vej a o que o irm ão fez. Em prim eiro lugar, foi severo e antiquado em relação à liberdade da m oça. Em seguida, quando ela quis convidar am igos para j ogar tênis - um desej o perfeitam ente norm al e inocente - ele fingiu que concordava e, certa noite, cortou a rede em pedaços... um ato sádico m uito significativo.
Depois disso, com o ela podia continuar saindo para ir a festas ou para j ogar tênis, ele tom ou todas as providências para que um sim ples arranhão no pé não ficasse bom . Foi ele quem infeccionou a ferida, a pretexto de curá-la. Oh, estou convencida de que ele agiu assim ... Tenho certeza disso!
Acho que Helen não percebia nada. Sabia que seu irm ão gostava m uito dela e provavelm ente não sabia por que se sentia pouco à vontade e infeliz em casa. Mas o fato é que se sentia assim , e finalm ente resolveu ir para a Índia e casar com o j ovem Fane, apenas para se ver livre. Para se ver livre de quê? Ela não sabia. Era j ovem e inocente dem ais para saber. Partiu para a Índia e no navio conheceu Richard Erskine, por quem se apaixonou. Mais um a vez com portou-se com o um a m oça honrada, e não com o um a ninfom aníaca. Não insistiu para que ele abandonasse a esposa. Pelo contrário, pediu-lhe que não fizesse um a coisa dessas. Mas, quando tornou a ver Walter Fane, percebeu, que não podia casar com ele e, com o não sabia o que fazer, telegrafou para o irm ão pedindo-lhe dinheiro para voltar para casa.
Na viagem de volta conheceu seu pai - e encontrou outra m aneira de escapar.
Desta vez havia um a perspectiva de felicidade.
Ao se casar com seu pai, ela não foi fingida, Gwenda. Ele estava se recuperando da perda de um a esposa querida. Ela acabava de sair de um caso de am or im possível.
Um podia aj udar o outro. Acho m uito significativo o fato de eles terem se casado em Londres e só depois terem ido a Dillm outh para contar a novidade a Kennedy. Ela deve ter adivinhado instintivam ente que era m ais garantido agir dessa m aneira, em vez de casar em Dillm outh, o que seria m ais norm al. Contínuo achando, que ela não sabia conscientem ente a que estava enfrentando -m as sentia-se pouco à vontade e achou que era m ais seguro apresentar seu casam ento com o fato consum ado.
Kelvin Halliday gostou m uito de Kennedy. Este, por sua vez, fez tudo para dar a im pressão de que o casam ento lhe agradava. O casal alugou um a casa m obiliada em Dillm outh.
E agora chegam os a um fato dos m ais significativos - a suspeita de Kelvin, que achava que sua m ulher o estava envenenando. Só existem duas explicações para isso, porque apenas duas pessoas estavam em condições de fazer um a coisa dessas. Ou Helen Halliday estava m esm o envenenando o m arido - m as por que faria isso? - ou então as drogas estavam sendo adm inistradas por Kennedy. Kennedy era o m édico de Halliday, o que ficou provado pelo fato de ele ter ido consultá-lo. Confiando no conhecim ento m édico de Kennedy que, com toda habilidade, lhe sugeriu que sua m ulher o estava envenenando.
- Mas será que um a droga pode fazer um hom em ter alucinações de que estrangulou a m ulher? perguntou Giles. - Existe algum a droga que tenha esse efeito exato?
- Meu caro Giles, você tornou a cair na cilada, ao acreditar no que lhe disseram.
A única pessoa que falou nessa alucinação foi Kennedy. O próprio Halliday não m enciona isso no diário. Tinha alucinações, isso sim , m as não descreve em que consistiam . Ouso afirm ar que Kennedy lhe contou casos de hom ens que estrangularam suas esposas depois de terem passado por um a fase sem elhante à que Kelvin estava passando.
- Kennedy era realm ente m uito perverso, observou Gwenda.
- Acho que naquela ocasião ele j á havia ultrapassado o lim ite entre a sanidade e a loucura, respondeu Miss Marple. E Helen, coitada, com eçou a perceber isso. Deve ter sido para o irm ão que ela disse as palavras ouvidas por Lily : "Acho que sem pre tive m edo de você". Isso foi um a das coisas que ela falou, e sem pre achei bastante significativa. E então ela resolveu ir em bora de Dillm outh. Convenceu o m arido a com prar um a casa em Norfolk e convenceu-o a não contar para ninguém . Isso constitui um fato m uito interessante. O segredo em torno do assunto era bastante revelador. Ela estava, evidentem ente, com m uito m edo de que alguém soubesse disso - m as isso não com binava com a hipótese de ter sido Walter Fane ou Jackie Afflick, e m uito m enos com Richard Erskine. Não, isso m ostrava algo bem m ais próxim o à fam ília.
Finalm ente Kelvin Halliday, a quem o segredo incom odava e que não via nenhum sentido em m anter sigilo, contou para o cunhado.
E, ao fazê-lo, selou seu próprio destino e o de sua m ulher, pois Kennedy não ia deixar Helen partir e ser feliz com o m arido. Acho que talvez seu plano inicial fosse apenas liquidar a saúde de Halliday através da adm inistração de drogas m as, ao saber que Helen e sua vítim a iam escapar-lhe das m ãos, ficou com pletam ente transtornado.
Saiu do hospital, levando um par de luvas cirúrgicas, e entrou em St.. Catherine pelo j ardim . Encontrou Helen no saguão e estrangulou-a. Ninguém o viu, não havia ninguém que pudesse vê-lo, ou pelo m enos foi isso o que pensou. E em seguida, num acesso de am or e de loucura, citou aquelas frases trágicas, tão apropriadas à situação.
Miss
Marple
suspirou.
- Fui um a boba... um a boba com pleta! Todos nós fom os bobos. Devíam os ter com preendido im ediatam ente. Aquele trecho da Duquesa de Malfi era a verdadeira pista para tudo. Lem brem -se de que as frases são ditas por um irmão que acabou de tram ar a m orte da irm ã para vingar-se por ela ter-se casado com o hom em que am ava. Sim , nós fom os m uito bobos...- E depois? perguntou Gwenda.
- Em seguida ele prosseguiu em seu plano diabólico. Carregou o corpo para cim a. Arrum ou a m ala. Escreveu um bilhete e j ogou-o, todo am assado, na cesta de papéis, para convencer Halliday.
- Mas acho que teria sido m elhor para ele, observou Gwenda, - se m eu pai fosse condenado pelo crim e.
Miss Marple sacudiu a cabeça.
- Oh, não! Ele não podia correr esse risco! Lem bre-se de que é um escocês cheio de bom senso. Tinha um grande respeito pela polícia. A polícia precisa de m uitas provas antes de acreditar que um hom em é culpado. A polícia podia fazer um a porção de perguntas e investigações em baraçosas. Não, seu plano era m ais sim ples e, em m inha opinião, m ais diabólico. Era só convencer Halliday de duas coisas: prim eiro, que tinha estrangulado sua m ulher; segundo, que estava louco. Convenceu Halliday a se internar num a clínica de doentes m entais, m as acho que na realidade não queria convencê-lo de que tinha sido tudo alucinação. Seu pai aceitou essa teoria principalm ente por causa de você, Gwennie. Continuou achando que tinha m atado Helen. Morreu acreditando nisso.
- Perverso! exclam ou Gwenda. - Perverso. . . perverso. . . perverso! repetiu enfaticam ente.
- Sim , respondeu Miss Marple. - É o term o exato. E acho, Gwenda, que foi por isso que a cena a que você assistiu em criança a im pressionou tanto assim . Naquela noite o m al estava presente.
- Mas e as cartas? perguntou Giles. - As cartas de Helen? A letra era dela. Não podem ter sido forj adas!
- É claro que foram forj adas! Mas foi exatam ente aí que ele exagerou. Estava tão ansioso por interrom per as investigações de vocês dois! Provavelm ente sabia im itar m uito bem a letra de Helen... m as não conseguiria enganar um perito. De m odo que a am ostra da letra de Helen que ele m andou para vocês, j unto com a carta, não era a letra de Helen. Foi ele próprio quem escreveu as duas coisas. Por isso, evidentem ente, os peritos afirm aram que a letra pertencia à m esm a pessoa.
- Meu Deus! exclam ou Giles. - Eu nunca pensei nisso!
- Não, retorquiu Miss Marple. Você acreditou no que ele disse. É realm ente m uito perigoso acreditar nas pessoas. Eu não acredito há anos!- E o conhaque?
- Isso foi no dia em que ele foi a Hillside levar a carta de Helen e conversou com igo no j ardim . Aproveitou o m om ento em que ficou sozinho na sala, enquanto a Sra. Cocker foi m e cham ar.
- Céus! exclam ou Giles. - E depois da m orte de Lily Kim ble ele insistiu em que eu levasse Gwenda para casa e lhe desse um conhaque! Com o foi que ele se arrum ou para encontrá-la m ais cedo?
- Isso foi m uito sim ples. Na carta que escrevera a Lily, dissera-lhe para encontrá-lo em Woodleigh Cam p, instruindo-a para que tom asse o trem das duas e cinco de Matchings Halt para Dillm outh Junction. Provavelm ente se escondeu no bosque, abordou-a quando ela ia subindo pelo cam inho e estrangulou-a. Em seguida lim itou-se a substituir a carta que ela trazia na bolsa pela carta que vocês viram , e voltou para casa para receber vocês e fingir que esperava a chegada de Lily.
- Será que Lily estava realm ente am eaçando Kennedy ? A carta dela não dava essa im pressão. Parecia suspeitar de Afflick.
- É possível que sim . Mas Léonie, a governanta suíça, tinha falado com Lily, e Léonie era um a am eaça para Kennedy, porque ela olhara pela j anela do quarto de Gwennie e o tinha visto cavando o j ardim . De m anhã, no dia seguinte, ele lhe disse que o Maj or Halliday m atara sua m ulher, que o Maj or Halliday estava louco e que ele, Kennedy, m antinha o assunto em segredo por causa da criança. Acrescentou, no entanto, que se Léonie achasse que devia ir à polícia, devia ir, m as que seria um a coisa bastante desagradável para ela, e assim por diante...
Ao ouvir falar em polícia, Léonie assustou-se im ediatam ente. Ela adorava você, Gwenda, e tinha um a fé absoluta em M. le Docteur. Kennedy deu-lhe um a boa quantia em dinheiro e m andou-a de volta para a Suíça. Mas, antes de partir, ela contou a Lily que o Maj or m atara sua m ulher e que ela vira o corpo sendo enterrado. Por isso é que Lily achava que Léonie tinha visto o Maj or Halliday cavando no j ardim .
- Mas Kennedy, evidentem ente, não sabia disso, observou Gwenda.
- É claro que não. Ao receber a carta de Lily, os fatos que o assustaram foi que Léonie tinha contado para Lily o que vira pela janela e a m enção ao carro estacionado lá fora.
- O carro? O carro de Jackie Afflick?
- Isto foi m ais um m al-entendido. Lily se lem brava, ou pensava se lem brar, de um carro parecido com o de Jackie Afflick, estacionado do lado de fora. Deu asas à im aginação e achou ser o carro do "hom em m isterioso" que ia sem pre ver a Sra.
Halliday. Com o o hospital era ao lado, é claro que m uitos carros estacionavam naquela rua. Mas lem brem -se de que o carro do m édico estava estacionado do lado de fora do hospital, naquela noite, e ele provavelm ente concluiu que ela se referia ao carro dele.
- Com preendo, disse Giles. - Para a consciência pesada a carta de Lily pode ter parecido um a chantagem . Mas com o é que a senhora sabe tanta coisa sobre Léonie?
Miss Marple respondeu com os lábios apertados.
- Ele foi até o fim . Assim que os hom ens do Inspetor Prim er correram e o agarraram , ele contou todo o crim e repetidam ente... tudo o que tinha feito. Parece que Léonie m orreu m uito pouco tem po depois de ter voltado para a Suíça. Um a dose excessiva de rem édio para dorm ir... Oh, ele não podia se arriscar!
- E por isso tentou m e envenenar com conhaque.
- Você era um a pessoa m uito perigosa para ele, assim com o Giles. Por sorte você nunca contou a ele sua lem brança de ter visto Helen m orta no saguão. Ele nunca soube que havia um a testem unha ocular.
- E os telefonem as para Fane e Afflick? perguntou Giles. - Foi ele quem ligou?
- Foi. Se houvesse um inquérito para saber quem tinha colocado veneno no conhaque, qualquer dos dois seria suspeito e, se Jackie Afflick fosse de carro, sozinho, poderia se ver envolvido na m orte de Lily Kim ble. Provavelm ente Fane teria um álibi.
- E dizer que ele parecia gostar de m im ... m urm urou Gwenda. - A pequena Gwennie...
- Ele precisava desem penhar um papel, retorquiu Miss Marple. - Im agine o que isso significava para ele. Depois de dezoito anos aparecem você e Giles, fazendo perguntas, rem exendo o passado, perturbando um crim e que parecia m orto, m as que estava apenas adorm ecido... A m orte em retrospecto... Um a coisa terrivelm ente perigosa, m eus caros. Andei m uito preocupada.- Pobre Sra. Cocker! exclam ou Gwenda. - Escapou por um triz! Ainda bem que vai ficar boa. Você acha que ela vai continuar trabalhando lá em casa depois de tudo isso, Giles?
- Se houver um quarto de crianças ela fica, respondeu Giles com ar m uito sério.
Gwenda enrubesceu e Miss Marple com um sorriso, desviou o olhar para a paisagem de Torquay.
- Que coisa estranha tudo ter acontecido daquele j eito... disse Gwenda. - Eu, com aquelas luvas, olhando para elas, e ele entrando no saguão e dizendo aquelas palavras tão sem elhantes às outras. "Rosto"... e depois "olhos ofuscados"...
Gwenda estrem eceu.
-
Cubram seu rosto... Meus olhos estão ofuscados... Ela morreu jovem... Podia ter sido eu... se Miss Marple não estivesse lá.
Fez um a pausa e acrescentou baixinho: - Pobre Helen... Pobre Helen, tão linda, que m orreu j ovem ... Sabe Giles, ela não está m ais lá... na casa.. no saguão. Senti isso ontem , antes de partirm os. Agora existe apenas a casa. E a casa gosta de nós. Podem os voltar, se quiserm os...
FIM
Você terminou Um Crime Adormecido
Agatha Christie