Um Defeito de Cor
Capítulo seis
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Últimos dias
O sobrado estava ficando um lugar bastante agradável, os cômodos já estavam quase todos mobiliados e providos do necessário. Daquela vez eu tinha comprado tudo pronto, não mandei fazer nada sob medida, e providenciei também um bonito enxoval com utensílios de cozinha e roupas de cama e de mesa. O Júlio e a Anastácia já tinham se mudado para o porão, que nem tinha mais cara de porão, a começar pela altura, cabendo de pé um homem maior que o padre Heinz, sem precisar se curvar. O Alberto tinha mandado o João Badu até o sítio, e ele voltou com a notícia de que estava tudo pronto por lá também, parecendo um palácio, nas palavras dele. Ou seja, eu já não tinha mais nada a fazer na cidade, coisa que o Alberto também já tinha percebido. Apesar de tudo, gostei daqueles dias movimentados, mas já estava com saudades da tranqüilidade e da vista do sítio, e também de arrumar alguma coisa para fazer na padaria.
Fiquei com pena por causa da Esméria, que tinha feito amizade com as pretas que trabalhavam no solar onde ela tinha pedido ajuda no dia do seu nascimento. O tal solar era bastante famoso na região, o Solar do Gravata, e ficava na rua de cima, com frente para uma pequena praça. Somente os dois pavimentos nobres, de uso dos da casa, tinham a frente para o lado certo, e os dois pavimentos de baixo, onde ficavam um depósito, o acesso à cavalariças, alojamento dos criados e dos escravos, davam para a nossa rua, a Bangala. Era nessa saída que, à noite, a Esméria se juntava às escravas que ficavam sentadas sobre esteiras estendidas do lado de fora do muro, conversando e entoando Á
cantigas da África. Uma delas se destacava pela voz muito bonita, embora triste, que de imediato me transportava para a sombra do iroco, em Savalu.
Sempre deixando você aos cuidados da Esméria, aproveitei os últimos dias na cidade para voltar à loja do alufá Ali e levar tecidos para que a Khadija costurasse algumas roupas para mim. Fui também à Barroquinha, conversar com a Esmeralda e levar mais algum dinheiro, pequeno, mas qualquer quantia que eu conseguisse guardar poderia ser de grande ajuda, como de fato ficou provado alguns anos mais tarde. Fiquei sabendo de uma série de novidades, como uma casa de culto aos orixás, chamada de Casa Branca, que estava sendo aberta por uma ialorixá liberta chamada de lyálusò Danadana. As mulheres também estavam se organizando para fundar outra irmandade, a de Nossa Senhora da Boa Morte.
Fui à casa do padre Heinz e voltei com alguns livros emprestados e mais uma novidade. Desde o caso da mulher que tinha matado os filhos, a que ficou escondida no sítio, o padre passou a se importar ainda mais com o destino das crianças, escravas ou não, filhas de escravas ou de forras que não tinham condições ou não podiam sustentá-las porque eram proibidas por seus senhores.
Eram muitos os casos em que os senhores proibiam que as escravas cuidassem dos filhos, achando que elas trabalhavam menos por causa dessa preocupação. As crianças acabavam morrendo de fome por não terem quem cuidasse delas enquanto as mães trabalhavam, quando não eram maltratadas pelos senhores ou feitores, que se enervavam com o choro das que ainda tinham forças para tanto. As mães também eram impedidas de dar o peito, porque os senhores achavam que isso as deixava mais fracas para o trabalho pesado.
Não havendo nenhum filho de branco para alimentar, até misturavam ervas na comida delas para que o leite secasse mais depressa.
O que o padre estava pensando em fazer era receber algumas dessas crianças para morar na escola, como acontecia nos colégios para ricos, e já estava se mobilizando para arrumar mão-de-obra e material para erguer um cômodo no quintal da casa dele. Prometi ajudar com as duas coisas, pagando ao Rafiki e ao Felipe e falando com o Alberto, que doou alguns materiais da loja de ferragens. Não sei se esta doação também foi motivo para outro desentendimento, mas no dia seguinte seu pai chegou em casa dizendo que tinha rompido com o Joaquim, o sócio. Resolveu ir conosco passar alguns dias no sítio, depois de pedir ao doutor José Manoel que cuidasse dos papéis e da divisão do que cabia a cada um dos sócios. Fiquei muito feliz, porque já estava novamente acostumada a dormir com ele, mas a felicidade durou pouco. Na primeira noite no sítio, ele disse que estava programando uma caçada e que voltaria à capital no dia seguinte para combinar com os amigos, e que partiriam sem data para voltar.
Três meses
Logo que ele viajou, peguei você, o Banjokô e a Esméria e fomos ao sítio do Babalaô Ggumfiditimi, para o ritual dos três meses. Naquele dia, tudo o que foi revelado pelo Ifá, e nem foi muita coisa, me deu forças para continuar procurando por você durante todos esses anos. Novamente o babalaô me alertou sobre seu futuro, para que eu fizesse todos os rituais e tomasse todos os cuidados possíveis, porque, por mais adaptados que estejam à vida na terra, os abikus sempre querem retornar ao Orum.
Ele disse que, no seu caso, isso seria uma grande perda, pois você estava agraciado com um grande futuro, sua vida e sua luta muito valeriam para todos os da sua época e todos os que viessem depois. Disse também que você seria um dos mais autênticos filhos de Xangô, sempre guiado pela bravura e lutando ao lado de quem
merecia justiça, usando o seu machado de duas pontas e o poder de atirar raios para castigar os mentirosos, os ladrões e os malfeitores. Eu e a Esméria ficamos tão emocionadas quanto estou agora, ao te falar sobre isso.
Aproveitamos para fazer dois rituais, um para você e outro para o Banjokô, pois o Babalaô Gumfiditimi achou que ele estava mais próximo do Orum do que você, que tinha voltado de lá havia menos tempo. Deixei dinheiro para que ele comprasse um carneiro e o sacrificasse para Xangô, pedindo que a força dele nunca te abandonasse.
Aquele sacrifício era bom também para ibêjis como eu, que, entre outros nomes, também são chamados de crianças do trovão, em homenagem a Xangô. E como prometido, sabendo que eu retornaria para o seu ritual de três meses, o Babalaô Gumfiditimi tinha preparado uma homenagem aos Ibêjis, um caruru que foi servido para todas as crianças do sítio, os filhos dele e o Banjokô. As crianças se sentaram no chão, formando uma grande roda, e se divertiram com a imensa travessa de caruru que foi colocada no meio delas, comendo com as mãos e com toda a liberdade e permissão para se divertirem, lambuzando a si mesmas e aos outros.
Era mais uma festa que um ritual, e assim os Ibêjis também se divertiam por intermédio das crianças, que, no final, ainda ganharam doces e queimados.
Problemas
Enquanto o Alberto estava viajando, o doutor José Manoel mandou entregar no sítio os papéis com as providências da quebra de sociedade na loja de ferragens. Não consegui resistir e pedi ao Fatumbi que desse uma olhada. O Sebastião também entendia daquelas coisas, mas achei que o Fatumbi era mais indicado, por ter descoberto as falcatruas do sócio e por fazer as nossas com o dinheiro da padaria. O doutor José
Manoel tinha feito também um levantamento de todo o dinheiro do Alberto e eu queria saber como e por quanto a padaria entrava naquilo tudo. O Fatumbi disse que estava correto, que como o doutor José Manoel tinha feito o meu contrato com o Alberto e sabia de todos os acertos, naqueles papéis estava declarado que ele possuía apenas metade da padaria, avaliada em quase vinte contos.
Eu não acreditava que tinha oito contos, muito mais dinheiro do que poderia imaginar e mais ainda do que poderia sonhar dois ou três anos antes. O mesmo aconteceu com o Fatumbi, embora tivesse bem menos do que eu, dois contos, que eram a quinta parte da minha metade na sociedade com o Alberto. Mas o Alberto tinha muito mais, quase cem contos de réis, o que dava para comprar pelo menos duzentos e cinqüenta escravos de preço médio para alto. Nós nos divertimos fazendo uma lista de todas as pessoas para as quais daríamos liberdade se tivéssemos aquele dinheiro em mãos. Mas uma coisa me deixou preocupada: as várias saídas não especificadas, mais de vinte contos nos últimos três anos, que não estavam devidamente justificados ou tinham nomes ao lado, alguns dos quais eu já tinha ouvido o Alberto falar. Pelo menos quanto a dois deles eu tinha certeza, portugueses com quem nunca soube que tivesse negócios, e logo me lembrei dos jogos e da quantidade de dinheiro que se podia perder neles.
O Fatumbi tinha voltado a freqüentar as reuniões, feitas com um número menor de pessoas e todas de absoluta confiança, pois estavam com muito medo de serem traídos. Nem mesmo para mim o Fatumbi contou tudo o que sabia. Ele disse que entendia, mas não se conformava com a desunião dos escravos, e que não havia nada a fazer para uni-los se todos não pensassem da mesma maneira. Sempre haveria alguém pensando apenas em si, alguém que acabaria delatando ações que beneficiariam todos os pretos para ficar em boa conta
com os donos ou as autoridades.
Havia muitos problemas a serem resolvidos, como, por exemplo, as pendengas entre crioulos e pretos. Os crioulos eram mais conformados com a situação de escravos, pois recebiam tratamento diferente, talvez por serem da terra e já nascerem ladinos, isto é, falando português. Deste modo, não faziam a mínima questão de se misturarem aos pretos, os de África. Estes, por sua vez, achavam que os crioulos eram esnobes e traidores, que faziam qualquer coisa para conseguir a liberdade.
Entre os pretos havia a idéia de tomar o poder e matar ou escravizar todos os que não fossem africanos, principalmente os crioulos. Mas mesmo entre os pretos havia desunião, quase sempre desde a África, por pertencerem a nações inimigas. Eles não entendiam que no Brasil precisavam se comportar de modo diferente, esquecendo a inimizade e ficando todos do mesmo lado.
Não entendiam que provavelmente essa inimizade tinha sido culpada por se tornarem escravos, pois as nações em África brigavam entre si e os derrotados e prisioneiros eram vendidos para os tangomaus ou para os comerciantes nos portos. Mesmo que não fossem inimigos de guerra, alguns pretos ainda eram inimigos por causa de cultos ou por ciúmes de um grupo que fosse mais valorizado, como era o caso dos muçurumins.
Isso era bem verdade, pois eu já tinha ouvido várias pessoas dizendo que os muçurumins, que alguns chamavam de malês (Malê: corruptela de imole, que em iorubá significa muçulmano, ou preto islamizado, o muçurummim), eram pretos traidores que não se davam com a própria raça por se acharem melhores que os outros, sendo também feiticeiros perigosos para os desafetos. Perguntei ao Fatumbi que eles planejavam e ele não quis contar porque também não sabia de tudo, apenas da parte na qual participaria. Eu então quis saber se existia alguém que sabia de tudo e ele disse que não, que ainda não. Algumas pessoas sabiam mais que
outras, mas ainda não tinha chegado o tempo de eles se reunirem para montar um plano geral.
Percebi que estava em uma posição privilegiada quando o Alberto começou a conversar comigo sobre política, ao voltar da caçada preocupado com o que estava acontecendo em São Salvador em relação aos portugueses. Sempre que eu me encontrava com a Adeola ou com o padre Heinz, eles falavam das fugas ou das maneiras não muito convencionais de se conseguir a liberdade, além das condições em que viviam os pretos na cidade e nos arredores, principalmente os crioulos amigos da Adeola, talvez em paga por estarem usando o casebre do sítio como esconderijo provisório.
Toda semana, pelo menos uma pessoa passava por lá, e todos no sítio já sabiam e ajudavam, menos o Alberto e as crianças. Com o Fatumbi eu participava da vida dos muçurumins, com certeza os que mais admirava. E
sempre que me encontrava com a Esmeralda, ela tinha novidades sobre as associações de escravos que eram fundadas na cidade. E ainda havia o Tico e o Hilário, que estavam prosperando como vendedores, e pelo menos uma vez por semana, quando iam pegar os produtos que vendiam no Recôncavo, davam notícias daquela região.
E não apenas de lá, pois encontravam muitos vendedores ou viajantes de outras regiões nas travessias de barco, e estavam sempre bem informados sobre quase todas as províncias do Brasil.
Esse era o meu privilégio, saber um pouco de tudo. Só quando percebi isso foi que comecei a ligar uma coisa à outra, a pensar melhor na união sobre qual o Fatumbi tanto falava, que um acontecimento, assim como as pessoas, ficava ligado a outro e, mesmo acontecendo em épocas ou lugares diferentes, acabavam influenciando a vida de todo mundo, em todos os lugares. Eu conversava com você sobre isso, mas é claro que você não se lembra, era um bebê. Quando eu estava te dando o
peito, aproveitava para pensar em voz alta sobre os assuntos que não sabia direito com quem conversar, os que ainda [não entendia direito. Parecia que eu me escutava melhor e tudo ficava mais nítido.
Você prestava muita atenção ao som da minha voz, e eu dizia que, quando crescesse, você teria mesmo que estudar leis, como queria seu pai, para ajudar a combater ao lado do nosso povo. Havia um nome que você adorava, não me lembro mais dele, mas era só eu dizê-lo repetidas vezes para você começar a sorrir.
Estava escrito em um patuá que o Tico carregava no pescoço com muito orgulho, o nome de um preto que morava em uma ilha chamada Haiti e que liderou todos os outros pretos em uma rebelião que deu certo. Eles puseram fogo nos canaviais da ilha e mataram os brancos e mulatos, tomando o poder. Perguntei ao Tico se teria coragem de matar pela liberdade e fiquei horrorizada quando ele disse que sim, que por uma boa causa teria. Aquela era uma boa justificativa, como mais tarde vim a saber.
Com o fim da sociedade, o Alberto começou a ficar bastante tempo no sítio, mas inquieto por não ter o que fazer. Ele passava muito tempo com você, carregando sua cesta para quase todos os lugares aonde ia, e eu só tinha medo de que me mandasse abrir o quarto da Oxum, que eu dizia estar sempre trancado para evitar o roubo das ferramentas que o João Badu guardava ali. O
local era um pouco distante de onde ele geralmente trabalhava, que era ao redor da casa, e por isso aquela era uma boa desculpa. Eu disse que, já velho, o João Badu não tinha forças para carregar peso quando ia trabalhar na parte baixa do terreno, e tinha que deixar tudo que precisava por lá mesmo. Cúmplice, o João Badu confirmou, mas o Alberto falou que tinha sido um gasto desnecessário, porque os cavalos estavam lá para carregar peso. Não estávamos brigando, ele falou de uma maneira muito calma, e foi só por isso que tive
coragem de tocar no assunto do dinheiro. Ele não sabia que eu tinha visto os papéis enviados pelo doutor José Manoel, e então não relacionou uma coisa à outra quando eu disse que me desculpasse, que eu nem tinha pensado no uso dos cavalos, mas que também estava estranhando aquele comentário dele, sempre tão generoso no uso do dinheiro.
Ele disse que era verdade, que achava que dinheiro tinha sido feito para se gastar, para aproveitar a vida, e queria vivê-la bem, sem grandes luxos, mas sem se privar do que gostava. Eu perguntei do que gostava e ele respondeu que era de ter uma casa confortável onde não faltasse nada, de comer bem, de beber bem, de se vestir bem e de ter dinheiro para algumas caçadas e outros divertimentos junto com os amigos. Durante minutos a pergunta "O jogo está valendo muito dinheiro?" ficou espoletando na boca, mas não consegui fazê-la, com medo de me denunciar. Haveria oportunidade de voltar a falar sobre aquilo.
O resto do ano foi tranqüilo. Passávamos muito tempo juntos e uma das coisas de que você mais gostava era me ouvir lendo, assim como o Banjokô gostava de ouvir a sinhá tocando piano. E gostava também quando seu pai reunia todos na varanda à noite, abria uma ou duas garrafas de vinho e ficava contando histórias. Fazia isso pelo menos uma vez por semana, geralmente às segundas ou terças-feiras, quando chegava da cidade, pois sempre passava os fins de semana no sobrado. Ele gostava de falar sobre o tempo passado na corte antes de se mudar para a Bahia, das festas, das recepções oficiais em que já tinha estado na presença da família imperial.
Em São Salvador ele também tinha se encontrado com o imperador, no ano de um mil oitocentos e vinte e seis, se a memória não me engana. Eu me lembro um pouco da agitação que foi esse período, com a cidade que já tinha
sido a capital do Império se preparando para receber visita tão importante. Nessa época eu trabalhava nos Clegg e, se não me engano, eles também foram a uma das festas, um beija-mão. Bons tempos aqueles, mas o seu pai andava preocupado com o que chamava de instabilidade política, e chegou a dizer que estava pensando em se mudar com todos nós para Portugal, mesmo não tendo vontade de voltar, mesmo gostando demais do Brasil.
Os portugueses
O ano seguinte, um mil e oitocentos e trinta e um, foi bastante movimentado. O Alberto gostava de conversar comigo sobre a situação política do país, sobretudo a da Bahia, que o afetava diretamente. No início do ano fiquei semanas sem ir à cidade, gostando da vida no sítio, mas também por causa de alguns tumultos. Continuei indo à padaria de vez em quando, sempre acompanhada do Sebastião ou do João Badu, deixando você e o seu irmão com a Esméria. O Alberto disse que tinha desfeito a sociedade na hora certa, porque quase todos os comerciantes portugueses estavam enfrentando grandes dificuldades.
Principalmente na cidade baixa, onde bandos de mulatos e pretos forros desfilavam pelas ruas incitando uma verdadeira guerra contra eles, por causa da influência que eles ainda tinham no governo da província e do Império. Nesses protestos, os pretos, crioulos e mulatos eram incentivados pelos comerciantes brasileiros, que achavam que os portugueses estavam prejudicando os negócios deles. Gritavam que queriam o Brasil para os brasileiros e cometiam muitos atos de violência contra os portugueses, suas famílias e seus negócios. Nossa primeira providência foi mudar o nome da padaria de Saudades de Lisboa para Pão da Terra, na esperança de que não sofresse saques ou depredações. O Alberto evitava sair de casa nos dias em que ficava no sobrado e
proibiu a família do Júlio de dar qualquer informação sobre ele, explicando por alto a situação. Ele e os amigos portugueses se reuniam e trocavam notícias, pensando também em um modo de se defenderem, porque não gostariam de ir embora da Bahia, onde viviam felizes.
Mas os mulatos e pretos queriam que todos os portugueses fossem expulsos do país, e essa idéia tomou corpo com uma notícia chegada de São Sebastião do Rio de Janeiro, que fez o doutor José Manoel aparecer no sítio e perguntar se a sinhazinha podia passar alguns dias por lá; e é claro que respondi que todos seriam muito bem-vindos. De fato, fecharam o solar e apareceram todos, o doutor José Manoel, a sinhazinha, a Carolina, a Mariana e quatro criadas, sendo que na cidade tinham ficado apenas dois criados, encarregados de tomar conta da casa. O doutor José Manoel receava o que podia acontecer à família se descobrissem que o pai dele já tinha sido bastante influente na corte antes de se mudar definitivamente para Portugal, quando das desordens pela independência. Ficaram conosco por cinco meses, tempo de muita conversa entre mim e a sinhazinha e entre os dois homens, que se encontravam em situações semelhantes, embora nenhum deles estivesse envolvido com política.
O imperador D. Pedro I enfrentava grande oposição na Assembléia, na imprensa e nas ruas. Diziam que, depois da morte do pai, ele se preocupava muito mais com os problemas da sucessão no trono de Portugal do que com os problemas do Brasil. No início do ano ele tinha feito uma viagem à província de Minas Gerais, onde falou muito mal de todas as pessoas que eram contra a permanência dele à frente do governo. Quando estava voltando à corte, os patrícios o esperavam com uma passeata de boas-vindas, mas, para azar dele, suas palavras duras tinham chegado na frente, levando o povo a tomar conta da passeata de recepção, em uma verdadeira luta travada a golpes de garrafas entre
brasileiros e portugueses.
Quando o povo da Bahia ficou sabendo disso, também quis demonstrar seu descontentamento, e quase todas as tropas baianas se reuniram no Forte do Barbalho e exigiram a deposição do comandante de armas da província, um português, e a demissão de todos os oficiais nascidos em Portugal. Foi nesse dia que o doutor José Manoel apareceu no sítio pedindo abrigo, e três dias depois já havia mais de oito mil pessoas reunidas em torno do forte, a maioria mulatos e pretos. Tentando acabar com a confusão, o comandante de armas mandou convocar as tropas que ainda permaneciam fiéis, mas já não havia nenhuma, e ele foi obrigado a entregar o cargo a um brasileiro, o visconde de Pirajá, e fugir para uma das fragatas portuguesas que estavam ancoradas no porto.
Em muitas outras fragatas, naus e alguns navios militares já estavam abrigados centenas de portugueses, com medo do que poderia acontecer. Os que permaneceram na terra trataram de se esconder, pois estavam sendo caçados pelos rebeldes, muito bem armados depois do saque ao forte. Muitos portugueses foram mortos e tiveram seus corpos mutilados e exibidos em praça pública, o que alimentou ainda mais os sentimentos de ódio e vingança de toda a população, O Alberto e o doutor José Manoel, e por conseqüência todos nós, estávamos cada vez mais preocupados com o futuro incerto nas terras da Bahia, que ficou ainda pior quando o presidente da província alegou estar doente e pediu licença do cargo. A situação fugiu ao controle e os revoltosos exigiram a expulsão de todos os portugueses que não tivessem esposa ou filhos brasileiros. Nesse aspecto, o doutor José Manoel não tinha o que temer, pois a sinhazinha era brasileira e eles ainda tinham as duas filhas. Mas eu era africana e, para poder ficar, o Alberto teria que admitir que tinha um filho com uma
preta, registrar você e tudo o mais. Isso, com certeza, não era o que ele pretendia.
Com a assinatura do acordo de extradição, as comemorações tomaram as ruas e tudo ficou em paz durante alguns dias. Mas os portugueses, mesmo os casados, continuaram a bordo dos navios ancorados no porto, não confiando nas garantias oferecidas pelo governo quanto à permanência e à segurança deles.
Melhor para eles, pois logo em seguida uma notícia correu a cidade como um raio, a de que um importante comerciante brasileiro tinha sido assassinado por um português. Os brasileiros rodaram a cidade baixa com o morto ensangüentado estendido sobre um sofá, dando início a mais um mata-maroto (Muitas rebeliões mata-maroto já haviam ocorrido nos períodos que antecederam a independência do Brasil e a da Bahia), aos gritos de "os marotos mataram um brasileiro, morram marotos!".
Milhares de pessoas seguiram o cortejo e mataram todos os marotos (Maroto: assim foram apelidados os portugueses),
que
encontraram
pelo
caminho,
arrombando suas casas, invadindo suas vendas e seus armazéns, não poupando nem mesmo os empregados brasileiros, deixando móveis e mercadorias destruídos e jogados no meio das ruas, inclusive alguns corpos sem vida. Os revoltosos estavam muito bem armados e mal-intencionados, e não apenas os portugueses corriam perigo, mas todos os brancos. Aproveitaram a confusão para se vingar dos desafetos, ficando quase senhores absolutos das ruas. Soldados de outras províncias foram enviados para ajudar a conter a ira, mas sem muito sucesso, pois a situação só começou a se acalmar algum tempo depois, e sozinha, quando já não havia mais o que destruir e, pouco a pouco, os principais líderes foram presos e enviados para julgamento na corte.
As opiniões
Foi nesse breve período de calmaria que ficamos sabendo de boa parte dos acontecimentos, com notícias que foram chegando por intermédio de uma ou outra pessoa com as quais tivemos contato, O Alberto e o doutor José Manoel, acompanhados do Fatumbi, do João Badu e do Sebastião, foram até a padaria e viram que estava tudo em ordem, funcionando, mas não como antes, tendo que fechar as portas ao menor sinal de agitação. Foram também ao solar da sinhazinha, ao sobrado do Alberto e ao escritório do doutor José Manoel;
voltaram
cheios
de
notícias
e
nos
tranqüilizaram, contando que a parte alta da cidade não tinha sido muito afetada, embora na parte baixa as coisas tenham sido muito mais graves do que imaginávamos.
Os dois estavam preocupados, mas riram bastante ao contar que se fizeram de mudos durante todo o tempo, para que o sotaque não fosse reconhecido. Aquele foi um período que as pessoas aproveitaram para se visitar, trocar notícias e saber dos conhecidos. Muitos dos amigos do Alberto e do doutor José Manoel estavam desaparecidos, fugidos ou mortos. O Fatumbi disse que na loja do Manoel Calafate e na do alufá Ali estavam todos bem. Para sossego da Esméria, que os imaginava metidos nas confusões, o Tico e o Hilário também apareceram depois de terem ficado todos aqueles dias impossibilitados de deixar o Recôncavo. A Adeola e o padre Heinz nos visitaram em um domingo, quando passamos o dia inteiro conversando e cada um falou sobre os fatos de que tinha tomado conhecimento.
O Tico e o Hilário disseram que assim que as notícias sobre o que estava acontecendo na capital chegaram ao Recôncavo,
o
povo
também
se
manifestou,
principalmente em Cachoeira e Santo Amaro. Em Cachoeira, as ruas foram tomadas por pessoas de todas as cores e importâncias, que atacaram e prenderam vários portugueses. Na Câmara foi instalada uma
comissão para receber denúncias e listar os portugueses que deveriam ser expulsos, e qualquer pessoa podia denunciar, por qualquer motivo. Em Santo Amaro também aconteceu o mesmo, e os meninos disseram que muitos comerciantes estavam com o nome na lista porque em uma determinada época se negaram a vender fiado a algum brasileiro. Qualquer motivo servia. As ruas foram tomadas por pretos e soldados armados que arrombaram as casas dos portugueses, espancaram os moradores e roubaram tudo o que havia de valor. O
mesmo fizeram com as lojas, até que todas tivessem sido violadas e saqueadas.
O padre Heinz falou principalmente da situação em que estava vivendo o povo da Bahia, muito castigado por uma seca que já se prolongava havia muitos anos e que se estendia também pelas províncias vizinhas. Não tendo como plantar e colher, muitos agricultores eram obrigados a vender ou libertar seus escravos, pois não tinham como sustentá-los. Livres, os ex-escravos rumavam para a capital, à procura de trabalho ou atrás do sonho de embarcar para a África ou para o sul do país, principalmente para Minas Gerais. Como não encontravam trabalho na capital e viam que o sonho era muito mais caro e difícil do que imaginavam, nada restava a não ser mendigar pelas ruas ou roubar. Eram esses pobres-diabos que também engrossavam as revoltas, miseráveis que os organizadores mandavam na frente porque não fariam falta se morressem.
Havia também o problema das moedas de cobre falsificadas que ainda circulavam na província desde a época da independência, agravando a situação do comércio. O governo tinha prometido fazer a troca e tirá-las de circulação, mas não conseguia. A quantidade de dinheiro falso estava era aumentando, e ninguém mais queria fazer qualquer negócio que envolvesse dinheiro vivo, com medo de ficar sem o que deveria receber e sem a mercadoria vendida. O padre Heinz
disse que também era difícil a situação dos soldados, que recebiam um soldo miserável e que, por isso, preferiam estar ao lado de quem lutava por melhores condições de vida, os escravos, já que do outro lado não davam a mínima importância aos problemas deles.
A conversa durou horas, com todos querendo dar opiniões e sugestões para que o impasse fosse resolvido, mas acredito que as presenças do Alberto e do [doutor José Manoel nos impediram de expressar a verdadeira opinião, contra os portugueses. Os dois eram a prova de que o sentimento não se estendia a todos os portugueses, mas aos que estavam no poder, qualquer tipo de poder, defendendo os interesses do reino ou do próprio bolso. Havia também os interesses dos pretos e crioulos, tão numerosos que podiam decidir uma causa, [
na condição de aliados ou contrários. A Adeola começou a falar sobre isso mas o padre a interrompeu, e achei que fez certo, por ser um assunto nosso, que não interessava aos brancos. Por mais que o Alberto, o doutor José Manoel e a sinhazinha fossem bons, também eram brancos, tinham nascido livres e com dinheiro, e nunca entenderiam nossas necessidades.
De fato, a situação era complicada e envolvia muitos interesses que não coincidiam, e ainda havia os ingleses, de quem só vim a saber mais tarde, conversando com o Fatumbi. Na segunda-feira seguinte àquela conversa, ele e o Sebastião foram até a cidade comprar todo o alimento que conseguissem, porque os homens acreditavam que os problemas estavam controlados somente por um tempo, mas longe de serem resolvidos.
Aproveitei a trégua para ir até a padaria dar uma olhada no estoque de produtos e ver o que poderia ser levado para casa, para que pelo menos não nos faltassem pães, bolos e biscoitos. Tínhamos sorte de ter a bica de água no quintal, porque até mesmo água estava difícil de conseguir na cidade, dependendo da região. Tínhamos
também uma boa horta com verduras e legumes, e o pomar sempre carregado com uma ou outra espécie de fruta. O Alberto comprou galinhas e porcos de um sítio vizinho, assegurando a carne, e uma vaca para garantir o leite das crianças. Ele e o doutor José Manoel também conseguiram sacas de milho, arroz e feijão, e nos preparamos para ficar no sítio durante um bom tempo.
Eles ainda passaram no banco e pegaram uma grande soma de dinheiro, caso a fuga fosse necessária. E foi esse dinheiro que me valeu dois dias depois, quando já tinha me esquecido de um assunto muito importante.
O João Badu avisou que havia um homem estranho rondando o sítio, e logo pensei que fosse ladrão ou alguém querendo pouso e um prato de comida. Pedi a ele que ficasse atento e que, quando visse a pessoa novamente, e se ela estivesse sozinha, era para perguntar o que queria. Foi o que ele fez, e o homem queria falar comigo, pois tinha um recado da Adeola.
Pedi que o João Badu mantivesse segredo e o levasse para me encontrar no casebre, o que servia de esconderijo. Foi uma surpresa ouvi-lo dizer que poderiam mandar o Lourenço para a África em uma embarcação que sairia do cais dentro de dois dias, mas eu precisava decidir naquele exato momento.
Eu não tinha mais pensado naquilo desde a primeira conversa com a Adeola, depois do encontro com o Lourenço, e por causa de toda a agitação dos últimos dias ainda não falara com a Esméria, para saber o que ela achava. Eu tinha para mim que era melhor ele voltar a viver em África, como ele sempre falava quando ainda estávamos na fazenda, e onde ninguém precisava saber o que tinha acontecido. Eu disse que podiam seguir com o plano, mas que o homem que ia embarcar de maneira alguma poderia saber que eu estava envolvida naquilo, e que, aliás, nem deveria saber para onde estava indo.
Que dessem um jeito de embarcá-lo e pronto, que só a bordo ele soubesse do destino. Disse também que era
para levá-lo até o navio nem que fosse carregado, mas tomando muito cuidado para não machucá-lo.
O homem disse que tudo bem, que do jeito que estava a situação, ninguém prestaria atenção a um preto sendo carregado. Para que não pegassem a pessoa errada, pedi a ele que procurasse o Belchior, em meu nome, e expliquei a morada. Ele então falou quanto ia custar e me lembrei do dinheiro do Alberto, que pediria ao Fatumbi para repor com dinheiro da padaria antes que ele desse pela falta. Paguei um pouco mais que o dobro do necessário, pedindo que o resto fosse entregue ao Lourenço, com a instrução de que o usasse para recomeçar a vida junto dos seus, ou então pagasse uma passagem para qualquer outro lugar. A bordo, ele provavelmente desconfiaria que eu estava por trás daquilo, mas já seria tarde para voltar ou recusar. Eu esperava que ele entendesse o gesto e soubesse aproveitar, nem que fosse guiado pela raiva que sentia por mim. Quando vi o homem sumindo na estrada, resolvi não pensar mais naquilo, nem para saber se tinha agido certo ou errado. Eu tinha feito o que achava melhor, e o Lourenço que tratasse de julgar e seguir os vários caminhos que a situação permitia.
Políticas
Era bom ter a companhia da sinhazinha Maria Clara, pois nos dávamos bem, e ainda havia a Mariana e você, com a diferença de apenas um mês de idade, o que nos unia ainda mais, sob os mesmos cuidados. Vocês eram crianças muito tranqüilas, que só não gostavam de ficar sozinhas. Bastava colocarmos vocês onde houvesse movimento, gente conversando e circulando, que não davam o menor trabalho. O que não era nada difícil, já que pelo menos vinte pessoas moravam no sítio naquela época. A Carolina vivia atrás do Banjokô e ele cuidava muito bem dela, até mesmo brigando com o Tiago e o Mateus para defendê-la, para que ela sempre fosse
incluída nas brincadeiras. A Esméria escava feliz com suas meninas juntas, e fazia muito gosto que nossos filhos a chamassem de avozinha. Mas também dizia para não colocarmos mais filhos no mundo enquanto aquela confusão não tivesse passado de vez. Ela tinha razão, porque o pior ainda estava por vir.
Certo dia, o Alberto e o doutor José Manoel voltaram da Graça, onde tinham ido visitar um amigo, com a notícia da abdicação do imperador D. Pedro I. Desde aquela noite das garrafadas ele não tinha conseguido controlar a situação na corte e suspendeu os direitos constitucionais por alguns dias. Mas o povo não aceitou o golpe nem as tentativas de negociação, e se uniu sob o comando de um general brasileiro. D. Pedro I reuniu as tropas oficiais e quis avançar contra o povo, mas foi abandonado por seus soldados em meio a uma multidão que exigia a sua renúncia.
Foi o que se viu obrigado a fazer, abdicando em favor do filho, D. Pedro II, um menino ainda, mas brasileiro. Foi essa a história que chegou à Bahia, e uma surpreendente confusão começou a tomar conta da cidade. Toda a população saiu às ruas para comemorar o que achava ser o fim da influência portuguesa no Brasil e, por conseqüência, na província. Do sítio, ouvimos as salvas de canhões nos fortes e nas naus de guerra ancoradas na baía. No meio de toda aquela alegria, o povo deixou de sentir raiva e ciúmes dos portugueses, tomou todos os barcos disponíveis e foi até os navios convidá-los a voltarem para suas casas. Aquilo foi motivo de comemoração para todos nós, mas os homens alertaram que estavam achando tudo muito estranho, que alguma coisa ainda estava para acontecer, pois a partir daquele momento, sem o imperador D. Pedro I, é que a verdadeira guerra ia começar, a política.
O Alberto e o doutor José Manoel tinham razão quanto às confusões, pois, animados pela facilidade com que o
querer do povo tinha prevalecido na corte, o Partido Federalista achou que era hora de tomar o poder na Bahia. Convocado por três homens, um chamado João Primo e dois outros que já eram bastante conhecidos, o barão de Itaparica e o Cipriano Barata, o povo começou nova campanha. Os três tinham manifestado a intenção de, no poder, alforriar todos os escravos nascidos no Brasil e preparar o país para a alforria de todos os outros, os africanos, dentro de poucos anos.
Eles distribuíram armas para a população e tentaram conseguir o apoio dos soldados, prometendo pagamento de melhores soldos e liberação de três dias de pilhagem.
Quando o movimento começou a tomar força, novamente os portugueses tiveram que se refugiar nos navios. O presidente da província não demorou a interferir de maneira bastante dura, conseguindo prender os três organizadores e mandá-los a julgamento na corte. Mas a idéia das rebeliões federalistas estava semeada, principalmente entre os militares descontentes com o soldo, e a paz não durou muito tempo. Um dos principais batalhões se amotinou e tomou o Forte de São Pedro, fazendo uma série de reivindicações, logo apoiadas pela população.
Acho que foi a partir daquele momento que o Alberto começou a pensar na idéia pela qual pagaríamos muito caro. Os rebelados queriam novamente a expulsão de todos os portugueses que não estivessem casados com brasileiras, a demissão das principais autoridades portuguesas da província e liberdade para os que tinham sido presos acusados de pilhagens e de assassinatos ocorridos nas revoltas anteriores.
Isso da expulsão dos portugueses já tinha sido aceito pelo governo na rebelião anterior, mas nenhuma providência fora tomada, talvez atrapalhada pela agitação com a renúncia do imperador e a interferência dos membros do Partido Monarquista Constitucional,
que saíram em defesa dos portugueses. Algumas semanas depois a rebelião foi considerada vitoriosa, com o perdão aos presos políticos e a renúncia do presidente da província e do comandante de armas, e o movimento se deu por satisfeito, com a expulsão dos portugueses sendo mais uma vez protelada. Deve ter sido negociada, não ficamos sabendo, mas o Alberto achava que os monarquistas constitucionais tinham preferido sacrificar dois de seus homens, o presidente e o comandante, a provocar maior instabilidade política e econômica.
Tinham apenas agido em defesa dos próprios interesses, já que muitos deles dependiam do dinheiro dos comerciantes portugueses.
Depois, com o que nos contou o Sebastião, ficamos sabendo que havia problemas também com as tropas rebeladas, que já não estavam mais tão unidas. O
Sebastião tinha conversado com o mestre Agostino, o barbeiro vizinho da padaria, que tinha um filho mulato, brasileiro, ocupando cargo de média importância em um dos batalhões envolvidos. O mestre Agostino estava doente de preocupação, com medo de que alguma coisa acontecesse ao filho, que era uma das duas únicas coisas valiosas que tinha na vida, fruto do amor com uma preta que tinha morrido havia alguns anos. O mestre tinha outro filho, estudante de medicina, sobre o qual falarei mais tarde. Mas, naquela época, o filho militar disse que os quartéis estavam repletos de insatisfação em todas as patentes.
Nas patentes mais altas havia desentendimentos entre os profissionais de [carreira, nascidos em famílias de militares, e os outros, membros de famílias aristocratas da Bahia, que obtinham cargos por meio de favores políticos, mesmo sem conhecimento ou experiência. Os dois grupos não se misturavam, [ e desde as guerras da independência, nos anos de um mil oitocentos e vinte e dois e vinte e três, brigavam entre si pelo controle das tropas. Davam ordens diferentes aos soldados, que não
sabiam a quem obedecer, acabando com a disciplina e a organização. Esses soldados eram das classes mais pobres da população e recebiam soldos que mal permitiam viver, e já estavam cansados de não terem a quem obedecer ou com quem reclamar, visto que seus superiores não se entendiam. Era até por isso que os batalhões formados por mulatos, principalmente, eram tão dados às rebeliões que reivindicavam melhores condições de vida.
Além dos soldados nascidos na província da Bahia, as tropas ainda contavam com soldados de outras províncias, que se sentiam infelizes por estarem longe de suas casas e vivendo na miséria, sem poderem contar com o apoio da família. O comportamento desses soldados mudava muito, pois em tempos de paz brigavam com os baianos, mas bastava estourar uma rebelião para que todos ficassem mais unidos que nunca, baianos e forasteiros, em torno do descontentamento que atingia todos eles, independentemente de onde haviam nascido ou da cor que tinham. Eram todos recrutas, nem sempre por opção, pois muitos tinham sido obrigados a ingressar nas tropas, onde recebiam uma péssima alimentação, além de sofrerem inúmeros castigos físicos. Não eram escravos, embora vivessem em condições semelhantes às de um cativo. Mas a situação era ainda pior para os pretos. Havia tropas separadas para brancos, para mulatos e para pretos, geralmente crioulos libertos desprezados pelos outros soldados.
Mesmo desorganizados, a solução partiu dos militares.
Depois de controlada a última rebelião, aquela em que o presidente e o comandante de armas tiveram que renunciar e os presos políticos foram soltos, um novo comandante de armas começou a fazer uma série de modificações no corpo militar da província. Criou uma nova guarda municipal mais bem remunerada e treinada, com jovens da classe um pouco mais
favorecida, de famílias de militares ou de pequenos comerciantes ou artesãos, a quem interessava manter a ordem para que pudessem sobreviver e prosperar nos seus negócios, pois em épocas de crise o comércio praticamente parava. Aos poucos, todas as tropas seriam renovadas, até chegarem a um equilíbrio entre os recrutas novos, mais conservadores, e os antigos, que queriam agitação. Centenas de soldados foram demitidos e se juntaram aos desempregados que andavam pelas ruas sem encontrar trabalho. Antes que novos movimentos se tornassem impossíveis e sentindo-se acuados, os antigos soldados que ainda restavam resolveram se amotinar novamente no Forte de São Pedro, sob o comando do batalhão de Artilharia. Dessa vez não fizeram reivindicações políticas, somente em relação às condições de trabalho, principalmente por causa dos constantes atrasos no pagamento dos soldos.
Foi aí que os senhores de engenho quiseram interferir, oferecendo ao comandante de armas uma tropa de mil homens, que acabaria de uma vez por todas com as desordens. Mas o comandante preferiu resolver à sua maneira, pagando os soldos atrasados e dispensando os rebeldes.
Sentindo-se ofendidos pela recusa, os senhores de engenho foram reclamar com o presidente da província, mas acabaram convencidos de que a situação tinha sido resolvida a contento e com inteligência, pois a força nem sempre é a mais indicada das soluções. E foi assim que tudo permaneceu em relativa paz, pelo menos nos dois ou três anos seguintes. Para dizer a verdade, eu não sabia de que lado o Alberto estava, pois, com o correr dos acontecimentos, ele parecia a favor de um ou de outro. Dizia que queria apenas viver no país que tinha escolhido, e nisso eu acreditava. Desculpe eu me alongar tanto nestas rebeliões, mas não podia deixar de falar sobre um assunto que ocupou as nossas conversas no sítio durante quase um ano e meio, e que também foram fundamentais para uma decisão do seu pai que afetou
nossas vidas para sempre.
Tempos difíceis
Já estávamos na metade do ano quando a família da sinhazinha voltou para o solar, e durante muitos dias a falta deles foi sentida por todos nós. Eu estava acostumada com a casa cheia, com os cuidados para que todos estivessem bem e com as boas horas de conversa.
O Alberto também sentia isso, tanto que de uma hora para outra dizia que não agüentava aquele silêncio, pegava o cavalo e ia para o sobrado. Eu não gostava, por me sentir ainda mais sozinha e por não saber se realmente a situação já estava segura para ele poder andar pela cidade. A padaria ainda não tinha voltado a vender como antes, e eu tinha dúvidas se isso seria possível algum dia. Os produtos mais caros não tinham saída porque a população estava sem dinheiro, e mesmo as pessoas mais ricas evitavam gastos desnecessários, pois se falava em um longo período de crise. O Alberto queria demitir as duas filhas da Clarice, a Maria José e a Maria Cássia, mas fiz diferente.
Disse a elas que não precisavam ir trabalhar, pois de fato não eram mais necessárias, mas pedi ao Fatumbi que continuasse pagando metade do salário até que arrumassem novo emprego. Tínhamos um bom contrato para fornecimento de pães a uma das tropas que foi cancelado, e a perda precisou ser compensada com a contratação de mais vendedores como o Aprígio, que iam de casa em casa. Os roubos e assaltos também eram cada vez mais constantes, e eu já não me atrevia a ir à cidade sozinha, pois as ruas e estradas menos movimentadas estavam cheias de ladrões à espera de dinheiro, armas, roupas, comida ou qualquer objeto que pudesse ser vendido.
As fugas eram difíceis porque os donos de escravos e a polícia estavam mais atentos. Foi proibida qualquer
aglomeração de pretos que não fosse por motivo de trabalho, e o governo estava pedindo a ajuda da população para fiscalizar os escravos que andavam pela cidade. Qualquer escravo pego sem o bilhete de permissão ou fora do horário permitido ia para a cadeia, e o dono só o tirava de lá com o pagamento de multa e de uma taxa de serviços de captura estadia. Alguns escravos tinham fugido para participar das rebeliões, e como elas não tinham dado em nada que atendesse aos interesses deles, e a vida na cidade ou nos matos estava quase impossível, muitos queriam voltar para antigos donos. A Adeola contou que o padre Heinz era muito procurado para conversar com os donos desses escravos arrependidos. O escravo fugia e ficava com medo de voltar para casa e receber um castigo muito duro, e então precisava de alguém importante ou por quem o dono tivesse consideração para que servisse de portador do pedido de perdão. Muitas vezes era isso mesmo que o dono queria, perdoar sem castigar, porque, dependendo do castigo, o escravo ficava impossibilitado de trabalhar durante alguns dias, o que aumentava ainda mais o prejuízo já causado pela ausência dele. Mas, ao mesmo tempo, se não castigasse, era tido como alguém sem autoridade e que não merecia respeito.
Muitas vezes o senhor era visto como um pai que tinha que castigar o filho desobediente e mal-comportado, e o apadrinhamento vinha a calhar para todas as partes envolvidas: o padrinho, que se sentia honrado com a consideração ao pedido. O senhor, que tinha o escravo de volta e menos rebelde, pois levava em conta bondade do perdão sem castigo, e o próprio escravo, que podia voltar atrás. Era uma atitude não muito bem-sucedida.
Servindo de padrinho, o padre Heinz visitava muitas propriedades e ficava sabendo de vários casos de pura crueldade contra escravos, que, na maioria das vezes, fugiam por não suportarem maus-tratos. Mas como a vida de fujão tinha sido pior, acabavam voltando para se submeterem novamente, até a próxima fuga.
A Adeola me contou alguns desses casos, e me dispus a ajudar com dinheiro para a compra de cartas de alforria ou para o recém-libertado se manter por um tempo ou usar no aprendizado de um ofício. O Fatumbi me ajudava a pegar dinheiro da padaria, e eu já nem me importava mais em repor ou em esconder do Alberto. As vezes ele gastava, em uma única noite, muito mais que o valor de um escravo, e a consciência não me pesava ao pensar que o dinheiro que eu pegava estava sendo muito bem gasto.
Percebi que o Fatumbi estava se ausentando bastante da padaria, pois passou a freqüentar quase diariamente o solar dos Clegg, em conversas com o bilal Sali e o Ajahi.
Essa é outra história longa e tenho quase certeza de que você a conhece. Mas preciso contar para continuar seguindo a ordem dos acontecimentos, pois isso me ajuda a lembrar de todos os detalhes da nossa história.
O Fatumbi foi se inteirando de tudo aos poucos e, conforme ia sabendo, me contava.
O Mister Clegg trabalhava para o Foreign Office, que não era bem uma empresa, mas um tipo de representação do governo inglês que cuidava dos interesses deles em vários países, e que naquela época estava bastante empenhado em acabar com o tráfico de escravos no Brasil. A sede do Foreign Office era na corte, mas o Mister Clegg estava na Bahia porque o tráfico entre São Salvador e a África era muito maior do que o feito com São Sebastião do Rio de Janeiro. Ele coletava informações e mandava para a Inglaterra, que queria encontrar um jeito de fazer com que o governo brasileiro cumprisse os acordos assinados com Portugal ainda antes da independência.
O Fatumbi achava que o Brasil ia sair das mãos dos portugueses e cair nas mãos dos ingleses, o que era até bom para os pretos, que tinham os ingleses como aliados, embora não oficialmente. Mas os ingleses
achavam que os escravos poderiam ajudar no cumprimento de tais acordos se tivessem conhecimento deles, e viam nas rebeliões uma boa maneira de pressionar. O Ajahi e o bilal Sali mereciam a confiança do Mister Clegg, que, embora não contasse tudo a eles, quando recebia visitas que tratavam de assuntos relacionados ao tráfico de escravos, deixava a porta aberta para eles ouvirem.
E também não se importava que eles recebessem uma ou outra visita de pretos para comentar sobre o que tinham ouvido. Desde que fossem pretos forros, pois não queria confusão com os senhores donos de escravos.
Pelo menos não mais do que a simples tentativa de cumprimento das leis já provocava.
O tráfico
Pelo que me lembro, os tratados tinham começado quando o príncipe regente fugiu de Portugal com a corte por causa dos franceses e foi morar em São Sebastião, no ano de um mil oitocentos e oito. Depois que pararam com o tráfico, os ingleses esperavam que o mundo inteiro fizesse o mesmo, e no ano de um mil oitocentos e dez conseguiram dar o primeiro passo nesse sentido.
Acontece que os portugueses e os brasileiros também vendiam escravos para colônias africanas e americanas pertencentes a outros países, como a Inglaterra e a França, e, com o tratado, Portugal se comprometia a negociar somente com as próprias colônias. Mas isso ficou apenas no papel, com os navios brasileiros e portugueses tomando mais cuidado para não serem capturados nos lugares onde não podiam circular. Se capturados, seus comandantes inventavam desculpas nem sempre aceitas pelos ingleses, que ficavam com toda a mercadoria aprisionada, como era a lei dos mares. Descontentes, e mesmo sabendo que estavam errados, os comerciantes brasileiros e portugueses de
São Salvador, e as pessoas que trabalhavam para eles, começaram a hostilizar os ingleses.
A Inglaterra então resolveu intensificar as pressões para o fim do tráfico de um modo geral, e o governo brasileiro disse que isso era impossível, pois, sem os escravos, o Brasil deixaria de existir. Mas, alguns anos depois, os brasileiros e portugueses foram quase obrigados a assinar um novo tratado, pelo qual ficava proibido o tráfico em toda a África ao norte da linha do Equador.
Era aquela região que, na época, fornecia o maior número de escravos para o Brasil, e onde eu tinha sido capturada e embarcada. Mas o que Portugal queria era apenas ver perdoada uma grande dívida que tinha com a Inglaterra, uma das condições do acordo assinado, e que, mais uma vez, não foi cumprido.
Os comerciantes da Bahia protestaram, dizendo que isso afetava o comércio de ouro e produtos que vendiam para aqueles países da África, como o tabaco, o algodão e o anil. A Inglaterra respondeu que tal comércio poderia continuar, mas, os navios que fossem para aqueles lados e as pessoas que trabalhavam neles, podendo inclusive ser escravos, deveriam portar passaportes portugueses assinados no lugar de origem e no de destino. Os comerciantes arranjaram maneiras de driblar a vigilância e também de se safarem caso fossem apanhados, usando passaportes falsos e bandeiras de países que não estavam envolvidos no acordo, e um novo tratado se fez necessário. Na verdade, não era bem um tratado, mas algumas regras incorporadas ao último tratado.
Com elas, a Inglaterra não poderia mais aprisionar navios portugueses ou brasileiros ao sul do Equador, mesmo
se
estivessem
carregados
de
escravos
embarcados ao norte, a não ser que a perseguição tivesse começado antes de cruzarem a linha divisória.
Foram também instalados tribunais, formados por
portugueses, brasileiros, ingleses e africanos, para julgar os casos mais difíceis ou duvidosos. Se o navio fosse condenado, o casco e a carga seriam vendidos em leilões com renda dividida entre a Inglaterra e Portugal, e os escravos encontrados a bordo seriam enviados como trabalhadores livres para o país de origem do tribunal que julgasse a sentença, geralmente para uma colônia inglesa. Depois de trabalharem por quatorze anos, acho, os pretos poderiam permanecer onde estavam ou ser enviados de volta à África, à custa do país onde tinham ficado. Os comerciantes da Bahia foram novamente se queixar ao príncipe regente, que sugeriu que cumprissem o acordo, mas não quis se envolver. É claro que eles não obedeceram, pois mesmo correndo o risco de terem os navios apreendidos o tráfico com a região da Costa da Mina era lucrativo demais para ser abandonado. Um único tumbeiro que cruzasse os mares sem ser interceptado pela Royal Navy compensava a possível perda total de pelo menos dois ou três que não tivessem a mesma sorte. Às vezes até de mais, dependendo do tamanho da embarcação e do número de escravos a bordo.