Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 8 de 12 · parte 3/5

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Um Defeito de Cor

Capítulo seis

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Como estava me sentindo bem e a Esméria assegurou que a criança não nasceria antes desse prazo, partiu tranqüilo, para caçar com amigos em algumas matas do interior da província. Nem senti o tempo passar, pois estava trabalhando muito naqueles dias, acompanhando a obra de ampliação da padaria, que queria ver pronta antes de dar à luz. Com a compra do novo terreno, a cozinha foi ampliada até encostar nos cômodos reservados para escritório e para morada do Jongo e do Adriano, que se transformaram em depósito de matéria-prima. O terreno dos fundos era bem maior que o da frente, e já abrigava uma casinha muito simples e velha, mas grande, que foi deixada como nova. O poço foi mantido, e uma nova casa de banho foi construída de parede com o escritório, que ainda esperava pelo Fatumbi.

Fui à casa da sinhazinha levar um presente e conhecer a filha, que era a mesma coisa que se ver a Carolina quando bebê. A sinhazinha disse que o nome dela, Mariana, era em homenagem à freira dos versos, para que a menina fosse inteligente e tivesse facilidade para lidar com as palavras, mesmo isso não sendo o esperado

em uma mulher. O doutor José Manoel perguntou pelo Alberto, de quem eu não tinha notícias desde a partida, mas fiquei sabendo que os dois costumavam se encontrar em casas de conhecidos, onde alguns homens se reuniam para jogar cartas, beber e conversar. O

Alberto não me contava essas coisas e fiquei sem jeito de confessar que não sabia, pois isto devia acontecer nas noites que ele passava na cidade. Às vezes eu achava que nada ia dar certo entre nós, que seria melhor terminar o quanto antes, e por isso não tinha planejado ficar pejada,!

Mas tudo mudou quando eu soube que estava esperando um filho dele, e me dispus a fazer tudo para que desse certo, para que esse filho tivesse um pai.

Mais segredos

Quando as reformas estavam quase prontas, levei um susto ao chegar à padaria para ajudar no caixa e ver o Fatumbi atrás do balcão. Ele me olhou como se nada tivesse acontecido, como se não tivesse desaparecido por mais de quatro meses, e só comentou que minha barriga já estava bem grande, que eu não deveria mais andar a cavalo. Eu tinha passado a ir à padaria a cavalo, pois as pernas estavam inchadas e reclamavam de carregar o peso da barriga. Evitei montar apenas nos três primeiros meses, ouvindo a explicação da Esméria sobre a criança ainda não estar muito presa dentro de mim.

Eu queria saber o que tinha acontecido, mas o Fatumbi disse que no dia seguinte passaria no sítio para uma conversa, pois tinha acabado de chegar, estava cansado e ainda queria dar uma olhada nos livros antes de ir para casa. Pedi que me dissesse pelo menos de onde estava chegando, mas ele se recusou, dizendo que era uma longa história e que precisava contá-la desde o início. No dia seguinte fiquei esperando por ele, que

apareceu depois do almoço e contou uma história que nem era tão longa assim, ou da qual contou apenas as partes principais. Disse que desde que a sinhá tinha vendido os negócios do sinhô José Carlos, ele pertencia a um senhor com fazendas no Recôncavo, onde tinha morado por dois anos antes de voltar para São Salvador.

Foi comprado em leilão por muito menos do que valia e, um ano depois, quando conseguiu empréstimo com os amigos para comprar a carta ao mesmo preço pelo qual tinha sido adquirido, o novo dono não quis vender, dizendo que ele valia pelo menos três vezes mais.

O homem aceitou o dinheiro como entrada, mas disse que a liberdade só seria concedida quando o restante fosse pago. Ao receber de mim o dinheiro da venda do ouro e das pedras, o Fatumbi comprou um pretinho para treinar e deixar na mesma função que ocupava, achando que assim seria mais fácil se ver livre. O pretinho tinha aprendido o serviço e até já estava trabalhando na fazenda, e o novo dono só esperava que ele adquirisse mais prática para libertar o Fatumbi. Mas nesse meio tempo o pretinho fugiu, fazendo com que o Fatumbi perdesse o dinheiro e o tempo investidos na preparação dele, e ainda tivesse que passar todos aqueles dias no Recôncavo, pondo as contas em ordem. Essa tinha sido a causa do desaparecimento, e naquele momento ele estava em São Salvador só por um tempo, mas dentro de um ou dois meses teria que voltar para o Recôncavo, Candeias.

Eu não sabia o que dizer, principalmente porque o Fatumbi parecia calado. Perguntei se o pretinho sabia ser propriedade dele e não do senhor, ter fugido daquela maneira, sem consideração alguma. Ele disse que sim, que quando se tratava da própria liberdade, não havia consideração, cada um dava de si, e ao mesmo tempo isso era bom e não era. Comentei sobre os pretos rebelados que mataram outros pretos, escravos iguais a eles, só porque não quiseram participar da rebelião, e o

Fatumbi disse que não era a primeira e nem seria a última. Para livrar a própria pele ou para se colocar em boa situação com seus donos ou com as autoridades, muitos pretos denunciavam aqueles que estavam tramando fugas, ou roubos, ou rebeliões.

Eu quis saber como ajudar, mas o Fatumbi disse que não havia nada a fazer, que eu o deixasse continuar trabalhando na padaria quando fosse possível e pagasse o que achava justo, que isso já seria de grande ajuda.

Perguntei de quanto dinheiro ainda precisava, e ele disse que não era problema meu, que eu não devia me preocupar. Mas me preocupei, e na tarde seguinte fui procurá-lo na padaria, pedindo para revisar as contas com a desculpa de que não tinha idéia da quantidade de dinheiro que entrava e saía. Foi uma boa surpresa, e eu disse que ele podia retirar do lucro todo o dinheiro de que precisava, que ficava sendo um presente meu, um segredo nosso. O Fatumbi não queria aceitar, mas falei que era quase uma ordem, inventando na hora que estava pensando em convidá-lo para ser padrinho do meu filho, e que para essa incumbência eu queria alguém livre, para dar sorte à criança. Sei que não foi uma desculpa convincente, e ele também sabia, mas percebeu que eu estava me esforçando para ajudá-lo.

Ele disse que só aceitava se fosse um empréstimo, quase trezentos mil réis, que era muito dinheiro, mas fazia questão de pagar, podendo ficar sem receber a parte a que teria direito na padaria até que estivesse tudo certo.

Eu não aceitei, pois tinha certeza de que não faria falta.

Além do mais, eu não tinha a intenção de realizar tudo de uma maneira, digamos, correta, e precisava de um cúmplice. O Alberto não se preocupava em saber das contas, tinha o dinheiro dele, que eu não sabia quanto era, mas imaginava ser muito, e com certeza não sentiria falta dos trezentos mil réis, se soubéssemos fazer aquilo direito. Quando ele quis argumentar

Que aquilo não era certo, que não se prestaria a tal trabalho, eu fiz com que se lembrasse da própria frase sobre ser cada um por si, e era exatamente isso que estaria fazendo, com o meu consentimento. Confesso que me senti um pouco arrependida depois, principalmente porque percebi o desconforto do Fatumbi, mas foi bom que a primeira vez tivesse acontecido com ele, de quem eu realmente gostava.

Tragédias

A segunda vez aconteceu poucos dias depois, e já foi mais fácil. A Adeola me procurou dizendo que à noite chegaria ao casebre uma encomenda especial e, se fosse possível, gostaria que eu também desse atenção especial. Ela e os amigos estavam ajudando a esconder uma mulher que tinha matado os próprios filhos em condições que me comovem ainda hoje, quase setenta anos depois, embora eu não me lembre do nome dela.

Justo eu, que tanto me orgulho de ter boa memória. Mas ainda a vejo como se fosse naquele dia, vestida com uma roupa tão rasgada que não conseguia esconder os ossos, que chamavam tanta atenção quanto os poucos dentes, os magros pés deformados saindo por baixo de uma saia amarrada na cintura com trapos sujos, e maçãs do rosto que mais pareciam cotovelos. No fundo de duas covas, os olhos de alguém que parecia ter morrido sem saber.

Chegou quase carregada por dois homens que já sabiam o caminho e a deixaram no casebre, desaparecendo depois que me viram na varanda, como se naquele momento acabasse a responsabilidade deles. Entrei, pedi à Esméria que fizesse um bom prato de comida e levei para ela, achando que deveria estar com fome.

A mulher fazia um esforço enorme para machucar o arroz com feijão e [encostar na farinha, e levou pelo menos quinze minutos para repetir o gesto três vezes, para depois empurrar o prato e limpar os dedos na saia.

Perguntei se [não queria a carne e ela respondeu que não com um movimento da cabeça, [aceitando a cuia com água. Eu não sabia o que fazer, se a deixava sozinha ou se fazia companhia, mesmo que não fosse para conversar. Mas fiquei com medo quando os olhos, que antes não se tinham fixado em nada, não saíam mais da

[minha barriga que denunciava o parto para dentro de poucos dias.

Disse a ela [que se precisasse de alguma coisa podia ir até a casa, chamando por mim ou pela Esméria, mas no íntimo desejei nunca mais me encontrar com ela, pelo menos enquanto ainda estivesse pejada. Assim que entrei no quarto, rezei para que Nana olhasse pelo filho que eu levava na barriga, para que os olhos da mulher não tivessem causado nenhum mal a ele, e contei à Esméria como me sentia. Ela também achou que eu não deveria mais ver a mulher, pois nunca saberíamos como ela reagiria, se estava boa da cabeça ou não.

A mulher tinha sido encontrada pelo padre Heinz em um sítio além de Brotas, onde era procurada pelo dono e pela polícia por ter matado os três filhos. O padre contou que o dono dela costumava maltratar os escravos sem motivo algum, e por isso muitos viviam fugindo ou se matando, o que fazia com que a raiva dele aumentasse e fosse descontada nos que restavam. Os filhos da mulher tinham sete e cinco anos, mais um bebê de oito meses, e os quatro tinham passado mais de quinze dias trancados em um cubículo sem luz, sendo alimentados apenas com uma caneca de água de arroz por dia.

E isso tudo porque a mulher tinha deixado uma vasilha de leite ferver e se espalhar pelo fogão, fazendo o dono acusá-la de não trabalhar direito para dar atenção aos filhos, que por isso também foram castigados. Andando pelo tal sítio, o padre Heinz viu pretos com correntes nos pés e feias queimaduras pelo corpo, e saiu perguntando pelas redondezas sobre o paradeiro da

mulher. Por sorte tinham conseguido fugir com ela, que, depois de ter matado as crianças apertando o pescoço delas enquanto dormiam, falhou ao tentar se matar também, cortando o pescoço com a caneca de lata na qual recebia a água de arroz. Sangrou mas não morreu, e quando acordou estava abobada, talvez arrependida do que tinha feito aos filhos, talvez maldizendo o deus que não quis levá-la para junto deles.

Quando a Adeola me contou tudo isso, perguntei se não existia mais ninguém da família e ela disse que a mulher tinha mãe viva, também escrava do mesmo dono, mas que a pobre da velha não pôde fazer nada. Eu quis saber quanto valia uma velha, e tudo dependeria de como ela estava de forças, mas pelo tipo de tratamento que devia receber, não poderia valer muita coisa, talvez uns duzentos mil réis, não mais que isso. Dias depois, quando a mulher tinha sido retirada do sítio, pedi ao Fatumbi que separasse duzentos e cinqüenta mil e levasse para a Adeola, para que ela providenciasse a compra ou a fuga da velha, como achasse melhor.

O Fatumbi quis protestar novamente, mas eu estava decidida, e, se ele não fizesse aquilo, eu mesma faria, para depois me entender com o Alberto. Ele já tinha voltado da caçada e eu tinha certeza de que não daria pela falta do dinheiro, pois raramente punha os pés na padaria. Caso isso acontecesse, eu diria que tinha sido assaltada na estrada do sítio, lugar que ele sabia ser perigoso, já tendo me chamado a atenção para que não saísse sozinha. Por causa do mato ao redor, muitos pretos fugidos ou mesmo brancos desocupados e ladrões se escondiam por ali, emboscando as pessoas.

Surpresas O Alberto voltou da caçada com uma novidade, a compra de um sobrado, pois não se sentia mais à vontade no cômodo da dona Isaura. Disse que, como já tinha um lar

no sítio, o cômodo parecia muito pequeno e impessoal.

Dias depois de me contar sobre a compra, ele apareceu no sítio mais cedo que de costume, usando uma cadeirinha e acompanhado de outra, vazia, para que eu e a Esméria fôssemos à cidade ver do que o sobrado precisava para se tornar um segundo lar. A Esméria reclamou, dizendo que eu não estava mais em condições de sair de casa, prestes a dar à luz. Mas como eu me sentia bem, disse que queria ir, pois estava muito curiosa para conhecer o lugar. Ele tinha avisado que era um sobrado simples, que talvez precisasse de algumas reformas, mas que também era amplo, arejado e bem localizado.

Ficava na Rua Bângala, espremido entre dois outros sobrados agradáveis, mas tão antigos quanto o do Alberto, com as paredes descascadas. Assim que chegamos, essa foi a primeira coisa que eu disse que ele tinha que fazer, providenciar uma pintura nova, que nem precisava ser nas cores fortes e alegres dos sobrados vizinhos, mas que precisava estar nova, como se desse boas-vindas ao dono. Por dentro estava uma verdadeira imundície, e algumas rachaduras dividiam espaço nas paredes com marcas de mãos, de pés e de móveis arrastados ou encostados nelas.

O mesmo acontecia com o assoalho de madeira, riscado pelo arrastar de pés e manchado com sombras de móveis e tapetes. A Esméria não gostou nada da cozinha, onde a sujeira era ainda maior, com placas de gordura e poeira pelos cantos e uma enorme mancha preta na parede ao lado do fogão a lenha. Havia também outros defeitos, como a falta de maçanetas e trancas nas portas, e também de lamparinas, vidros quebrados nas janelas e mais outras coisas que não consegui ver direito daquela vez, porque a Esméria tinha razão. Quando comecei a subir a escada, reparando que o mármore de alguns degraus estava quebrado, um líquido quente escorreu pelas minhas pernas.

Foi tudo muito rápido, e quando entramos no quarto onde o Alberto indicou que havia uma esteira, depois de dizer que ia à procura de cadeirinhas que nos levassem de volta para casa, eu disse que não daria tempo. As dores não estavam muito fortes, mas eu sentia a criança pressionando, forçando a entrada no mundo. A Esméria me disse para não tentar segurar e pediu que o Alberto ficasse comigo enquanto ela ia dar uma olhada na vizinhança, ver se alguém poderia arrumar panos limpos e água fervente. O Alberto estava apavorado, e até gostei quando ele perguntou se eu podia ficar sozinha enquanto ia à procura de uma aparadeira. Eu disse que sim, que me sentiria mais segura tendo uma aparadeira por perto, mas na verdade queria mesmo era me livrar dele, que estava me deixando nervosa.

Ao contrário do nascimento do Banjokô, eu não gritei nem chorei; era como se aquele filho estivesse sendo puxado de dentro de mim por mãos muito habilidosas.

Assim que fiquei sozinha e com mais liberdade para abrir bem as pernas e aliviar a pressão, senti a cabecinha querendo sair. Fiz um pouco de força e a carne perto da racha começou a se rasgar sem dor alguma. Eu me sentia leve e tranqüila, como se tivesse fumado liamba, mas era muito mais forte que isso. Era como se uma pessoa estivesse cantando uma música muito bonita e suave ao mesmo tempo em que me embalava, fazendo com que eu ficasse com sono, o mesmo efeito causado pelo cheiro da minha mãe ou da minha avó. Comecei a sorrir, e estava quase tendo o meu filho sozinha naquele quarto vazio e estranho quando a Esméria voltou! com alguns panos pendurados no ombro e um tacho de água quente.

Ela nem teve tempo de perguntar pelo Alberto; apenas se agachou entre as minhas pernas e aparou meu filho, dizendo que era um menino, perfeitinho. Isso tudo eu já sabia, mas queria ver e pegar, e foi essa a cena que o Alberto viu quando entrou no quarto todo esbaforido, mandando que a aparadeira se apressasse! O único trabalho dela foi cortar o cordão, enquanto eu pedia que fizesse aquele trabalho muito bem-feito, pois não queria saber de filho com umbigo saltado. Acho que tudo não demorou mais de meia hora, e então perguntei ao Alberto se ainda dava tempo de voltarmos para casa antes de escurecer. Queria passar a primeira noite com meu filho na minha casa, na minha cama, e a Esméria achou que estava bem, pois eu até já tinha parado de sangrar.

Idas e voltas

Às vezes o mundo parece estar tão cheio de gente que alguns precisam partir para que outros tenham lugar.

Foi isso que aconteceu aos vinte e um dias do mês de junho do ano de um mil oitocentos e trinta. Eu nem consegui ficar triste quando chegamos ao sítio e o Banjokô correu para contar que a Zolá tinha morrido assim que saímos. Ele ficou feliz quando viu o embrulho nos meus braços, perguntando se era algum presente que eu tinha comprado para ele, como a sinhá fazia. Isso da sinhá ele não disse, mas foi como se eu tivesse ouvido. Respondi que era um presente sim, muito especial, o irmãozinho que tinha acabado de nascer. Mas ele só se interessou pela criança por alguns segundos, e depois correu para a casa do João Badu.

Pedi que a Esméria encarregasse a Malena de manter os meninos longe da Zolá, pois não queria o Banjokô perto de mortos, com medo de que ele se lembrasse do trato com os abikus. O Alberto já tinha tomado o filho do meu colo e entrado em casa, tão fascinado que nem deve ter escutado sobre a morte da Zolá. Por sorte, o Sebastião estava chegando àquela hora da padaria e se encarregou de tomar as providências para o funeral, que fiz questão de pagar. Foi tudo o que pude fazer naquele momento, sem condições de pensar em morte alguma. Aliás, nem na vida que acabava de chegar eu tinha pensado direito.

Eu nem parecia que tinha dado à luz, pois estava me sentindo muito bem, apenas um pouco cansada. Assim que entrei no quarto, onde o Alberto estava sentado na cama com o filho no colo, foi que me dei conta do acontecido e de que precisava me deitar. A Esméria voltou pouco tempo depois e não comentou nada sobre a Zolá; sabia que não estávamos com vontade de falar no assunto. O Alberto pediu que ela temperasse uma água porque queria dar o primeiro banho no filho, uma tradição na terra dele. Com muito cuidado, pegou o menino e o colocou dentro da bacia, onde já tinha jogado uma moeda de ouro que, para minha surpresa, comprara especialmente para a ocasião. Com mais cuidado ainda, jogava água sobre o corpinho dele e dizia que o banho de ouro era para dar sorte, que a moeda traria riquezas, não só em dinheiro, mas em tudo de que o filho precisasse.

Foi uma cena bonita, que me comoveu tanto que quase não consegui ficar de pé ao lado dos dois. Assim que terminou o banho, a Esméria me mandou para a cama e acabou de dar os últimos cuidados ao meu filho, que só foi para o meu colo depois de vestido, direto para o peito. Parecia o Banjokô um pouco menor, e tinha os olhos fechados. Foi a primeira coisa em que reparei, depois de me lembrar que não era de bom agouro uma criança nascer de olhos abertos. Perguntei à Esméria se o Banjokô já tinha ido para a cama e ela saiu para ver, me deixando sozinha com a criança e o Alberto, que, depois de olhar para nós dois na cama, com lágrimas nos olhos disse que aquela era a noite mais feliz da vida dele, e que eu era a responsável. Ele não falou, mas sei que aquele foi o jeito que encontrou de dizer que me amava.

Depois de um tempo observando a força com que o filho sugava meu peito, o Alberto comentou que tinha grandes planos para ele, que quando fosse maior estudaria em Portugal e voltaria doutor. Era uma idéia

da qual eu gostava muito, um filho doutor, um bacharel em leis, como o marido da sinhazinha. A Esméria voltou dizendo que o Banjokô já estava dormindo e que no dia seguinte ele veria o irmão direito, mandando que o Alberto também procurasse um lugar para dormir; ela passaria aquela noite comigo e a criança porque poderíamos precisar dela para coisas que os homens não entendiam.

O Alberto aceitou depois de muito reclamar, e acho que naquela noite nem dormiu, como eu. Ficou na varanda, bebendo vinho e provavelmente fazendo planos para o filho. Eu fiquei no quarto, com meu filho deitado ao meu lado e a Esméria sentada em uma poltrona ao pé da cama, e pensei tanto naquele filho que nasceu, tanto quanto no outro, que dormia tranqüilo no quarto ao lado.

Eu achava que não precisaria me preocupar com o filho do Alberto, porque tinha um pai que realmente o queria bem, mas o destino do Banjokô me preocupava. A sinhá tinha planos para que ele estudasse, para que continuasse aprendendo música, para que soubesse se comportar como alguém importante. Com a mudança para o sítio, eu tinha me esquecido disso e deixado meu filho só lá fazendo o que bem quisesse. Tinha certeza de que era feliz, muito mais do que no solar, mas eu precisava começar a pensar no futuro dele.

Às vezes, por causa da companhia dos meninos, eu o pegava fazendo molecagens parecidas com as do Tico e do Hilário na época da fazenda, e tinha até desaprendido a comer usando talheres. Eu e a Esméria brigávamos, mas era só virarmos as costas que ele voltava a usar os dedos. E também estava ficando mal-educado, tratando mal os meninos, com ares de filho da dona da casa, como se fosse melhor que os dois. Era, é claro, mas não precisava agir daquele jeito. A Esméria tentava tirar a minha culpa dizendo que aquilo era sobra da educação dada pela sinhá, mas eu sabia que era meu dever fazer

com que ele se comportasse de modo diferente, que não tratasse os meninos como se fosse dono deles, dono das brincadeiras. Resolvi cumprir os dias de resguardo e depois passar mais tempo cuidando dos meus filhos e da casa, dando mais atenção ao Alberto e a mim também.

Eu me achava bonita, mas podia me enfeitar mais, usar roupas melhores, ter o costume de passar água de cheiro e óleo pelo corpo, ou mesmo ori, que fazia a pele da minha mãe ficar tão bonita. A pele de preto fica bem com ori.

Naquela noite também pensei muito na minha avó, na minha mãe, no Cokumo, e principalmente na Taiwo, pois tinha a sensação de que ela estava comigo durante o nascimento, unindo sua parte da alma à minha, como antes de morrer. Pensei também no nome que daria ao bebê. Havia um nome no ar que eu ainda não tinha conseguido entender, e se o Alberto insistisse em dar o nome de branco de Luiz, eu concordaria, mas também daria outro nome, um nome africano, um nome de abiku.

Eu precisava arranjar uma maneira de ir com ele até a casa do Babalaô Gumfiditimi, pois o batizado teria que ser feito até o nono dia depois do nascimento, para evitar que o filho morresse antes do pai. O Alberto tinha boa saúde, embora eu achasse que às vezes bebia demais, que isso poderia ser ruim para ele. Mas, mesmo que continuasse tendo saúde, o filho morrer antes do pai quebra a ordem da vida, atropela o destino. E esse antes" tanto poderia ser o dia anterior ao dia da morte do pai como qualquer outro, até mesmo dias depois de nascer. Era melhor garantir, mesmo porque eu pressentia outro abiku.

Todo o funeral da Zolá foi feito sem a minha participação, e até hoje não sei se ela teve um enterro católico ou africano. Três dias depois, chamei o João Badu e disse a ele sobre meus sentimentos; ele agradeceu pela bonita despedida que eu tinha

proporcionado à mulher e nunca mais falamos sobre o assunto. O Alberto não foi trabalhar nos dias seguintes, mandou dizer qualquer coisa ao sócio e não saiu de perto de mim e do filho, fazendo todas as minhas vontades e se oferecendo para inventar as que eu não tinha. O Banjokô, como era de se esperar, sentia ciúmes, e o Alberto ficava tenso quando ele chegava perto do irmão, com medo de que pudesse machucá-lo.

Para evitar problemas, pedi à Esméria que, enquanto eu estivesse na cama, desse atenção especial ao Banjokô e mandasse o João Badu até a cidade para comprar um brinquedo, um presente, qualquer coisa, que eu queria entregar dizendo que também me preocupava com ele, que ainda gostava dele do mesmo jeito. Ele nem ligou para o que falei, mas adorou o brinquedo, um cavalo de pau no qual não deixava os meninos encostarem a mão.

Dei mais dinheiro e o João Badu foi novamente à cidade e voltou com mais dois cavalos iguais. Achei que talvez aquela já fosse uma maneira de começar a dizer ao meu filho que ele era igual aos amigos,! embora eu soubesse que não, que havia uma grande diferença, mas que eu tentaria não deixar parecer tão grande pelo menos enquanto ainda eram crianças.

Os três se divertiam o dia inteiro, pois adoravam cavalos, mas só podiam andar nos de verdade quando o João Badu estivesse por perto, e ele andava muito quieto desde a morte da mulher. Devia estar triste também porque o período de nojo que ela merecia não existiu, com a alegria que todos sentiram pela chegada da criança. Mas ele comentou mais tarde com a Esméria que tinha sido melhor assim, que a novidade ajudou a suportar a tristeza e a saudade. Foi bom que o Sebastião estivesse de volta ao sítio, morando lá, pois os dois homens se davam muito bem e faziam companhia um ao outro, conversando. O Sebastião só foi ver meu filho dois dias depois do nascimento, e ficou muito emocionado, saudando o menino com oríkis.

Muitas também foram as visitas que o Alberto recebeu na sala, todo orgulhoso, oferecendo os caros charutos do Recôncavo e licores ou vinhos importados, o que a visita preferisse. Mesmo se fossem o Tico e o Hilário, o Fatumbi, o padre Heinz e a Adeola, o Aprígio ou os funcionários da padaria, o Jongo, o Adriano, a Clarice, a Lourdes, a Maria José e a Maria Cássia. Todos levavam presentes, coisas simples, mas dadas de bom coração e compradas com os próprios salários, o que era motivo de orgulho. Gostei bastante de um São Benedito dado pelo Jongo, pois os da terra dele eram muito devotos daquele santo, por ser um um santo preto. Os que não puderam comparecer também mandaram presentes, como foi o caso da sinhazinha e do doutor José Manoel, que também estavam com criança nova em casa, e da família do alufá Ali, que se fez representar pelo Fatumbi. A Claudina mandou dizer que estava surpresa, que havia muito tempo que não tinha notícias minhas e recebia aquela, de que eu tinha um filho. O mestre Agostino, o barbeiro vizinho da padaria, mandou uma cesta de frutas e uma flauta de madeira que ele mesmo tinha feito para o Banjokô, o que muito me encantou, por ele ter se lembrado do menino.

Como era de se esperar, os amigos do Alberto não apareceram porque não sabiam de nada: nem que ele tinha tido um filho e muito menos que vivia de portas adentro com uma preta. Muitos deles também deviam ter as suas, apesar de serem casados com mulheres brancas.

A cerimônia

No oitavo dia depois do nascimento, o Alberto se levantou cedo e disse que precisava ir até a loja de ferragens para ver como o sócio estava se saindo. Ainda consegui falar com o Sebastião antes que ele saísse para a padaria e pedi que, no caminho, mandasse uma cadeirinha me pegar no sítio com a maior urgência. Dei

aos carregadores a direção a seguir e pouco antes das onze horas estávamos frente a frente com o Babalaô Gumfiditimi. A Esméria tinha ido comigo, não sem antes dizer que achava arriscado sairmos de casa daquela maneira, mas eu disse que iria de qualquer jeito, mesmo sozinha, o que bastou para vencer a pouca resistência dela, que estava com muita vontade de participar da cerimônia.

Fiquei com medo de o Babalaô Gumfiditimi não estar em casa, já que íamos sem avisar, mas foi a primeira pessoa que vi quando chegamos ao portão, cuidando dos canteiros de ervas. Ele me recebeu de uma maneira muito calorosa e logo suas mulheres e filhos quiseram saber da criança. A Trindade, sua esposa que tinha sido companheira do padre Heinz, estava novamente pejada.

Ela e uma outra, da qual não me lembro o nome. A cerimônia foi feita do mesmo jeito que a do Banjokô, e meu

segundo

filho

também

ganhou

presentes

improvisados das mulheres e dos filhos do Babalaô Gumfiditimi, algum dinheiro, dois pássaros, uma tartaruga e duas galinhas, que agradaram demais ao Banjokô.

Eu ainda não tinha decidido os nomes, e a Esméria me ajudou a escolher pelo caminho, sendo que ficaria para ela o papel desempenhado pela Nega Florinda na cerimônia de nome do Banjokô. O ritual foi igual ao que eu já tinha presenciado, e todos festejaram muito porque meu novo filho chorou quando a água jogada para o alto respingou no rosto dele. Isso significava que ele queria muito viver, e estava gritando isso para o mundo e para as pessoas ao seu redor do jeito que sabia. Mas, ao contrário do Banjokô, não se moveu para apanhar o colar de cauris, o que significava que não teria riquezas.

Não dei muita importância a isso, pois achei que, mesmo se eu viesse a faltar, o Alberto nunca desampararia aquele filho, que tratava como a coisa mais importante

na vida. Então, como já deve ter percebido de quem estamos falando, a você foi dado o nome de Omotunde Adeleke Danbiran, sendo que Omotunde significa "a criança voltou", Adeleke quer dizer que a criança será

"mais poderosa que os inimigos", e Danbiran, assim como o apelido do Banjokô, é uma homenagem à minha avó e aos seus voduns, principalmente Dan.

O Babalaô Gumfiditimi disse que os nomes tinham sido muito bem escolhidos e me contou que as crianças nascidas depois da morte de um irmão são o tipo mais perigoso de abiku, o mais temido, porque são crianças substitutas, aquelas que vêm para tomar o lugar dos que tinham morrido. Isso faz com que tenham uma forte ligação com o morto, precisando ser muito mais vigiadas para que não voltem rapidamente ao Orum, Enquanto o Banjokô era um abiku omi, um abiku da água, aquele que nasce antes do tempo, você é um abiku feéfé, um abiku do vento, dos que têm um nascimento inesperado e não planejado. Antes de começar a cerimônia, o Babalaô Gumfiditimi tinha dito que você é de Xangô, o orixá da justiça, e eu comentei que seu pai queria fazer de você um doutor em leis, o que era muito apropriado.

Por isso, durante a cerimônia, além da apresentação de todas as coisas que tinham feito parte da cerimônia do seu irmão, ele também apresentou uma pena e um livro, para que você soubesse sempre fazer bom uso deles.

Omotunde

Apesar de o Babalaô Gumfiditimi ter dito que os filhos substitutos voltam com mais facilidade para o Orum, eu estava muito tranqüila em relação a você, muito mais do que em relação ao seu irmão. Primeiro, porque a cerimônia estava sendo realizada dentro do tempo, e depois porque eu sentia que você era especial, como depois se confirmou no jogo do opelê. O Ifá disse que você viveria o suficiente para ser um grande homem e que talvez a minha missão mais importante fosse guiar e

instruir você no caminho do bem e da justiça. Disse também que via longos caminhos se abrindo à sua frente, para muito longe,« que a sua vida nunca seria das mais fáceis, apesar de muito produtiva, e que você jamais ganharia muito dinheiro. Você seria admirado e respeitado, um dos primeiros entre os seus, pelos quais lutaria mais do que por você mesmo. Não imagina o orgulho que senti de você, ainda tão pequeno nos meus braços e com um destino tão grandioso.

Eu quis logo saber qual tinha sido o seu trato Babalaô Gumfiditimi disse que era estranho, pois você tinha tratado de voltar a Orum quando não comesse mais açúcar. Perguntei se era para te dar mais açúcar, e ele respondeu que não, mas para prestar atenção quando você parasse de comer ou quando começasse a comer demais, apenas isso, prestar atenção. o Babalaô Gumfiditimi achou que aquilo não estava muito claro, e resolveu providenciar mais alguns rituais, sendo que ele mesmo faria um ebó no dia seguinte. Recomendou também que eu não me esquecesse da cerimônia dos três meses.

Perguntando ao Ifá, o Babalaô Gumfiditimi me falou do ritual, e eu quis que fosse feito para o Banjokô também.

Ele concordou, embora não soubesse se surtiria efeito, visto que estava sendo indicado para você. Ele ia usar um pedaço de tronco de bananeira, roupas e gorros tingidos com osun (Ossun: pó vermelho obtido da árvore Ptecocarpus erinacesses, usado em diversos ritos e também em tinturaria) e bordados com guizos e búzios, e mais algumas comidas, acho que acará, canjica, frutas, mel, um pombo, um galo e ervas sagradas. Tudo isso seria montado como se fosse um carrego para a morte, para acalmá-la, embrulhado em um pano branco e solto nas águas de um rio. E ainda foram feitas muitas oferendas com doces para os abikus, para que eles ficassem contentes e não insistissem em fazer com que você e seu irmão se lembrassem dos tratos.

O Babalaô Gumfiditimi tomou a data do nascimento de vocês dois e disse que nesses dias faria ebós e outros rituais, até que completassem dezenove anos. Depois de tudo conversado e planejado, teve festa improvisada, e por isso mais simples que a do Banjokô, mas estava muito mais feliz por fazer as coisas certas, pela presença da Esméria que não estava preocupada em ter que voltar cedo para casa, com medo de ser descoberta pela sinhá. Rimos, conversamos e bebemos, e foi bom proporcionar aquele momento à Esméria, que se sentiu muito à vontade entre as mulheres do Babalaô Gumfiditimi, principalmente as mais velhas, a Monifa e a Fayola..

Durante o almoço no quintal, fiquei sabendo de muitas histórias sobre os Ibêjis, mas gostei especialmente de uma sobre um reino onde haviam dois príncipes ibêjis que davam muita sorte aos súditos. Todos os problemas eram resolvidos por eles em troca de doces, queimados e brinquedos. Os ibêjis faziam suas traquinagens e eram inquietos, e um dia estavam brincando ao lado de uma cachoeira quando um deles caiu em suas águas e morreu afogado.

Os que viviam no reino ficaram muito tristes por causa da morte do príncipe, e o ibêji sobrevivente não tinha ânimo para fazer mais nada, nem brincar, nem comer, nem ajudar as pessoas. Vivia chorando a morte do irmão, pedindo a Orumilá que o levasse para perto dele.

Orumilá acabou ficando com pena do pequeno ibêji e o chamou para o Orum, deixando na terra duas imagens de barro. E desde então, todos que precisam de ajuda e confiam nos Ibêjis deixam oferendas aos pés de imagens parecidas. Eu tenho a minha, talhada em madeira que sempre honro com flores para a Taiwo e doces e orações para os Ibêjis. O Babalaô Gumfiditimi disse que da próxima vez que eu voltasse também faríamos uma oferenda para eles.

Antes de voltarmos para casa, pedi notícias da Nega Florinda e disseram que ela ainda estava em São Luís, com a Agontimé. Lembrando agora daquele dia, eu me pergunto se você ainda usa seu nome africano, Omotunde, pois somente eu e a Esméria te chamávamos por ele, e mesmo assim quando estávamos a sós. Para que continuasse apenas entre nós, dissemos a você que aquele era seu nome sagrado, que não deveria ser dito a ninguém. Você gostava de ser chamado de ô-madê, e depois só de Madê, como falava o seu irmão. Achamos muito engraçado quando o Banjokô falou isso pela primeira vez, porque ô-madê quer dizer "menino" em iorubá, e era assim que o papagaio da sinhá o chamava.

Ele deve ter achado que assim eram chamados todos os meninos, não sei. Seu pai também não reclamou, mesmo porque nunca soube o que significava.

Falamos que era um nome qualquer que seu irmão tinha inventado e ficou por isso mesmo, e às vezes ele também te chamava assim. Será que você ainda se lembra do seu irmão? O que terá acontecido a você durante todos esses anos? Por mais que o destino tenha sido bom comigo, tenha me dado mais filhos que sempre me orgulharam, nunca te esqueci. Estou guardando comigo todas as cartas trocadas, para que você saiba de tudo que fiz na esperança de te encontrar, meu pequeno Omotunde.

Acertos de contas

Depois de ter o dinheiro, o Fatumbi ainda precisou de algum tempo para acertar tudo com o dono dele, pois tinha se comprometido a treinar alguém para substituí-lo, o que fez durante mais de um mês, todas as manhãs.

Depois disso ele começou a ajudar o Alberto, que, na volta à loja de ferragens após o seu nascimento, andava preocupado com os negócios, achando que estava sendo roubado. Apenas com uma rápida olhada nos números, o Fatumbi

confirmou

a

suspeita,

dizendo

que

provavelmente isso já acontecia há algum tempo, levando em conta o montante que a loja vendia e o que era registrado no livro-caixa.

A cidade de São Salvador estava crescendo, e uma loja de ferragens era um bom negócio. Arriscado também, porque era um dos primeiros lugares onde os pretos que tramavam uma rebelião iam roubar tudo o que pudesse servir de arma. Depois dessa descoberta, em vez de se fazer mais presente, o Alberto disse que precisava de um tempo para pensar e se dedicou à reforma do sobrado, o que foi motivo de muitas festas por lá com os amigos.

Quem me mantinha informada era o Sebastião, pois o Felipe e o Rafiki, os mesmos que tinham trabalhado no sítio e na padaria, estavam reformando também o sobrado. Mas ele me garantiu que não havia mulheres, apenas cinco ou seis homens que passavam a noite bebendo e jogando cartas e perdendo ou ganhando muito dinheiro.

O Alberto ficava muitas noites sem dormir no sítio, embora aparecesse todos os dias para te ver.

Aproveitando a ausência dele, resolvi dar teto ao Fatumbi, que passou a dormir no mesmo quarto que o Sebastião. O Alberto gostou da [ idéia, porque o Sebastião e o João Badu já estavam velhos, e o Fatumbi, apesar de também não ser tão novo, pelo menos aparentava, o que poderia impor algum respeito em caso de precisão, em uma casa onde moravam muitas mulheres e crianças. Algum tempo depois que saí do resguardo, fui visitar a sinhazinha, e ela disse que o doutor José Manoel também tinha comentado sobre as noites de jogos no sobrado, que já estavam ficando famosas entre os ricos, reunindo um número cada vez maior de pessoas. Foi quando comecei a me preocupar com o Alberto, com o que ele pensava em fazer da vida,

[principalmente sobre aquela sociedade.

Em um fim de tarde, o Aprígio apareceu no sítio com um recado do Belchior, dizendo que o saveirista conhecido dele já tinha o paradeiro do Lourenço, e conversei com a Esméria sobre o que fazer. Eu tinha muita vontade de vê-lo novamente e perguntar se era mesmo verdade tudo de que me lembrava, [porque às vezes tinha dúvidas. Era uma lembrança tão cruel que eu lutava contra a verdade dela.

A Esméria achava que seria melhor ela mesma ir vê-lo, já que ele gostava muito dela. Talvez fosse até mais fácil descobrir como ajudá-lo, talvez ele aceitasse dela uma ajuda que não aceitaria de mim. Mas o combinado começou a mudar quando o Alberto comentou que precisava da minha ajuda para arrumar criadas para o solar, que já estava pronto. Eu, que já não era mais tão necessária na padaria depois da chegada do Fatumbi e estava cansada de ficar à toa no sítio, achei que aquela era uma boa oportunidade para passar alguns dias na cidade, apreciar o movimento, rever os amigos.

Comentei com o seu pai que gostaria de pintar o sítio e que o cheiro da tinta não faria bem a você, e que por isso poderíamos todos passar alguns dias na cidade e voltar quando o trabalho estivesse terminado.

Ele não gostou muito da idéia, argumentando que o sobrado não estava mobiliado, e eu disse que assim era melhor ainda, pois eu também poderia comprar tudo que estava faltando. Ele não teve como recusar, e dois dias depois estávamos deixando o sítio, que durante duas semanas foi ocupado apenas pelo Felipe e pelo Rafiki, que ficaram tomando conta de tudo enquanto faziam o serviço, e pelo Fatumbi e o Sebastião, que apareciam apenas para dormir. Quando comentei com o Banjokô que íamos passar alguns dias na cidade, ele pediu para levar o Tiago e o Mateus, e como desde a morte da Zolá o João Badu parecia precisar mais da companhia dos meninos do que os meninos precisavam da companhia dele, foi também. A Esméria eu nunca pensaria em deixar para trás, e como nós duas não conseguiríamos cuidar da casa e de toda aquela gente, a Malena era

indispensável.

Transportar tudo que precisávamos foi como fazer uma mudança, roupas e artigos de casa para nove pessoas.

Foi só daquela vez que pude prestar atenção no sobrado e, como estava todo reformado, parecia outra casa, da qual gostei bastante. A rua era tranqüila, e assim que chegamos, a primeira providência foi arrumar lugares para todos dormirem, com a compra de esteiras e de um cesto para você, pois havia apenas a cama do Alberto e uma mesa com cadeiras na sala, usada para os jogos. A Esméria distribuiu as pessoas pelos quartos e fez questão de levar você para dormir com ela, para que eu e seu pai ficássemos sozinhos. Ele estava feliz, mas parecia preocupado, e eu imaginava que podia ser com os negócios. Mas hoje acho que era com a nossa presença naquele sobrado que ele tinha comprado para receber os amigos e dar festas. Mesmo assim, passamos noites maravilhosas, nossos corpos estavam com saudade um do outro, depois do período de resguardo e do tempo que eu tinha passado sozinha no sítio. Na manhã seguinte à nossa chegada, eu o incentivei a ir até a loja de ferragens enquanto fui à Barroquinha falar com a Esmeralda sobre os novos criados. Eu gostaria de uma família, pois era bom ter homem em casa, e ela me indicou uma formada pelo pai, o Júlio, a mãe, a Anastácia, uma filha de dezesseis anos chamada Manoelina e um filho de doze, o Sabino. O menino e a menina trabalhavam na rua, ele como engraxate e ela como engomadeira, ofício aprendido com a mãe, que não mais o exerceria, para ficar cuidando apenas do sobrado.

O Júlio e a Anastácia não faziam parte da confraria, eram conhecidos de uma amiga da Esmeralda, e ficaram muito felizes quando ofereci trabalho e moradia, pois tinham que deixar a loja onde moravam, que seria vendida. A Manoelina e o Sabino, os filhos, não foram contratados e continuariam cada qual com seu trabalho, mas dormindo no sobrado, a única condição imposta

pelos pais, que queriam os filhos perto deles. Eram de uma vila no interior e estavam na capital havia quase sete anos, para onde tinham ido à procura de trabalho. : O Alberto gostou da escolha, mas não queria nenhum deles dentro da casa, no que eu concordei com ele.

Havia um porão que poderia ser reformado, e quando mostrei o espaço para o Júlio, ele mesmo se encarregou do serviço. Eu disse que pagaria à parte pelas reformas que deveriam fazer do porão um lugar descente para se morar, com privacidade para todos, entrada de ar fresco e claridade.. O Júlio agradeceu e disse que estava ótimo, que o lugar era até mais espaçoso que o cômodo na loja onde moravam, e enquanto cuidava das reformas, ele e a Anastácia trabalhavam apenas durante o dia. Ele nas obras e ela cuidando da casa, ajudada pela Malena e pela Esméria, que me contou da curiosidade deles em saber se eu era mesmo a sinhá. Eu achava engraçado aquele tipo de dúvida, e tinha passado pelo mesmo problema com as empregadas da Esméria, que só acreditaram nas minhas ordens depois de me verem com o Alberto, decidindo tudo em conjunto e não apenas acatando ordens.

Assim que tive tempo, fui até a loja do alufá Ali, onde todos estavam muito alegres porque a Euá e a Mariahmo, a segunda esposa, estavam pejadas, com os nascimentos regulados para a mesma época. Não encontrei a Claudina e marquei outro dia para passar por lá e conversar com ela, pois queria contar tudo que tinha acontecido comigo. Ela sabia de muito pouco, pois eu tinha vergonha de falar sobre o Alberto. Acho que estou tão desacostumada de falar com você que às vezes chamo o Alberto de Alberto, e às vezes de seu pai. Não vou mais consertar porque ainda tenho muita coisa para dizer e não quero perder tempo com isso, que nem é tão importante. No domingo, quando o Alberto saiu para encontrar os amigos e disse que não tinha hora para voltar, resolvi ir até a casa do padre Heinz. Eu tinha me

encontrado com a Adeola no ponto dela, na Misericórdia e ela fez o convite, dizendo que o padre estava na cidade. Aluguei uma cadeirinha e levei você e seu irmão.

O padre aproveitou para abençoar os dois, o que me fez lembrar que no fim de semana seguinte teria que ir até o sítio do Babalaô Gumfiditimi para o ritual dos três meses.

No dia combinado de voltar à loja do alufá Ali para me encontrar com a Claudina, levei apenas você, para que ela conhecesse. No meio do caminho resolvi passar antes pela loja do Manuel Calafate, pois queria falar com o Belchior e saber do Lourenço, para que a Esméria fosse procurá-lo enquanto ainda estávamos na cidade.

Não só encontrei o Belchior em casa como ele disse que sabia onde o Lourenço estava naquele exato momento, pois tinha acabado de vê-lo subindo a Ladeira do Carmo.

O Belchior se lembrava do Lourenço da época da fazenda, mas disse que não o tinha reconhecido até ser apontado pelo amigo saveirista, e que talvez nem eu o reconhecesse, pois estava muito diferente. Bem mais velho do que deveria estar, muito magro e andando sempre de cabeça baixa, fingindo não reconhecer as pessoas com quem tinha convivido na ilha. Enquanto estávamos conversando, ele olhou para o fim da rua e disse que era ele quem estava apontando, carregando um pacote, seguindo na direção do Maciel. Era lá que ficava o solar do dono dele, o novo dono da fazenda, que tinha levado o Lourenço para a capital.

Acho que não pensei muito quando achei que aquela era uma boa hora para falar com ele, ainda mais tendo você amarrado às costas. Mas você estava tão quieto que me fez esquecer da sua presença ali, a presença que faria com que o Lourenço visse o que eu tinha conseguido, como se eu estivesse exibindo as roupas de sinhá e e o filho como prova de que a minha vida tinha sido muito melhor que a dele, muito melhor sem ele, como prova de que eu tinha prosseguido os nossos planos sozinha. Foi o

que ele disse depois que me coloquei na sua frente fechando a passagem, fazendo com que ainda pedisse desculpas antes de se desviar e seguir adiante sem levantar os olhos do chão.

Eu deveria tê-lo deixado ir, mas o chamei e disse que era eu, a Kehinde, para o caso de ele não me reconhecer.

Tive que repetir enquanto ele me olhava com jeito de quem não estava acreditando no que via, reparando nas minhas roupas, nos meus sapatos, em você. Quando achei que ia embora sem me dizer uma só palavra, ele voltou, parou bem perto de nós e disse coisas horríveis, com um fio de voz que eu tive que chegar muito perto para conseguir escutar. Uma das coisas que perguntou foi se eu nunca mais o tinha procurado porque ele não era capaz de me dar um filho, olhando para você com um ódio de que eu nunca poderia imaginá-lo capaz.

Depois virou as costas e foi embora, deixando nós dois parados no meio da rua, até o Belchior se aproximar para saber se estava tudo bem, pois tinha ficado em frente à loja, observando o encontro. Eu disse que o Lourenço não tinha me reconhecido e dei graças por estar indo me encontrar com a Claudina em vez de voltar para o sobrado.

Assim que cheguei, a Claudina soube que alguma coisa tinha acontecido, e tive que contar tudo desde o princípio, desde quando o Lourenço foi comprado pelo sinhô José Carlos. Ela me ouviu sem comentar nada, interessada na história, emitindo de vez em quando algum som de concordância ou discordância, acredito que só para que eu não tivesse a impressão de estar falando sozinha. No final, disse que sentia muito, mas que concordava com o Lourenço, ou que talvez a palavra nem fosse concordar, mas que se sentia solidária a ele, que tinha todos os motivos do mundo para fazer o que tinha feito e muito mais. Disse também que não me achava culpada de nada, que a minha vida seguiu um caminho e fui me deixando levar para muito longe do

que tinha imaginado. E isso foi bom para mim, que tinha conseguido coisas com as quais os pretos nem sonhavam, não porque sonhassem pequeno, mas porque não sabiam que tais sonhos eram possíveis. Disse ainda que o Lourenço devia mesmo ter muita amargura no coração, pois tudo o que aconteceu com ele foi por minha causa. Voltou a enfatizar que não era por minha culpa, mas por minha causa. E que naquele dia, ao me ver com saúde, bem-vestida e com um filho, toda a amargura ou revolta acumulada durante tantos anos apareceu, fazendo com que ele se sentisse mais perdedor do que nunca.

A Claudina bem que tentou, mas não conseguiu aliviar minha culpa. Eu devia ter cumprido o trato com a Esméria, sabendo que o encontro dela com o Lourenço seria muito diferente do meu. A partir daquele momento seria muito mais difícil ajudá-lo, mas eu o faria de uma maneira ou de outra, mesmo sem ele saber. E já não era mais por mim, para aliviar o que eu sentia, mas por ele, que merecia, mais do que ninguém, que a vida fosse um pouco facilitada. Sobre a minha história com o Alberto, apesar do meu medo da crítica da Claudina, ela não falou nada, talvez pelo impacto da história anterior.

A primeira providência que tomei ao sair da loja foi passar no ponto da Misericórdia e conversar com a Adeola, pois ela saberia como ajudar o Lourenço. Ao voltar para casa, o Alberto estava lá e fez cara feia ao me ver chegando da rua com você, que ele achava muito novo para andar de um lado para outro. Eu disse que não saía muito com você, mas que também você não era tão frágil quanto ele imaginava, pois na sua idade muitos bebês já iam para o trabalho junto com as mães, às vezes ficando o dia inteiro sob o sol quente. Mas acho que a verdadeira preocupação dele não era você ir para a rua, mas como ia, amarrado às minhas costas. Ele tinha um filho com uma preta mas não queria que ele fosse tratado como tal, como todos os pretinhos que

andavam amarrados às costas das mães. No dia seguinte, comprou uma cesta de alça comprida e disse que eu deveria usá-la sempre que saísse com você.

Continuar: parte 4 de 5