Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 8 de 12 · parte 5/5

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Um Defeito de Cor

Capítulo seis

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Na época da independência do Brasil, os ingleses ficaram do lado do Brasil, mas disseram que somente o reconheceriam como um país independente no dia em que o tráfico fosse extinto. E, de fato, só o fizeram quatro anos mais tarde, na mesma época do reconhecimento de Portugal, quando então começaram uma campanha para que o governo brasileiro honrasse os tratados assinados anteriormente por Portugal. Os governantes brasileiros já tinham percebido que o número de africanos no Brasil era muito grande, o que poderia pôr em perigo a população branca.

Em São Salvador, na época, diziam que os crioulos e africanos, escravos ou forros, representavam oito décimos da população, uma proporção que aumentava o perigo de uma rebelião como a que tinha acontecido no

Haiti. E foi só por isso que o Brasil assinou novo tratado, pelo qual se comprometia a acabar com todo o comércio de escravos feito com a África dentro de três anos, conservando ainda o direito de manter e comerciar escravos no próprio território. Ou seja, não buscaria mais escravos, mas permaneceriam cativos todos os que já estavam no Brasil e os filhos que tivessem.

Naqueles três anos, sem saber direito o que ia acontecer, os comerciantes brasileiros aumentaram o tráfico, buscando em África um número de escravos mais de dez vezes superior ao dos três anos anteriores, para garantir que não faltaria mão-de-obra. Com o aumento do número de navios no mar, a Inglaterra não conseguia manter a vigilância, facilitando a vida dos comerciantes, que também usavam várias manobras, como fazer com que navios praticando o comércio legal parecessem suspeitos e provocassem a perseguição de navios ingleses, abrindo caminho para a passagem dos que levavam escravos.

Os ingleses também começaram a receber denúncias de que os brasileiros estavam fazendo o tráfico de escravos usando navios de bandeira francesa, mas antes que essa história ficasse esclarecida e houvesse maior cobrança do cumprimento do prazo para o fim do tráfico, a atenção dos ingleses foi desviada para as confusões provocadas pelos militares e pelos mata-marotos, as mesmas que nos prenderam no sítio. Uma outra situação conflitante era que o governo inglês tinha problemas com o governo português, mas os comerciantes ingleses se davam muito bem com os comerciantes portugueses da Bahia. Novamente o caso é complicado, mas vou tentar ser breve.

Os acordos

Muitos senhores de engenho do interior e do Recôncavo eram pessoas bastante simples. Alguns tinham

enriquecido à custa de muito trabalho e, sendo assim, eram desprezados pela aristocracia rural, que achava que eles não tinham berço. Os aristocratas também achavam que a capital era um lugar indigno da sua presença, com a maioria da população preta ou escrava, e com péssimas condições de vida, se comparadas às da Europa, para onde estavam acostumados a viajar.

Mas seus filhos pensavam de modo diferente e iam para a capital com o intuito ou a desculpa de estudar. Para servirem de tutores desses filhos, tanto os aristocratas quanto os que haviam enriquecido com o próprio trabalho nomeavam os comerciantes da capital com os quais tinham contato para a venda do açúcar e da cachaça que produziam. Esses comerciantes eram quase todos portugueses, intermediários entre os engenhos e os países da Europa que compravam açúcar do Brasil, e, na qualidade de tutores, adiantavam para filhos o dinheiro que receberiam dos pais. Eles também forneciam escravos para os engenhos, muitas vezes bancando o custo para receber mais tarde, acumulando dívidas ou hipotecas que a muito custo os fazendeiros conseguiam pagar, principalmente nas épocas de seca, de agitações ou de crise econômica. Para conseguir o capital de que precisavam para continuar exercendo toda essa influência, os comerciantes portugueses tomavam

empréstimos

dos

ingleses,

também

acumulando dívidas.

Era por isso que, na época das rebeliões, os ingleses ficaram muito preocupados quando os portugueses foram ameaçados de expulsão, pois tinham enormes quantias a receber, que não seriam pagas se os portugueses fossem embora. Ou seja, os ingleses tinham problemas nas relações com os governos português e brasileiro, mas as relações comerciais com esses dois povos eram muito lucrativas. Os comerciantes e senhores de engenho brasileiros dependiam dos comerciantes portugueses, que, por sua vez, dependiam

dos comerciantes e banqueiros ingleses.

Nós estávamos no ano de um mil oitocentos e trinta e um, e, portanto, já havia se passado mais de um ano da data em que o tráfico de escravos estaria proibido no Brasil. O Fatumbi achava que o governo inglês tinha ficado quieto para que os cidadãos ingleses que moravam no Brasil conseguissem receber o que lhes era devido pelos portugueses, mas não podiam esperar mais.

Com o término das rebeliões militares, intensificaram o controle no mar e estavam pressionando o Partido Monarquista Constitucional, recém-empossado. Para que essa pressão surtisse efeito, ameaçavam apoiar o Partido Republicano Federalista, que tinha a simpatia dos pretos e dos mulatos que queriam não só o fim do tráfico, mas também o da escravidão. Os principais comerciantes de escravos eram mantidos sob constante vigilância pelos ingleses, ajudados pelos pretos que denunciavam a movimentação estranha de navios, como o Fatumbi já tinha me pedido para fazer.

Ele disse que um dos senhores mais vigiados e mais perigosos, porque exercia grande influência no governo da Bahia, na corte e também junto aos reis africanos, era um vizinho do Mister Clegg, um rico comerciante chamado José Cerqueira Lima, de quem também ouvi falar em África alguns anos mais tarde. Ele morava no enorme palacete que fazia limite com a casa do Mister Clegg, e tinha dependências que se comunicavam com a praia por um longo corredor subterrâneo. Um tipo de túnel por onde passavam os escravos recém-desembarcados e que levava ao local onde ficariam alojados até a venda, o que explicava a movimentação vista do sítio havia algum tempo, de barcos com pretos sendo levados na direção da Vitória.

Pouco mais de um mês após o início dessas conversas, no fim de novembro, o Fatumbi chegou ao sítio com a notícia de que o governo brasileiro tinha decretado o fim

do tráfico, e qualquer escravo desembarcado no Brasil seria

considerado

livre.

Lembro-me

de

que

comemoramos abrindo uma das garrafas de vinho do Alberto, mas não havia jeito de gostarmos daquilo, sempre tão amargo. O Fatumbi disse que tinha dúvida se daquela vez o tratado seria cumprido, mas pelo menos era mais um, mais uma pequena vitória. Os comerciantes e os compradores dos escravos ilegais seriam julgados por crime de tornarem escravas as pessoas livres e, se pegos, teriam que arcar com o custo do julgamento, pagar multa de duzentos mil réis por cabeça apreendida e devolver os escravos ao porto de origem. De início me pareceu uma boa novidade, mas o Fatumbi alertou que não era tão boa assim, pois, ao serem libertados, os escravos estariam chegando de viagem nas condições que eu bem conhecia, e teriam que enfrentar o caminho de volta. E com o agravante de que na volta não cuidariam bem deles, porque já não haveria mais a necessidade de preservar vidas que valeriam dinheiro, mas que, pelo contrário, estavam dando prejuízo. Alguns pretos acharam que o passo seguinte seria a alforria de todos os escravos do país, porém, os mais esclarecidos disseram que o governo brasileiro já tinha feito o que era possível sem desestabilizar a sua permanência no poder, e mais não faria, e que o fim da escravidão, só mesmo à força. Era sobre isso que os muçurumins tanto conversavam, e o Fatumbi disse que estavam muito próximos de um acordo entre eles, para depois começarem a planejar uma rebelião.

Prenúncios

O ano tinha se passado sem que eu percebesse, e logo já era Natal e novamente eu não tinha comprado um presépio, em torno do qual cantariam as pastorinhas que o seu irmão tanto gostava de ouvir. Você não se importava muito com música, mas gostava bastante de ouvir as histórias que eu lia em voz alta ou inventava na

hora. Para não entristecer o Banjokô, o Sebastião e o João Badu resolveram que ele teria o presépio e a apresentação das pastoras, e construíram um usando mangas verdes, papel amassado e pedaços de madeira e de tecido. Acho que eu estava cansada, pois esse presépio e muitas outras coisas me comoveram até o choro, com o convite da sinhazinha para que fôssemos à Missa do Galo e depois ceássemos com a família dela, ou os presentes enviados pelos amigos da loja do alufá Ali.

Aliás, a família dele já estava maior, com o nascimento dos filhos da Euá e da Mariahmo. Mas eu não estava com vontade de sair de casa, e fizemos apenas um almoço no dia de Natal com alguns poucos amigos e os funcionários da padaria. O seu pai tinha ido passar as datas na cidade, e eu não consegui me alegrar, preocupada com ele ou com alguma coisa que estava para acontecer, sem saber bem o que era. Entre os dias de Natal e Ano Novo, mandei o João Badu levar dinheiro até o sítio do Babalaô Gumfiditimi, pedindo que sacrificasse um carneiro para Xangô em meu nome.

Junto com a Esméria fiz um ebó para Oxum e outro para Iemanjá, que fomos entregar na correnteza de um rio e no mar, lugares onde elas moravam. Pedi a proteção da minha avó e dos voduns, a presença da Taiwo e o olhar da minha mãe, mas a inquietação não passou. Também recusei o convite do padre Heinz e da Adeola para a virada de ano, pois não tinha ânimo para deixar o sítio, ou algo pedia que eu não saísse. Houve uma pequena comemoração no quintal, onde todos rezamos pedindo anos melhores, e fomos nos deitar cedo.

Eu estava no quarto tentando afastar as preocupações para que o sono pudesse chegar quando seu pai entrou, no meio da noite, bêbado como eu nunca o tinha visto antes. Deitado ao meu lado, chorou a não poder mais, sem conseguir explicar o motivo daquele destempero todo. Fiquei achando que era aviso de uma desgraça que estava para acontecer, como a morte dele ou alguma

doença grave que ele estava escondendo para não nos preocupar.

Como eu também já estava segurando o choro havia algum tempo, choramos abraçados, dizendo que, por mais que não demonstrássemos, por falta de tempo ou de costume, ainda nos amávamos. Eu queria ter me dado para ele, mas ele não conseguiu e começou a se sentir pior ainda, dizendo que era um canalha, que merecia morrer e que, por mais difíceis que fossem os tempos que estavam por vir, era para eu nunca me esquecer daquele momento, nunca me esquecer do quanto ele gostava de nós. Ele falou muitas vezes em você, arrancando de mim a promessa de nunca falar mal dele perto de você. Será que faço isso agora? Não sei, e espero que você leia tudo isso apenas como uma história que está sendo contada exatamente do jeito que aconteceu.

No primeiro dia do ano, seu pai acordou de mau humor e com muita dor de cabeça, e quando finalmente conseguimos conversar, disse que não era para eu levar em conta nada do que tinha dito, pois bebera demais ao perceber que estava sozinho no sobrado, sem a família, sem os amigos, sentindo-se mal em ter ido para lá por desejo próprio. Fiquei bastante decepcionada por ele não se lembrar nem das coisas boas que tinham acontecido na noite anterior. No dia seguinte, voltou novamente para a cidade, onde passou duas semanas sem aparecer no sítio. Eu ficava ansiosa por notícias, e sempre mandava o João Badu ou o Sebastião até lá, para ver se estava tudo bem.

O Fatumbi também ia, com a desculpa de que precisava da aprovação ou da assinatura dele em algo relacionado à padaria. Mas seu pai estava desinteressado da padaria, como de quase tudo. Conversando com o Júlio e a Anastácia, os criados, o Sebastião ficou sabendo que ele saía de casa quase todas as tardes e voltava duas ou três

horas depois, ainda antes de escurecer. Então, tomava banho e se sentava na sala, onde passava horas olhando o nada e bebendo vinho até se embriagar, e quase sempre acabava dormindo no canapé. Duas ou três vezes por semana era visitado por uma turma de amigos barulhentos, que jogavam cartas, fumavam, comiam e bebiam até o dia amanhecer.

Eu tinha vontade de ir até lá, mas, quando perguntado, ele sempre mandava recado para não ir, dizendo que estava tudo bem e que apenas precisava ficar alguns dias sozinho para pensar na vida. Eu ficava triste, sem saber se era ou não incluída nesta vida sobre a qual ele queria pensar, e tentava me ocupar para que o tempo passasse mais depressa. E passava, não só para as minhas preocupações, mas também para as pessoas ao meu redor, que comecei a observar melhor.

A Esméria, por exemplo, estava ficando velha e, embora ainda demonstrasse grande disposição para algumas coisas, para outras já não servia mais. Eu começava a ficar com medo quando precisava deixar você aos cuidados dela, que, muitas vezes, cochilava de uma hora para outra, deixando cair o que tivesse no colo ou nas mãos. O Fatumbi era minha companhia mais constante, mas conversávamos apenas logo após o jantar, pois ele tinha que dormir cedo e acordar mais cedo ainda, para a oração das quatro horas da manhã.

Ele estava gostando muito da nova vida, de morar no sítio e trabalhar na padaria, porque tinha a liberdade de fazer os cultos, as orações e as refeições nas horas certas, e também dispunha de tempo para estudar o Alcorão. Mas todo aquele tempo livre começava a preocupar, porque significava pouco trabalho com as contas da padaria e, conseqüentemente, pouco dinheiro.

Ele também tinha começado a freqüentar algumas reuniões do Partido Federalista e comentou que preparavam mais revoltas para a capital, iguais às que já

estavam acontecendo no Recôncavo, onde o Partido Monarquista era muito forte.

Falava-se da separação da província da Bahia do resto do país, e esse era o assunto que mais interessava ao Fatumbi, não por ser o que queria, mas para ficar sabendo como se arma uma rebelião daquele porte e depois passar as informações para os muçurumins, para serem usadas no planejamento de uma revolta de pretos que, segundo ele, entraria para a história da Bahia. As vezes eu tinha vontade de participar mais, mas pensava em você, no Banjokô, na Esméria e no Sebastião, que eram as pessoas mais próximas e precisavam muito mais de mim do que os escravos da Bahia.

Confesso que isso fazia com que eu me sentisse um pouco egoísta, mas acredito que, se cada pessoa cuidasse com devoção das que estão próximas a ela, tudo seria melhor. Eu também estava preocupada com a relação com o Alberto e não tinha com quem conversar sobre isso, pois a Esméria já não entenderia e eu não tinha coragem de falar sobre tais assuntos com o Fatumbi. Então, pedi a ele que, quando fosse à cidade, desse uma passada no ponto da Adeola e perguntasse se ela me faria uma visita.

Paralelos

Não quero que se sinta culpado, mas, ao aparecer no sítio para passar apenas um dia, seu pai brigou comigo por causa do seu choro. Coisa de crianças, choro dos que sempre tinha chorado, mesmo perto dele, mas ele teimou comigo que daquela vez era diferente, que eu não cuidava direito de você, que eu não era boa mãe, capaz de saber o motivo do choro do meu filho, que ele ia até o sítio para descansar das preocupações da cidade e nem isso conseguia. A Esméria tentou me defender, mas ele a mandou calar a boca, pois vivia ali no sítio de favor. Disse ainda que estava cansado de sustentar meus

amigos,

parando

no

meio

da

frase,

quando

provavelmente ia dizer algo como pretos ou vagabundos.

Então achei que já era demais e pedi que não fosse mais ao sítio para brigar, que ficasse na cidade, porque nós, eu e meus amigos, continuaríamos cuidando de tudo como estávamos fazendo desde que ele tinha perdido o interesse. Cuidando da padaria, de onde vinha o sustento daquela casa, enquanto ele se embebedava e passava noites em claro jogando cartas com os amigos.

Não seriam aqueles amigos um bando de vagabundos que ele também sustentava? E vagabundos que custavam bem mais caro? Quando percebi o que estava falando já era tarde. As palavras ditas tanto de um lado quanto do outro já tinham sido duras o suficiente para mais duas semanas que passaríamos separados.

Semanas em que, mais do que o temor de que algo ruim acontecesse a ele, eu senti muita raiva.

A Adeola apareceu alguns dias depois dessa briga, dando notícias de que a construção do orfanato estava terminada e eles já cuidavam de quatro crianças. Ela me ouviu com muita atenção, dizendo para eu ter calma porque o ano anterior tinha sido de dificuldades e tensão para o Alberto; que logo ele estaria mais tranqüilo. Ela também achava que em breve enfrentaria problemas, pois o padre Heinz estava sofrendo ameaças de vários senhores de engenho e fazendeiros, acusado de incitar os escravos à fuga. Mas o padre dizia que não tinha medo, que tinha um trabalho a fazer e iria até o fim, mesmo contrariando a Adeola, que achava que, desde que ele corresse perigo, seria melhor abandonar tudo e encontrar outro jeito de ajudar as pessoas.

Os dois poderiam se dedicar apenas ao orfanato, mas o padre não queria, e ela tinha medo de perdê-lo por não ter a mesma fé que o levava a acreditar que em Deus nada de ruim aconteceria. Era bom ter uma amiga com quem conversar, e melhor ainda uma que estava

passando por problemas semelhantes, porque, de confidência em confidência, falamos de tudo que nos incomodava. Mas encontramos apoio apenas para as nossas palavras, não para as inquietações, e combinamos uma visita ao Babalaô Gumfiditimi.

O babalaô não gostou do que viu no opelê, mas disse que não era para eu me preocupar porque tudo já estava destinado. Eram mudanças necessárias para que minha vida seguisse o caminho certo, e, quando acontecessem, era para eu aceitar e ir em frente à minha maneira, pois seria guiada e protegida. Perguntei se estava prevista a morte do Alberto e ele disse que não, pelo menos não nos próximos tempos, mas que via o coração dele cheio de conflitos por causa de uma mulher de quem ele até não gostava, mas que tinha alguma coisa que eu nunca poderia oferecer, e ele ainda não sabia com qual de nós duas ficar. Pesava muito o amor que sentia por mim e pelo filho, mas isso nem sempre é o mais importante no coração de um homem, e que, independentemente do caminho escolhido, nós dois ainda seguiríamos juntos por algum tempo. Aquela idéia, a de outra mulher na vida do seu pai, já tinha povoado meus pensamentos, mas tinha ido embora sem deixar maiores preocupações.

Eu sabia que ele gostava de mim, de você e da vida que levávamos quando não haviam maiores problemas, e por isso me espantei. A raiva que eu estava sentindo dele ficou ainda maior, e o Babalaô Gumfiditimi disse que eu não poderia continuar assim, que eu precisava tirar os sentimentos ruins do coração para que ele pudesse ser ocupado por outros mais dignos, que me fariam seguir em frente. Também para eu não comentar nada com o Alberto, pois ele tinha que decidir sozinho o que fazer, já que as mudanças, pelo menos inicialmente, afetariam muito mais a vida dele do que a minha ou a sua.

No caminho de volta para casa, ainda sem saber direito o que estava sentindo, contei tudo à Adeola. Ela disse que já tinha visto muitos casos iguais ao meu, e que

provavelmente o Alberto tinha arrumado uma branca, que poderia mostrar aos amigos, embora gostasse mesmo de mim, e que eu precisava seguir o conselho do Babalaô Gumfiditimi e deixar que ele falasse comigo primeiro. Não era o que eu tinha vontade de fazer; por mim, teria ido direto para o sobrado, obrigando o Alberto a tomar uma decisão sobre a vida dele, para que eu pudesse fazer o mesmo com a minha. Não queria brigar, mas apenas resolver a situação logo, porque, se ele estava pensando em me deixar, eu tinha que tomar várias providências. Como sair do sítio dele, por exemplo.

Havia o orgulho ferido, mas as outras necessidades eram mais urgentes e envolviam muitas pessoas, como você e seu irmão, que eram muito mais importantes para mim do que o seu pai. Não comentei nada no sítio, talvez com vergonha de confessar o quanto doía, mas tudo que eu queria era alguém que chamasse a atenção do Alberto, que dissesse que ele estava agindo errado, que tinha uma mulher e um filho, e responsabilidades assumidas.

No início eu achava que ele era diferente, como parecia ser, mas vi que todos os homens brancos são iguais, como a Claudina e a Adeola tinham me alertado.

Distrações

Nos dias seguintes, tentei não pensar muito no problema, e nem foi tão difícil assim, porque o Tico e o Hilário passaram alguns dias no sítio, esperando que a situação no Recôncavo se acalmasse para que pudessem voltar para lá com as mercadorias que vendiam.

Estavam se dando muito bem, o que deixava a Esméria orgulhosa. Eu gostava de ouvir as histórias deles, mas daquela vez foi o Fatumbi quem mais se interessou, pois o Partido Federalista tinha conseguido muitas vitórias no Recôncavo. O líder deles era um capitão de milícias que também ocupava os cargos de juiz de paz em São Félix e de vereador em Cachoeira. São Félix já estava nas mãos

dos revoltosos quando resolveram ocupar a Câmara de Cachoeira e convocar uma assembléia, que contou com a presença de apenas três vereadores, pois os outros fugiram porque não concordavam com as reivindicações.

Mas eles não se intimidaram e redigiram um documento criticando o governo da província e sua submissão aos portugueses, instigando o povo a lutar contra a aristocracia, que só pensava em si mesma. O documento também declarava a Bahia um estado federado que faria suas próprias leis e cuidaria das finanças e das forças armadas, sob o comando de um governo provisório que passaria o poder a outro, eleito mais tarde pelo povo.

Queriam também que todos os presos políticos fossem libertados e que se desse fim às presigangas (Presiganga: navio-prisão), e à censura à imprensa. E, mais uma vez, exigiam a expulsão dos portugueses, mas com algumas mudanças, pois seria permitida a permanência daqueles que fossem casados com brasileiras, que tivessem comércio estabelecido ou que quisessem permanecer na Bahia trabalhando na lavoura.

Os federalistas queriam mesmo era se ver livres dos pequenos comerciantes, dos profissionais liberais, dos artesãos, daqueles que competiam diretamente com brasileiros que exerciam as mesmas funções. Então, no mesmo documento, também disseram que seriam bem recebidos os portugueses com recursos, os que quisessem abrir grandes negócios e gerar empregos para os brasileiros, bem como os portugueses sábios, que pudessem contribuir para as ciências baianas.

Assim que chegou a notícia de que tropas oficiais estavam a caminho, o Tico e o Hilário pegaram o primeiro saveiro para São Salvador, antes que a situação ficasse mais complicada. Aproveitaram para tirar alguns dias de descanso e brincaram muito no sítio, relembrando os velhos tempos da fazenda em Itaparica.

Olhando as brincadeiras, muitas vezes eu desejei que você já estivesse grande e sentisse a mesma felicidade

que demonstravam o Banjokô, o Tiago e o Mateus. Por aqueles dias também foi o seu aniversário de um ano, e eu e a Esméria fizemos uma oferenda a Xangô por você.

Foi naquela época que reparei na sua seriedade, uma criança que quase não sorria. Comentei com a Esméria e ela disse que não tinha reparado antes, mas que era verdade, pois não se lembrava de ter visto você sorrindo, como muito fazia o seu irmão quando tinha a sua idade.

Vocês sempre foram muito diferentes, e eu gostaria de tê-los visto juntos quando moços, como o Tico e o Hilário naquela época, provando que os laços de sangue tinham acertado na escolha de pessoas para conviverem tão bem.

Eles já tinham ido embora quando seu pai apareceu, novamente no meio da noite e novamente bêbado. Mas daquela vez ele conseguiu se deitar comigo, e foi como das primeiras vezes, como se nunca tivéssemos perdido o entendimento. Mas depois que acabamos e eu estava deitada ao lado dele, que dormia, não me senti bem, porque estava em dúvida se ele realmente estava ali comigo ou se pensava na outra mulher. Eu acreditava em tudo o que o Babalaô Gumfiditimi me dizia, pois ele sempre sabia interpretar muito bem o Ifá e nunca tinha errado nas previsões anteriores. Mas não conseguia acreditar que o Alberto gostava mesmo era de mim e ainda assim pensasse em me abandonar. Hoje sei que aqueles dias devem ter sido mais difíceis para ele do que para mim, principalmente quando percebia que estava me fazendo sofrer, como quando acordou no meio da noite e me pegou chorando. Eu não sabia o que fazer com o menino em que se transformou, encolhido a um canto da cama, chorando com gosto e sem pudor. Não aceitou que eu o consolasse, pediu apenas que o deixasse chorar e que não encostasse nele, e que gostaria que fôssemos todos para a cidade dentro de dois dias, para assistirmos às comemorações do Dois de Julho.

Independência

Nunca tínhamos saído juntos e eu não sabia o que pensar daquele passeio, Minha primeira reação foi dizer que não queria ir, mas seria uma vingança que atingiria não só ele, mas também você e o Banjokô, inocentes naquela história, E a mim também, que, na verdade, estava curiosa para saber como era essa festa, a da independência da Bahia. As tropas baianas só venceram as portuguesas depois que os caboclos se juntaram a elas, lutando com as armas que tinham, o arco e a flecha. Para celebrar a data, grande parte da população estava nas ruas, carregando bandeiras com as cores do Brasil e da Bahia, e fazendo animados folguedos.

O Alberto não me deu o braço, como seria o esperado dos maridos ou companheiros, mas também não saiu de perto de nós, eu, você, o Sebastião, o Tiago e o Mateus.

Um senhor mulato e muito distinto que estava ao nosso lado, no caminho entre a Lapinha e o Terreiro de Jesus, ao perceber a curiosidade do Banjokô, fazendo perguntas que o Alberto não sabia responder, contou como a festa tinha começado. Quando a independência fez aniversário de um ano, os brasileiros pegaram uma das carroças tomadas dos portugueses e a enfeitaram com galhos de pé de café, de fumo, de cana-de-açúcar e de outras plantas brasileiras, e sentaram em cima dela um velho mestiço descendente de índio. Seguiram em desfile anunciado por guitarras, tamborins e gritos de

"viva o bravo povo da Bahia", e a cada ano a festa ficava mais bonita e mais concorrida. Já não usavam mais a velha carroça, mas as rodas dela ainda enfeitavam o carro de fantasia que carregava uma escultura do velho caboclo em pé, enfeitado com penas coloridas e armado de arco e flecha, pisando uma serpente que também era presa ao chão com uma flecha.

Tudo rodeado de troféus de guerra, clarins, fuzis, espadas e bolas de canhão. Falando baixinho, o mulato

comentou

que

a

peçonhenta

representava

os

portugueses vencidos pelas armas dos caboclos. Era por isso que, todo orgulhoso, o caboclo da escultura erguia com a mão direita o estandarte nacional para ser saudado pelas pessoas que se aglomeravam nas ruas também carregando estandartes.

Foi bom ver como o Alberto se empenhou em nos distrair sem se preocupar com que as pessoas nos vissem juntos, carregando você acima da multidão, sentado e muito bem seguro sobre os ombros. O

Sebastião se esforçava para fazer o mesmo com o Banjokô, mas o menino já estava grande, com os pés chegando à cintura dele. Comemos de quase tudo nas diversas barracas montadas no Terreiro de Jesus, cada um podendo comprar o que quisesse, e voltamos para casa em três cadeirinhas alugadas. Foi um dia ótimo, em que eu tinha dúvidas, mas acho que o Alberto já sabia ser uma despedida.

Caminho interrompido

São coisas difíceis de dizer porque também são difíceis de lembrar. Acho melhor contar como aconteceu sem me defender ou assumir culpas, e cada um que julgue de acordo com o que sabe de si. Eu tinha ido ao celeiro público comprar farinha, e na volta passei pelos arredores da Misericórdia para conversar com a Adeola.

Não a encontrei no ponto e resolvi seguir até a padaria, que eu ainda não tinha me acostumado a chamar de Pão da Terra.

Demorei-me um pouco mais do que pretendia porque o Jongo queria a minha opinião sobre novas receitas de pães, que, segundo ele, eram mais baratos de produzir e tinham mais saída quando as pessoas estavam sem dinheiro.

Ficamos conversando no escritório usado pelo Fatumbi,

que naquele momento não estava por lá, e não vi quando o Sebastião foi embora achando que eu já tinha ido na frente. Não quis incomodar o Jongo ou o Adriano pedindo que me acompanhassem até o sítio, e não calculei bem o tempo que ainda tinha antes que começasse a escurecer.

Eu deveria ter providenciado companhia quando tive a intuição de pegar uma faca, mas achei que não aconteceria nada, que era mesmo só precaução. A noite me pegou na metade do caminho e arrependida de não ter alugado uma cadeirinha ou tomado como acompanhante algum preto carregador, mesmo não tendo nada para carregar.

Nunca mais me esqueci daquele dia, cinco de julho de um mil oitocentos e trinta e dois, e, se não fosse pelo acontecido, seria por anteceder a conversa com o Alberto. Era nele que eu ia pensando quando a figura enorme de um preto saltou na minha frente. Olhei para trás e vi que ele estava acompanhado de outro preto, de tamanho um pouco menor, mas grande o suficiente para eu saber que seria impossível correr para um lado Ou para o outro do caminho, estreita faixa de terra cortando um matagal.

A lua estava quase cheia, mas ainda baixa, então não dava para ver direito as mãos deles, saber se estavam armados, nem quando o homem que estava na minha frente se aproximou e perguntou se eu tinha algum dinheiro. A bolsinha de brocado brilhava na minha mão mesmo no escuro, e ele não esperou resposta para tomá-la de mim e virar todo o conteúdo no saco improvisado que fez com a camisa, segura pela barra e puxada para cima. Eu não tinha mais que cem, no máximo cento e cinqüenta réis, e ele disse que era pouco dinheiro para uma preta tão bem-vestida, que devia ter mais escondido em outro lugar. Eu disse que não, que as roupas eram emprestadas da minha sinhá e que ela estava vindo logo

atrás, com os outros escravos.

O segundo homem disse que era mentira minha, que eles tinham me seguido desde a saída da Graça. Eu não estava em condições de discutir e pedi que me deixassem ir embora, pois já tinham o que queriam, o dinheiro. Mas eles queriam procurar mais, achando que eu tinha algo de valor embaixo das roupas, e foi quando ouvi o grito do Sebastião.

Ele já tinha ido até o sítio e ficou preocupado quando percebeu que eu ainda não estava lá, mesmo tendo saído antes dele, como imaginava. Resolveu voltar e me viu parada no meio do caminho, cercada pelos dois homens.

Percebeu que nada poderia fazer contra eles, que, mesmo de longe e no escuro, pareciam ser altos, jovens e fortes, e então resolveu observar a curta distância, torcendo para que fosse apenas um assalto e que me deixassem partir logo em seguida, quando então me acompanharia. Mas percebeu que pretendiam ir além e resolveu se arriscar, gritando o meu nome.

Os homens se distraíram por um momento, procurando de onde vinha aquela voz, e eu consegui puxar a faca que levava na cintura, escondida pelo pano-da-costa que pendia do meu ombro. Não pensei que atingiria apenas um deles e que o outro poderia se vingar, matando a mim e ao Sebastião, cuja voz reconheci imediatamente.

Não pensei em nada, apenas que tinha aquela faca e precisava usá-la.

O sangue esguichou da garganta do homem e escorreu pela faca, molhando a manga do vestido e esquentando meu braço. Não me lembro muito bem do que aconteceu em seguida, apenas que fiquei parada, com o braço erguido e a faca cortando o espaço onde antes estava o pescoço do homem caído no chão.

O Sebastião depois me disse que saiu do meio do mato correndo e gritando, o que assustou o outro homem, que fugiu. Mas nada disso eu vi, fiquei com os olhos fechados e na mesma posição em que estava no momento em que o gesto tinha acabado. Foi como se eu tivesse sangrado um carneiro, com o sangue dele tingindo as pedras da estrada, como se faz com a pedra consagrada a Xangô.

O Sebastião me puxou pelo braço e disse que tínhamos que ir embora, que depois chamaria alguém para ajudá-lo a sumir com o corpo. Saímos andando calados em meio à escuridão, e quando eu quis limpar o sangue que ainda tinha nas mãos e na faca, lembrei do lenço que estava dentro da bolsinha de tecido brocado. Voltamos para recuperar a bolsa, porque lá também havia algumas coisas de que eu precisava e, o mais importante, uma cópia da minha carta de alforria. Eu não olhei, mas o Sebastião comentou que o homem ainda estava agarrado à bolsa, os dedos crispados em volta da alça, e imaginei que fosse como alguém se agarrando à vida.

O Sebastião pegou o dinheiro que conseguiu enxergar e as minhas coisas que estavam espalhadas pelo chão.

Quando chegamos ao sítio, enrolei o pano-da-costa em volta do braço, para ninguém ver a roupa suja de sangue, e comentei com a Esméria que tinha cortado o dedo na padaria, um corte de nada, sem importância, mas que tinha sangrado bastante.

Ela deve ter visto a roupa suja no dia seguinte, em que havia muito sangue para um corte que nem se notava, mas não me perguntou nada.

Fui direto para o quarto e pedi à Malena que me levasse uma grande tina com água. Acho que fiquei horas lavando os braços e as mãos e me perguntando se teria sido mesmo necessário fazer aquilo, que na verdade os dois poderiam querer apenas me amedrontar. Eu tinha matado alguém; fiz com aquele homem a mesma coisa que os guerreiros tinham feito com o Kokumo e com a minha mãe em Savalu.

Não sei como o Sebastião sumiu com o corpo e nem quem o ajudou, pois não tive coragem de perguntar e ninguém tocou no assunto. Mas durante um bom tempo, ao me deitar e fechar os olhos, eu sentia o braço esquentando novamente, banhado por um líquido quente e pegajoso, e tinha que me levantar e jogar muita água para a sensação passar, antes que a quentura tomasse o meu braço e depois o resto do corpo.

Separações

Eu estava lavando o braço quando, na noite seguinte ao acontecido, o Alberto entrou no quarto, um pouco alterado pela bebida, e disse que tinha ido apenas pegar algumas coisas, pois estava voltando para o sobrado para ficar. Não perguntou nada a meu respeito e nem reparou quando levantei os olhos da bacia e olhei para ele, parado na minha frente, mirando o próprio pé acompanhar uma rachadura no piso de madeira. Não me lembro se falei alguma coisa, mas ele perguntou se eu tinha ouvido, se tinha entendido que estava de mudança para o sobrado e que não viveríamos mais juntos.

Eu não sabia o que responder, pois só queria que ele olhasse para mim, visse que não estava bem e perguntasse o que tinha acontecido. Talvez eu contasse, ou talvez dissesse que não era nada, mas ficaria contente por ele ter perguntado. Acho que ele também esperava uma reação diferente da minha parte, e não apenas o silêncio que poderia significar que eu concordava, sem querer saber o motivo da mudança.

Perguntei apenas quando ele se mudaria e se ia dormir no sítio naquela noite. Ele disse que no dia seguinte pediria à Esméria que juntasse todas as suas coisas para que alguém fosse buscar, e que, naquela noite, se eu não me importasse, dormiria no sítio sim. Dormimos juntos, e o que me deu mais raiva foi ele não ter tido coragem de contar o motivo da mudança, que eu já sabia, mas que muito gostaria de ter ouvido da boca dele.

Na manhã seguinte, eu ainda estava na cama quando ele conversou com a Esméria e foi embora, sem ao menos se despedir. Acho que foi te dar um beijo, não vi, mas ouvi o barulho de uma porta se abrindo e fechando minutos depois de ele ter saído do nosso quarto. Mais tarde, a Esméria perguntou o que tinha acontecido e eu respondi que não sabia, que ele tinha falado apenas que estava de mudança para o sobrado. O João Badu acompanhou os dois homens que apareceram à tarde para pegar as coisas do Alberto, e ouviu do Júlio que ele tinha bebido e chorado a tarde inteira. O Júlio não sabia o que estava acontecendo, mas dois dias depois apareceu no sítio para buscar um dos cavalos do Alberto e contou que o patrão ia se casar, que ele tinha pedido à Anastácia que se preparasse para receber a noiva e o pai dela para um almoço.

A Esméria ouviu e disse que estava muito chateada por eu não ter contado para ela, mas depois que percebeu o meu espanto, ficou convencida de que eu realmente não sabia. E não sabia mesmo, só tinha conhecimento de que havia outra mulher, mas não que ele estava pensando em se casar tão depressa. Pedi que o João Badu acompanhasse o Júlio e também pegasse todas as nossas coisas que estavam no sobrado, minhas, suas, do Banjokô e da Esméria, pois não queria que nada estivesse lá quando a outra aparecesse. O Alberto mandou um carregador junto com o João Badu e o recado de que apareceria no sítio para conversarmos, o que só aconteceu duas semanas mais tarde, e aqueles foram alguns dos piores dias da minha vida.

Havia o sangue que eu sempre sentia escorrer pelo braço, o desinteresse por todas as coisas, a necessidade de pensar no que fazer da vida, o orgulho ferido por ter sido trocada. Por mais que me dissessem que era assim mesmo, que brancos e pretos nunca se misturavam e que eu não tinha compromisso algum com o Alberto, por mais que me dissessem tudo isso, não diminuía a minha vontade de fazer alguma coisa que vingasse meu sofrimento.

Eu gostava dele, apesar de tudo. Apesar de nos termos

visto pouco nos últimos tempos, havia todas as lembranças do quanto tinha sido bom, e elas doíam.

Foram maravilhosos os dias em que ficamos no sítio enquanto as revoluções agitavam a cidade, o jeito como ele me abraçava e dizia que não queria ir embora, que queria ficar na terra que tinha escolhido, com a família que tinha formado. Ele nos considerava uma família, e eu não conseguia entender ou acreditar que estava querendo formar outra.

Antes que seu pai voltasse ao sítio, mandei o João Badu ao sobrado com a desculpa de procurar algo que eu achava ter ficado por lá, mas com a missão de descobrir tudo o que pudesse sobre aquele casamento. Quando ele voltou, a Adeola estava comigo no sítio, tinha ido falar sobre o problema dela e me encontrou vivendo o meu. O

João Badu contou que a mulher e o pai estiveram lá, como combinado, e que ninguém tinha gostado dela.

Tinha um ar de quem se achava mais branca do que todos os brancos, e não tocou na comida que a Anastácia tinha feito dizendo estar sem fome, mas na verdade fazendo cara de nojo.

Reclamou de tudo, da sujeira do sobrado, que o Júlio garantiu que estava mais limpo do que nunca, do tamanho dos quartos e da simplicidade da mobília, dizendo que antes do casamento ia dar um jeito naquilo, pois a casa estava precisando de uma mulher. Era também mais velha, parecia ter pelo menos uns dez anos mais do que o Alberto, e a primeira coisa que perguntou foi se os criados tinham filhos, porque odiava crianças e não queria nenhuma por perto. Quando o João Badu nos deixou sozinhas, comentei com a Adeola que não entendia o motivo de o Alberto querer uma mulher daquelas, que nem de crianças gostava, enquanto que ele adorava o filho.

A Adeola, que tinha participado de algumas conversas no sítio na época em que estivemos confinados,

comentou que a mulher devia ser brasileira, só isso justificava, e ele estava se casando porque não queria correr o risco de ser deportado. Eu não concordei, achando motivo pouco para decisão tão séria, e preferi esperar que ele aparecesse e então perguntar tudo o que queria saber.

A Adeola também estava triste, pois os superiores do padre Heinz o haviam chamado para dizer que gostariam que ele assumisse a paróquia de uma vila a quase três dias de viagem de São Salvador. Ela tinha certeza de que aquele era um jeito de afastá-lo da capital, provavelmente a pedido de um grande contribuinte da igreja incomodado com a assistência que o padre prestava aos escravos. Além de acompanhar as compras de cartas de alforria para que os escravos não fossem enganados, ele também estava explicando a eles as novas leis, para que ajudassem a controlar o tráfico.

O padre ainda não tinha dado a resposta, mas a Adeola quase não tinha dúvida de que ele aceitaria. Não para simplesmente obedecer, mas por achar que poderia ser útil em qualquer lugar para onde o mandassem, mesmo deixando São Salvador e todo o trabalho que já tinha feito lá, a casa, a escola e o orfanato, pois achava que tudo isso poderia ser reconstruído onde também houvesse pessoas precisando de ajuda. Ele não tinha pedido a opinião dela, pois era uma decisão que precisava tomar sozinho, em conversas com Deus, mas já tinha dito que, se decidisse partir, ela ficaria responsável por dar continuidade a tudo.

A divisão

O Alberto foi sincero quando conversamos e me contou sobre o casamento, marcado para dali a três meses. A Adeola tinha razão, ele realmente estava se casando pelo fato de a mulher ser brasileira, para não ter mais que se preocupar no caso de novas ameaças de expulsão.

Argumentei que ele tinha você, um filho brasileiro, mas ele disse que não era suficiente, por eu ser africana.

Quando perguntei se não tinha coragem de registrar e assumir você como filho, ele disse que não era nada disso, que eu estava enganada. Mesmo assim, em nenhum momento se ofereceu para fazê-lo, dizendo apenas que, ao se casar com uma brasileira, se tornaria cidadão brasileiro, e era disso que precisava para viver em paz.

Eu não sei se o entendi, talvez um pouco, porque aquele casamento com uma brasileira branca poderia ser motivo de orgulho para ele, como a união com um homem branco, português e rico tinha sido para mim.

Não que eu desprezasse os meus, pois se amasse de verdade um preto e escravo, não me importaria em fazer grandes sacrifícios para estar ao lado dele, como acho que o Alberto deveria ter feito para ficar comigo. Eu o entendia, mas não conseguia aceitar. Primeiro, porque o amava e sentia que era correspondida, e isso era motivo de grande aflição.

Depois, porque sentia vergonha das pessoas que nos conheciam, por estar sendo trocada. Não conversamos muito sobre o que sentíamos, porque havia outras questões a resolver. Decidimos vender a padaria e repartir o dinheiro, como estava no contrato, porque seria difícil manter a sociedade com ele casado com outra pessoa, e sozinho ele não gostaria de continuar.

Eu, apesar do grande orgulho do que tinha construído praticamente sozinha, também não gostava muito da idéia de manter o negócio, mesmo porque havia me desinteressado dele, passada a fase de euforia.

As vendas não tinham voltado a ser como antes daquelas confusões todas e, se continuassem como estavam, logo o negócio começaria a dar prejuízo. Eu tinha pena, tanto pelo negócio quanto pelos funcionários, que se juntariam aos milhares de desempregados que tentavam

sobreviver na cidade, mas era melhor vender antes que todo o investimento fosse perdido. Já não tínhamos mais os grandes contratos de fornecimento e até mesmo o senhor Rui Pereira tinha reduzido a menos da metade as compras dos cookies. O doutor José Manoel foi encarregado

de

tomar

todas

as

providências

necessárias.

Quanto ao sítio, ele disse que eu poderia ficar morando nele pelo tempo necessário, mas eu queria sair o mais depressa possível. Quando soube que nos mudaríamos, o Banjokô ficou muito agressivo comigo, porque era ele quem mais gostava de lá, do espaço, da liberdade, e principalmente dos animais. Pensando nele e em você, que logo também poderia desfrutar de coisas assim, queria comprar um lugar parecido com aquele com o dinheiro que tinha a receber da venda da padaria e que, pelas minhas contas, deveria ser algo em torno de seis ou sete contos.

Quando tudo ainda estava bem, ela tinha sido avaliada em vinte contos, mas eu acreditava que naquela época não valeria mais do que quinze, sendo otimista. A Esméria disse que eu poderia contar com quase um conto da parte dela, do dinheiro que recebia da sinhá e que vinha guardando, e o mesmo aconteceu com o Sebastião. Eu também tinha pelo menos mais um conto e quinhentos aplicado na confraria da Esmeralda, portanto imaginava que dinheiro não estaria entre as nossas preocupações. Mas não foi nada disso que aconteceu.

Com a aproximação do casamento do Alberto, quando eu não queria mais estar no sítio, e como o doutor José Manoel não dava notícias da venda, fui ter com ele no escritório. Ele disse que estava difícil fazer a venda e, se conseguíssemos, seria por volta de dez contos, o que já me deixou bastante desanimada. Pelo menos consegui falar com a Adeola e a aceitou receber o Tiago e o Mateus no orfanato, o que já me tirava um pouco da

preocupação sobre o que fazer com eles. Sendo crianças, tinham menos condições de se sustentar que os adultos, além de correrem o perigo de, nas ruas, serem tomados para escravos de algum comerciante ou esmoleiro.

O golpe

Achei que o doutor José Manoel não estava se empenhando o bastante e resolvi ir até o celeiro ver se conseguia alguma coisa. Era lá que, como eu, os comerciantes compravam produtos como fermento e farinha, e bem poderia ser que algum deles estivesse querendo ampliar os negócios. Conversei com algumas pessoas que conhecia e elas ficaram de me informar, caso soubessem de alguém interessado. Quando já estava saindo, fui abordada por um senhor distinto que disse ter ouvido a conversa e queria mais detalhes.

Falei do que se tratava e ele ficou interessado em dar uma olhada, indo comigo até a padaria. O homem gostou do prédio, disse que as instalações eram muito boas, por sinal até demais, e estavam acima das posses dele, mesmo eu tendo falado em dez contos, disposta até a negociar, como o doutor José Manoel tinha sugerido. Ele então se ofereceu para comprar alguns equipamentos, dizendo que talvez fosse até mais fácil vender um prédio comum, e não uma padaria. Achei que tinha razão e acertamos a venda em um conto e cem mil réis por todas as fôrmas, máquinas de mexer massa e outros utensílios, que eu achei muito bem vendidos.

No dia seguinte, ele voltou com o dinheiro e alguns carregadores para cuidar do transporte, pois era do Recôncavo, Cachoeira, para onde ia levar tudo aquilo pensando na ampliação da padaria que tinha por lá. Ele comentou que tinha ido a São Salvador com esse propósito, ver as modernidades que estavam sendo instaladas na capital e se adiantar na região onde

morava, mas se interessou quando me ouviu falar sobre a venda, porque poderia ser um bom negócio manter uma padaria na capital também. Comentei sobre o Tico e o Hilário, que talvez fossem úteis para ele, já que cuidavam da venda dos meus produtos em Cachoeira.

O homem me deu uma morada e disse para eu pedir aos meninos que o procurassem na próxima viagem. Eu tinha gostado dele, um mulato claro muito educado, bem-vestido e sempre sorridente, e nem pensei em consultar o Alberto ou o doutor José Manoel sobre o que tinha acabado de fazer, mas antes o tivesse feito.

Depois de receber o dinheiro, fui direto ao escritório do doutor José Manoel, pois queria que ele estivesse a par de tudo, para fazer a divisão. Ele disse que realmente seria muito mais fácil vender apenas o prédio, e talvez até fosse o caso de desmanchar os fornos e balcões, mas isto veríamos quando houvesse algum interessado, e me parabenizou pelo excelente negócio, achando que eu tinha feito uma ótima venda. Mas ficou preocupado quando passei o saco de dinheiro para suas mãos, dizendo que era muito leve, ao que eu respondi que estava certo, que o comprador tinha contado tudo na minha frente, que eu tinha passado o recibo, e depois disso não tinha mais largado o saco. Ele disse que não poderia dizer com certeza, e para que não restassem dúvidas iria até a financeira confirmar, mas que, por causa do peso, achava que eu tinha recebido dinheiro falso. Nem sei explicar o que senti enquanto esperava que ele voltasse, já com a certeza de que tinha sido enganada mesmo, me achando a mais burra de todas as criaturas viventes.

Mesmo acreditando que não ia dar em nada, quando o doutor José Manoel confirmou que o que estava dentro do saco valia apenas o peso em metal, fomos juntos até o cais, para a possibilidade de encontrarmos o homem embarcando os equipamentos. Ele ficou comigo por quase duas horas, debaixo de um sol muito quente e respirando o ar podre que tomava conta de toda aquela região, até que insisti para que fosse embora.

Resolvi ficar mais um pouco sozinha para pensar nos acontecimentos daqueles últimos tempos, no homem que eu matara, no casamento do Alberto, naquele negócio malsucedido, e algumas vezes achei que ia desmaiar.

Mas também era de fome, já que eu não tinha comido nada desde o pequeno almoço. Comprei um acará e me lembrei das vendedoras que tanto me encantaram na minha primeira visita à cidade. Achei que já tinha conseguido ser mais do que elas, mas não me bastava.

Deixei que a minha raiva se transformasse em uma grande vontade de seguir adiante apesar de tudo, de dar o futuro que eu tanto queria para você e o Banjokô. Às vezes, parece-me que nada é suficiente na vida, nem as coisas boas nem as coisas más, pelo menos não a ponto de me deter.

No dia seguinte, mandei o João Badu à cidade para dizer ao Alberto que eu queria conversar com ele, e os dois voltaram juntos. Contei o que tinha acontecido e ele nada falou, só que não tinha importância, mas fiz questão de dizer que ele não seria prejudicado, que a parte dele naquele prejuízo seria compensada com o que eu tinha a receber. Fiz também uma proposta que ele aceitou, dizendo que eu poderia levar do sítio o que quisesse.

Como tínhamos comprado o terreno dos fundos, onde estava construída a padaria, propus que o dividíssemos, sendo que ele ficaria com a parte da frente, mais valiosa e onde estava a maior parte da construção, e eu com a dos fundos, onde havia os cômodos que serviam de escritório para o Fatumbi e de moradia para o Jongo e o Adriano. Fomos então falar com o doutor José Manoel e assinamos na hora um contrato nesses termos, desfazendo a sociedade.