Um Defeito de Cor
Capítulo seis
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
O Alberto ficou sem jeito nos primeiros dias, dizendo que as visitas tiravam nossa liberdade, mas logo se acostumou com a sinhazinha e com o doutor José Manoel, que aparecia todos os dias, no fim da tarde, para ver a filha e a esposa. Os dois eram portugueses e se entretinham em conversas saudosas sobre o país deixado para trás, dizendo que não se arrependiam, mas que isso não os impedia de sentir falta de algumas coisas. O doutor passou a dormir no sítio e os dois iam e voltavam juntos da cidade, e o Alberto parecia feliz como nunca tinha sido até então. Sozinhos no quarto e conversando depois de termos sido homem e mulher um para o outro, ele se demorava mais a me olhar e se dizia orgulhoso de mim, dos amigos que eu tinha, do que eu já tinha conseguido na vida, apesar de ainda estar com vinte anos incompletos. Acredito que aquela temporada da sinhazinha conosco foi muito importante para que ele começasse a me ver de um modo diferente, a perceber
que eu poderia ser gostada, respeitada e admirada por outros brancos, apesar da minha cor. O padre Heinz não contava, com aquele jeito de tratar a todos muito bem, jeito de verdadeiro soldado de Cristo. Mas a sinhazinha contava, ela que já tinha sido minha dona e que me tratava de igual para igual, e o marido dela contava mais ainda, advogado formado e patrício, que pedia minha opinião nas nossas conversas e me ouvia com mais interesse do que ouvia à própria esposa.
Aproveitei a presença da sinhazinha para descansar, prevendo que teria muito trabalho quando a padaria fosse inaugurada, o que ainda levaria dois ou três meses, pelo andamento das obras, que eu fiscalizava pelo menos duas vezes por semana. O Sebastião e o engenheiro cuidavam de tudo e o Alberto providenciava a compra dos materiais que eles pediam. O Tico e o Hilário continuavam a aparecer no sítio toda semana; a sinhazinha gostava muito da companhia deles, e passávamos boas horas relembrando a vida na fazenda e as nossas brincadeiras de criança.
Lembrávamos da parte boa, da que ela tinha participado, porque os dois, sempre chamados de meninos porque a Esméria assim fazia, apesar de já estarem dois enormes rapagões, nós três tínhamos outros tipos de lembranças, nem sempre alegres. Com os cuidados, os remédios e as refeições preparadas pela Esméria, a sinhazinha logo recobrou as cores, o ânimo e o apetite, e começou a engordar, denunciando que estava mesmo pejada.
De início, o Banjokô tratava a Carolina como um bichinho, não sabendo o que fazer com ela, que não desgrudava dele, do mesmo jeito que ele fazia com o João Badu. Depois, ele a pegava pela mão e passeava pelo sítio, dizendo o nome dos bichos, das plantas e das frutas. O João Badu tinha paciência para tudo, para levá-los em passeios a cavalo, para contornar a encosta e ir
até a praia, enquanto nós três, eu, a sinhazinha e a Esméria, colocávamos cadeiras no alto do morro e ficávamos olhando as crianças correndo da água sentadas na areia, desencavando porquinhos-de-santo-antão (Porquinho-de-santo-antão: tatuzinho).
Às vezes eu via sombras perto deles, sombras que se pareciam com a Taio e com o Kokumo, e até mesmo com a minha mãe ou a minha avó. Eram presenças boas, como se quisessem dizer que eu não devia me preocupar, pois eles estavam sendo protegidos. Era tanta tranqüilidade, a vida dando tão certo, com as coisas todas em seus lugares, que tudo aquilo de vez em quando provocava em mim a sensação contrária, um sufocamento, uma angústia, como se eu soubesse que ainda seria cobrada por tanta felicidade. Mas a única cobrança era do Alberto, que, vendo a barriga da sinhazinha, perguntava por que, mesmo nos deitando todos os dias, eu não pegava filho. Eu dizia que era assim mesmo, que poderia acontecer a qualquer hora, mas sabia que ainda ia demorar. O Fatumbi apareceu certo dia com convite para a festa do fim do Ramadã, mas não pude comparecer. Ele gostou de ver a sinhazinha, que se espantou ao perceber que era o seu antigo professor, que ela imaginava tão diferente, muito mais bravo e sério. Ela ficou no sítio por mais de um mês, e foi com grande pesar que voltou para casa, dizendo que apareceria sempre que eu a convidasse.
Providências
Sentimos muita falta quando a sinhazinha foi embora, e a vida demorou um pouco para pegar novo ritmo, antes tão à mercê das horas. As obras na padaria atrasaram porque estava difícil conseguir material de acabamento, e meu único trabalho continuou sendo o de fazer os cookies do senhor Rui Pereira. Todo o dinheiro que eu ganhava era para comprar farinha e fermento, armazenados na despensa da casa. Certo dia, conversei
com o Alberto e o convenci a dar alforria ao João Badu e à Zolá, que não sabiam como agradecer e não quiseram ir embora do sítio, porque não tinham para onde ir e porque gostavam de nós, não se imaginavam levando vida melhor em outro lugar. Era isso mesmo que eu esperava, mas tinha que partir deles, e disse que só poderiam ficar se aceitassem receber salário, que nem quiseram determinar, comentando que qualquer remuneração seria bem-vinda. Procurei o doutor José Manoel e pedi que entrasse em contato com a sinhá, em São Sebastião do Rio de Janeiro, para ver como ficava a questão do dinheiro prometido ao Sebastião e à Esméria.
O Tico e o Hilário também queriam mandar dinheiro para ela, pelas cartas compradas a prestação. Estavam se saindo muito bem nos negócios e não queriam que a liberdade deles fosse descontada dos prêmios dos velhos.
A Esméria falava sempre que gostaria de ter notícias da Maria das Graças e da Antônia,. de saber se a Antônia já tinha encontrado a filha. Era bem possível que a sinhá também quisesse saber notícias do Banjokô. Todas as vezes que eu pensava nela, tratava de desviar logo do assunto, para não julgar o que tinha feito e também porque me lembrava do Francisco, querendo saber em que lugar das Minas Gerais ele estaria, tentada a pedir à Adeola que descobrisse com seus amigos. Eu ficava me perguntando o que ele teria sentido ao se deitar com a sinhá, mas não devia pensar nisso. O Alberto tinha que ser o único homem merecedor do meu interesse.
Ao contrário do mês de novembro, dezembro foi atropelado pelos acontecimentos, como se nada quisesse ser deixado para acontecer no ano seguinte. Os materiais para terminar a padaria chegaram em um carregamento vindo de alguma província do sul, e o Sebastião sugeriu colocar mais trabalhadores para recuperar o tempo perdido. O senhor Rui Pereira pediu encomendas extras de cookies, muito solicitados para as
festas de fim de ano. A criada que eu tinha arranjado desapareceu sem deixar notícias e a Zolá caiu doente.
Com tantas outras coisas para fazer, eu não conseguia ajudar a Esméria a cuidar da casa, nem ela dava conta sozinha. Procurei a Esmeralda na confraria e pedi que arrumasse outra criada, e acabei conseguindo uma igbo liberta, Aparecida, preferiu ser chamada pelo nome africano, Nweka, ao ver que eu usava o meu. A Nweka não ficou nem três dias, pois quando foi contratada não entendeu que eu mesma era a sinhá, e não aceitava trabalhar sob minhas ordens.
Se era a Esméria quem mandava, ela até obedecia, talvez em consideração à idade, mas quando era comigo, fingia não ouvir e insistia em levar as coisas do jeito dela, um serviço muito malfeito. Era porca e descuidada, e até me deu a impressão de quebrar algumas coisas de propósito. Depois de quatro dias, paguei uma semana e a mandei de volta para a cidade, e novamente fui atrás da Esmeralda, para encontrá-la toda atrapalhada, cuidando de dois meninos que regulavam em idade com o Banjokô, sendo que um deles, o mais novo, estava bastante doente. O problema deles era fraqueza, pois tinham sido achado) sozinhos no mato. O mais velho disse que estavam com a mãe, que tinham perdido ao sair para procurar comida, e encontraram o corpo dela a uma certa distância, já começando a apodrecer.
Os meninos também não teriam sobrevivido por muito tempo se não tivessem sido encontrados pelo amigo da Esmeralda, um negociante de tecidos que estava chegando de viagem e viu os dois encolhidos debaixo de uma árvore, chorando de medo e de fome. Na hora nem pensei direito, só sei que tive muita pena daquelas crianças e achei que seriam boas companhias para o Banjokô, que se sentia sozinho depois da partida da Carolina. Perguntei à Esmeralda se ela me dava os dois para cuidar e ela respondeu que seria um grande alívio, pois não tinha condições de ficar com eles e não sabia de
ninguém que tivesse.
Aluguei uma cadeirinha, coloquei os meninos dentro e segui atrás junto com a Malena, a nova criada, uma crioula risonha e aparentando muito menos do que os quinze anos que dizia ter. A Esméria comentou que ela tinha o meu jeito quando eu tinha quinze anos, tempo que nem estava assim tão longe se contado só pelos dias, mas que parecia muito distante levando-se em conta os acontecimentos. Na idade dela eu já tinha o Banjokô e estava trabalhando na casa dos Clegg.
Durante alguns dias consegui esconder os meninos do Alberto, pois não sabia qual seria a reação dele se até mesmo eu, depois de ter pensado melhor, achei que tinha cometido um grande desatino. Principalmente depois de ver que, alojados na casa da Zolá e do João Badu, os dois não queriam outra vida anão ser comer e dormir. De vez em quando falavam na mãe, mas não choravam mais por causa dela. A Esméria disse que aquilo era passageiro, que eles logo estariam correndo pelo terreno, brincando com o Banjokô, e, para fortalecê-los logo, preparou uma mistura de araruta, tapioca, milho e farinha do reino.
Enquanto eles se recuperavam, dois pretos chamaram no portão do sítio querendo saber se havia algum trabalho que podiam fazer em troca de comida e de uma noite de pouso. Gostei do jeito deles e perguntei o que sabiam fazer. O mais alto, que parecia ter um certo comando sobre o outro, disse que era cozinheiro, que tinha trabalhado em restaurante em terra e em navio, e que o amigo sabia fazer de tudo um pouco, sem função definida. Perguntei se eram libertos e ele disse que sim, que antes moravam em Santos, na província de São Paulo, e era de lá que tinham vindo. Mas foram roubados no navio em que viajaram em troca de serviço e estavam sem nada, percorrendo os arredores de São Salvador à procura do que fazer, já que tinham receio de andar sem
documentos pela capital.
Não sei por que acreditei na história deles, que poderia ter sido inventada. Eles podiam estar fugindo de um senhor ou mesmo da polícia por causa de algum crime, mas achei que eram sinceros e perguntei se podiam dar conta do trabalho de uma padaria. O cozinheiro disse que sim, que tinha experiência em fazer quase tudo, e o amigo podia ajudar na cozinha ou fazer a limpeza, ou mesmo atender em balcão, porque sabia fazer contas.
Resolvi dar abrigo para os dois, com planos de que ficassem no sítio, sendo testados, até as obras da padaria ficarem prontas.
A casa da Zolá e do João Badu estava cheia, com a Malena e os dois meninos ocupando um dos quartos e os dois homens, o outro. Os meninos não souberam dizer os nomes verdadeiros, e por um tempo foram chamados de Tição e Praga, como se denominaram. A Esméria ficou indignada e arrumou para eles nomes bonitos de apóstolos de Cristo, Tiago e Mateus. Dos dois homens, o cozinheiro se chamava Jongo, um jaga, e o outro, crioulo, tinha o nome de Adriano. Depois da primeira noite que dormiram na casa, o João Badu me chamou em particular e disse que havia algo de muito estranho com eles, que fizeram muito barulho durante a noite, barulho estranho,
que
incomodou
o
sono
de
todos,
principalmente o sono adoentado da Zolá, mais leve que vento.
Achei que podia ser implicância dele e perguntei à Malena se também tinha ouvido alguma coisa; ela confirmou, mas não teve coragem de contar o que estava pensando. O Jongo pediu muitas desculpas e disse que poderiam ir embora se eu quisesse, mas tinham ficado muito felizes por dormir em um lugar coberto e asseado, em esteira nova, e não acharam que as paredes fossem tão finas. Perguntei se dormiam mesmo juntos e ele respondeu que sim, havia mais de três anos, e que se eu
desse uma nova chance, prometiam não incomodar,!
Sem saber o que fazer, pedi a opinião da Esméria, que me surpreendeu citando um ditado iorubá do qual não me lembro as palavras corretas, mas elas diziam que nas coisas entre marido e mulher ninguém dá palpite.
Entendi aquilo como se ela não pudesse julgar o tipo de relacionamento dos dois, nem ela nem ninguém, e que eu não deveria mandá-los embora só por causa disso.
Mas ela também comentou que havia alguma coisa estranha comigo, que ainda não sabia o que era mas ia descobrir. Eu me lembrei da estranha sensação de peito apertado, de agonia, da moleza que às vezes me abatia, e tive medo de ficar doente! como a Zolá, que ninguém sabia o que tinha, mas que não conseguia se manter de pé. Resolvi nem pensar nisso e tocar a vida para a frente, porque muitas coisas estavam esperando para acontecer.
Primeiro, comentei com o Alberto sobre o Jongo e o Adriano, dizendo que talvez já tivesse conseguido dois bons funcionários para a padaria e estava pensando em ficar com eles no sítio, para ver como se saíam no preparo de algumas receitas. Omiti a parte que não interessava, sobre os dois serem jimbandas, porque os homens são piores que as mulheres para aceitar esses comportamentos. O Alberto achou que tudo bem, mas queria saber direito quem eles eram, pois muitos bandidos e assassinos andavam por aquela região e ele temia pela nossa segurança. Depois de conversar com eles e fazer as mesmas perguntas que eu tinha feito, recebendo as mesmas respostas com sinceridade e clareza, também achou que eram pessoas de confiança.
Fiquei curiosa para ouvir a história do Jongo depois que o Alberto comentou que era difícil ver um jaga em São Salvador, só mesmo saído de São Paulo ou do Rio de Janeiro, e mesmo assim também não era comum. Os jagas já tinham parado de entrar no Brasil, pois os
portugueses, por motivos que não se sabia direito, estavam preferindo os escravos da Costa da Mina, de onde eu tinha saído. Eu quase nada sabia sobre a África e muito menos conhecia as regiões, sendo que o lugar mais distante do qual tinha ouvido falar era Natitingou.
Em relação às crianças foi um pouco mais difícil, e percebi que apelar para os bons sentimentos dele não ia adiantar. A primeira coisa que ele falou foi que de criança, enquanto não tivéssemos a nossa, já bastava o Banjokô.
Comentei então que os meninos podiam ser úteis, sempre era bom poder contar com moleques para recados ou coisas desse tipo. Ele concordou em fazer um teste, mesmo porque não tinha coragem de mandar as crianças embora, doentes e sem terem onde ficar, mas não era para eu mantê-las no sítio se arrumasse outra solução. Sobre a Malena ele não falou nada, viu a mocinha andando pela casa, nos seus afazeres, e sabia que era necessária. Além do mais, não tinha quem não gostasse dela, com um sorriso tão constante no rosto que às vezes até parecia boba.
Uma reunião
O Alberto não se dava muito bem com o Banjokô, por ciúmes ou falta de jeito com crianças, não sei. Só sei que nunca tinha visto os dois conversando e muito menos brincando, como acontecia com o Francisco. Muitas vezes eu e a Esméria tentamos fazer uma aproximação, mas sem muito sucesso, e eu pensava em como ele seria com os próprios filhos, que tanto dizia querer. Um dia, perguntei ao Fatumbi por que nunca tinha se casado e ele não soube responder, dizendo apenas que não sentia necessidade. Fez um comentário interessante sobre os muçurumins que viviam na Bahia, os que realmente tinham abraçado a religião, e não os que se convertiam por interesse.
Quase nenhum era casado, a não ser os religiosos, pois estes podiam ficar em casa e sustentar família, famílias, dependendo da renda de cada um. Podiam cobrar por trabalhos religiosos e também recebiam muitos presentes, geralmente em dinheiro ou comida, para que pudessem continuar estudando os ensinamentos do profeta e educando os convertidos. O alufá Ali, por exemplo, já tinha se casado com a segunda esposa, no primeiro fim de semana depois do Ramadã. No dia em que me contou deste casamento, o Fatumbi tinha ido até o sítio me convidar para uma reunião que seria realizada em um solar da Vitória, que trataria de assuntos que poderiam me interessar.
Foi estranho olhar novamente para aquela rua, a primeira onde eu tinha morado em São Salvador, sendo que em tão pouco tempo já estava na quinta morada, contando com a senzala pequena, a senzala grande, o solar, a loja do alufá Ali e o sítio, e algo me dizia que não era a definitiva. Entramos por um portão lateral e fomos até o fundo do terreno, onde já estavam vários pretos, a maioria muçurumins. Havia também quatro mulheres, cinco contando comigo. Era a casa de um inglês, e estranhei quando vi que ele também ia participar da reunião.
Quem começou a falar foi um muçurumim que devia ter uns cinqüenta anos, muito magro e alto dentro de um abadá. O inglês ficou um pouco afastado do grupo em que nós estávamos e de vez em quando balançava»
cabeça, concordando com as palavras do preto. No caminho, o Fatumbi disse que eu teria respondidas algumas das perguntas que vinha fazendo, sobre»
ingleses estarem mesmo do lado dos pretos. Pelo que percebi, o apoio não era muito direto, mas os ingleses estavam a par de tudo que acontecia e passavam informações aos seus pretos, que, por sua vez, tratavam de espalhá-las para os outros.
O assunto do dia foi o visconde de Camamu, presidente da província da Bahia, que estava tomando uma série de medidas para reforçar a guarda evitar as pequenas revoltas que estavam acontecendo, principalmente no Recôncavo, em Cachoeira. Para aquela região, ele conseguira junto à corte a contratação de mais de setecentos homens muito bem armados, que tinham sido solicitados com a desculpa de combater os assaltantes que infestavam as estradas. A mesma quantidade de homens também estava sendo contratada para a capital, e alguns já tinham agido em Cotegipe, a seis léguas de São Salvador, onde rebeldes incendiaram um engenho e foram controlados antes mesmo de tentarem qualquer outra coisa.
O homem que comandava a reunião, de nome Diogo, disse que os pretos precisavam se unir e pensar de uma maneira mais conjunta, que agindo isolados em engenhos apenas provocavam a ira das autoridades e dos senhores de escravos, que ficavam mais prevenidos.
Quando ele perguntou quem mais gostaria de falar, vários pretos relataram tudo o que sabiam sobre as tentativas ou as rebeliões ocorridas na província da Bahia ou em outras, tudo anotado pelo James, que, assim como o Diogo, morava naquela casa. Durante os relatos, todos eram incentivados a opinar sobre o que achavam que tinha dado certo ou errado, com sugestões para que as falhas não voltassem a ocorrer.
Foi no quintal daquela casa, de um inglês chamado Mellors, que tinham construído uma pequena mesquita muçurumim, uma cabana que só era diferente das outras por causa do teto abobadado, feito de folhas de palmeira. Ao final da reunião, os que eram muçurumins entraram para rezar, e mesmo os que eram apenas curiosos puderam dar uma olhada, menos nós, as mulheres. O Fatumbi pediu que eu o esperasse, pois me acompanharia de volta ao sítio. Confesso que fiquei um pouco decepcionada, pois imaginava que em tais
reuniões tratassem de idéias efetivas contra a escravidão, e comentei isso com o Fatumbi.
Ele disse que tratavam sim, mas longe das vistas do inglês, dentro da mesquita, e que na hora certa me falaria de alguns planos. Por ora, eu deveria começar observando os navios que transitavam no mar de dentro e no mar de fora, ajudando a denunciar os que poderiam carregar escravos capturados ao norte da linha do Equador, em África. Já havia alguns anos que estava proibida a entrada no Brasil de escravos vindos da Costa da Mina, por exemplo, que fica acima da linha que divide o mundo em Norte e Sul. Se fossem descobertos navios carregando escravos aprisionados nas regiões proibidas, os pretos seriam enviados de volta à África, e toda a mercadoria apreendida, se houvesse, poderia ficar para quem os capturasse, trabalho no qual os ingleses estavam muito empenhados. Mas os comerciantes portugueses e brasileiros não obedeciam à lei, e quando chegavam à Bahia com carga proibida, ficavam por alguns minutos ancorados ao longe e distribuíam os escravos em embarcações menores, que atracavam em qualquer praia da cidade sem passar pela fiscalização do porto. Eu deveria ficar atenta a qualquer movimentação desse tipo e denunciar aos ingleses, que, como recompensa,
tinham
prometido
entregar
aos
denunciantes parte das armas recolhidas a bordo, o que era muito interessante para quem planejava rebeliões ou algo do gênero.
Perguntei ao Fatumbi como reconhecer tais navios, os tumbeiros, e ele disse que geralmente eles eram esperados por uma série de embarcações menores.
Eram também barcos mais velhos, para que os donos não perdessem muito dinheiro em caso de abordagem e apreensão. Por isso, apesar do grande lucro cada vez que iam e voltavam de África, os tumbeiros não primavam pela boa conservação e pela segurança dos que transportavam. Quanto à questão do lucro, eu, que
já achava uma fortuna os dois contos que tinha, não conseguia imaginar quanto significava o preço de um escravo multiplicado por quatrocentos, quinhentos e até mesmo por mais de setecentos que embarcavam em uma única viagem.
O Fatumbi me acompanhou só até o portão, dizendo que tinha algumas coisas a providenciar na cidade. Quando perguntei onde poderia encontrá-lo para avisar caso desconfiasse de algo sobre os tumbeiros, ele mais uma vez não quis revelar. Disse para avisar na loja do Manuel Calafate, que eu já sabia onde ficava, e onde sempre haveria alguém que conhecia as providências a tomar.
Ao procurar pelo Calafate, eu deveria dizer a senha usada no primeiro dia em que estive com ele para levar o bilhete. Ou então poderia arriscar a casa da Vitória, procurando pelo Diogo ou pelo James, mas nunca deveria falar com alguém que não conhecesse, e o Fatumbi lamentou não ter se lembrado de me instruir a olhar bem para os rostos das pessoas que fiquei conhecendo por intermédio dele. Os nomes não importavam, porque cada um podia trocar de nome quantas vezes precisasse, mas as fisionomias teriam que ser muito bem lembradas. O Fatumbi prometeu voltar dentro de dois ou três dias para conversarmos sobre os propósitos daquelas reuniões e sobre a padaria, que já estava quase pronta para ser inaugurada.
A novidade
Voltando da reunião, quando entrei em casa não me senti muito bem, e imaginando que poderia ser cansaço, fui para a cama antes mesmo de o Alberto chegar.
Sonhei com a Taiwo segurando uma criança no colo e acordei quase com a certeza de estar pejada. Na manhã seguinte, quando o Alberto acordou, eu me levantei somente para tomar o pequeno almoço com ele, e voltei para a cama sem comentar nada sobre o sonho.
Primeiro, eu queria ter certeza, e depois não sabia como
dar a notícia, não sabia se devia me alegrar ou apenas aceitar, pois continuava achando que aquela não era a hora de ter mais um filho. Chamei a Esméria e pedi que me examinasse.
Ela disse que nem precisava, que tinha ficado muito claro o motivo pelo qual vinha me achando estranha nos últimos dias e, colocando a mão sobre a minha barriga, disse que já ia para três meses, quase o mesmo período da sinhazinha, e eu nem tinha percebido. Aliás, não tinha percebido o atraso de um período de regras, mas a Esméria disse que podiam vir mesmo eu já estando pejada, logo no início. Disse também que a beberagem podia falhar, que inclusive já tinha me falado sobre isso quando deitava com o Francisco. Diante de tantas coisas que podiam ter acontecido e não aconteceram, e depois de me lembrar que a Taiwo estava feliz no sonho, que teria a criança, provavelmente um menino, como o Babalaô Gumfiditimi tinha dito.
O Alberto não sabia o que fazer quando contei sobre o filho. Saiu me agarrando e dançando pela sala, depois dançou com a Esméria e quase pegou o Banjokô no colo, dizendo que logo ele teria um irmão. Disse que tinha certeza de que seria um menino e eu confirmei, acrescentando que seria muito parecido com ele. Abriu uma garrafa de vinho e me permitiu tomar só um pouco, pois não faria bem para a criança, e falou sem parar quando fomos nos sentar na varanda e tomar o vento fresco da noite. Acabou abrindo mais duas garrafas, e bebeu sozinho enquanto contava histórias da infância em Portugal, do pai, de como gostava quando saíam juntos para pescar, não vendo a hora de o filho nascer para que a história se repetisse.
Fiquei feliz com a animação dele, que acabou dormindo na varanda, sentado na posição em que estava quando terminou a terceira garrafa de vinho. Na manhã seguinte ele não foi trabalhar, com dor de cabeça, e no
fim do dia eu já estava bastante irritada com ele andando atrás de mim o tempo todo, dizendo para tomar cuidado com isso, para não fazer aquilo, perguntando se eu não queria me deitar. A não ser pela indisposição na noite em que tinha voltado da cidade, eu estava me sentindo ótima e com muita vontade de trabalhar, mas o Alberto não permitiu que eu fosse até a padaria, prometendo ir ele mesmo. E realmente fez a primeira visita às obras, e ainda passou pelo escritório do doutor José para deixá-lo a par da novidade. Além de enviar felicitações, o doutor José Manoel ficou de perguntar à sinhazinha onde ela tinha mandado fazer o enxoval da Carolina, para encomendarmos o do nosso filho.
A Esméria não cabia em si de felicidade por vê-lo tão animado, e em agradecimento fez um ebó para Oxum.
Ela comentou que se tivesse alguém para levá-la, naquele ano gostaria de participar da Missa do Galo. Foi só então que me lembrei de que estava chegando o Natal e tive que correr para retribuir a cesta de quitutes mandada pela sinhazinha, e acabei me esquecendo de comprar o presépio. Eu não sabia se as pastoras passariam pelo sítio, mas queria estar preparada, pois o Banjokô adorava vê-las cantando em frente ao presépio na casa da sinhá. Naquele Natal ele ficou na vontade, porque quando elas entraram na sala e não viram nenhuma sinhá, ou pelo menos alguém que se parecesse com uma,e nem o presépio, mal recitaram uns versinhos e foram embora, mesmo depois de receberem um ajudatório bastante generoso.
O Alberto estava muito feliz na noite de Natal, mas não quis ir à Missa do Galo, e a Esméria chamou o Jongo e o Adriano para que a acompanhassem. Antes, os dois passaram o dia na cozinha, preparando pratos para a minha ceia com o Alberto. Como o Banjokô sempre dormia cedo, passamos a noite sozinhos, depois que levei a comida que tinha sobrado para a casa do João Badue da Zolá, que, junto com a Malena, mais pareciam
uma família. Apesar de ter muito trabalho, a Malena conseguia manter as duas casas limpas e arrumadas, e à noite ainda cuidava da Zolá, que alternava períodos de melhora com outros em que mal conseguia se manter sentada na cama, com fraqueza nos ossos.
A minha noite com o Alberto só não foi mais perfeita porque ele não quis se deitar comigo, com medo de fazer mal à criança, mesmo com a Esméria tendo garantido que isso não aconteceria. Por causa disso conversamos muito, e foi bom conhecer melhor o homem com quem estava vivendo, e gostando de viver. Perguntei se ele tinha vergonha de mim, se teria vergonha do nosso filho, e ele disse que por ele não, mas que eu deveria saber que as pessoas não aceitavam muito bem o tipo de relação que tínhamos. Os brancos gostavam dos pretos apenas para servir e não queriam que tivessem os mesmos direitos,! ou regalias, e mesmo um branco pobre seria muito mais considerado que um preto rico.
Disse ainda que as coisas eram assim e por muito tempo ainda seriam, e que ele, Alberto, não teria como mudá-las e enfrentar todo mundo, Mas eu sabia de brancos que tinham enfrentado, que assumiram que gostavam de uma preta e viviam com ela, não se importando com o que os outros falavam. Não tive coragem de comentar isso com ele, acho que fiquei com pena, não sei, de que ele se sentisse inferior a esses homens.
No dia de Natal, o Alberto inventou que tinha alguns assuntos para resolver na loja, fechada, e eu fingi acreditar. Imaginei que ele quisesse ir para a casa de algum amigo e não tinha coragem de me dizer, porque nunca teria coragem de me convidar. Então, preferiu mentir. Mas o meu dia foi muito bom, pois o Fatumbi apareceu um pouco antes do almoço e ficou até o anoitecer. Contei sobre a criança e ele abençoou minha barriga, fazendo algumas orações na língua dele, desejando que meu filho tivesse muita sorte.
A Esméria, o Jongo e o Adriano tinham voltado da cidade quando já era dia, depois de assistirem à missa e às apresentações de folguedos, e no caminho encontraram uma pata com quatro patinhos, que deram de presente ao Banjokô. A família de patos foi a diversão dele e dos dois meninos durante o dia inteiro. Eles cavaram um pequeno lago perto do poço, com a ajuda do João Badu, e de lá não saíram nem para almoçar. O Mateus e o Tiago, depois dos dias de descanso e engorda, e de um pouco de acanhamento, haviam se tornado companhias perfeitas para o Banjokô, ensinando e aprendendo novas brincadeiras.
Depois do almoço, estendemos algumas esteiras à sombra das mangueiras e ficamos conversando, eu, a Esméria e o Fatumbi, e mais tarde o Jongo e o Adriano também se juntaram a nós. O Adriano era calado, apenas respondia às perguntas que fazíamos, mas o Jongo era falante e logo ficamos sabendo que seu nome verdadeiro era Zimba, mas era chamado de Jongo por causa de um folguedo. Ele não pôde nos ensinar o jongo porque precisava de instrumentos, principalmente de um tambor, mas explicou que era um tipo de dança de roda em que as pessoas ficavam cantando pontos, ou versos, que
continham
adivinhas
que
precisavam
ser
desamarradas pelos outros jongueiros. A pessoa que conseguisse resolver um ponto propunha outro, sempre cantando, e assim por diante, às vezes varando a noite em tal brincadeira. Apesar de não termos como brincar direito, todos propuseram alguns enigmas e foi muito divertido.
Nos dias seguintes, e até a virada do ano, o Alberto não foi trabalhar, e aproveitamos algumas tardes para levar o Banjokô à praia. De início, o Alberto não queria ir, mas depois que estávamos lá, começou a achar engraçadas as brincadeiras do menino e a se divertir com a alegria dele ao pular uma onda ou ao encontrar uma concha diferente. íamos logo de manhã ou no final da tarde,
quando o sol não estava muito quente, e levávamos comidas e refrescos. O Alberto se descobriu bastante habilidoso para fazer esculturas na areia e atender aos pedidos do Banjokô, e o primeiro deles foi um piano.
Quando o menino começou a dedilhar o instrumento esculpido na areia, ele se admirou e disse que compraria um, para que nosso filho também aprendesse. Além da praia, um dia também fomos juntos até a obra, e o Sebastião disse que podíamos marcar a inauguração para dali a uma semana.
Na passagem de ano para um mil oitocentos e trinta, o Alberto foi participar dos festejos na cidade, mas preferi ficar no sítio. Acho que para ele foi um bom arranjo também, mas, na verdade, eu não estava com muita vontade de sair. Gostava cada vez mais de ficar em casa, na minha casa, junto de pessoas queridas. Fizemos uma pequena festa no quintal e até mesmo a Zolá apareceu, embora por pouco tempo. Em um instante, observando uma troca de olhares! entre o Jongo e o Adriano, eu me lembrei do Lourenço. Os dois eram muito discretos e nem mesmo o João Badu tinha reclamado novamente, embora não trocasse palavra com eles. Mas estava uma noite bonita, de lua clara, e por um breve instante um deles olhou para o outro com muito carinho, o que me fez recordar que eram homem e mulher um para o outro, e associar esta idéia ao que o sinhô José Carlos tinha feito ao Lourenço. Não que houvesse semelhança nos gestos ou nos atos, mas foi o que me veio à cabeça, e tive muita pena do Lourenço. Ele fora obrigado a desistir dos planos que tínhamos feito, como fugir para um quilombo e criar nossos filhos. A vida que eu levava naquele momento era muito melhor do que eu sequer poderia imaginar e, provavelmente, a dele era muito pior. Fiquei imaginando que teria sido bom se ele tivesse conseguido fugir para a África, onde tinha uma família grande, que gostaria dele do jeito que estivesse, mesmo capado. Com estes pensamentos, me despedi de todos e fui para o quarto, porque não agüentava mais segurar as
lágrimas, compreendendo pela primeira vez que todo o acontecido com o Lourenço tinha sido por minha causa.
Achei bom que o Alberto não tivesse voltado da cidade, para eu poder passar a noite sozinha, acordada e chorando, sem ter que explicar. Na manhã seguinte conversei com a Esméria, que quis saber o motivo dos olhos inchados, e ela disse para eu tirar aquilo da cabeça, pois não tive culpa de nada, que ele agiu do jeito que tinha achado que precisava agir Mas nenhum argumento me convenceu, e eu só pensava em fazer algo para ajudá-lo, se é que ele aceitaria minha ajuda.
Saudades de Lisboa
Nossa padaria foi inaugurada nos primeiros dias de janeiro, com anúncio publicado em um jornal, acho que de nome Grito da Razão, não me lembro direito, e a participação de banda de música. No anúncio estava escrito que a Padaria Saudades de Lisboa vendia o melhor pão que se podia encontrar na Bahia, feito de massa cevada ou de massa branda, e pão de Provença como o melhor que se fabricava nas padarias francesas de São Sebastião do Rio de Janeiro. Isto o Alberto garantiu depois de provar do nosso, que não tinha o mínimo cheiro ou gosto de fermento.
O anúncio também explicava que vendíamos biscoitos, doces finos, cookies ingleses e bolachas americanas doces e salgadas, roscas, cassetes, pão-de-ló, puddings, sequilhos
e
fiambres,
e
também
aceitávamos
encomendas para festas, recepções e chás, atendendo aos senhores clientes das 3 horas da manhã às nove horas da noite. A banda foi uma bonita atração, [quem mais se divertiu com ela foi o Banjokô, que demonstrava não só talento, mas muito gosto por qualquer tipo de música. Durante toda a manhã, o público se deliciou com as marchinhas tocadas pela banda do mestre Agostino, clarineta, flauta, tambor, prato e guitarra.
O mestre Agostino tinha um ponto comercial ao lado da padaria, e era um português que vivia no Brasil havia mais de trinta anos, barbeiro de profissão, mas com muitas outras funções. Além de ser maestro da banda e ensinar a tocar guitarra, como dizia uma placa do lado de fora da casa dele, também exercia os serviços de barbeiro e cabeleireiro de senhoras, consertava malha escapada de fio de seda, arrancava dentes e fazia pequenas cirurgias com bisturi, além de aplicar sanguessugas. Mas a banda era a sua verdadeira paixão, e foi contratada por quatrocentos réis para chamar a freguesia. Ela também se apresentava em igrejas, bailes, festas, partidas, chegadas e carregamentos de navios.
Achei
muita
graça
quando,
acompanhando
os
movimentos do maestro, o Banjokô começou a reger uma orquestra de moleques que usavam pedaços de madeira e ferro que encontravam pela rua para fazer as vezes de instrumentos. Enquanto a banda tocava, durante a parte da manhã, distribuímos de graça pedaços de pães, bolachas e bolos, para que todos ficassem conhecendo a qualidade dos nossos produtos.
Os senhores e senhoras se recusavam a aceitar, mas corriam para casa e mandavam seus escravos, com a recomendação de voltarem com uma amostra de cada coisa. Na primeira semana o movimento já foi bastante grande, quase dando fim ao estoque de matéria-prima que eu tinha imaginado que fosse durar pelo menos um mês. Quando fui conversar com o senhor Rui Pereira, dizendo que a "minha sinhá" não poderia mais cumprir o contrato
de
exclusividade
por
estar
abrindo
estabelecimento próprio, ele disse que gostaria de continuar recebendo os cookies assim mesmo, além de outros produtos diferenciados que fabricássemos, pois já tinha freguesia cativa, o que não nos fazia concorrentes.
A Adeola, o padre Heinz, a Claudina, o alufá Ali, o Tico, o Hilário, o doutor José Manoel e o sócio dele também apareceram e ficaram para almoçar comigo, o Alberto, a
Esméria, o Banjokô e o Sebastião, em uma mesa improvisada que armamos no quintal da padaria. Um almoço de comemoração e sorte. Antes de sairmos de casa, eu e a Esméria tínhamos oferecido um ebó para Exu e flores e um colar de contas de vidro para Oxum, e em nome dela também plantamos uma muda de dinheirinho-em-penca logo na entrada da padaria.
A sinhazinha, que não estava se sentindo bem-disposta, mandou pelo doutor José Manoel uma imagem de Nossa Senhora, que foi colocada em um nicho aberto entre as prateleiras, do lado de dentro do balcão, depois de ter sido benzida pelo padre Heinz. Ele também benzeu todas as instalações, como a primeira fornada de pães que foi distribuída, muito disputada por todos os presentes. Naquele dia o Fatumbi ficou no caixa, listando todos os produtos vendidos e se inteirando dos preços, para que pudesse ter controle de tudo. No fim da tarde, ele me confidenciou que ainda tinha problemas a resolver antes de assumir a função diária, pediu desculpas e disse que explicaria tudo ao Sebastião e daria um jeito de aparecer a cada dois ou três dias durante mais ou menos um mês. Perguntei se estava com algum problema sério e se eu poderia ajudar, mas ele disse que não, que logo estaria tudo certo e cumpriria o prometido.
A primeira semana foi de acertos, mas na segunda visitei alguns mercados e consegui quatro clientes para os produtos da Saudades de Lisboa, como também tive que contratar mais duas empregadas. O Jongo coordenava a cozinha ajudado pelo Adriano, e eu estava sentindo muito a falta deles no sítio, apareciam somente aos domingos, quando a padaria fechava logo após o almoço.
As outras empregadas eram a Clarice e a Lourdes, crioulas forras indicadas pela Esmeralda, que também tinham experiência em cozinha e se deram muito bem com os rapazes. A Lourdes trabalhava de quatro da manhã até a primeira hora da tarde, quando então era
rendida pela Clarice, que ia até as dez horas da noite.
O Tico e o Hilário continuaram como vendedores dos produtos da Saudades de Lisboa, oferecendo-os em bares, restaurantes e hotéis da capital e do Recôncavo.
O Alberto conseguiu fazer com que um clube de patrícios nos [tomasse como fornecedores em todas as festas que promoviam, o que ajudou a conseguir muitos clientes particulares, que gostavam do que era servido.
Em três meses tivemos de contratar mais empregados, duas filhas da Clarice, mulatas darás chamadas Maria José e Maria Cássia, que passaram a atender no balcão em horários alternados, enquanto eu, quando podia, ajudava o Sebastião no caixa e no livro de contas.
A busca
Como tinha prometido, o Fatumbi aparecia a cada dois ou três dias e supervisionava nosso trabalho, emitia ordens de compra e de pagamento e fazia a revisão de caixa. Mas desapareceu de repente, ninguém sabia dele em nenhum lugar que costumava freqüentar, nem na loja do alufá Ali. Eu já tinha mandado deixar vários recados na loja do Manuel Calafate sem obter resposta, até o dia em que resolvi ir pessoalmente. Falei com um muçurumim chamado Aprígio, que também não sabia dele, mas disse que talvez ele comparecesse a uma reunião marcada para dali a três dias na casa do inglês da Vitória, onde eu já tinha ido. Naquele dia consegui mais um vendedor, pois, além de ser carregador, o Aprígio também vendia pães, e combinamos que ele passaria pela Saudades de Lisboa todas as manhãs, para encher o balaio e fazer entregas para fregueses cativos.
Enquanto conversávamos no portão, vi um branco saindo do sobrado e perguntei se era algum inglês, e o Aprígio respondeu que não.
Eles, os muçurumins que eu conhecia, ocupavam apenas a parte de baixo do sobrado, e também por isso tinham
tanto cuidado com quem levavam lá. Tinha que ser pessoa de inteira confiança, que soubesse a senha. O
branco que eu tinha visto morava no andar superior e era funcionário público, um major, que residia com mulher e filhos. O andar do meio, que na verdade ficava na altura da rua, era ocupado pelo mulato Domingos e pela Joaquina, mulata que vivia de portas adentro com ele, mais uma criança de colo que era filha só dela.
Com os três também vivia um nagô, Ignácio, escravo de um irmão do Domingos que morava no Recôncavo. O
Domingos era responsável perante o senhorio e tinha alugado o porão para o Manuel Calafate e o Aprígio, que por sua vez alugaram o quarto dos fundos para o escravo Belchior, também nagô. E para provar que o mundo era mesmo pequeno, dias depois descobri que esse Belchior era o mesmo da fazenda de Itaparica, o namorado da Felicidade. Ainda na fazenda ele tinha falado em se converter, mas eu achava que era só para ficar com ela.
Acabei me encontrando com o Belchior na reunião da Vitória. Ele estava parado ao lado do Aprígio, que só cumprimentei de longe, pois quando cheguei a reunião já tinha começado e não quis chamar atenção. O
Belchior não me reconheceu, mesmo porque se lembrava de mim ainda da época da fazenda, quando eu não tinha nem doze anos. Ele não tinha mudado muito, mas, mesmo assim, fiquei apenas com a impressão de já conhecê-lo sem saber de ond o que comentei quando terminou a reunião. Ele disse que estava em São Salvador havia mais de cinco anos e que antes tinha morado na Ilha de Itaparica. Foi quando me lembrei do nome dele e perguntei se tinha conhecido a Kehinde, amiga da Felicidade, e então ele também se lembrou de mim.
O Belchior contou que tinha sido vendido logo depois que a sinhá se desfez da fazenda, porque o novo dono já
tinha alguns escravos e preferiu continuar com eles.
Então foram vendidos os que os capatazes acharam que poderiam criar problemas, os mais novos, os mais fortes e os que tinham fama ou jeito de rebeldes. Ele estava na cidade trabalhando a ganho e pagando a carta de alforria a prestação, depois de ter se convertido, como sempre pensara em fazer, mesmo não tendo se casado com a Felicidade.
Depois de ser vendido, ainda foi até a fazenda algumas vezes, tentando se encontrar com ela, mas o novo dono tinha dificultado muito as coisas, vigiando de perto os escravos e não deixando que eles se afastassem muito da fazenda e nem que alguém diferente se aproximasse.
Depois de algumas tentativas frustradas, ele acabou desistindo e os dois perderam o contato. Já havia se passado muito tempo desde o último encontro, e de vez em quando ele tinha notícias da fazenda por intermédio de um saveirista que aparecia em São Salvador uma vez por semana. Quando perguntei se tinha como saber de pessoas que ainda estavam por lá, ele disse que sim, e pensei que tudo realmente acontece na hora certa. Toda aquela minha consumição para saber do Lourenço e, de repente, aparecia alguém que poderia me pôr em contato com ele. O Belchior ficou de falar com o saveirista e me procurara sim que soubesse de algo.
Fiquei preocupada quando a reunião terminou e o Fatumbi não apareceu, mas o Aprígio tentou me acalmar dizendo que ele era assim mesmo, que de vez em quando sumia por algum tempo e depois reaparecia como se nada tivesse acontecido. Mas eu sabia que ele era responsável, tinha tratado comigo de começar a trabalhar na padaria e, portanto, alguma coisa séria tinha acontecido. Com esses pensamentos, nem prestei muita atenção ao que estava sendo discutido, mas novamente ouvi muitas vezes o nome do visconde de Camamu. Ele tinha sido assassinado com um tiro de
bacamarte, havia menos de um mês, por um cavaleiro que fugiu sem deixar pistas. Sem ter provas, o novo presidente da província disse que aquilo tinha sido serviço dos pretos, e muitos estavam sendo presos sem que nada fosse apurado contra eles.
Alguns anos depois, o assassinato foi atribuído a um grupo de falsificadores de moedas de cobre que o visconde estava investigando. Mas diante das acusações daquele momento, contra os pretos, formou-se uma grande confusão, com alguns dos presentes dizendo que deviam preparar uma rebelião para breve e outros dizendo que ainda não estava na hora, que precisavam se organizar melhor e conseguir mais armas. Acredito que foi ali que nasceu a idéia de uma ação que agitou a cidade poucos dias depois. Até então, todas as rebeliões tinham ocorrido nos engenhos, longe das cidades, e os revoltosos queriam saber o que aconteceria quando elas chegassem à capital, preparando o terreno para a derradeira.
Perguntei à Adeola se ela tinha como localizar um escravo sumido, ou melhor, alguém que tinha sumido, porque eu nem tinha certeza se o Fatumbi ainda era escravo ou se já estava liberto. Ela disse que era difícil, porque os que sumiam podiam ter fugido e fariam de tudo para não serem encontrados. Contei que falava sobre o Fatumbi, que ela conhecia, e ouvi que seria mais fácil tentar saber notícias dele por intermédio dos muçurumins, que não se davam muito com os pretos das outras religiões.
Mas eu já tinha feito isso sem sucesso, e ela prometeu tentar alguma coisa, pedindo aos amigos que ficassem atentos, e perguntou se eu não gostaria de ajudar nas fugas, pois o sítio poderia ser usado como esconderijo provisório, por ser um local afastado. Ela assegurou que não havia perigo algum, e eu teria apenas que dar o consentimento e, se possível, ajudar a prover o escravo
com o que ele precisasse, roupa e comida, pelo período de dois ou três dias que ele ficaria por lá, enquanto esperava para ser enviado para o verdadeiro destino.
Para me convencer, disse que alguém tinha feito isso para o meu amigo, o Francisco.
Tive que concordar, e pensei no casebre que havia atrás do
estábulo,
onde
ficavam
guardados
alguns
instrumentos de trabalho. Quase ninguém ia lá e havia espaço suficiente e seguro para uma pessoa passar poucos dias, sendo que o primeiro habitante apareceu na noite seguinte, provocando riso em vez de apreensão ou pena.
Eu nunca tinha visto, mas sabia que existiam pretos de pele branca, ou sem cor, e de carapinha alaranjada. Não deve ter sido nada fácil conseguir fuga para ele, pois chamava muita atenção por onde quer que passasse.
Uma coisa não tem nenhuma relação com a outra, mas ele apareceu no mesmo dia em que, ao chegar em casa, fui avisada de que uma embarcação suspeita tinha se demorado no mar de fora e que alguns barcos pequenos foram se encontrar com ela, voltando cheios de gente e ancorando no mar de dentro, mais ou menos na direção da Vitória.
Quem viu foi o João Badu, a quem eu tinha pedido que, junto com os meninos, ficasse de olho em navios de comportamento suspeito. Mas como eu não estava em casa, eles não souberam o que fazer. Achei estranho as embarcações terem seguido para a Vitória, porque lá não havia nenhum atracadouro, não que eu soubesse.
Uma rebelião
Eu me sentia muito bem-disposta, apesar do meu estado, e feliz por mim e pelo Alberto. Ele fazia planos, queria escolher o nome do filho e sempre falava em Luiz, para homenagear um avô de quem gostava muito e que talvez
ainda estivesse vivo em Portugal. Mas eu pensava em um nome africano e adiava a decisão para quando não tivesse mais jeito. O Alberto trabalhava bastante, às vezes ficava dois ou três dias sem voltar para casa, dormindo no cômodo do Campo Grande, e sempre que aparecia levava presentes para o filho, para mim e às vezes até para a Esméria e o Banjokô.
Eram presentes caros, e quando eu questionava ele dizia que estava tudo bem, que tinha dinheiro suficiente para não nos preocuparmos com nada. Ele também não queria aceitar o dinheiro relativo à minha parte na sociedade da padaria, mas fiz questão de pagar e ter um recibo para um conto e oitocentos, metade do que tínhamos aplicado. Restaram-me na confraria apenas duzentos mil réis mais os dividendos, que não chegavam a duzentos. Combinamos de não retirar lucros da padaria pelo menos nos seis primeiros meses, e eu pegava apenas a quantia certa para manter a casa, sem grandes regalias.
Mas estávamos indo muito bem, e o Alberto tinha conseguido também o fornecimento de pães para um quartel, não me lembro qual, e a padaria precisou ser ampliada novamente. Para comemorar o acontecido, o Alberto levou alguns amigos até lá, fecharam as portas mais cedo e houve uma grande festa, com comida, bebida e jogo, como me contou o Jongo, porque apareci dois dias depois, para dar uma olhada no terreno dos fundos, que tínhamos comprado, e fui discutir a obra com o Sebastião. Ele tinha voltado no sítio e estávamos os dois na metade do caminho para casa quando encontramos o Aprígio, que nem tinha ido buscar os pães na Saudades de Lisboa, pois uma rebelião tinha estourado e havia grande confusão na cidade. O plano todo tinha sido elaborado depois daquela última reunião, pelos que achavam que estava na hora de começar a luta.
Fiquei preocupada com o Alberto quando soube que tudo tinha começado com um ataque a uma loja de ferragens, mas o Aprígio garantiu que a desordem era na cidade baixa, onde mais ou menos vinte pretos roubaram espadas e parnaíbas, ferindo o proprietário e um caixeiro. De lá partiram para outra loja de ferragens, de onde não conseguiram roubar nada porque o proprietário reagiu, ameaçando abrir fogo contra eles, que tinham as armas descarregadas. Os rebeldes então seguiram para a Rua Julião e atacaram um armazém de pretos recém-chegados de África e soltaram todos, ferindo de morte dezoito escravos novos que se recusaram a acompanhar o grupo.
Os revoltosos já eram mais de cem, e a eles se juntaram muitos pretos de rua, escravos de ganho ou libertos, e atacaram um posto policial nas redondezas da Soledade, tentando conseguir mais armas e munição. Os soldados abriram fogo e resistiram até serem acudidos por um novo destacamento, que cercou os pretos. Muitos conseguiram fugir para os matos de São Gonçalo e do Outeiro, mas pelo menos quarenta foram presos e, segundo o Aprígio, mais de cinqüenta foram mortos. Ele não tinha participado do levante, mas estava entre os que tinham planejado o ataque à loja, e por isso precisava desaparecer por um tempo, com medo de ser denunciado.
O Aprígio estava indignado, porque deveriam apenas atacar a primeira loja de ferragens, sem ferir ninguém, e levar as armas até um lugar combinado. Ele achou que todos foram muito infelizes pensando que poderiam antecipar a verdadeira rebelião, programada para o mês seguinte, abril. De fato, o medo do Aprígio não era infundado, e durante quase dois meses ele ocupou o casebre do sítio, onde sempre recebia notícias do que estava acontecendo na cidade e me contava. De delação em delação, a polícia conseguiu o nome dos principais chefes e capturou todos os que não tiveram condições de
fugir. Não chegaram até a loja onde o Aprígio morava, pois ele tinha o bom costume de não dar a morada para ninguém, mas em muitas lojas foram encontradas armas escondidas sob o assoalho ou dentro de fossos.
Durante o tempo em que o Aprígio ficou escondido no sítio, ele dividiu(o espaço apenas com um preto que não chegou a ficar muito tempo, apareceu no meio da noite e partiu no fim da tarde do dia seguinte. Aos nagôs e aos muçurumins que iam até lá conversar com ele, eu pedia notícias do Fatumbi, de quem ninguém sabia o paradeiro. Em maio nasceu a segunda filha da sinhazinha, chamada Mariana, e logo depois o Alberto partiu em viagem, dizendo que voltaria dentro de duas ou, no máximo, três semanas.