Um Longo Regresso a Casa

Gail Caldwell · Capítulo 9 de 15

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Um Longo Regresso a Casa

.7.

A competição que Caroline e eu alimentámos, juntas ou separadas, tornou-se um prazer em vez de um obstáculo: assumimos a nossa rivalidade e tentámos dominá-la. Sempre que ia nadar, eu escolhia uma pista perto de um adversário involuntário, de preferência um homem, que fosse mais rápido do que eu. Então, durante a meia hora seguinte, concentrava-me em fazer piscinas tentando apanhá-lo. Todos os anos, em outubro, após a mundialmente famosa regata Head of the Charles, Caroline ia para a água sozinha e remava os quase cinco quilómetros do percurso, cronometrando-se a si própria para ver em que posição ficaria colocada dentro da categoria correspondente à sua idade e ao seu peso. A corrida em si era demasiado angustiante para ela e não lhe interessava competir publicamente. Tal como eu, estabelecia uma média anónima e competia contra ela.

Caroline sempre disse que ela e a irmã tinham gerido a herança genética partilhando os seus talentos. «A Becca ficou com a Matemática e as Ciências, eu fiquei com o Inglês e a História», gostava de dizer, e nós as duas fizemos algo semelhante com o nosso currículo de escritoras: a nossa sublimação dentro do domínio mais seguro do atletismo permitiu que nos apoiássemos uma à outra na vida profissional. Segundo a nossa regra não explícita, Caroline era a colunista e eu a crítica: ela escrevia sobre o pessoal e o psicológico, enquanto eu assumia o departamento de análise e interpretação. Ajudava o facto de eu ser mais velha e de ambas adorarmos o nosso trabalho e termos sido recompensadas com o êxito. Penso que éramos suficientemente boas naquilo que fazíamos, pelo que podíamos aplaudir, na maior parte das vezes, inequivocamente, as vitórias uma da outra.

Quando uma de nós era claramente superior, isso atenuava a disparidade: diminuía a pressão exercida sobre o nosso Guerreiro Interior. «Serás sempre a melhor remadora», disse-lhe num verão, aliviada. Isso significava que eu podia realmente descontrair e deixá-la treinar-me. E o remo era o Éden partilhado que nos permitia esforço e vitória sem restrições, qualquer que fosse a corrida. A destreza graciosa de Caroline dentro de água era prova de anos de trabalho, manifestamente orgulhando-se ela desta façanha: um dos momentos felizes da sua vida acontecera na manhã em que Harry Parker, o lendário remador e treinador da equipa de Harvard, a vira no rio e a elogiara perante a sua equipa de amadores, pedindo-lhe em seguida para demonstrar o seu estilo de remo. No inverno, desolada com a longa estação durante a qual o rio estava congelado, Caroline recolhia ao ginásio, onde era conhecida por fazer abdominais com um peso de quatro quilos e meio em cima do peito. Mais fraca, mas apenas um pouco menos fanática, eu quase me matei a tentar fazer a postura do arado no chão da cozinha – um alongamento de costas digno de um contorcionista –, apenas porque Caroline me tinha mostrado o exercício nessa tarde no caminho asfaltado de Fresh Pond. Fora da época de remo, eu frequentava o Gold’s Gym, onde os homens que levantavam pesos faziam ruídos próprios de primatas enquanto eu sofria durante meia hora nas máquinas de remos do ginásio. À medida que caminhávamos pelos trilhos gelados de janeiro, fantasiávamos sobre a possibilidade de praticar desportos de inverno: seríamos demasiado velhas para começar a andar de tobogã? Quando a primavera inconstante da Nova Inglaterra chegava, escavávamos o chão como cavalos loucos. Sabíamos que andar às voltas na água durante o frio e ventoso mês de março podia ser frustrante e mesmo imprudente.

Mas um ano depois daquele primeiro verão em Chocorua, em que Caroline me tinha revelado a chama, também eu sabia que um mau passeio de remo é algo que não existe. O remo abria o mundo de uma forma tão poderosa e quotidiana que a sua simples promessa, fosse em fevereiro ou agosto, nos proporcionava um calendário pelo qual marcávamos a nossa paixão. Desde a minha primeira época completa na água, Caroline condescendeu ao meu fervor com um reconhecimento terno do que ela própria passara anos antes. Quando a água estava perfeita – cristalina e tranquila – desistíamos de qualquer coisa – uma consulta no dentista, um convite para jantar – para ir para o rio. Eu saía com frequência ao final da tarde, quando a vida selvagem acalmara e a linha da costa tinha passado de um brilho duro para um crepúsculo de Monet, e depois regressava à doca com uma luz dourada, enquanto os outros remadores se moviam como pirilampos na água.

A minha teimosia e a força que tinha na parte superior do corpo compensavam a minha perna fraca e em duas épocas conseguira obter um estilo de remo aceitável. Cada dia ficava mais forte, mais rápida, mais entusiasmada. Saía para o rio com chuva e vento forte e regressava exausta e calma. Caroline avisara-me de que a minha relação com o rio ia mudar e dissera-me para ter cuidado a conduzir – com o rio Charles a serpentear junto ao Memorial Drive era fácil esquecer os carros que vinham em sentido contrário e ficar especado a contemplar o estado da água. «O rio vai converter-se numa personagem da tua vida», disse-me Caroline. «Vais ficar admirada com a influência que terá no teu dia.»

Por alturas do outono, eu já tinha traçado um mapa de toda uma zona de flora e fauna, grande parte da qual era invisível a partir de terra firme. Comecei a ajustar o meu relógio interno, que registava os quilómetros percorridos, pelos pontos de referência que encontrava. Havia o homem que tocava gaita-de-foles todas as manhãs numa curva do rio – «The Halls

of Montezuma» 13 14 e, num dia de sorte, «Amazing Grace» – e o rato-almiscareiro cerca de quatrocentos metros rio acima, que aparecia com tanta regularidade que quase podia acreditar que era em meu proveito. (Havia ainda, menos decente, o exibicionista na extremidade arborizada do rio, que se expunha às mulheres que remavam e acerca do qual Caroline me tinha avisado.) Acima de tudo, havia o arco e a geografia do rio e o meu lugar nele. Em setembro, as crias de ganso nascidas na primavera aprendiam a mergulhar sozinhas e os pântanos tinham passado do verde para um rosa-dourado. O todo proporcionava uma paleta no tempo e no espaço cuja beleza estava ancorada na mudança.

Costumava ver Caroline quando ela subia o rio: o rabo-de-cavalo louro, as costas de bailarina profissional, uma remada tão fluida quanto exata. (Ela nunca me via, até eu a chamar, e mesmo então tinha de piscar os olhos. Os óculos de que precisava, e que se recusava a usar, ficavam sempre no porta-luvas do carro.) Por vezes, encontrávamo-nos numa vasta área perto da linha de chegada da regata Head of the Charles. No instante em que colocava as pás dos remos em posição vertical dentro de água e parava, Caroline olhava para o relógio, por vezes disfarçadamente: mesmo no mais calmo dos passeios de remo ela media o tempo que tinha feito. Depois, observava a minha remada e dava-me um exercício para me ocupar durante alguns dias. «Usa os abdominais para a recuperação», dizia. «Para de olhar para trás – não há ninguém atrás de ti. Usa os polegares antes de colocares as pás paralelas à água!» Eu vibrava tanto com a linguagem como com a lição.

No verão do ano 2000, quando eu tinha quarenta e nove anos e Caroline estava quase a fazer quarenta e um, decidimos que tínhamos uma última oportunidade para realizar um sonho: remar num double scull do nosso grupo etário na regata Head of the Charles. Estávamos enganadas quanto à definição da idade, que aceita qualquer emparelhamento com uma média de idades acima de quarenta anos, mas a fantasia pegou e deu-nos uma missão para essa época. Era o tipo de objetivo que ambas adorávamos, um objetivo que podíamos discutir interminavelmente ao mesmo tempo que incorporávamos as exigências do treino necessário na nossa rotina diária. Como ambas pertencíamos à categoria de ligeiros, decidimos que nos denominaríamos Pesos-Leves Literários – julgámos ser um nome adequado para nos divertirmos no rio e talvez até obter o patrocínio de uma ou duas empresas. Morelli, que há muito desejava ver Caroline mostrar o que valia numa corrida, mandou fazer duas T-shirts com o desenho de um remador pequenino no peito e prometeu pendurar-se das pontes para nos fotografar durante os treinos. Sendo a remadora mais experiente, Caroline controlaria o barco, e eu remaria à popa, o que significava que ela teria de diminuir o ritmo da sua remada para se ajustar ao meu.

A desvantagem não a preocupava, mas tinha uma grande importância para mim. Acrescentei abdominais e elevações de perna ao meu regime de exercício e comecei a verificar a pulsação após cada período em que remava à velocidade máxima. Sujeitava Caroline a constantes relatórios sobre o meu progresso: velocidade da remada, pulsação cardíaca, avanços técnicos ou psíquicos. Ela suportava a minha determinação e apaziguava-me sempre que podia. «Tenho receio de te deixar ficar mal», disse-lhe um dia, muito séria – com o meu espírito de pastor alemão pronto a disparar, eu já convertera uma aventura divertida num desafio de uma enorme seriedade.

«Só farei isto contigo se for divertido», disse-me ela, e as minhas antenas ficaram em alerta. «Divertido» era um conceito pouco claro para ambas; o terapeuta dela estava sempre a tentar impor-lho. Era muito mais difícil entrar no espírito do «divertido» do que no espírito do «zelo». Mas, naquele dia, escutei-a e tentei refrear o meu ardor e, por fim, os meus rituais de treino tornaram-se um fim em si mesmo.

Naquele ano, perdemos a entrada no nosso grupo, que é decidida por um sorteio para os que concorrem pela primeira vez. Penso que ambas ficámos aliviadas, por duas razões. A primeira é que tínhamos começado a treinar já tarde na época e não estávamos prontas para competir. A segunda, mais reveladora, era que tanto Caroline como eu éramos tão motivadas e organizadas para atingir objetivos – ela disse-me uma vez que «mestria» era o seu sentimento preferido – que queríamos a época seguinte, e a outra, para ter a oportunidade de colocar as nossas esperanças e a nossa concentração no futuro. Como a maior parte das odisseias, a nossa, no rio Charles, tinha mais a ver com o caminho percorrido do que com a linha de chegada. A metáfora do remo pode ter sido o que nós mais gostávamos: a expectativa, os músculos exaustos, os quilómetros percorridos, a lua cheia em setembro. Já que ambas possuíamos aquela característica única que converte alguém num remador para toda a vida – a resistência – declarámos que havíamos de remar juntas na regata Head of Charles quando tivéssemos setenta anos e as outras equipas nos tivessem deixado o campo mais livre para termos possibilidade de ganhar. Esta fantasia havia de nos incentivar durante os dois invernos que se seguiram.

Depois de terminada a regata do ano 2000, no final de outubro, saímos no double scull para ver como teria sido o nosso desempenho. Foi um fracasso desde o início: o barco fora equipado para gigantes, pelo que ficávamos quase deitadas na fase final da remada. Só nos demos conta deste contratempo mecânico quando estávamos tão longe da margem que já não era possível resolver o problema. O vento aumentou, acompanhado por rajadas ao acaso que golpeavam o rio sem cessar. E então começou a chover – uma chuva fria de outono que nos empurrava pelas costas e nos ameaçava os nervos e a forma como agarrávamos os remos. Caroline reagiu a estas condições terríveis remando com mais força. A minha remada tornou-se desigual e depois irregular, até que ela acabou por me dizer para parar completamente de remar; se o meu ritmo se tornasse demasiado diferente do seu, ela estaria a lutar contra mim. Frustrada pelo meu desempenho, eu sentia um profundo respeito pelo dela: quanto mais a chuva piorava e mais forte era a corrente, mais firme ela se tornava. Completámos o percurso e aplaudimos quando cruzámos a meta deserta. Estávamos ensopadas pela chuva e pelas ondas, o ânimo exaltado pelo riso e pelo esforço. Deitei-me no barco e deixei a Brutita remar até chegarmos a casa.

13 Hino oficial do United States Marine Corps. (N. da T.)

14 Hino cristão composto pelo inglês John Newton no século XVIII. (N. da T.)

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