Um Longo Regresso a Casa

Gail Caldwell · Capítulo 7 de 15

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Um Longo Regresso a Casa

.5.

Alguns dos efeitos de parar de beber foram imediatos e impressionantes. Eu limpava a casa, nadava cerca de um quilómetro e meio todos os dias e alimentava o meu recém-descoberto desejo de açúcar. Fui a muitas reuniões de AA e li pilhas de romances à noite quando não conseguia dormir. Arranjei emprego como redatora numa revista literária local onde, no primeiro dia de trabalho, encontrei Matthew, um homem alto e gentil, com um timbre de voz forte, que se tornou um bom amigo e que parecia personificar a minha vida de segundas oportunidades – com ele o mundo deixou de ser um caminho de obstáculos e transformou-se num parque de diversões. À noite, Matthew e eu ficávamos sentados no escritório até tarde, a fumar e a ler a pilha de manuscritos voluntários enquanto a neve caía do lado de fora das janelas que davam para a Avenida Massachusetts. Seis meses depois, o Boston Globe contratou-me como crítica literária. No meu primeiro dia na sala de redação, os colegas presentearam-me com uma garrafa de champanhe, uma cortesia tão perturbante que nessa noite levei-a para a mala do carro como se fosse plutónio e depois deixei-a em casa de um amigo a caminho de casa. Em 1985, a reputação de uma sala de redação como um lugar onde se bebia muito ainda era bem merecida e eu estava a aprender a cumprir os prazos sem uma bebida ao final do dia. Certa noite perguntei a um colega, que também era crítico literário, como é que ele conseguia acalmar depois de ter entregue o trabalho. «É simples,

vou para casa, bebo alguns uísques escoceses e tomo dois Libriums 12», respondeu-me. «Isso resulta comigo.» Acendi outro cigarro, entreguei a crítica que estava a escrever, e dirigi-me a uma reunião de AA.

A autotransformação: no meu primeiro ano de sobriedade, numa reunião de AA, ouvi uma mulher descrever o pacto diário com o tédio e o desespero que o alcoolismo significara para ela. «Eu saía para viver a minha vida», disse, «e depois regressava ao final do dia e bebia seis cervejas para fazer com que tudo desaparecesse. Era como preencher um quadro de ardósia todas as manhãs e depois, em cada noite, apagar tudo o que aprendera.»

Esta história acompanhou-me com um mantra e uma explicação. O que eu não podia ter sabido, durante os anos em que bebi, era o álcool ser o meu atalho para chegar às estrelas e que não existem atalhos, não sem um preço. A bebida suavizara os problemas, não os resolvera; o álcool esbatera os ensinamentos de um dia mau ou de uma celebração ou de qualquer um dos sucessivos passos de tartaruga que constituem a experiência. Para me permitir beber durante todos estes anos e não ficar louca com os danos psíquicos que infligia a mim própria, criei um artifício tingido de uísque que adoçou o mito. Agora, tinha renunciado aos adereços e, por muito assustador que isso pudesse parecer, foi um pouco como libertar um balão de hélio. Não fazia ideia de que o mundo podia ser tão leve, o voo impulsionado tão de dentro.

Ainda assim, a minha passagem pelo fogo não acabou de um dia para o outro. Dois meses depois de estar sóbria propus à Globe Magazine um trabalho sobre o lado sórdido de Atlantic City, o que implicou deslocar-me até à cidade e ficar a pé metade da noite a jogar blackjack e a beber água com gás às três da manhã enquanto as empregadas assediavam os jogadores com bebidas alcoólicas grátis. O meu padrinho nos AA tinha-me alertado para a loucura desta missão, mas eu cumpri-a incólume, particularmente depois de testemunhar a destruição da madrugada que percorria os casinos. Mas se a necessidade de um heroísmo falso diminuiu ao longo dos anos que se seguiram, continuava aterrorizada com a ideia de que alguém pudesse descobrir que eu era uma alcoólica. E até certo ponto ainda acreditava que as pessoas que conseguiam beber socialmente tinham acesso a um clube privado de risco gratuito, estados de euforia radiosos que me tinham sido para sempre barrados.

Este é um mito perigoso para um alcoólico, embora me pareça que todos temos uma versão sobre ele, a velha abordagem Gatsby em que a luz através das janelas é sempre mais encantadora quando vista da rua. É a habitual equação do desejo, e como eu desejei: bourbon, uma vida de anúncios de revista ao seu serviço, o bálsamo dourado e sempre esquivo que alimentara o fogo da dependência desde o início. Uma noite, tive de ir a um jantar seleto que simbolizava esta imagem: uma casa elegante, as bebidas servidas na biblioteca, a conversa de mesa aparentemente deslumbrante e o fluxo constante de vinho. Eu era a única pessoa que não bebia, e depois de consumir grandes quantidades de água Perrier, entrei no carro à meia-noite e fui-me abaixo. Em lágrimas, liguei para um amigo que trabalhava até tarde como DJ e que estava sempre acordado de madrugada. «Essas pessoas não importam», disse-me. «Tu és mais forte e melhor do que todas elas.» Era o mesmo homem que, com atenção e paciência, me escutara um ano antes quando eu ponderava uma vida sem álcool. «Se parar de beber tenho receio de me tornar aborrecida, permanentemente ansiosa e desinteressante», dissera-lhe então. «Bem, isso pode acontecer», respondeu-me objetivamente. «A única coisa certa é que estarás muito menos bêbeda.»

Após algum tempo, muito menos bêbeda era o estado a que eu aspirava. Aprendi a navegar no terreno social alcoolizado e por vezes a evitá-lo totalmente; aquilo que outrora me atraía como uma vida encantadora tornou-se, com o tempo, menos invejável, e até estranho. Uma noite, na Baixa de Boston, numa altura em que fiz parte de um grupo de boas-vindas que recebia uma pessoa importante, soube que algo fundamental mudara. Encontrámo-nos no Ritz-Carlton e toda a gente – só homens – pediu bebidas vigorosas: vodca polaca e uísque escocês duplo. Sorri para o empregado. «Que tipo de água gourmet têm?», perguntei-lhe, e depois de ele apontar o pedido, a tal pessoa importante deitou-me um olhar de desdém. «Não bebe?», disse. «Que aborrecido.»

«Para mim, não», disparei em resposta. Em vez de me sentir exposta como a mulher frágil do clube da água gaseificada, fiquei pasmada com a indelicadeza do homem. Tinha deixado de me importar com aquilo que ele, ou quem quer que fosse, pensasse.

Na altura em que eu e Caroline nos tornámos amigas, estávamos as duas razoavelmente afastadas dos corredores do isolamento que acompanhava o álcool. Ela estava sóbria há dois anos e tentava manter o equilíbrio, particularmente pela exposição que o seu livro Drinking: A Love Story recebera. Alguma desta publicidade tinha sido tão absurda quanto penosa: uma equipa de informação de uma estação de televisão tentou marcar uma entrevista num bar e depois pediu-lhe para ela chorar em frente à câmara. Eu levava mais de uma década de reuniões e sobriedade – ambas tínhamos deixado de beber aos trinta e três anos – e ainda tinha bem presentes na memória aqueles esforços iniciais de pessoa inexperiente para reorientar a vida. Mas enquanto Caroline, em muitos aspetos, se protegera a si própria tornando-se figura pública, eu escolhera o caminho oposto; os únicos que conheciam o meu passado eram os amigos chegados e a família. Como não desejava que a sua candura ditasse as minhas revelações, esperei meses depois de nos termos tornado amigas até lhe contar. Estava sentada na sua sala de estar, numa tarde de outono, quando lhe disse: «Há uma coisa que preciso de te contar.» Ela olhou-me com apreensão – O que é que eu fiz de errado? – e eu sorri à sua preocupação e continuei: «Provavelmente não te vai surpreender, mas há doze anos que não bebo.»

O seu olhar foi de alívio e surpresa feliz, um sorriso de entendimento ó-meu-Deus. Meses mais tarde falámos sobre a noite em que nos tínhamos conhecido, anos antes, quando alguém nos impingira uma à outra numa festa. O que ela desconhecia era que, naquela altura, eu estava sóbria há alguns anos. «Lembro-me de como eras tímida», disse-lhe. Ela riu-se da lembrança que tinha de mim, apesar de então eu ter passado a noite com um copo de água com gás na mão. «Lembro-me de pensar», proferiu, «aqui está uma mulher que provavelmente consegue beber o que quer e escapar ilesa.»

Isto é o que valem as primeiras impressões; aquela foi uma das poucas vezes em que vi falhar os instintos de Caroline sobre as outras pessoas. Se os nossos passados individuais com o álcool eram familiares, a verdade mais intricada e sólida que partilhávamos era sobre a capacidade de mudar – a crença de que a vida é difícil e de que muitas vezes as suas piores batalhas são travadas em privado, a de que é possível atravessar o medo e sair chamuscado, mas a respirar. Esta era a versão melancólica de esperança, embora uma versão estudada, e nós carregávamo-la connosco quando confrontadas com as dificuldades reais ou as mossas da vida. Caroline utilizara o remo para escapar à anorexia, no final dos seus vinte anos; eu arrastara-me e depois coxeara para superar a pólio. Esta longa escalada tornara-me determinada e ao mesmo tempo obstinada, características essenciais no momento de ficar sóbria. Uma vez que Caroline e eu reconhecíamos nas duas esta forma de sobre vivência, cada uma dava à outra alguma margem de manobra – com os anos, aprendemos que era muito mais fácil sermos simpáticas uma com a outra do que connosco próprias. Quando Caroline insistia em passear Lucille durante quase seis quilómetros e meio, eu assegurava-lhe que dois era o bastante; quando eu insistia em tentar levantar um barco pesado, com mais de quinze quilos sobre a minha cabeça numa rampa inclinada, ela guiava até à garagem dos barcos para me ajudar. Chamámos Guerreiro Interior ao cruel capataz que cada uma de nós possuía em si, o que diminuía a pressão quando eu era vencida no rio ou quando ela se sentia esgotada na piscina, e inventámos a personagem de Sarah Tonin para personificar o nosso ser quase dramático. Cada uma permitia à outra baixar a fasquia – eu telefonava-lhe da garagem dos barcos quando o vento era muito intenso, e ela convencia-me a não remar. Esta liberdade de ação estendia-se às nossas dúvidas internas sobre o tipo de vida que tínhamos escolhido, a ambivalência que partilhávamos por sermos umas introvertidas temperamentais que frequentemente preferiam a companhia de cães. Uma noite, sozinha na sua cozinha a fazer chá, Caroline sentiu-se invadida por uma sensação de bem-estar. Na manhã seguinte, relatou-me o facto com uma espécie de prazer confessional. «Meu Deus, eu sou a solitária alegre!», dissera então em voz alta. «E a Gail é a deprimida bem-disposta!»

Como de costume, Caroline escreveu uma crónica na epifania dessa noite – a solitária alegre tornou-se uma personagem no relato impresso dos seus próprios medos. «Isto dá uma crónica?», perguntava, no meio de uma conversa divertida ou profunda – o seu narrador omnisciente sempre presente à procura de material. Como a maioria dos amigos de escritores, este escrutínio dual parecia-me alternadamente lisonjeiro, divertido e irritante, apesar de Caroline fazer todos os possíveis para proteger a privacidade da sua pessoa. Uma das piores discussões que tivemos aconteceu depois de ela me emprestar o seu barco para remar numa manhã de outubro. Ao retirá-lo do rio Charles frio e turvo, perdi o equilíbrio e o assento móvel tinha saído dos trilhos e saído a voar para o rio.

Estava desolada com a minha falta de jeito e Caroline teve de me dissuadir de mergulhar no rio imundo à procura do assento. «Não é como se tivesses perdido a Lucille», consolou-me. Mas ela estava aborrecida, e as duas levámos dias a recuperar. Ela estava irritada porque eu tinha feito com que o barco ficasse inoperacional durante umas duas semanas; eu fiquei zangada por ela estar zangada. Mas a última dissonância surgiu com os esforços de Caroline para me encobrir. Quando escreveu sobre esta tempestade – um ensaio sobre intimidade e conflito para uma revista feminina – substituiu o objeto perdido por um par de brincos de ouro. Agora era eu que estava aborrecida, apesar de nunca ninguém me ter podido confundir com alguém que costumava pedir brincos emprestados. Estava zangada porque achava que ela, na tentativa de tornar o texto mais atrativo, substituíra as nossas ferramentas. Nós não pedíamos joias emprestadas; tirávamo-las ou deixávamos de as usar. Mestres do nosso próprio universo, éramos um país pequeno e autodeterminado.

Para mim, o território tinha sido ganho com dificuldade, o que é uma das razões por que eu o protegia tanto. Filha mais nova de um patriarca texano bondoso, adorava o meu pai e, no clássico conflito de Édipo, tentara encontrar um parceiro romântico à sua altura. Talvez estas tentativas carreguem sempre um vestígio de fatalidade; para uma agitadora que ora procurava imitar o pai ora o desafiava, eu sujeitava-me a obter resultados equívocos. Também Caroline tinha sido contemplada com a presença dominante de um pai psicanalista e saíra magoada das suas relações com homens. A exceção era Morelli que, em virtude da separação, só viria a conhecer mais de um ano depois de nos termos tornado amigas. Na primavera do ano da publicação de Pack of Two, demos uma festa do livro no meio do Middlesex Fells. Olhei sobre a colina e vi um homem de olhar doce, porte afável, aproximando-se com uma câmara a tiracolo. Quando Lucille desatou a correr na sua direção, ele ajoelhou-se para a cumprimentar. «Meu Deus, é o Morelli?», perguntei, e Caroline assentiu, com um sorriso rasgado de ansiedade que me era familiar – um sorriso que significava O que te parece? «Acho que deves casar com ele», retorqui, «e deixá-lo educar as crianças.»

O meu comentário inesperado continha em si uma grande dose de verdade, e era muito menos irrefletido do que parecia. Caroline escrevera sobre Morelli durante anos, em crónicas e nas suas memórias; mesmo durante a sua falsa separação, tinham-se mantido em contacto de uma forma que a maioria dos ex-companheiros não consegue. Por isso, eu sabia, pela sua história com os homens, que a sua generosidade e os seus cuidados a amparavam e simultaneamente confundiam. Mas naquele dia soube também, pela forma como Lucille reagiu à sua presença, e ele à nossa, que Morelli era diferente de todos os outros com quem Caroline se envolvera, particularmente do caráter terrível de Julian, o amante possessivo que ela retratara em Drinking. Costumávamos rir de alívio ao recordar as ciladas que tínhamos evitado; num incidente típico das nossas vidas em paralelo, acabámos por descobrir que até tínhamos escapado do mesmo homem anos antes. Quando o tipo começou a descrever os pores do sol que tencionava mostrar-me, eu revirei os olhos e quebrei o compromisso; Caroline tinha saído com ele no final daquele ano e acabou a passeá-lo de carro pela cidade às suas custas (o velho argumento esqueci-me-da-minha-carteira). A nossa diferença de idades, juntamente com as circunstâncias, colocara-nos em pontos separados do mesmo percurso. Depois da morte dos pais e de ter deixado de beber, Caroline iniciava uma nova era de autoconfiança; tal como eu, descobrira que um cão suscitara em si um sentido de amparo e calor que ela nunca imaginara. De certa forma, a enorme bondade e persistência de Morelli atravessaram-se no caminho dessas revelações – suspeito que ela precisava que ele se afastasse durante algum tempo, mas não para muito longe, e foi o que ele fez.

Quando eu me debatia, angustiada, para deixar Sam, a minha versão do Julian de Caroline, ele olhou para mim uma noite enquanto estávamos sentados à mesa para jantar, atolado no seu próprio drama de derrota, e disse-me: «Sabes, por vezes, a luz que emana de ti é demasiado brilhante.» Foi uma tentativa airosa de contornar a velha e habitual fórmula não-és-tu-sou-eu, e depois da nossa rutura levei meses até conseguir separar as minhas necessidades dos seus lamentos primorosamente apresentados. O movimento feminino ajudara-me em todos os momentos difíceis e contudo, para meu desgosto, levara poucos destes recursos para esta relação. Os cacos do meu mito da heroína perdida eram parte do problema: jogando com a questão do género ao longo da história, confundira necessidade com amor e amor com sacrifício. Encontrar o meu caminho de saída daquela fenda rumo ao território sólido da minha vida tranquila fora algo tão libertador e repleto de esperança como deixar de beber cinco anos antes. Visto de fora, pode ter parecido um declínio, ou pelo menos uma retirada: nos anos que se seguiram à minha separação de Sam, recusei jantares de festa no centro da cidade – e tentativas sisíficas para me apresentar constantemente divina – para ficar em casa com o cão; hoje, preocupo-me com o trabalho, as amizades e as criaturas brancas na minha sala de estar, e nunca mais nenhum destes bens esteve sujeito a negociação.

Estas lições de vida – sobre a estima e a autonomia, sobre como amar sem ficar sem nada – ficaram cristalizadas para mim nos bosques com Caroline e os cães. Se a nossa confiança tinha sido abalada em relações infelizes, agora estávamos a reconstruí-la com ferramentas que nem sabíamos que possuíamos. Para nós, treinar um cão era uma experiência partilhada tão recompensadora que os ensinamentos eram infundidos através da amizade. Muito do trabalho de treino é instintivo; é também um esforço complexo de paciência, observação e respeito mútuo. Caroline e eu podíamos passar horas a discutir condicionamento e complexidade de uma ligação; só duas mulheres que tivessem passado anos na luz reveladora da terapia podiam encontrar uma tão grande gratificação no uso equívoco, digamos assim, da palavra «não» na comunicação canina. Apoiámo-nos uma à outra durante quilómetros e meses de treino e interpretação; aquilo que tinha sido um prazer privado para cada uma de nós era agora um diálogo contínuo.

Uma educação menos consciente decorria juntamente com a educação explícita. A mulher em que eu sentia que me estava a tornar, com Clementine a meu lado, despertava em parte porque eu tinha algo a proteger. Foi então que percebi como é que uma mulher pode levantar um Volkswagen de cima do pé do seu filho ou todas as outras histórias culturais impregnadas de adrenalina sobre a força e o amor. Estava a aprender, pela primeira vez, que cuidar e ser firme eram a coisa menos importante uma sem a outra.

Enfrentei pela primeira vez esta verdade durante um período vulnerável na vida de Clementine, em que eu tentava submetê-la àquilo que é habitualmente conhecido como «alpha roll» – uma prática questionável prescrita habitualmente para cachorrinhos desobedientes, em que o humano faz rolar o cachorro sobre as suas costas contendo-o até ele parar de se debater. A maioria dos cachorros consente ao fim de uma ou duas tentativas; com Clementine, cujo temperamento era simultaneamente dominante e dócil, não acontecia assim. Eu fazia-a rolar pelo chão e ela lutava implacavelmente, e depois, uma vez libertada, levantava-se num salto e ladrava em protesto. Sempre ciente da necessidade de estabelecer a minha autoridade, eu tentava de novo. À terceira vez, no meio daquela minha luta, tive uma visão panorâmica do que estava a fazer. Agachada no chão, vi-me como se fosse o meu pai, que ficara desorientado e enfurecido com a adolescência da filha. Não podia impedir-nos de crescer e de nos afastarmos, por isso, gritava e ameaçava-nos e tentava ter-nos de volta, o que apenas piorava a situação.

A minha mãe perguntara-me uma vez, já eu era crescida, o que é que o meu pai podia ter feito diferente em vez de forçar o seu caminho através da minha rebeldia. «Desejava que apenas me tivesse dito o quanto me amava», respondi-lhe. «Que apenas me tivesse dito: “És preciosa para mim; não vou deixar que coloques a tua vida em risco.”» Este diálogo surgiu-me num flash triste enquanto estava no chão com o meu pequeno e intratável cão de trenó. Precisava mesmo de o convencer de que era eu quem mandava? Eu era dez vezes maior do que ele; tinha uma língua, consciência e uma história pessoal – a minha espécie domesticava a sua desde há milhares de anos. Eu assumia o papel de sargento-chefe quando não era necessário nenhum exército permanente.

O meu plano desapareceu naquele momento e o temperamento exuberante de Clementine ganhou o espaço que precisava. Soltei-a e icei-a para o meu ombro, e ela caiu em cima de mim como uma criança que carregamos para casa depois da festa. A partir daquele momento tudo mudou entre nós. Para onde quer que eu fosse, ela seguia-me.

Contei esta história a Caroline numa tarde de outono no Fells, enquanto circulávamos pelas estradas corta-fogo. Na quele dia, conversávamos sobre a vida realizada contra a sua imagem externa: as suposições e projeções que todos fazemos sobre as vidas dos outros. Cada uma de nós tinha aguentado reclamações dos amigos que não tinham cães em relação ao nosso desaparecimento para os bosques, mas o que os nossos críticos não conseguiam ver eram os recantos admiráveis deste novo local: as cores e os cheiros e as notas sublimes que estas caminhadas asseguravam. Caroline, tantas vezes cativa da sua própria discrição, rolava agora no chão da floresta, rindo e lutando com os cães sem a menor inibição. Eu treinava Clementine sem trela, usando gestos para conseguir a posição «deita-fica» a cerca de nove metros de distância, e ela começava a ganir após alguns segundos e depois quebrava a posição e desatava a correr na minha direção. Éramos uma matilha de quatro colocando bandeiras em todos os campos das nossas vidas renovadas. Muito do nosso valor jogava-se lá fora naqueles bosques, naquilo que construíamos com os nossos cães e uma com a outra. E então, no final daquele dia, eu olhei para Caroline e disse: «Sabes, acho que afinal nunca mais nenhum homem me vai tratar mal.»

Para os que passaram as suas vidas na abundância da generosidade de outros, a natureza da ligação é complexa, mas assumida. Para os introvertidos, é um território mais nebuloso. Eu conseguia ser efusiva e afetiva nas minhas interações humanas porque sabia quando e como iriam acabar: fim do dia, fim da festa, fim da caminhada, fim da relação. Nos anos em que bebia, o bourbon era o companheiro solitário que me esperava no caminho, o objeto amado inabalável que me fazia evitar ou ignorar os outros. Mas as paredes, construídas de tijolo ou isolamento, não vêm abaixo sem trabalho. Sem sequer o sabermos, julgo que Caroline e eu nos persuadimos mutuamente a seguir na direção da luz. Fizemo-lo lentamente, e com tão grande atenção à autonomia de cada uma que ninguém teve de se mover um milímetro para se afastar da outra.

Hoje, penso novamente nas pequenas medidas de confiança ganhas naquele primeiro ano da nossa amizade, os caminhos que percorremos desde as cautelas mútuas até ao à-vontade inseparável, e muito disso parece agora uma troca cuidadosa, até mesmo silenciosa. Eu conhecia a história de Caroline com a anorexia e nas nossas longas incursões pelos bosques tirava do bolso duas bolachas integrais e estendia-lhe uma de forma pragmática, sem sequer olhar para ela. Devo ter percebido, em parte conscientemente, que Caroline era demasiado bem-educada para recusar; as duas estávamos no limiar e, por isso, a minha oferta, não constituía praticamente nenhuma ameaça para uma mente anorética. Depois comecei a acrescentar pequenas porções de chocolate ao tesouro. Hoje, o prazer primitivo e mútuo deste ato toca-me, embora na altura eu não tivesse conseguido articulá-lo ou até mesmo reconhecê-lo. Depois de anos a lutar contra uma voz interna cruel de negação e controlo, Caroline estava a deixar-me alimentá-la – primeiro com relutância, e depois com algum alívio. E eu, que durante muito tempo receara ter alguém que precisasse tanto de mim, dava voltas à procura de frutos secos e bagas para as trazer de volta à criatura que amava.

Contar uma com a outra tornou-se automático. Sempre que encontrava no Texas uma camisola de que gostava, comprava duas, o que era mais fácil do que ver o olhar de desilusão no rosto de Caroline se regressasse a casa só com uma. Quando ela partiu da garagem de barcos num dia ventoso, entregou-me o seu plano antecipadamente para mitigar os piores cenários de poder virar subitamente o barco, levar com um remo na cabeça ou deixar Lucille esquecida em casa. Ainda conservo comigo um conjunto de chaves da sua casa, de fechaduras e portas que já não existem, guardo-as no porta-luvas e elas têm mudado de um carro para outro nos últimos anos. Um dia destes atiro-as ao rio Charles, o mesmo onde perdi o assento do seu barco e muito mais.

«O que estás a fazer?», perguntava ao início da tarde, quando lhe ligava depois de terminadas as horas de escrita e antes de começarem as horas de caminhada. «À espera da tua chamada», respondia-me, meio a brincar, e então começávamos a conversa: os jornais da manhã (dois cada), os registos do remo e da natação (cerca de oito quilómetros na água, mil e quinhentos metros dentro dela), a crónica diária de dramas e aborrecimentos que sustentavam os dias. Quando chegávamos ao lago, depois do telefonema e antes de anoitecer, Caroline dava-me o braço e dizia: «Entããão...?», e vagueávamos pelo parque, iniciando sempre mais uma frase na nossa conversação infinita. Segundo a velha norma, os homens praticavam desporto e as mulheres conversavam; Caroline e eu cultivávamos as duas coisas e descobríamos que o registo de quilómetros no rio ou em terra valorizava o terreno interno que percorríamos. E hoje, no entanto, acho que escrever sobre uma amizade que floresceu no domínio do relacionamento e da rotina tem todas as características de tentar apanhar o ar. O caráter diário da nossa aliança era simultaneamente contido e essencial: nós éramos a treliça que dava espaço à rosa.

12 Tranquilizantes. (N. da T.)

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