Um Longo Regresso a Casa

Gail Caldwell · Capítulo 13 de 15

Páginas do PDF

Um Longo Regresso a Casa

.11.

Morelli e eu tomámos conta da casa de Caroline durante aquele primeiro inverno a seguir à sua morte, antes de ela ser vendida, revezando-nos para ir buscar o correio, ligar o carro ou verificar o aquecimento. Foi um inverno particularmente violento e eu entrava no vestíbulo, onde a temperatura era de cerca de doze graus, e sentia a tristeza à minha frente – era como entrar no nevoeiro. A vida interrompida: os sapatos de Caroline ainda estavam alinhados junto à porta, os seus casacos – tinha vários, que usava conforme o estado do tempo quando ia passear o cão – ainda tinham biscoitos nos bolsos. Na porta do frigorífico havia uma fotografia de nós as duas, os braços à volta uma da outra, que Tom tirara naquele primeiro verão em Chocorua. Nunca consegui tirar a foto do lugar onde Caroline a colocara anos antes e um dia, quando a casa estava a ser desmobilada, ela simplesmente desapareceu – sem dúvida, tinha sido deitada fora com as especiarias fora de prazo e os sacos de plástico e tudo o mais que constitui o rasto deixado por uma vida. Desde a última ida de Caroline para o hospital, Morelli levara Lucille para viver com ele, por isso o seu cheiro desaparecia pouco a pouco. Quando ia lá a casa, eu levava sempre Clementine, que ladrou com entusiasmo e procurou Caroline e Lucille apenas na primeira visita. O seu faro deve ter-lhe dito o que eu não podia e, depois disso, ela ficava simplesmente a meu lado enquanto eu caminhava pela casa.

Por vezes, sentava-me na sala fria e dava livre curso à minha dor; era o único sítio que refletia o estado do meu coração. Todos os meus outros lugares no mundo – a minha própria casa, a minha ligação com os meus amigos, os meus dias com o cão, no rio, ou na piscina – eram uma versão distorcida do meu sofrimento; todos eles me continham, refletiam a história, até me ajudavam a esquecer durante algum tempo. Aqui era onde a própria história se encontrava. Aqui, na temperatura desconfortável e na quietude própria de um museu, estava Caroline, desaparecida. Este sentimento irrompeu através da minha incredulidade, da minha negociação com Deus, de todas as minhas outras defesas, e por esta razão eu precisava de lá ir e odiava ter de o fazer.

Uma tarde em que subira ao andar de cima para ver como estavam as coisas, comecei a vasculhar o armário de Caroline, tal como costumávamos fazer juntas e como eu e a minha irmã fazíamos quando éramos raparigas. Vesti camisolas e blusas de que ambas tínhamos gostado olhando-me no espelho enquanto Clementine, deitada no chão, me observava. «Esta ficava-te melhor a ti do que a mim», dizia para Caroline, e o cão virava a cabeça e eu experimentava outra peça de roupa. Senti-me desesperada o tempo todo, confusa e culpada, e levei anos para me distanciar o suficiente da dor causada pelo episódio para compreender o que sucedera. Eu queria reclamar o que restava dela. Sempre ouvira histórias sobre famílias acometidas pelo sofrimento, que discutiam por causa de um candeeiro feio ou de uma máquina de café barata; agora percebia porquê. O desejo frenético que sentira não era frívolo nem ambicioso; era possessivo, no seu sentido mais primitivo. Ainda conservo o seu saco de ginástica e o impermeável e, durante algum tempo, até tentei usar as suas botas de inverno, um tamanho acima do meu, o que era absurdo, mas reconfortante.

Memento mori: a lembrança dos mortos. Penso que a razão por que ansiamos por estas marcas da história – as bolas de basebol, os adornos e as cartas de jogar deixados nas sepulturas das pessoas – é porque elas ocupam o espaço vazio deixado pelos que partiram. O vácuo físico deixado pela morte de Caroline era assustadoramente parecido com um fenómeno da física, como se a luz do dia tivesse mudado ou uma casa da rua tivesse desaparecido. Sempre que Clementine ouvia o som distintivo produzido pela buzina de um Toyota RAV, o carro que Caroline guiara durante anos, abanava a cauda e começava a dirigir-se nessa direção –

condicionamento puro que me parecia um 19 haiku sobre o que faltava no mundo.

Ontem encontrei uma nota que escrevi para mim própria, entre os montes de planos e mapas narrativos que constituem o material de construção de um escritor. «Deixa-a Morrer», escrevera eu no cimo de um bloco de notas, um lembrete sumário para chegar àquela parte da história. Depois vi-a no dia seguinte e quase me faltou a respiração; por um instante, foi como se outra pessoa me tivesse dado aquela ordem. Deixa-a morrer: uma definição em duas palavras da longa linha curva do sofrimento, se é que alguma vez ouvi uma.

No primeiro verão depois de ter aprendido a remar, numa tarde no rio, em 1998, recordo-me de pensar que em breve perderia o meu querido pai e que o remo e Caroline me ajudariam a superar a dor. Quando estamos assustados, todos contamos os membros da tribo. A sociedade ocidental moderna, na sua maior parte, encurralou esta tarefa dentro do reino da família nuclear: o marido limpa a garagem ou trata das contas; a irmã estará lá para ajudar depois do falecimento dos pais. Mas uma grande parte do mundo possui um outro tipo de lealdade, faz inconscientemente outro tipo de planos. Por força das circunstâncias e por vontade própria, Caroline e eu havíamos transferido um certo grau dessa dependência para a outra – juntamente com os nossos irmãos e com Morelli contávamos com a convivência diária, a proximidade emocional da vida quotidiana. Quem tem duplicados das chaves de casa ou contactos de emergência na carteira? Este é o tipo de lista que não se tem sequer em conta antes de chegar a uma certa idade, não enquanto se está a tentar fugir das responsabilidades em vez de as aceitar. Então, à medida que a ligação com outras pessoas aumenta, a lista toma forma. Caroline e eu tínhamo-nos insinuado tão completamente nesta posição primária que brincámos com o assunto durante anos, mesmo depois de ela se ter reconciliado com Morelli. Uma tarde, algumas semanas depois de Caroline ter partido, Morelli, Sandy e eu estávamos sentados num banco de jardim no lago, conversando, com a candura de combate própria dos seus três amigos mais chegados, sobre como seríamos capazes de continuar. «Oh, meu Deus», lamentei-me com uma angústia fingida. «Acho que agora vou ter de arranjar um namorado.» Julgo que só nós os três teríamos achado esta observação tão pertinente e tão reveladora.

A vida é um movimento irrefutável para a frente, uma seta de sentido único apontada para além dos que morreram. Durante meses, senti a violência do próprio tempo, como se algum grande barco que nos levava a todos tivesse deixado Caroline abandonada na margem. Um dia, enquanto estava a limpar as folhas do jardim, senti um vazio tão grande pelo que perdera que tive de parar e sentar-me na varanda. Toda esta matéria-prima, os rebentos novos transformando-se em adubo naquilo que parecia ser uma respiração única. De Caroline apenas restavam ossos e cinzas e recordações e eu recolhia as folhas mortas no abrigo do meu jardim enquanto os bolbos, pacientes e descuidados, esperavam para serem plantados. Parecia-me obsceno.

«Tiram-nos tudo», disse, a chorar, numa chamada telefónica interurbana para Louise. «Este simulacro de vida. E depois chegamos ao fim e descobrimos que a morte é ímpia, iminente e cruel.» Louise, que acima de tudo acreditava no poder das palavras, tomou nota enquanto eu falava. E, desta forma, registou para mim aquele momento que ninguém quer recordar, um momento que é, provavelmente, central para a sobrevivência. E se morrer não for uma coisa má? A morte de Caroline legara-me uma dádiva simultaneamente importante e terrível: como viver num mundo onde a perda, por vezes insuportável, é tão comum como o pó ou o luar.

E então, por fim, inconscientemente, a aceitação envolve o nosso coração. Mais tarde, naquele ano, deambulava por uma casa aberta na vizinhança e vi um soneto de Pablo Neruda, emoldurado na parede, que aludia a uma dimensão espacial da perda que eu nunca antes encontrara expressa. A morte de Caroline era um espaço vazio no coração, um lugar que eu não podia nem desejava preencher. Sentira-me confundida pelo predomínio destes sentimentos, a sensação de que a debilidade de Caroline era uma coisa muito própria, uma recordação delimitada por uma fita de polícia que seria um ultraje retirar. E aqui estava Neruda:

Vive na minha ausência como se vivesses numa casa.

A ausência é uma casa tão vasta

Que lá dentro passarás através das paredes

E pendurarás quadros no ar.

Vivi naquela casa de ausência, consolei-me com ela, até que a mágoa se tornou um substituto para o que havia perdido. «O sofrimento... recorda-me todas as suas partes amáveis», diz Constança em O Rei João, de Shakespeare, sobre a perda do filho. «Então tenho razões para apreciar o sofrimento.» Eu sabia que nunca voltaria a ter uma amiga como Caroline; suspeitava que nunca mais ninguém me conheceria tão bem. O facto de ela ser insubstituível tornou-se uma lealdade agridoce: a sua morte era o que eu tinha agora no seu lugar.

O sofrimento é fundamentalmente uma questão de egoísmo. Privado da sua fachada elegante – a investida inicial composta por flores, comida e compreensão – é um lugar de uma particularidade tal que a linha curva que descreve o seu percurso é tão complexa como o próprio relacionamento. As pessoas sentem a falta da presença quente na cama, do riso ao fim do dia, dos gestos, dos países ou do conhecimento partilhado que percorreram juntas. Senti a falta de Caroline de muitas formas diferentes, mas em todas elas perpassava a ausência do diálogo constante, real ou imaginado. «Sinto falta de nós», dissera ela naquela manhã no exterior do hospital. Durante anos, através das dificuldades da escrita, do treino dos cães ou das vulgares mazelas da vida Caroline e eu tínhamos sido a voz calmante e modulada na cabeça uma da outra. Agora, os meus pensamentos ressoavam dentro de mim sem serem notados ou ouvidos, uma música solitária com um som demasiado grave. Durante meses, continuei a desejar telefonar-lhe, em parte imaginando que podia, para lhe dizer o que a sua ausência significara, o que a sua morte fizera à minha vida.

Não me recordo de muito do que fiz nesse primeiro ano após a morte de Caroline, para além dos rituais do costume que estavam agora ocultos sob um silêncio de veludo. Passear, ler, ver a luz a mudar. Sentava-me no sofá da sala de estar e lia cartas e postais enviados por pessoas que nos amavam às duas, depois voltava a lê-los para me conseguir lembrar de como éramos juntas. A minha amiga Andrea arrastou-me para reuniões de família nos dias que eu costumava passar com Caroline. Remava – meu Deus, remei até as minhas mãos ficarem como couro e todo o meu corpo doer com a fadiga que o meu coração sentia. Voltava para a doca dos barcos à luz do anoitecer, puxava o barco para fora da água, lavava-o e secava-o como se estivesse a fazer o aquecimento de um cavalo de corrida. Sei que escrevi, embora durante meses muito do que redigi não tivesse grande importância. Refleti, frequentemente e sozinha, sobre a existência de alguma promessa de consciência ou desígnio para lá do triunfo frio da biologia pura, lodo, criação, reprodução e depois lodo outra vez. Sobretudo, não podia suportar a incontestável ausência dela, ou a ideia insignificante de que a memória era tudo o que a vida eterna realmente significava, e passei demasiado tempo a tentar adivinhar onde é que as pessoas iam buscar a coragem ou a ilusão para seguirem em frente para além da imobilidade da morte. No início, a esperança parece ser uma violação da perda e, no entanto, sem ela não poderíamos sobreviver. Tinha uma amiga que anos antes perdera o seu primeiro filho ainda bebé, que me contou que uma das penosas consolações que recebeu nos estádios iniciais do sofrimento tinha vindo de um homem consciente da feroz lealdade que se sente para com os mortos. «O verdadeiro inferno», dissera-lhe, «é que vai conseguir ultrapassar tudo isto.» Tal como uma estrela-do-mar, o coração resiste à amputação de uma das suas partes.

19 Epigrama japonês formado por dezassete sílabas, poema curto. (N. da T.)

OceanofPDF.com