Um Longo Regresso a Casa
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Na altura em que me mudei para o Leste, em 1981, beber tornara-se uma panaceia e um problema, embora eu não percebesse logo que um quase assegurava o outro. Descendo de uma linha de apreciadores de bourbon do Texas protestante, que haviam incorporado o seu apreço pelo uísque na sua forma de vida. Uma exceção, pelo menos tal como eu a captava, era o meu avô materno, um agricultor dócil de olhos azuis que cantava a capella no coro da igreja e que amavelmente cedia a todos os desejos da minha intrépida avó. Anos depois de ambos terem falecido, quis confirmar com a minha mãe aquilo que eu sempre supusera ser uma união harmoniosa.
«A avó e o avô foram felizes?», perguntei.
«Claro, porquê?», respondeu-me. «Depois de ele ter deixado de beber.»
Fiquei atónita, não tinha memória de o meu avô alguma vez ter tocado em álcool. Mas, naquele dia, a minha mãe contou-me o que se passara num verão, quando eu tinha perto de quatro anos. De visita à quinta dos meus avós, próximo de Breckenridge, no Texas, o meu pai ficou furioso com o meu avô por ele me ter levado até um bar, a mim e à minha irmã, quando regressava a casa depois de umas voltas pela cidade. As suas farras eram pouco frequentes mas lendárias, contou-me. Bebia como um selvagem durante semanas e depois regressava à igreja e mantinha-se sóbrio durante meses. Tendo criado seis filhos à sombra deste comportamento, a minha avó, finalmente, ameaçou deixá-lo. Pouco tempo depois, ele parou de beber e, como eu na altura era tão jovem, já só me lembro dele como abstémio.
A restante árvore da família tinha as raízes empapadas em álcool, e as memórias não eram tão opacas como acontecia com o meu avô. Uma tia adormecera com o rosto em cima do puré de batata no jantar do Dia de Ação de Graças; a predileção de outra pela cerveja Coors era tão sólida que ainda hoje recordo o seu odor almiscarado e a frieza das latas. A maior parte dos homens bebia da mesma forma que todos os homens do Texas, ou pelo menos eu acreditava que assim era, o que significava que eram homens rijos que aguentavam a bebida até não poderem mais – uma capacidade que muitas vezes conduziu a alguma versão nebulosa de perdição, fosse ela a ruína financeira, o suicídio ou a traição menor do simples afastamento. Bebendo de forma social, os meus pais evitaram estes fins trágicos; no Texas pós-guerra de subúrbios e cocktails bebiam de forma rotineira, mas tranquila.
Na minha primeira experiência com a bebida, numa festa do pijama quando eu tinha treze ou catorze anos, percebi que alinharia com os canalhas da família. A nossa anfitriã preparou-nos uma mistura perniciosa de uísque escocês e Coca-Cola Diet-Rite; todas as outras raparigas tomaram o suficiente para ficarem patetas ou sonolentas. Eu bebi seis copos daquela coisa e depois subi para cima da mesa de jantar e dancei enquanto os meus plácidos amigos dormitavam à minha volta. Praticamente à beira da adolescência, continuava uma rapariga tímida que preferia os trabalhos de matemática a rapazes. Não era ousada nem particularmente infeliz, mas o álcool acionou em mim um interruptor cuja existência eu desconhecia.
No liceu, era conhecida como aquela que tinha uma perna mais curta. Um bom amigo contou-me a história que circulava sobre mim. «Caldwell é a rapariga mais cara da cidade», disse-me, referindo-se ao que os outros rapazes comentavam. «Ela bebe muito mais do que qualquer um de nós e nunca se vai abaixo.» O meu pai teria sem dúvida apreciado ambos os traços como sinais de caráter. Em algumas das minhas memórias mais antigas, ele acabava os seus dias com um copo de bourbon com Coca-Cola, e esta poção mágica parecia torná-lo mais alegre e a sua voz mais aveludada. Quando mudou para bourbon com água, como ele dizia, eu era uma adolescente inteligente e rebelde que vivia numa cidade machista do Texas, e por mais que discutisse com o meu pai também competia com ele. O uísque pegou numa adolescência vulgarmente rebelde e revestiu-a de dourado. Aos dezasseis anos, eu tinha um BI artificial; no dia em que fiz vinte e um, passei a consumir álcool diariamente. Por essa altura, tinha passado pela universidade e pelo movimento antiguerra e experimentado todas as drogas e formas de insurreição que surgiam, mas o pêndulo regressava sempre às promessas dóceis do álcool. Quando voltava a casa, em Amarillo, o meu pai enchia o armário das bebidas com uísque e bourbon e depois dizia-me para manter alguma sobriedade – a excelente duplicidade da etiqueta texana dos consumidores de álcool, que aconselhava a beber como um homem e a agir como uma senhora. «Há duas coisas que um homem não admite», disse o meu pai depois do nosso primeiro par de bebidas fortes, a sua voz rouca e cheia de sabedoria autossuficiente: «Uma mulher que vai com todos, e uma mulher que bebe de mais.» Acenámos os dois com ar sábio, e eu pedi-lhe que me explicasse a primeira parte. Ele fez um sinal assertivo com a mão e abanou a cabeça. Durante anos pensei que ir com todos era sinónimo de falta de caráter, porque ele foi sempre muito parco a explicar o sentido da expressão.
Mas o meu pai sempre soube, julgo eu, que o álcool seria o meu problema. Sabia porque eu ficava demasiado alegre e animada só por ver uma bebida, e porque partilhara esta afeição sombria e, no entanto, tinha conseguido superar o gêiser na fonte. Se metade das pessoas de ambos os lados da nossa extensa família tinham gostado assim tanto de beber, a minha tendência era para me rir, porque não suportava admitir as consequências. Graças à sua constituição física, os meus familiares viveram para além dos noventa anos e, no cálculo da negação, eu usava essa longevidade para contrabalançar a nossa miséria. «Na minha família», costumava referir, «se não formos apanhados pelo alcoolismo ou pelo suicídio, podemos viver para sempre.» Dizia isto com um copo de uísque na mão. («Mas tinhas sempre só esse copo», comentou a minha irmã anos depois de eu ter deixado de beber, tentando juntar as peças do passado. «Sim», respondi-lhe, «mas estava sempre cheio».) Uma vez que o meu grau de tolerância me deixava beber imenso, mas funcionalmente durante anos – consegui quase todos os meus diplomas com um depósito secreto de uísque –, cultivei uma imagem que oscilava entre a tragédia e a emancipação. O autoconhecimento foi construído para responder à necessidade: sendo o álcool o elixir obrigatório, arquitetei um conjunto de cenários para justificar a sua presença. Eu era a heroína sensível, a romântica condenada ou a boémia radical – era Hamlet, Icarus ou a Lily Bart, de Edith Wharton. Deus proibia-me simplesmente de ver quem eu era, alguém embriagado e assustado e a caminho de não ser ninguém.
A maior parte desta autoatualização desabrochou em Austin na década de 1970, quando as ruas se enchiam de cocaína e uísque; eu rodeava-me, de forma inconsciente mas provavelmente intencional, de pessoas que bebiam como eu. Algumas endireitaram-se, outras morreram e poucas conseguiram assentar, crescer e conformar-se com um martini em vez de sete. Eu cumpri a minha parte na crise coletiva da idade adulta entre a minha geração mudando-me para o Leste com a intenção clara de me tornar escritora – certamente, segundo o mito, uma forma de reinventar a própria vida. Quando saí do Texas, levava duas garrafas de uísque na bagageira do meu velho Volvo, que deveriam chegar para os cinco dias de estrada que me esperavam. Tinha alguns amigos em Nova Iorque e conhecia duas pessoas na região de Boston, para onde me dirigia e, por mais assustada que me sentisse, sabia que encontraria uma loja de bebidas alcoólicas onde quer que chegasse. Tinha então trinta anos e aprendera que a coragem que uma garrafa transmite pode eliminar todo o tipo de portas e problemas e acabar com muitas noites solitárias e sem saída.
No início da década de 1980, hordas de pessoas trocavam o Nordeste
pelas indústrias e climas mais amenos da região do Cinturão do Sol 8. Avisaram-me de que a Nova Inglaterra era fria, escura e implacável; a verdade mais difícil era a de que eu não tinha emprego nem nenhum lugar para viver e que as minhas poupanças chegavam apenas para um ano. O meu currículo escrito consistia num par de rejeições oriundas de revistas conceituadas; a minha confiança advinha de alguns encorajamentos toscos por parte de professores. Mas por mais frágil que o andaime exterior parecesse, julgo que estava a tentar salvar a minha vida e não apenas a deslocá-la. Crescera a olhar o vasto e asfixiante horizonte do Texas Panhandle, uma região pela qual nutria um profundo amor do qual só me apercebi muito depois de a ter deixado, e conseguira libertar-me daquele lugar com uma espécie de terror enérgico. Se a conservadora cidade de Amarillo, com as suas plataformas de petróleo, igrejas e ranchos de gado, prometia uma vida provinciana, eu desafiara durante anos cada ditame da minha família. Uma década depois, tive de assumir uma postura igualmente decidida para abandonar Austin, deixando para trás o que amava e o que receava estar a aniquilar-me.
Julgo que era, em partes iguais, bluff e medo, pairando em equilíbrio à beira de uma vida em desenvolvimento, sem saber se saltava ou caía. Nos últimos dois anos em Austin, enquanto dei aulas na universidade e fingia estudar para provas orais de doutoramento, deixei que o coração me conduzisse ao limiar de uma vida de escrita – um santuário interno de uma tal força e conforto que me deixou atordoada com o seu alcance. Ocupava algumas divisões de uma velha mansão do Sul, com um pé-direito de aproximadamente três metros de altura e janelas de vitral, e à noite sentava-me em frente à minha máquina de escrever com um copo de uísque e um maço de Winston. Numa dessas noites, antes da bebida começar a fazer efeito, eu escrevera algo que me excitara tanto – não recordo o que foi – que dei um pulo da cadeira e continuei a escrever de pé. Provavelmente todos os jovens aspirantes a escritores têm momentos assim, a glorificação do copo vazio que nos faz seguir em frente. Mas hoje olho para aquele momento como crucial e faustiano: a luz âmbar, a máquina de escrever sibilante, a jovem mulher cheia de anseio e alegria. Escrever era a força motriz e o uísque o perigo escondido. Enquanto pude, escolhi sempre os dois.
A juventude e o orgulho podem ser armas poderosas contra a desgraça do álcool, mas apenas durante algum tempo. Eu mantinha o meu trabalho, lavava a cara com água fria todas as manhãs, nadava para contrariar o efeito dos copos e depois bebia para apagar os ganhos da natação. Durante anos, o bálsamo psíquico da bebida – a certeza sagrada de que tudo era possível com a sua ajuda – eclipsou as ressacas e o medo emergente de que eu estava em apuros. Possuía uma garrafa de bolso em prata que enchia de uísque para ter de reserva; julgava que se conseguisse manter as aparências poderia continuar assim e sair ilesa. O álcool eliminava a pressão, e eu tentava corrigir a equação com café e proteínas e cinco miligramas de Librium para atenuar a queda. Era como uma máquina bem oleada, a melhor aluna, e ninguém sabia. Pelo menos, era o que eu pensava.
Porque é que bebia? Quando o terapeuta me fez a pergunta, vários anos depois de ter deixado de beber, pareceu-me uma das questões mais caricatas que jamais ouvira. E porque não haveria de beber? Não queria ferir os seus sentimentos, por isso, encolhi os ombros e respondi tão honestamente quanto pude. «Pooorque», disse, com um pequeno desprezo. «O mundo inteiro ficava dourado.» Foi preciso ouvir as palavras em voz alta para perceber que a cor do sublime era em si mesma um indicador do problema.
Durante anos, alguns terapeutas fizeram tentativas frágeis de tratar a questão: no Texas da década de 1970, «abuso substancial» não existia ainda sequer como expressão. Durante os meus últimos dois anos na universidade, consultei uma psicóloga simpática para enfrentar, pelo menos assim pensava, o stresse do trabalho e do amor: estava integrada num programa académico exigente, terminara uma relação e tinha dificuldade em dormir. Comíamos bolachas Milano juntas, a terapeuta e eu, e ríamos sobre a dureza da vida. «Acho que bebo de mais», disse-lhe um dia. «Despejo cinco ou seis copos de uísque numa noite. Talvez precise de ir para Shoal Creek.» Shoal Creek era um hospital psiquiátrico em Austin onde se faziam curas de desintoxicação. Um advogado com quem trabalhara, e que me ensinara a beber uísque escocês e comer ostras cruas, considerava-o o seu spa. «Eles nunca te aceitariam», respondeu-me a minha querida e serena terapeuta. «Tens demasiado bom aspeto.»
Com isso ela queria dizer que eu ainda me mantinha na vertical, o meu dinamismo continuava elevado e que ainda não sofrera nenhuma das adversidades externas que sugerem a existência de um problema: não tinha sido apanhada a conduzir com excesso de álcool e não tinha tido casamentos fracassados nem complicações no emprego. No mesmo ano, fiz um check-up com um internista que era menos benevolente e mais obtuso. Quando me questionou sobre a quantidade de álcool que eu ingeria respondi-lhe que eram cerca de quatro bebidas por noite, sem saber ainda que a prática da profissão, no caso de o consumo do paciente parecer excessivo, era a de duplicar qualquer quantidade confessada. «Terá de ter cuidado com isso», disse-me, recusando-se a olhar-me nos olhos. «Não há nada mais impróprio do que uma jovem que bebe de mais.»
Aquelas idiotices apenas estimularam o meu consumo. Estava perto dos trinta anos, uma veterana da contracultura e do movimento feminino, e convencia-me de que beber fazia parte da condição sine qua non de cada novo dia – era a forma como as mulheres como eu viam o mundo; um anestésico para uma sensibilidade à flor da pele e um lubrificante para a criatividade. A outra verdade era de longe mais cruel. Os alcoólicos – um mundo sobre o qual eu não conseguia sequer pensar sem sentir vergonha e terror – eram pessoas falhadas que tinham bebido até ao limite, e para quem a única saída era deixar de beber. Isso era impensável para mim, um espaço cinzento, muito cinzento, sem momentos de euforia, bem-estar ou mesmo mudança. E assim, durante anos, mantive-me fiel ao que julgava ser a fronteira entre uma pessoa alcoólica e uma outra que bebe em excesso. De cada vez que manifestava os meus receios fazia-o disfarçado de humor, machismo ou revolta indiferente. «Receio que se deixar de beber me possa tornar desinteressante», confidenciei subitamente a uma amiga em Austin, uma enfermeira diplomada cujo pai falecera vítima de alcoolismo depois de ter passado décadas sentado numa cadeira rodeado de latas de cerveja. «Não tenhas tanta certeza», respondeu-me. «Dia após dia, é o tédio que comanda os alcoólicos.»
Ninguém cuja primeira lealdade seja para com a fonte do problema pode ouvir estas advertências, pelo menos não até se ter arrastado sobre alguns quilómetros de vidro partido. A ajuda, na sua forma mais benigna e não ameaçadora – se é que isto existe para um alcoólico – não estava exatamente atrás da porta; se estivesse, eu teria provavelmente saído a meio da noite. Não queria ajuda, queria reafirmação. O que significa dizer que eu queria a consolação, ainda que efémera ou artificial, de saber que seria capaz de beber para sempre e sair incólume. É como a velha história do homem que está numa ilha deserta apenas com um génio que lhe oferece dois desejos. Ele pede uma garrafa de cerveja. O génio concede-lha, diz-lhe que a garrafa nunca ficará vazia e que estará sempre fresca, e informa-o de que ainda dispõe de mais um desejo. Por segurança, o homem responde: «É melhor dares-me outra.»
* * *
Quando ainda era jovem e suficientemente corajosa para desejar aventura, vim para a Costa Leste. Era adulta quando pisara pela primeira vez o solo de Nova Iorque, alguns anos antes, e a cidade oferecera-me o seu habitual elixir. Caminhei ao longo de mais de oitenta quarteirões, desde o Museu Guggenheim até Greenwich Village, estonteada de alegria. Parei a um canto, no meio da neve rodopiante, de frotas de táxis e todos os outros ícones da cultura pop que eu crescera a ver em filmes e no ecrã da televisão; a ideia de estas coisas serem reais – de que qualquer um de nós podia tropeçar nesta cena luminosa e tornar-se parte dela – era humilhante e transformava a nossa vida. Visitei o Museu de Arte Moderna, onde ainda estava Guernica de Picasso, e tive de me agarrar ao corrimão quando me virei na escada e a vi pela primeira vez. Por muito sofisticada que me julgasse, crescera com campos de trigo e subúrbios como horizonte constante e a arte era em geral algo que pertencia aos livros. Estar em Manhattan foi como correr precipitadamente em direção à própria vida ou descobrir a capacidade de voar. Afastar-me teria significado o fracasso de uma oportunidade não gozada.
Cambridge tinha a sua própria versão, magnífica embora mais reservada, de sedução. Na minha primeira estada na cidade fui ao Cinema Orson Wells, que passava documentários com pretensões artísticas e tinha uma máquina de capuccino, e vagueei por Harvard Yard num casaco de pele gasto tentando passar por habitante local – pressentindo, julgo eu, ter encontrado um lugar muito maior e mais insaciável do que os confins do meu coração triste. Talvez esta seja uma perceção própria da juventude, contendo o medo com o regozijo. Mas hoje olho para trás e vejo-me como sombras a esbarrar contra a luz. A luz procurava desesperadamente vencer, e parte do plano, pensava eu, era sair do Texas.
Naquele primeiro verão na Nova Inglaterra vivi numa casa desordenada de três andares com mais seis pessoas. Os restantes residentes incluíam um médico, um físico, uma bailarina e um casal que fazia marionetas, e de alguma forma esta fauna fascinante achava-me exótica – em parte, tenho a certeza, por causa da imagem de alguém que bebia bastante que eu tentava manter. Usava botas, tinha um semblante masculino e duas garrafas de uísque guardadas em sacos castanhos numa prateleira do armário, e os meus companheiros pareciam divertir-se com a texana de voz arrastada que invadira a sua contracultura distinta. A minha melhor amiga na casa era Jackie, a bailarina, que usava, para um passeio vulgar, chapéus de leopardo falsos e luvas cor-de-rosa até ao cotovelo, e todas as noites, à mesa de jantar, contava o seu dia começando: «Primeiro, levantei-me!» Adorávamo-nos uma à outra – ela era a revolucionária Dra. Joyce Brothers para a minha heroína trágica. Uma tarde, no dia a seguir a uma festa de verão que tinha havido em casa, estávamos as duas estendidas no jardim das traseiras a falar sobre as nossas experiências. Eu estava com uma ressaca pior do que o habitual e, num momento de franqueza, confessei-o. Além de bailarina e excêntrica, Jackie era também uma enfermeira diplomada; trabalhara nas trincheiras dos campos médicos e tratara vítimas de doença psiquiátrica nas décadas de sessenta e setenta. Estávamos deitadas ao lado uma da outra, de olhos fechados – a posição tipo analítica –, quando, inesperadamente, ela me perguntou. «És alcoólica?»
Bem podia estar a perguntar se eu era do signo Peixes, tal a delicadeza com que colocou a questão. E eu fiquei tão surpreendida que respondi honestamente. «Não sei», disse-lhe, «sei que sou psicologicamente dependente.»
A conversa pairou na minha consciência durante os três anos seguintes em que ainda bebi. Jackie atrevera-se a perguntar o que eu não fora capaz; a minha resposta deixara mais alguém muito receoso, ainda que por um minuto. Uns meses depois, mudei-me para umas águas-furtadas mais abaixo na mesma rua, um lugar com todo o romantismo da vida com que sempre sonhara e todos os recantos sombrios daquilo que eu primeiro tivera de deixar para trás. Jackie teve a intuição e a gentileza de perceber esta escuridão e de ficar por perto enquanto eu fazia a travessia. Desbravava as ruas de Boston, conseguia alguns contratos para escrever em regime freelancer, voltava para casa e despejava copos enquanto martelava na minha máquina de escrever Adler. Arranjei um gatinho persa, ao qual chamei Dashiell Hammett, que se sentava nas almofadas da minha cama enquanto eu bebia, com os olhos enormes testemunhando o meu andar cambaleante e os desmaios pela noite dentro que eu não conseguia aguentar sozinha. O Phoenix, um jornal alternativo de Boston, contratou-me como colaboradora habitual e eu escrevia as minhas crónicas à luz da manhã quando estava sóbria; embora sendo alcoólica, era uma perfecionista – duas características, creio, que acabariam por se equilibrar mutuamente. Sem que ninguém visse, trouxe uns panfletos sobre alcoolismo de um consultório médico e fiz o teste de vinte perguntas com um copo de bourbon na mão. No início da década de 1980, as perguntas ainda incluíam pressupostos tradicionais sobre mulheres; uma delas, que nunca esqueci, era «O seu marido ou os seus filhos alguma vez expressaram preocupação sobre a sua forma de beber?» Eu respondi, sem floreados: «Não.» Não havia marido, nem filhos, nem preocupações.
A verdade mais iminente era a de que aquilo que parecera uma libertação – a saída do Texas, as malas castanhas cheias de uísque, o reinventar de uma vida – se revelava um terror sem âncoras. A conselho de um clínico, consultei um psicoterapeuta e hipnotizador especializado em abuso de substâncias. Mandou-me sentar numa cadeira que reclinava, como se estivesse no dentista e, de cada vez que me hipnotizava, eu começava a chorar em silêncio, as lágrimas a correrem-me pela face até o cabelo ficar molhado. O facto, só por si, mostrava que alguma mágoa profunda procurava soltar-se, mas o hipnotizador parecia julgar que a terapia de aversão era a adequada. Ordenou-me que fosse para casa e que bebesse o que conseguisse na semana subsequente, e que depois lhe trouxesse uma garrafa de uísque escocês para pagar a consulta seguinte.
Gosto de pensar que foi o meu estado comprometido – a bebida, os transes encharcados – que me impediu de fugir deste meio estranho. Durante semanas regressei, esperando que de alguma forma ele pudesse descobrir o interruptor mágico que poria termo à minha ligação paralisada. Então, um dia entrou na sala a sorrir. Disse-me que tinha tomado LSD na semana anterior e que tivera uma visão sobre mim, e que agora sabia que tudo acabaria em bem. E prosseguiu, descrevendo a atração sexual que ele acreditava existir entre nós, atração essa, foi cuidadoso a dizê-lo, que nunca se desenvolveria. «Numa escala de um a dez», disse-me, em jeito de confissão alegre, «atribuo-lhe nove.» Depois de lhe assegurar que esta afeição numérica ficava apenas com ele, fugi. Nunca paguei a fatura que me enviou por aquela última instrução mítica; nunca respondi às suas cartas lamuriosas. Durante anos, ponderei o perigo que ele podia ter provocado, ou pelo menos o fracasso que infligira em mim.
Como tinha o bom senso e o orgulho de não conduzir embriagada nem de aparecer arrasada em público, o meu mundo tornou-se cada vez mais pequeno. Tinha nódoas negras na parte superior dos braços de esbarrar contra as portas. Quando torci o pé, atei dois sacos de plástico aos punhos das muletas – um com gelo, o outro com um frasco de bourbon – e coxeava com o meu bar portátil da cozinha para a secretária. Numa daquelas noites excedi estes caprichos amadores e dei uma queda que me levou às urgências. Diante do espelho da casa de banho, num daqueles momentos trágicos à Leonard Cohen, fiquei prostrada, um peso morto, com um copo de uísque escocês na mão. Caí transversalmente contra a banheira e parti quatro costelas. Eram quatro da manhã. Mesmo para a minha mente atormentada e em negação, isto já não era beber socialmente.
As regras sociais de tempo e de espaço – do Texas e da sua cultura da bebida machista, do entendimento ainda provinciano sobre o que é a dependência – sempre me transmitiram que o alcoolismo era algo sem tratamento e repreensível. Acontecia a pessoas de alguma forma falhadas, fracas, ou que não tinham tido força de vontade para se endireitarem e voarem a direito, como o meu pai teria dito. O que esta versão sempre deixou de fora foi a luta interna – o desejo de beber que tenta eclipsar a luz da sobrevivência – que alguém no auge da dependência atravessa. Todas as manhãs, ao acordar para o arrependimento de mais uma noite falhada, eu engolia o medo e jurava que daquela vez, naquele dia, tomaria apenas quatro bebidas. Passaria para a vodca, iria ao cinema ou telefonaria a Jackie, que agora vivia em Nova Iorque, contando-lhe como estava mal. A cassete repetia-se ao longo do dia – coragem/medo, decisão//ansiedade, negociação/rendição – e depois começava por abrir o frigorífico à procura de gelo e todo o meu corpo exultava de alívio e o ciclo recomeçava.
O pior legado psíquico desta espiral sem fim era o sentimento permanente de traição. Todos os dias tomava a decisão de não beber, e todas as noites, por volta das oito ou nove horas, quebrava-a. A erosão, como a água na pedra, era gradual e constante. Eu tinha sido abençoada com uns pais cuja força individual me fora transmitida: tinha a independência da minha mãe e a determinação pragmática do meu pai. E tinha uma confiança em mim que assentava em três décadas de bons resultados. Mas este adversário era muito mais cruel, muito mais forte e persistente do que qualquer outro desafio que eu alguma vez tivesse enfrentado. O último ano provara que isto já não era um beco sem saída; na verdade, eu tinha sonhado que estava num ringue com uma garrafa de Jack Daniels a levar uma grande sova. Durante mais de uma década negociara com os deuses uma forma de manter a bebida: cumpre o prazo, ganha a garrafa; consegue o contrato, toma uma bebida. No final do dia, quanto melhor me sentia sobre a prosa, maior era a recompensa.
Talvez isto explique o comportamento vertiginoso que assumia enquanto escritora, à procura de histórias que julgava que podiam, de alguma forma, legitimar o meu consumo. Tinham-me programado uma missão para dois dias, depois da minha queda, ao observatório meteorológico situado no topo do monte Washington, em New Hampshire, um posto avançado semelhante à Lua que podia gabar-se de estar sujeito ao pior tempo do mundo. Por causa das costelas partidas, adiei a viagem por seis semanas. Em fevereiro, quando fiz a viagem de três horas de autocarro para Gorham, em New Hampshire, no sopé da montanha, ainda tinha as costelas ligadas e na bagagem levava analgésicos e duas garrafas de uísque. Deixámos Boston às seis da tarde e o autocarro dirigiu-se para norte já escuro. Sentei-me naquele autocarro frio e vazio
com as costelas a doer e o meu 9 Percocet, a comer uma pequena sanduíche de fiambre que preparara para a viagem e tentando não pensar no estado assustador em que me encontrava. Quando chegámos a Gorham, no final do percurso, havia apenas mais um passageiro, um homem de aspeto sinistro que me deitava olhares à minha passagem e agia como se me estivesse a seguir. Saí do autocarro com um bastão para andar no gelo e dirigi-me à estalagem local. Assim que entrei no meu quarto despejei um
copo alto cheio de 10 bourbon . Na manhã seguinte, quando o Sno-Cat
chegou para me levar até à montanha, a mim e a um casal de geólogos, eu estava mais preocupada com as garrafas de vidro que tinha guardado na mochila do que com a minha própria anatomia fraturada.
De forma consciente ou inadvertida, escolhera um paraíso hermético para consumidores de bebidas alcoólicas no observatório. Os meteorologistas estavam habituados a ficar bloqueados pelo mau tempo durante semanas e, por isso, tinham uma reserva completa de bebidas alcoólicas juntamente com litros de molho de tomate e latas de condimentos de tamanho industrial. Os meus dois companheiros de casa atribuíram-me uma sala revestida a vidro com vista sobre o monte Washington; à noite, juntávamo-nos para preparar o jantar na companhia de algumas bebidas. O seu turno da manhã começava às cinco da madrugada, por isso, todas as noites, por volta das oito horas, eu podia retirar-me para o meu beliche e para a minha garrafa de bourbon. E todas as noites fazia um risco na garrafa para me certificar de que as porções durariam.
Os meses seguintes foram uma confusão de adrenalina e medo, um esforço derradeiro para manter a fachada. Consegui fazer uma reportagem sobre o Farol de Boston, um dos últimos ainda tripulados nos Estados Unidos, o que implicou passar a noite com o faroleiro e o seu cão na ilha de Little Brewster, no porto de Boston. Ainda senti os tremores matinais quando a lancha rápida da Guarda Costeira chegou para me levar até à ilha. Na lancha vinham três ou quatro indivíduos simpáticos e barulhentos, exibindo o motor e acelerando, e como eu não queria que eles percebessem que estava nervosa e maldisposta, recorri ao velho estratagema texano de aumentar a parada. «Então», perguntei-lhes, «que velocidade é que esta coisa dá?» Eles sorriram com ironia, e depois uns para os outros, e conduziram-me a cerca de cem quilómetros por hora. Estava pálida quando pus os pés na ilha, mas eles julgaram que eu era rija – pelo menos, assim pensei – e, no meu baralhado sentido de mim isso era o que importava.
Mas o faroleiro sabia. Até então, o meu orgulho era uma camuflagem esfarrapada do problema. No final da tarde que passámos juntos, subi as escadas e despejei um copo de vodca em cerca de vinte minutos. Depois, voltei à cozinha para vê-lo preparar-me uma costeleta. Éramos os únicos na ilha; ele era um indivíduo alto, bem constituído e tímido, na casa dos trinta, e nessa noite sentámo-nos na sua cozinha luminosa a beber Pepsi e a comer costeletas enquanto ele me contava uma história, que parecia ter saído do nada, sobre como deixara de beber há alguns anos. Eu sorri e acenei simpaticamente. Tinha escolhido vodca, por isso ele não podia sentir o cheiro, mas sabia. Na manhã seguinte, ressacada, obriguei-me a subir as escadas vertiginosas até ao topo da torre de cerca de vinte e sete metros, e fui contando os degraus enquanto subia para poder pôr o número na minha história. Quando as pessoas dizem que os alcoólicos não têm força de vontade não sabem do que estão a falar.
Apesar de todas as minhas façanhas simuladas, as minhas constantes recalibragens do incentivo e da fachada, hoje sei que escrever foi o que me atirou a corda e me permitiu arrastar-me até à costa: a ideia de um mundo onde pudesse manter a bebida mas perdesse a escrita era ainda mais intolerável para mim do que um mundo sem álcool. Durante aqueles últimos meses lastimáveis, comecei a encontrar notas escritas num estado de embriaguez, meio incompreensíveis, que gatafunhara durante a noite. De dia, a minha prosa sóbria era no mínimo lúcida e legível; estas notas, vindas do meu lado mais sombrio, eram como se me deparasse com uma ex-galdéria da Broadway num bar que já conhecera melhores dias. Tinha trinta e três anos. Parecia-me demasiado cedo para o declínio trágico, por muito que o mito da romântica atormentada me tivesse sempre empurrado para a frente. Durante anos, cultivara uma galeria de celebridades embriagadas onde estavam aqueles escritores que agarraram o seu talento com uma garrafa de uísque: Faulkner, Hemingway e Hammett (curiosamente, as minhas referências eram na sua maioria homens). Convenientemente, o que eu deixara de fora nesta história para consumo próprio eram as notas finais que comprovavam a mentira: a disciplina de Faulkner, a longa sobriedade de Hammett, a espingarda de caça de Hemingway. O uísque não alimentou a chama da criatividade; extinguiu-a, por vezes com uma gota lenta de cada vez.
As águas-furtadas onde eu tinha pensado acabar a minha fantasia de escritora ficavam num terceiro andar de um prédio sem elevador numa rua da cidade ladeada de árvores. Tinha a máquina de escrever na sala de estar e das janelas da frente avistava os telhados e o céu de Nova Inglaterra e, em baixo, na rua, as pessoas tratando das suas vidas – os carteiros, os indivíduos que passeavam os seus cães e estranhos familiares que constituem o pano de fundo da vida urbana. Numa tarde de inverno, quando ainda não podia sair de casa por causa das costelas partidas, desejando apenas poder deslocar-me à loja de bebidas para comprar uma garrafa de bourbon, fiquei ali a observar a neve que caía lá fora com o coração preso pela disparidade do sonho concedido: chegara até aqui, percorrera todo este caminho sem trabalho, família ou apoio, procurando fazê-lo como escritora, e agora estava detida num terceiro andar, na minha própria cela, uma cela pequena e completamente afastada das pessoas lá em baixo, à espera que o dia terminasse para poder beber. A queda livre em que vivera durante anos acabara, o medo tornara-se desespero e, simplesmente, já não conseguia suportá-lo mais.
As histórias de vitória são habitualmente muito simples: foi o que ouvi uma vez da boca de um homem num encontro dos AA: «Embebedei-me, a coisa piorou, cheguei aqui.» Na primavera, inscrevera-me em sessões de grupo sobre alcoolismo incluídas no meu seguro de saúde em Cambridge, onde um indivíduo chamado Rich, alto e descontraído, uns anos mais velho do que eu, falava todas as semanas sobre os malefícios da doença. Eu achava-o louco. Regressava a casa depois das sessões, despejava enormes copos de bourbon e matutava no que ele tinha dito. Era demasiado alto, demasiado simpático, demasiado jarreta. Só podia ter havido algum engano – a literatura médica esquecera-se de uma categoria para heroínas trágicas com futuros brilhantes que adoravam o seu uísque. Depois, na semana seguinte, eu voltava, cambaleante, para continuar a minha aprendizagem.
O meu simpático professor fez duas coisas de inestimável valor. A primeira foi que ele parecia não esperar nada da audiência: não nos intimidava, não tentava conduzir-nos à sobriedade, nem mesmo nos pedia para voltarmos. A segunda foi o ter-nos dado uma interpretação de estilo budista sobre a forma de sobreviver a uma vida sem álcool que não figurava em nenhum panfleto dos que eu lera até então. Ao longo da minha vida como alcoólica assumira que a minha derrapagem para o alcoolismo era um fracasso fait accompli – que a batalha estava perdida e que eu, consequentemente, estava para além da redenção. Acreditava que o melhor que podia esperar era uma vida frágil e vigilante, repleta de uma ansiedade nebulosa. Rich ocupava um lugar na batalha, mas em mais nada. O conceito de AA, disse-nos na sessão final, era o da rendição. Revirei os olhos; já ouvira aquilo antes. E, prosseguiu, a rendição – decidir depor as armas e sair ileso – era uma forma de recuperar todo o nosso poder.
As luzes fluorescentes suavizaram um pouco, e aquela sala deprimente, onde durante semanas me sentara com outros céticos, transmitia uma aura de esperança, muito embora transitória. Reconheci aquilo de que ele falava: tratava-se do velho combate mítico que ao longo dos tempos definira o heroísmo. De alguma forma, naquela noite, o conceito de sobriedade tinha, pela primeira vez, uma marca revolucionária sobre a sua mensagem – a ideia era salvar vidas, ser contra a corrente dominante, até desafiar. Pode ser possível, pensei então, deixar de beber e continuar a ser maravilhosa. Para uma mulher assustada que passara uma década cultivando uma armadura au courant para mascarar a sua bebida, isto era tão radical quanto podia ser.
Salvou a minha vida, é claro, este homem compassivo e discreto, que se estava nas tintas para parecer perfeito, mas que se preocupava imenso em ajudar as pessoas. Tendo desistido da minha capa de desdém fui ter com ele uma tarde, depois da sessão ter terminado, com o propósito claro de falar sobre o alcoolismo na minha família extensa. E apesar de naquele dia estar sóbria, mais tarde não consegui recordar praticamente nada sobre aquela hora passada no gabinete de Rich. Sei que nos primeiros minutos me fui abaixo, para meu próprio espanto, e afirmei: «Acho que bebo de mais.» O resto foi uma lavagem da memória até ele se levantar, quase uma hora depois, e sair apressado para me marcar uma desintoxicação ambulatória para a semana seguinte. Meses mais tarde, questionei-o sobre aquele dia e sobre o que eu lhe tinha dito. Ele sorriu, pois já vira antes esta amnésia-em-crise. «Acima de tudo», respondeu-me, «tentaste convencer-me de que não merecias ser salva.»
O facto choca-me agora como me chocou na altura, porque sempre me agarrara à ideia de que as oscilações de autoestima que eu assumira é que me tinham levado a procurá-lo. Mas o álcool, tal como o desespero e a exaustão que o acompanhavam, desgastara-me tanto que não me restava muito espírito combativo. Regressei a casa naquele dia para cumprir o prazo do Village Voice. Depois, conduzi até à loja de bebidas da vizinhança para aquilo que eu esperava ser a minha última dose escondida. Pedi uma garrafa de Jack Daniel’s e uma de Johnnie Walker Red – esta, uma loucura para os meus honorários de trabalhadora freelancer. «Quer um embrulho de oferta?», perguntou o funcionário da caixa inocentemente. «Claro», respondi-lhe. «Porque não?» Três dias depois deitei fora o que restava e dirigi-me, cambaleante, ao gabinete de Rich, ressacada e com meia hora de atraso, para um encontro que me faria começar de novo.
Estávamos no verão de 1984, e naquela altura os AA ainda estavam afastados da ordem social – não tinham chegado às capas dos semanários, os slogans ainda não tinham sido transformados em autocolantes para carros e as confissões de redenção feitas por celebridades eram coisa do futuro. Munida de uma agenda com as reuniões locais, entrei disfarçadamente numa reunião em Cambridge uns dias antes da minha última bebida e sentei-me a chorar perto do fundo da sala até que uma mulher elegante e de voz suave me acotovelou nas costelas e sussurrou: «Não se preocupe, é bioquímico.» Achei aquilo animador, uma resposta de cinco palavras, dita de forma casual mas inequívoca, ao maior problema da minha vida. Sai e dirigi-me a casa, para o Johnnie Walker, mas regressei na noite seguinte, e na outra, e quando a manhã de segunda-feira chegou, a data marcada para me apresentar no gabinete de Rich preparada para iniciar o programa de uma vida nova, eu acabara com o uísque escocês, despejara uma enorme quantidade de bourbon por segurança e arrastara para a rua o equivalente a um bar de garrafas vazias.
Em parte porque os programas de doze passos ainda não tinham saturado a cultura, as reuniões a que assisti pareciam clandestinas e miseráveis; a maioria decorria em caves de igrejas. Havia algo incrivelmente romântico em tudo isto – era como um maçom com um mau cadastro. Na faculdade, mergulhara nas memórias de escritores que tinham aderido ao Partido Comunista na década de 1930 e que se deslocavam furtivamente a reuniões secretas das suas células, fumando e conversando, convencidos de que estavam a mudar o mundo. Sempre invejei a sua dedicação apaixonada. Numa noite de verão, atravessei o
Boston Common11 em direção a uma outra cave de igreja e os campos estavam cheios de pessoas a caminho de algum lugar. Durante anos, senti-me afastada daquela corrente de humanidade, que se precipitava sobre os momentos do que parecia ser uma vida realizada. Hoje conheço a verdade mais diversa e profunda: a de que alguns membros da multidão se dirigiam a uma reunião de AA. Foi uma aprendizagem conquistada com dificuldade, mas brilhante: percebi, porque a vida está sempre a querer ensinar-nos, que o mundo tal como o vemos é apenas a versão publicada. As áreas subterrâneas, sejam elas igrejas, salas de hospital ou caves cheias de fumo, são parte daquilo que sustenta o resto. Tinha conseguido a chave-mestra e encontrara o meu caminho.
* * *
Conheci alguém em Austin, anos antes, que entrara para os AA e que conseguira endireitar de novo a sua vida, mas o que ninguém me podia ter dito era as reuniões serem estrondosamente engraçadas. Estive em salas pobres com cadeiras desdobráveis e cafeteiras de café, onde as pessoas tomavam injeções de açúcar em biscoitos de mercearia e usavam velhas latas de atum como tabuleiros. Um tribunal do povo de bêbados! Os AA atravessam todas as fronteiras de classe que eu jamais esperara romper. Havia homens de fato e gravata, mulheres operárias de discurso pesado e pessoas inseguras que passariam despercebidas numa carruagem de metro; havia indivíduos de olhar amedrontado que, depois de começarem a falar, percebíamos que gostaríamos de ter para sempre a proteger-nos. As histórias que contavam eram dolorosas, chocantes, por vezes, profundas, e a maioria tinha finais mais felizes, pelo menos até então, do que aquilo que seria possível esperar da vida. Fiz amizade com uma mulher jovem e bonita, uma artista e realizadora de cinema que cortava copos de poliestireno em tiras nas reuniões. Fez isto durante cerca de um ano, enquanto eu fumava compulsivamente ao seu lado. Descobrira o cocktail molotov que o álcool representa quando era praticamente uma adolescente e tinha-se formado recentemente em Harvard com classificação de magna cum laude enquanto bebia quase até à morte. Durante anos, sentámo-nos juntas nas filas da frente, imaginando que éramos a Thelma e a Louise dos AA de Cambridge, até que o emprego dela a transferiu para Nova Iorque, a sua cidade de origem. Eliza era rude, mas dentro havia uma mulher de uma tal delicadeza e intensidade que conseguia fazer baixar a minha pressão sanguínea só de entrar na sala. Também chegara aos AA através do Conselheiro Benevolente para o Álcool, e durante anos referíamo-nos a nós próprias como alguém que se formara na Escola Rich Caplan, onde aprendêramos a regra preciosa de como evitar uma garrafa de uísque de uma assentada, ou a não beber de todo.
Costumava julgar que esta era uma história terrível – vergonhosa, dramática e triste. Já não é assim. Hoje penso simplesmente que é uma história humana e, por isso, decidi contá-la. E de todas as palavras sábias sobre o álcool ouvidas e esquecidas ao longo dos anos, particularmente naquela primeira hora sombria no gabinete de Rich, nunca esqueci uma coisa que ele me disse então, quando eu me sentia atolada no medo e na vergonha pela ideia de ter bebido até me tornar uma alcoólica. Perguntou-me porque é que estava tão assustada e eu respondi-lhe, a chorar, a primeira coisa que me veio à cabeça: «Tenho medo de não voltar a ser amada.» Inclinou-se para mim, com um sorriso de uma enorme bondade estampado na face, as mãos apertadas à sua frente. «Não sabes?», perguntou-me docemente. «É a imperfeição que nós amamos.»
8 Cinturão do Sol (Sun Belt, em inglês) é a região dos Estados Unidos que compreende o Sul e o Sudoeste deste país. (N. da T.)
9 Analgésico comercializado nos Estados Unidos da América. (N. da T.)
10 Marca de veículo com lagartas preparado para andar na neve. (N. da T.)
11 Nome de um jardim público em Boston. (N. da T.)
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