Um Longo Regresso a Casa

Gail Caldwell · Capítulo 11 de 15

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Um Longo Regresso a Casa

.9.

Caroline começou a tossir no inverno. Uma tosse seca, ainda não preocupante, que parecia ser um complemento áspero, próprio de fumador, à sua voz extraordinária. Tinha acabado um livro e estava exausta, bem precisava de ganhar uns cinco quilos. No Natal, ofereceu-me

uma 17 mezuzah para pendurar na porta de entrada e abençoar a casa nova. Fomos jantar fora para comemorar o meu aniversário numa noite gélida de janeiro. Ela parecia apática, mas ambas atribuímos o facto ao trabalho e ao cansaço emocional. Se estava preocupada com a sua saúde – e estava, como se viu mais tarde – não disse a ninguém a não ser à irmã, Becca.

Dois incidentes, aparentemente díspares, seriam recordados mais tarde. Caroline tentou nadar as suas habituais quarenta ou cinquenta piscinas e só conseguiu fazer sete antes de ficar incapaz de prosseguir. E então, numa tarde fria e soalheira do início de março, em Fresh Pond, as pernas falharam-lhe sem qualquer tipo de aviso. Recuperou quase de imediato e sentou-se num banco do parque para me ligar, minimizando o sucedido enquanto me contava o que acontecera. Por alguma razão que não sei explicar, absorvi esta informação com uma urgência e um temor que eram desproporcionados face ao sucedido. Agarrei nas chaves do carro e voei para fora de casa, percorrendo de automóvel os poucos quarteirões que me separavam do lago para ganhar tempo. Ao avistá-la na elevação por cima do parque de estacionamento fui a correr; quando cheguei ao pé dela, abanava a cabeça para me dizer que não tinha sido nada – um colapso momentâneo, falta de açúcar no sangue, algo passageiro e benigno.

Grande parte do alarme que senti naquele dia advinha do facto de Caroline ser uma das pessoas mais estoicas que eu já conhecera. Raramente ficava doente e, quando isso acontecia, mal se queixava. Mas a tosse, funda e persistente, não passava. Reduziu os cigarros para metade, depois para metade disso. Estranhamente, na altura eu estava preocupada com a minha própria saúde. Em baixo de forma por causa de uma vulgar gastroenterite reagira, de uma maneira que não me era habitual, com um mal-estar sombrio do qual não me conseguia libertar.

Caroline fez uma radiografia ao peito, recebeu tratamento para uma pneumonia e os antibióticos deram-lhe algumas semanas de sossego. No final de março, num dia invulgarmente quente em que o rio estava tranquilo, saímos com os barcos pela primeira vez desde o outono. Ela remou os oito quilómetros do costume. Uma semana depois estaria no hospital mas naquela altura, naquele dia, não havia vento e a água parecia um espelho. Quando caminhámos juntas ao final da tarde, disse-me que fora a única vez em quinze anos em que o primeiro passeio de remo da época lhe parecera fácil.

Aquela palavra continuou a vir-me à memória durante a brutal revisão dos dias que se seguiram. Duas semanas após aquele exercício perfeito, Morelli levou Caroline às urgências, num domingo à noite, já tarde. Ardia em febre e tinha novamente pneumonia. Durante alguns dias, os médicos pensaram que podia ser tuberculose e todos tivemos de usar máscaras no quarto do hospital. As máscaras: Caroline disse-me que percebeu que as notícias eram más quando as enfermeiras deixaram de as usar e começaram a tratá-la com uma gentileza atroz.

Estava presente, por acaso, quando o médico terminou a broncoscopia, um exame que revelou um tumor inoperável no pulmão, classificado como um adenocarcinoma na fase 4. Estivera absurdamente positiva nos dois dias anteriores ao exame, confortando Caroline ao assegurar-lhe que era demasiado nova para ter cancro, que as misteriosas manchas no fígado que os médicos tinham detetado não seriam nada de grave. Becca, que partilhava a compostura e a tranquilidade de Caroline sob pressão, disse-me, enquanto esperávamos na sala de recobro, que devíamos estar preparadas para o pior e eu fiquei aturdida. Ela era médica e eu tinha muito mais confiança nela do que no meu próprio otimismo desesperado. Então, o pneumologista entrou, atirou o seu corpo alto e magro para uma cadeira próxima, encolheu os ombros com uma réstia de bondade, e proferiu as palavras que fizeram desaparecer os comentários à nossa volta: «inoperável», «necrótico», «paliativo». E o eufemismo obsceno que, inadvertidamente, revela o fim: «podemos fazer com que se sinta mais confortável.»

Recordo, com uma clareza ofuscante, duas coisas do resto daquele dia. A primeira é a imagem de Caroline a chorar quando a abracei, depois de a terem trazido novamente para o quarto, quando a primeira coisa que ela me disse foi: «Estás zangada comigo?» Era a voz do terror inicial, uma resposta primitiva às más notícias, e até hoje não sei se ela o disse porque tínhamos discutido por ela fumar ou se por saber que ia partir.

A outra imagem é do final daquela tarde, depois de me ter ausentado do hospital o tempo necessário para passear Clementine e ir buscar algumas coisas de que Caroline precisava. Descia a minha rua a pé, a caminho do parque do bairro, quando avistei uma amiga e a sua filha de sete anos mais à frente, no campo de basquetebol. Olhei na sua direção mesmo na altura em que Sophie apontou a bola e fez o lançamento. «Mãe!», gritou. «Viste?» Era o seu primeiro triunfo no campo, eu fora a testemunha ocasional e a força daquela simples capacidade para alcançar a alegria cortou-me a respiração. A tarde resplandecia de luz, Caroline estava a morrer e Sophie tinha marcado. Mãe! Ali estava ela, a vida infindável, a jogar basquetebol.

Os dias seguintes foram uma confusão de relatórios negativos. Exames suplementares revelaram que o cancro se espalhara e que havia metástases no fígado e no cérebro de Caroline. No final da semana, um oncologista juntara-se à equipa e fora iniciada uma radioterapia de emergência para o cérebro e uma primeira (e desesperada) série de quimioterapia com a duração de cinco horas. Os antibióticos tinham curado a pneumonia secundária e houve um curto período, entre o diagnóstico e os efeitos debilitantes do tratamento, durante o qual Caroline não se sentiu doente. Estávamos todos em estado de choque, consumidos pelas tarefas exigidas pela situação de crise, fazendo listas de pessoas a quem telefonar e de objetos que parecia ser essencial obter: uma T-shirt preferida, um pente de tartaruga. Morelli descobrira uma forma de introduzir Lucille no hospital às escondidas, depois do início do turno da noite, e nós trepávamos para a cama com o cão e partilhávamos comida italiana do pronto-a-comer. Uma noite, Caroline começou a contar anedotas parvas enquanto eu e Morelli ríamos, e então ela parou a meio de uma frase e ficámos todos a olhar uns para os outros, uma cena tirada de um daqueles telefilmes piegas. Tudo parecia absurdo e precioso, filtrado através do breve esplendor que surge quando a morte está presente. Na primeira noite depois do diagnóstico, Caroline dissera-me que pedira a Morelli para casar com ela e que nós tínhamos um casamento para planear, e aqueles primeiros dias estiveram envoltos numa profunda ternura que ajudou a suportar as semanas seguintes.

Um dia, Caroline telefonou-me de manhã cedo, eu peguei no auscultador e disse, «Estás bem?», e ela respondeu, «Sim, fugi – estou a pensar ir remar.» O hospital ficava junto ao rio e o seu quarto, situado nos andares de cima, dava para a curva do rio Charles onde os remadores passavam todas as manhãs e, da sua cama, ela podia vê-los à primeira luz. Daí a poucos dias Caroline haveria de pedir às enfermeiras para deixarem as cortinas fechadas. Mas naquela manhã ela ainda brincava, ainda era capaz de fingir que em breve voltaria lá para fora. «Tenho saudades de nós», disse-me, ao telefone, nessa manhã. «Sinto falta da nossa vida juntas.»

Sabíamos que tudo havia mudado, por isso a forma como comunicávamos este facto uma à outra era tão cuidadosa como real. Falámos sobre o testamento que tinha mandado redigir; numa noite, disse-me a mim e a Morelli que tínhamos de prometer passear os cães juntos uma vez por semana, para sempre. «O meu barco e a minha roupa interior», proferiu, referindo-se ao legado que seria para mim; anteriormente, nesse mês, eu pedira-lhe emprestado metade dos casacos que ela tinha no roupeiro para uma viagem a Austin que deveria fazer dentro de algumas semanas. A sua ironia prevalecia acima de tudo o resto. «Oh, meu Deus», exclamou, na segunda noite após o diagnóstico, quando estávamos a fazer a lista das pessoas a quem telefonar. «Agora vou ter de ouvir as pessoas a contar as suas histórias sobre como entraram em remissão.»

Mas à noite, depois de sair do hospital, eu vinha para casa e ficava de pé às escuras no jardim das traseiras onde o viburno estava em flor; enterrava a cara no seu perfume e chorava. Depois de passear Clementine, ligava-me à Internet e lia sobre o adenocarcinoma nas revistas médicas. O termo «prognóstico» ainda não tinha surgido nas nossas conversas, mas eu sabia. Telefonara a dois amigos, que eram médicos, e ambos tinham sido suficientemente amáveis para me darem a sua opinião sem eufemismos. Nenhum deles acreditava que ela tivesse mais do que alguns meses de vida.

Tirei imensos apontamentos durante estas chamadas – notas rabiscadas e detalhadas, citações dos meus amigos médicos, a minha forma de organizar o incompreensível. «O pior, o mais adiantado» escrevi, debaixo de «fase 4 – adenocarcinoma». «Tumores no fígado... a radiação ajuda a controlar a dor e o inchaço do cérebro.» E depois, numa caligrafia mais pequena no final da página: «Não serve de nada para prolongar o tempo de vida.»

Os médicos de Caroline discordavam quanto à causa e origem do tumor no pulmão: um pneumologista tinha a certeza de que estava relacionado com o tabaco; um oncologista estava igualmente certo do contrário. Isto tinha uma grande importância para Caroline e nenhuma para mim, apesar de eu ter tentado protegê-la do veredicto do especialista em pneumologia, a quem o trabalho nas trincheiras possivelmente endurecera de forma a não ser afetado pelos destroços que era obrigado a ver todos os dias. Caroline deixara de fumar na semana anterior ao diagnóstico e agarrava-se a isto: a sua recuperação da anorexia e do alcoolismo fora uma longa batalha contra a autodestruição e ela precisava de saber que, também neste caso, tinha feito um esforço enorme para se salvar. A razão pela qual eu estava menos interessada na origem do tumor era pragmática: apesar de me ter preocupado com o facto de Caroline fumar, a atividade que originara o tumor não tinha qualquer efeito sobre o diagnóstico, não mais do que sermos afastados de um edifício nos protege de cairmos dele abaixo.

Na sexta-feira, a noite em que teve início a quimioterapia, Caroline estava na cama, com a T-shirt que eu lhe trouxera e uma injeção intravenosa no braço, quando eu entrei. Perguntou se podia ficar com a camisola – claro, disse eu. Pediu-me para acertar e programar o seu novo relógio desportivo subaquático para poder cronometrar as voltas na piscina quando saísse do hospital. Caroline sempre adaptara o seu ritmo ao meu e agora eu fazia o mesmo, diminuindo-o quando ela assim o indicava. «Se me tivesses falado, antes de tudo isto acontecer», disse-me naquela noite, «de alguém com cancro no pulmão e metástases em quatro sítios, eu teria dito “Oh, meu Deus, só tem seis meses de vida.”» Estendeu então o braço magro e musculado onde estava a injeção intravenosa, abanou a cabeça e sorriu. «Mas estes médicos não sabem o quanto eu sou forte.»

Tudo isto parece ter acontecido ontem, ou há uma eternidade, naquela fenda entre o espaço e o tempo que permanece imutável na nossa imaginação. Recordo-me de tudo porque me recordo de tudo. Quando há uma situação de crise com alguém que amamos, o diálogo fica tão gravado como uma cicatriz numa árvore. Hoje, é assustador constatar aquilo de que me lembro, embora suponha que não deveria ser, porque tenho a voz de Caroline cravada no meu coração. Aquela voz: a entoação, o alcance, o humor admiravelmente oportuno. Algo que eu não podia perder.

Na segunda-feira os efeitos da quimioterapia tinham começado a fazer-se sentir. Caroline telefonara ao seu terapeuta – um homem que ela conhecera e amara durante duas décadas – nos primeiros dias após o diagnóstico, mas ele ainda não tinha ido ao hospital; é possível que ambos estivessem a tentar adiar a crueldade da situação. Naquele dia, ela perdera toda a serenidade física e psicológica que possuía. Estava terrivelmente doente, fraca, e eu passei a maior parte da tarde sentada ao seu lado, enquanto ela dormia. Passaram quatro ou cinco horas, durante as quais Caroline acordava e se sobressaltava para depois cair no sono outra vez. Eu trocava um pedaço de pano frio por outro e voltava ao meu lugar. Foi uma missão estranha que não exigia qualquer esforço, na qual tanto o tempo como o pensamento deixaram de existir. Mais tarde, Caroline contou-me que sonhara durante toda a tarde comigo e com o irmão, que também tinha estado a entrar e a sair do quarto.

Quando o telefone tocou, atendi de imediato para ela não acordar. «Caroline?», disse uma voz de homem. «Não», respondi, «é a Gail». «Ah, a Gail», disse o terapeuta de Caroline, reconhecendo o meu nome e sabendo que o dele me seria familiar. «Fala David Herzog.» Pus a mão em concha sobre o bocal do telefone. «Estava para lhe telefonar», disse-lhe. «Tem de cá vir. Agora.»

Ele foi nessa mesma noite e, mais tarde, Caroline e eu rimo-nos da ordem que eu dera sem contemplações – da minha capacidade de fazer o que ela não conseguira, chamar por ele através da barreira do medo. Era um homem enorme, de quem comecei a gostar intensamente durante as semanas que se seguiram, confiando na sua força e na sua bondade sincera quando o resto do mundo parecia obedecer a uma espécie de giroscópio louco. Foi com ele que falei quando a realidade médica e a emocional colidiram; foi ele que telefonou quase todos os dias para saber como eu me estava a aguentar. Com ele podia falar abertamente sobre o quanto Caroline estava a sofrer e sobre o tempo que lhe restava. Assumimos uma capa de intimidade instantânea que não podia falhar: a nossa ligação fora forjada num túnel de vento. Sabíamos que ambos éramos essenciais na vida de Caroline e o que cada um de nós tinha a perder.

Este era um outro campo de familiaridade que Caroline e eu tínhamos partilhado ao longo dos anos. Herzog, como ela lhe chamava, tinha sido um pilar na vida que ela reconstruíra do outro lado da anorexia. Devido à forte ligação que possuíamos a uma figura paterna poderosa, ambas tínhamos encontrado refúgio num psiquiatra do sexo masculino. Mais importante ainda era a crença partilhada na terapia psicodinâmica: a versão longa e montanhosa, frequente mente monótona, segundo a qual a pessoa permanece na sala com os seus medos e a sua história juntamente com uma testemunha que possa suportar a intensidade da narrativa. Vivíamos num meio cultural – a Costa Leste do pós-década de 1960 – em que a terapia era um dado adquirido, e ambas considerávamos que o trabalho terapêutico que leváramos a cabo fora crucial para a pessoa que éramos e para o progresso que tínhamos alcançado. Caroline e eu acreditávamos no poder transformador da terapia com a mesma certeza com que acreditávamos nos AA, em enfrentar a verdade ou na lealdade dos cães.

Caroline ficou no hospital durante o resto da semana, até estar suficientemente forte para ir para casa; Morelli mudou-se para lá para tomar conta dela. Os médicos queriam que ela estabilizasse com os remédios e a radioterapia, para que pudesse suportar a próxima fase de quimioterapia, nas semanas seguintes. A sua tribo de amigos e família alargada tomara conta de cada pormenor necessário para lidar com uma doença incapacitante: a cada render da guarda, havia quem passeasse o cão, quem cozinhasse e quem conduzisse. Caroline entrara naquela zona de debilidade que era difícil de encarar por aqueles que se preocupam mais com as doenças: andávamos todos à sua volta como galinhas inconsoláveis enquanto ela tentava simplesmente engolir um pedaço de pão ou fazer um telefonema. Por sua insistência, tentámos fazer um pequeno passeio a pé com os cães até Fresh Pond, talvez cerca de noventa metros à volta do troço superior da península – uma volta de cinco minutos, em circunstâncias normais, que agora demorava três vezes mais. Parámos num banco para descansar, demos um biscoito aos cães e recomeçámos. Quando ela cambaleou, usei o meu braço para a estabilizar, uma inversão de papéis tão dolorosa como fora automática.

Caroline começara a manifestar pequenos sintomas neurológicos, que julgo que a irritavam acima de tudo – por duas vezes, à minha frente, deixou cair uma toalha ao chão e recusou-se a deixar-me apanhá-la. Durante aqueles dias, mantivemos um diálogo que era parcialmente um código, mas que continuava tão firme como Caroline costumava ser quando atravessava um ribeiro. «Estás só a tentar fugir de me fazeres a sopa», dizia eu, referindo-me à antiga promessa que ela fizera de cozinhar para mim quando eu envelhecesse. Uma noite, depois de se ter encontrado com o oncologista pela primeira vez fora do hospital, Caroline ligou-me e começou a citar estatísticas sobre o seu prognóstico, que eram uma versão otimista do que eu lera: os ensaios clínicos em curso, a pesquisa mais recente no Hospital Geral de Massachusetts, as probabilidades remotas de viver entre dois a cinco anos. Falava com uma voz suave e animada durante a recitação e eu escutei sem dizer nada, consciente de como era cruel a luz na sala de estar.

«O objetivo é ganhar tempo», disse-me, e ficámos ambas em silêncio, contendo as lágrimas. Eu não queria que ela tivesse de tomar conta de mim e não sabia ao certo como tomar conta dela, à exceção de a levar de carro às sessões de quimioterapia, cozinhar comida inútil e estar atenta a todas as suas sugestões.

Mas Caroline foi-se abaixo quando começou a perder o cabelo. «Sei que isto é ridículo», proferiu. «Mas é a única coisa em que consigo pensar. O resto é demasiado para mim.» O homem que, durante anos, cortara o seu cabelo comprido veio a sua casa nesse fim de semana para lho rapar; trouxe uma dúzia de rosas e recusou ser pago pelo trabalho. Eu arranjei um folheto da American Cancer Society sobre os efeitos secundários e a queda de cabelo e encomendei meia dúzia de chapéus e lenços para ela usar. Um dia, na sala de espera da quimioterapia, estávamos a ver o catálogo juntas e a rir e as lágrimas começaram a correr-me pela cara abaixo, apesar de não ter vontade de chorar. Não conseguia parar. Sacudi a cabeça e tentei ignorar o facto de Caroline estar a tentar confortar-me.

«Tenho medo que percebas como isto é grave», disse-lhe. «Se te disser, tenho medo que penses que não sou suficientemente forte para aguentar e tentes esconder o teu medo.»

«Gail», respondeu. «Eu já sei como isto é grave. De certa forma, isto é pior para ti e para o Morelli do que para mim.»

Estávamos rodeadas por outras pessoas que aguardavam sessões de quimioterapia e nem uma delas olhou sequer de relance na nossa direção durante a troca de palavras, com exceção de uma mulher que nos passou uma caixa de lenços de papel e retomou a leitura da sua revista. Para mim, isto foi um alívio e uma lição: ninguém neste lugar parecia sentir-se incomodado com as emoções manifestadas por um desconhecido. Tínhamos entrado numa cultura subterrânea vivida in extremis, onde as pessoas estavam a morrer ou a tentar viver e o coração era posto a nu.

Estava uma tarde radiosa de princípios de maio e nós tínhamos chegado cedo ao hospital e tínhamos ficado sentadas do lado de fora, ao sol, de pernas cruzadas no chão e de frente uma para a outra. A vida profissional de Caroline estava suspensa, mas ela tinha um trabalho pendente que se esquecera de cancelar, um ensaio sobre ela e Lucille para uma revista de amantes de cães.

«Tenho de escrever sobre o quê?», perguntou-me. «Sobre o facto de a única coisa pior do que perder o nosso cão é saber que ele vai viver mais do que nós?»

A sua voz estava rouca e eu sabia que ela estava nalgum lugar para lá do medo onde eu nunca estivera, e também sabia que a melhor coisa a fazer, e a mais difícil, era ficar calada e escutar. Todas as promessas falsas capazes de lhe dar esperança ou de a tranquilizar estavam muito longe do ponto onde nos encontrávamos agora, sentadas ao sol, na relva do Hospital Mount Auburn, os meus dedos em volta dos seus pulsos.

Caroline casou com Morelli no início de maio, no jardim das traseiras da casa da nossa amiga Marjorie. Se era um casamento debaixo de fogo, os seus amigos transformaram-no num evento bucólico. A indómita Sandy, a melhor amiga e antiga chefe de Caroline no jornal The Boston Phoenix, era uma mulher ruiva e alta que agora vivia em Filadélfia. Gastou a estrada de tanto viajar durante as semanas em que Caroline esteve doente, e chegou na semana antes do casamento com cinco pares de sapatos vermelhos para ela escolher e uma taça gigante cheia de arroz-doce caseiro. A prima de Caroline, Monique, forneceu o espantoso vestido comprido vermelho-escuro que usara no seu casamento. Na manhã da cerimónia, a nossa amiga Terry – que geralmente animava a vizinhança criando galinhas no quintal – decorou todo o quarteirão que conduzia à casa de Marjorie com fitas de cetim e lírios. Morelli acumulou funções como fotógrafo, um estratagema brilhante que lhe proporcionou uma forma de aguentar o dia ao mesmo tempo que o registava para os restantes. Lucille levou as alianças (Caroline arranjara-lhe um arnês com uma almofada de cetim), comigo como sua humilde condutora. Caroline pedira-me que encontrasse um poema sobre o amor e o compromisso, que fosse fiel às circunstâncias. Procurei durante dias alguma coisa adequada: a maior parte dos poemas de amor não pressupõem nuvens de tempestade acumulando-se no céu. Mas compreendi o que Caroline pretendia: por muito que ambas ansiássemos por um final feliz, isso não significava que acreditávamos que ele pudesse acontecer. Agora, a vida mostrava que era muito mais dura, em todos os aspetos. Finalmente, encontrei um soneto de Edna St. Vincent Millay, tolerável e verdadeiro, que abordava a destruição da «gloriosa roda do destino» pelo Fado. Caroline ligou-me enquanto eu estava a lê-lo.

«Encontrei um poema», disse-lhe, «mas tenho quase a certeza de que é demasiado triste.» Então, li-lhe algumas linhas do início. «Peço-te, se me amas, suporta a minha alegria / por um pouco, ou deixa-me chorar as tuas lágrimas.»

«É isso mesmo», disse ela, repentinamente, a meio da leitura. «É mesmo esse. Tens de o ler.»

Tenho uma fotografia das duas tirada por Morelli naquele dia: estamos agarradas uma à outra como um par de adolescentes. Na noite a seguir ao casamento, Caroline, Morelli e eu estávamos estendidos no sofá, em casa dela, revendo os pormenores do dia. Caroline estava sentada a meu lado, «Como te sentes?» perguntei-lhe, e ela fechou os olhos e sorriu. «Consolada.»

Três dias depois voei para Austin, numa viagem que devia durar quatro dias; há meses que a minha presença numa cerimónia de atribuição de prémios numa universidade estava prevista. Já no aeroporto, telefonei a Caroline da porta de embarque e fi-la rir com uma história sobre os seguranças do mundo pós-11 de setembro que tinham desaparecido por alguns momentos com as minhas botas de vaqueiro. Chamaram então para o embarque e a minha voz ficou embargada. «Não te quero deixar», disse-lhe. «Vai», respondeu. «Não me vai acontecer nada na tua ausência.» Foi a última conversa que tivemos. Ela ligou para minha casa em Cambridge naquela noite para deixar uma mensagem dizendo que os médicos queriam que fosse ao hospital no dia seguinte – estavam preocupados com alguns novos tiques neurológicos que julgavam ser temporários, uma consequência da radiação.

Eu tinha de estar no palco, para uma cerimónia de duas horas, às oito da manhã de sexta-feira; quando saí e verifiquei o telemóvel tinha três mensagens novas. Caroline fora levada de ambulância para as urgências a meio da noite, com aquilo que se revelou ser uma série de hemorragias no cérebro. Perdera a capacidade de falar e ainda não era claro até que ponto seria capaz de compreender o que ouvia. Eu estava no campus da Universidade do Texas quando soube a notícia, primeiro pela prima de Caroline, Suzanne, que era médica, e depois por Marjorie, que sabia o suficiente para me dizer que voltasse para casa. Consegui um voo via Chicago, que partiu de Austin na mesma tarde. Tinha recebido um prémio honorário nessa manhã e, ao correr para o carro, deixei cair a placa no chão e lasquei a moldura. Quase a deixei ficar lá. Foi um instante terrível, como se todos os pequenos símbolos da vida estivessem a ser arrastados pela corrente contrária de uma verdade mais sombria. Passava da meia-noite quando cheguei a Cambridge.

Parte do horror inesperado dos dias seguintes, para aqueles que amavam Caroline, estava no desconhecimento exato do que acontecera e do que ela sentira. Os seus olhos pareciam loucos de medo quando entrei no quarto do hospital. Quando alguém lhe disse que eu estava ali, emitiu um grito de angústia que, para mim, significava duas coisas. A primeira era simplesmente um reconhecimento. A segunda era que ela sabia o que a minha presença revelava e que a situação só podia ser grave para eu ter regressado, sobrevoando metade do país.

Retiremos as palavras e descobriremos todos os ornamentos que as rodeiam. A linguagem corporal, os gestos, a história que os olhos contam. Morelli, o irmão e a irmã de Caroline deveriam ter o seu testamento vital, mas os documentos, redigidos naquela semana, ainda não estavam assinados. Estávamos a tentar ver se ela conseguia entender a situação e segurar numa caneta. Peguei-lhe na mão e disse: «Caroline, sou eu. Se consegues compreender o que te estou a dizer, aperta a minha mão.» Ela respondeu imediatamente com um aperto firme. «OK», disse-lhe. «Precisamos da tua assinatura na procuração. Se achas que consegues...» A sua resposta interrompeu-me; ela quase me partiu a mão. Foi uma frase inteira com significado, cheia de impaciência e eficácia. Mantive-me junto dela, enquanto rabiscava o seu nome nos formulários.

A partir desse dia, os seus braços passaram a ser a sua eloquência. Uma noite, quando estava sentada junto à cama, deitei a cabeça no colchão ao seu lado. Morelli viu como eu estava fatigada e levantou-se para colocar uma toalha debaixo do meu pescoço. Foi um dos incontáveis atos de boa vontade que ele providenciou nas semanas seguintes, quando já nada mais importava a não ser a luz no quarto e o número de inspirações. Caroline estendeu então o braço e passou a mão pelo meu cabelo, o que foi suficiente para me confortar durante alguns dias, e ficámos ambas assim até cairmos no sono.

Tínhamos passado anos a falar – falávamos quando outras pessoas teriam desistido, desemaranhando sentimentos e conversas e as complexidades da vida diária. Agora ela já não podia falar e, por isso, eu também não falava; a nossa narrativa tornou-se uma coreografia de silêncio. Passava horas aos pés da sua cama desconhecendo, durante uma grande parte do tempo, se ao menos sabia que eu estava ali. Mas Caroline e eu tínhamos começado a nossa amizade com uma ligação fiel às verdades elegantes da linguagem não verbal: a fisicalidade, os sinais de mão e o contacto visual necessários para estabelecer diálogo com um animal. Quando ela adoecera, eu levara para o hospital uma T-shirt que ela adorava do Barking Dog Café, em Nova Iorque, que tinha estampado atrás SENTA! FICA! Eu sabia tudo sobre o sentar-ficar, e como isso era uma posição simples e essencial, por isso, foi o que fiz. Sentei-me e fiquei.

17 Pequeno rolo de pergaminho contendo duas passagens da Torah que se coloca à entrada de casa. (N. da T.)

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