Um Longo Regresso a Casa

Gail Caldwell · Capítulo 12 de 15

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Um Longo Regresso a Casa

.10.

Caroline tinha um coração grande – claro que levou imenso tempo a morrer. Os médicos colocaram um cateter intravenoso para administrar morfina nos primeiros dias após a hemorragia, por isso, quero acreditar que o medicamento ajudou a controlar a dor de modo a permitir que Caroline flutuasse algures, despreocupada e livre. Não tenho a certeza disso, da mesma forma que nunca poderemos compreender o universo adjacente dos que estão a morrer. Mas esta pergunta foi a que mais me assombrou, naquela altura e durante meses depois de ela ter partido. O que sei é que testemunhar o sofrimento de alguém é um mundo turvo e impotente: os que estão bem de saúde, armados com o seu entendimento, observam um cenário que não conseguem realmente compreender e que pouco podem fazer para alterar. O sofrimento é o fator que muda o final do jogo, muda a capa da morte do preto para o branco. É um corredor mal iluminado situado fora do tempo, um lugar de um cansaço esmagador, a única coisa suficientemente grande para obrigar alguém a segurar a porta para que a morte possa entrar.

Caroline viveu mais dezoito dias depois de ter sofrido a hemorragia. Morelli praticamente vivia no quarto do hospital, trazendo Lucille com ele. (Uma noite, para gáudio das nossas almas fatigadas, um auxiliar novo saiu para o corredor e disse, com um largo sorriso no rosto: «Está um raio de um cão naquele quarto!») Durante aquelas semanas, mantive um nível de energia inquietante; sabia o sofrimento que me aguardava e evitei-o durante tanto tempo quanto me foi possível. Levava o jantar a Morelli no hospital ou falava com Herzog pelo telefone com a testa apoiada na mão. Uma tarde, fiquei uma hora ao telefone com Louise, que morava no Minnesota, enquanto ambas líamos poesia. O telefonema consistiu sobretudo em longos períodos de silêncio, pontuados por exclamações como «Ah!» e «Oh!». Procurava apoio de uma forma transitória e intensa, chorava sem aviso ou não chorava de todo, era excessivamente delicada para com pessoas desconhecidas. Liguei ao meu amigo Matthew do telemóvel enquanto caminhava em Fresh Pond, e quando me respondeu a caixa de correio deixei uma mensagem longa e incoerente, contendo uma pergunta hesitante que me parecia ser profunda, um esforço infantil para compreender o universo. «E se...?», exclamei. «Quer dizer, sei que parece estúpido, mas e se a morte... não for uma coisa má?»

Por mais ingénua que a questão possa parecer, hoje sei que me dirigia, cambaleante, em direção ao território que fica para lá da perda. Aceitar uma sentença de morte é como cair por um lanço de escadas em câmara lenta. Acontece aos poucos, uma contusão de cada vez – um embate, a aterragem num patamar, mais uma pequena descida. Eu estava à beira da exaustão, mas seguia em frente com uma determinação frenética, como se pudesse fugir do que estava a acontecer. Encontrara o número do telefone de casa de Herzog, após ter voltado do Texas e, nessa noite, telefonei-lhe do hospital. Ele entrou no quarto com um pequeno ramo de lírios-do-vale – sabia que, o que quer que fosse que tivesse acontecido, Caroline ainda podia cheirar –, aproximou-se dela e colocou-lho debaixo do nariz. O gesto espantou-me pelo rigor da gentileza e nas semanas seguintes falava com ele com uma angústia que eu controlava quando estava com a maioria das pessoas que amavam Caroline. Perto do fim, uma noite no corredor do hospital, perguntei-lhe o que achava que estava a acontecer e ele respondeu: «Diga-lhe tudo o que ainda não disse.» Eu sorri, aliviada. «Não há nada», retorqui. «Já lhe disse tudo.» No dia seguinte, os médicos suspenderam a administração de fluidos, tal como Caroline pedira, e quando Morelli me ligou a dizer que estava feito soltei um grito de dor na minha cozinha que mais parecia o lamento de um animal.

Os pormenores da morte são tristes e extenuantes: respirar e esperar, respirar e esperar. O organismo, uma máquina esplêndida, sabe como e quando deve deixar de trabalhar. Mas Caroline era tão forte e determinada que, mesmo nesta tarefa final, caminhou para o fim com uma força estimulante. Eu observara-a na água durante anos; agora ela estava no meio daquilo a que Anne Sexton chamara «o terrível remar em direção a Deus».

E Deus, na minha opinião, demonstrava ser um capataz incompreensível. Durante a maior parte da minha vida adulta eu fora uma protestante impenitente ou uma crente relutante; sempre me surpreenderam as pessoas que pareciam ter a certeza da resposta, fosse em que sentido fosse. Mas a minha crença em algo maior e mais inacessível do que a consciência humana nunca fora posta à prova a um nível tão profundo. Por vezes, ia até à pequena capela do hospital e sentava-me no escuro, o silêncio cobrindo-me como um xaile, e depois encolhia os ombros e voltava para cima, para o quarto de Caroline. Numa noite particularmente má, recordo-me de olhar admirada para a luz no átrio exterior, sentindo a finalidade horrível daquele caminho – naquele momento, pareceu-me que o fim era somente o fim, o mesmo que conduzir um automóvel em direção a um muro que não tem nada do outro lado. Julgo que foi um dos instantes mais desoladores da minha vida, por isso senti que o único Deus presente naquela noite era a morfina administrada gota a gota. E ocorreu-me, num entendi mento frio, que isto era o que significava contemplar o nada – um universo onde tudo era inútil exceto o instinto inato para sobreviver, resistir e finalmente morrer. O que eu testemunhava era tão vulgar como a manhã e agora era a vez de Caroline tombar, e eu achei intolerável a falta de luz e de significado daquela imagem. Não admira que alguém tenha inventado o mito da ressurreição, pensei. Oferecia uma brecha na escuridão, a única forma de tolerar o final.

Ao tentar retomar aquela vaga perceção, descubro que a maior parte da sua força me escapa. Estamos programa dos para esquecer. Temos de continuar: construir pontes, aprender línguas, ter filhos, bater com um pau numa pedra e encontrar uma cadência. Quando a morte surge, a fragilidade de tudo isto revela-se. Mas não por muito tempo. Recordar o apelo inexorável e a força da morte é como tentar reter a água nas mãos. O que aprendi naquele beco escuro foi que, no que respeita a Deus, eu precisava de não saber – precisava da ignorância humilde sobre a possível existência de algo para além daquele quadro sinistro. Nos meses que se seguiram, estava sempre a pensar na frase «mistério necessário», como se ela pudesse capturar a inevitabilidade da minha posição atual no universo, equilibrada na linha entre o Saber e o Não Saber, entre aquilo que me parecia a arrogância da certeza religiosa e o desespero de um mundo sem Deus.

No dia em que Caroline morreu, eu tinha um trabalho para entregar e cumpri o prazo. Não porque estivesse a fazer-me de forte, mas porque sabia que ela ia morrer nas próximas vinte e quatro horas, que eu sucumbiria em seguida, e que, até lá, a escrita me proporcionaria três ou quatro horas numa zona relativamente livre de dor. Escrevi naquele dia porque era a única coisa que sabia fazer, e suspeito que era o que ela teria desejado e o que ela própria teria feito.

Estivera no hospital até tarde na noite anterior, um domingo; deixara lá a irmã de Caroline, o irmão e Morelli, voltara a casa e dormira um sono de dez horas assustadoramente profundo. Caroline perdera a consciência três dias antes. Eu ficara sentada ao seu lado, contando as suas respirações até que os próprios números deixaram de fazer sen tido. Quando a abracei pela última vez, ardia em febre e parecia estar a trabalhar com uma energia furiosa, apesar de completamente imóvel. Deixara-nos a todos há já alguns dias.

Na segunda-feira à noite, o meu telefone tocou alguns minutos depois da meia-noite. Fiquei sentada na cama, a olhar para ele enquanto a chamada ia para o atendedor, e quando ouvi a voz do irmão de Caroline pensei, por um instante, Se não atender ela não estará morta. Peguei então no auscultador e disse, «Andrew?», e ouvi a sua voz amável a dizer-me o que eu já sabia. Depois de desligar, apaguei a luz e fiquei no escuro durante algum tempo. Então, levantei-me, e liguei a Sandy, a amiga de Caroline que vivia em Filadélfia, que atendeu ao primeiro toque. Ficámos a falar durante muito tempo e acendemos velas juntas na mesma altura, como crianças capturando pirilampos num frasco.

Mantive-me calma durante os dias que se seguiram, de uma forma que me alarmou. Caroline conhecia imensa gente, em Cambridge e nas proximidades – pessoas com cães, escritores, remadores, colegas dos AA –, e naquela altura a sua doença era suficientemente conhecida e, por isso, as pessoas abordavam-me na rua para saber notícias dela. Na tarde do dia seguinte ao da sua morte fui até Fresh Pond com Clementine e houve duas ou três pessoas que me interpelaram e um senhor idoso que desatou a chorar quando soube. Com a calma desconcertante de um capelão, disse-lhe, colocando a minha mão no seu braço: «Lamento imenso. Ela faleceu ontem, à meia-noite.»

Aprenderia a aceitar estes períodos de serenidade por aquilo que verdadeiramente eram: uma suspensão temporária do vórtice. Mas na altura assustaram-me, tal como me assustou a memória enevoada que eu viria a ter destes acontecimentos mais tarde, juntamente com algumas outras respostas primitivas. Fui para casa e comecei a cozinhar feijão-preto em quantidade suficiente para um exército, embora não estivesse à espera de ninguém. Dei comigo a contar os amigos com o pragmatismo cruel de uma criança – quantos restavam na tribo? Quando percebi o que estava a fazer, entoando uma lista para mim própria, rabisquei os nomes e afixei-os na porta do frigorífico. Eram estas as pessoas a quem podia telefonar às três da manhã. Nunca telefonei a ninguém àquela hora, talvez porque tinha a lista.

No final da noite, o feijão-preto tinha desaparecido. As pessoas começaram a surgir em minha casa e continuaram a chegar, deambulando pela cozinha até ao jardim das traseiras ou sentando-se nos degraus da frente. Marjorie, cuja sabedoria madura era fruto das suas próprias perdas, entrou no meu jardim com um lindo sorriso no rosto; Tom telefonou, a chorar – «Oh, meu Deus, estás bem?» –, e depois apareceu com sacos cheios de comida chinesa. Francesca, que não conhecia Caroline mas era minha amiga, trouxe uma madressilva trepadeira que ainda cresce no emaranhado do jardim. Kathy, a treinadora de cães através de quem nos tínhamos conhecido e que se tornara uma boa amiga, ficou na cozinha com o marido, Leo, chorando e rindo enquanto eu contava a história do lago Chocorua e a missão que Caroline assumira de me ensinar a remar. Houve cães e pessoas e pratos vazios por toda a casa até à meia-noite, altura em que finalmente tomei um comprimido para dormir. Lado a lado com todo este sofrimento havia uma ironia e um milagre. Caroline e eu tínhamo-nos aberto uma à outra a partir de refúgios semelhantes de calma e solidão. Agora ela partira e isso abrira as minhas portas de par em par, em todas as direções.

No que diz respeito ao sofrimento, a única educação que qualquer de nós recebe é um curso intensivo. Até à morte de Caroline eu pertencera àquele outro mundo, um lugar de inocência e expectativas lineares, onde julgava que o sofrimento era um reino simples e doloroso, repleto de tristeza e saudade que, aos poucos, iam diminuindo. O que a definição não contempla é o tremendo golpe que a perda inflige, bem como a loucura temporária e uma série de emoções menos simples cuja intensidade é chocante. Durante semanas, talvez meses, iria mover-me como se estivesse debaixo de água, mas aqueles primeiros dias, entre a morte e a cerimónia fúnebre, foram uma cascata ofuscante de lágrimas e surpresas. Uma parte de mim fez o que tinha de ser feito com uma vivacidade assustadora: encontrar o poema para ler na capela na sexta-feira de manhã e praticar, lendo-o em voz alta. Mas a outra estava simplesmente convicta de que não seria capaz de me deslocar de A para B – de que deixá-la ir, em espírito e em público, seria tão complicado e incompreensível como a Teoria das Cordas. O meu velho amigo Pete, que estava fora quando Caroline morreu, telefonou do Ohio para saber como eu estava. Disse-lhe aquilo que tivera receio de dizer para mim própria. «Acho que não consigo fazer isto», proferi, sobre estar presente na cerimónia do dia seguinte. «Não sei como fazê-lo.»

Pete ficou calado durante um minuto e depois pronunciou algo que me confortou tanto que hei de ouvi-lo para sempre. «Sabes, Gail», disse, «a nossa espécie faz isto há muito tempo. E é quase como se... é como se o corpo soubesse o que fazer.»

Caroline, que em parte acreditava que a sua existência discreta a mantinha relativamente desconhecida e, por consequência, protegida das massas, teria ficado espantada com a cerimónia. A capela do Cemitério Mount Auburn estava repleta e a deitar por fora. Caiu uma chuva fria e contínua durante toda a manhã e Kathy viera buscar-me a casa; quando o carro parou perto da entrada da capela disse-lhe que não sabia se conseguia entrar. Para seu grande mérito, ela não se apressou a tranquilizar-me nem presumiu que eu estava a falar metaforicamente. «Consegues ir até à porta?», perguntou. Ficava a pouco mais de três metros de distância. Assim consegui ir até à porta; Morelli estava lá à minha espera e a partir daí fiquei bem.

Naquela manhã, li um poema de Louise Bogan chamado «Canção para o último ato», cujas primeiras linhas diziam: «Agora que sei de cor a tua face, olho / menos para os seus traços do que para a moldura que os obscurece.» Nos dois dias que se seguiram à cerimónia, o ritmo do poema não me saiu da cabeça, uma agradável música de fundo que me acompanhava nas caminhadas, quando nadava, nos últimos pensamentos que tinha antes de adormecer. Era como se algum coro antigo se tivesse alojado dentro de mim, oferecendo-me este canto requintado, uma medida dos meus próprios passos e um acompanhamento para uma mágoa que, de outra forma, seria indescritível. Após esses dois dias, desapareceu tão naturalmente como a chuva no pavimento.

A devastação causada pelo sofrimento inicial constitui um enorme choque: selvagem, imprevisível, inconsolável. Se ao menos conseguisse progredir para a mágoa, pensava, a mágoa eu podia suportar. Não estava preparada para a fisicalidade pura do sofrimento, o sobretudo pesado como chumbo, feito de uma dor surda, do qual levaria meses a desembaraçar-me. O que quer que fosse que eu julgasse saber a respeito da perda – o que eu conjeturara sobre o estado Depois-de-Caroline, quando não houvesse mais medo e o tormento tivesse cessado –, não suspeitei de que isso significaria entrar num mundo novo e imutável. Aparentemente, vivia na certeza da ausência de Caroline o tempo todo e, no entanto, por vezes, a realidade do facto quase me cortava a respiração. Uma noite, algumas semanas após a cerimónia, tentei fazer um jantar para dois amigos e consegui cozinhar metade da refeição antes de me dar conta de que não sabia o que estava a fazer. Eles sentaram-se delicadamente perante um prato espartano de galinha com arroz – não me lembrara de fazer mais nada – e eu pedi licença, fui para a cozinha e agarrei-me à bancada. Ela está morta, pensei. A própria palavra era brutal. Sempre me haviam desagradado os eufemismos que a civilização adotara para a morte: «foi-se», «partiu», «faleceu». Pareciam-me evasivos e sentimentais, uma forma de branquear o conceito de morte, retirando-lhe a sua força declarativa. Agora, eu sabia por que motivo o vocabulário fora suavizado. Ela está morta.

Li tudo o que podia para compreender o que me estava a acontecer. Luto

e 18 Melancolia, W. H. Auden, Emily Dickinson. A poesia ajudou-me mais do que Freud. Meticulosamente, talvez de forma automática, comecei a desatar o nó górdio de uma dupla perda: a angústia que sentira por Caroline nas suas últimas semanas de vida era agora uma questão diferente da minha própria solidão torturada. Tudo o que sabemos sobre a morte é um cliché até se tornar realidade. Eu estava meia louca com a solidão que, muitas vezes, aparecia disfarçada de raiva. O que os livros não dizem é que, de repente, podemos ser invadidos por uma fúria primitiva, a única alternativa tolerável a estar com aqueles que morreram. A morte é um divórcio que ninguém quis; viver com ela é encontrar uma forma de nos separarmos daquilo que julgámos que não suportaríamos perder.

Dei por mim a duvidar da força da nossa amizade, ou até a recusá-la, como se pudesse rejeitar o amor e assim evitar a dor. Este subterfúgio funcionava durante uns vinte minutos, ou até eu dizer a alguém que ambas conhecíamos, «Bem, talvez não fôssemos assim tão próximas», e o ouvinte desatar a rir. Comecei a tentar lembrar-me de todas as coisas de que não gostava nela. Não havia muitas. Ou então saía com o barco para o rio e falava com ela em voz alta – falava tanto e tantas vezes que comecei a referir-me a uma certa extensão de água como a Igreja de Caroline. Apresentava-lhe relatórios sobre Lucille, contava-lhe as coisas generosas ou tontas que as pessoas tinham dito ou feito e como todos nós nos estávamos a aguentar. Uma tarde, apercebi-me do meu provável aspeto – uma mulher sozinha num scull, sorrindo e falando com a sua amiga invisível – e o meu peito estremeceu com a potencial loucura e inanidade da minha conversa solitária. «O que é pior?», perguntei a Caroline. «Falar contigo e não haver ninguém a ouvir ou tu estares aí à espera e eu não falar contigo?» Pensei em quão impotente, provavelmente irritada, ela se sentiria perante o meu silêncio. Por isso, continuei a falar. Queixava-me de coisas que tinham acontecido anos antes. «Acho que não te devias ter zangado por eu ter perdido o assento do barco», dizia. «Foi um acidente!», ou «Estavas sempre com pressa. Porque é que estavas sempre com tanta pressa?»

Num dia calmo e encoberto do final do verão, Morelli e eu encontrámo-nos para transferir o barco de Caroline do Riverside Boat Club, do qual ela fora sócia durante anos, para o meu clube naval, que ficava a poucos quilómetros rio acima. Ambos tínhamos pensado sobre aquele dia durante semanas, talvez receando-o, porque sabíamos como era Caroline dentro de água e o que o remo significara para ela. Estacionámos o meu carro no Cambridge Boat Club e fomos no de Morelli até Riverside, onde um remador que conhecera Caroline nos ajudou a encontrar o barco e a levá-lo da baía interior para o rio. Eu trouxera o meu par de remos; Morelli queria ficar com o conjunto que Caroline usara. Ninguém disse nada enquanto púnhamos o barco na água e colocávamos os remos. Então, abracei Morelli e os dois empurraram-me para sair da doca, e Morelli ficou ali de pé, a olhar, enquanto eu remava para longe. Caroline amara este barco e fora nele que me ensinara a remar; na sua última década de vida, percorrera nele cerca de oitocentos quilómetros por ano. Ela fora a imagem da própria serenidade e conduzia agora a minha retirada. Eu não queria que Morelli me visse chorar e durante os primeiros quarenta e cinco metros procurei concentrar-me numa só coisa: tinha de continuar, ou ele não iria aguentar. Cheguei à primeira ponte e virei, logo a seguir ao último local de onde sabia que ele me podia ver. Então, coloquei os remos em posição vertical, puxei o barco para as sombras, pus a cabeça nos punhos dos remos e chorei.

18 Obra escrita em 1917 por Sigmund Freud. (N. da T.)

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