Um Longo Regresso a Casa
.13.
Clementine ficou comigo durante mais quatro anos. Eu costumava deitar-me ao lado dela em cima do tapete persa da sala de jantar, colocar os meus braços à sua volta e dizer: «Vamos ver se consegues chegar aos treze. Achas que conseguimos?» E ela suspirava fundo e deitava-se de costas. Trouxera-a para casa, com oito semanas, no dia 3 de junho de 1995, o dia em que o meu pai fez oitenta e um anos. Na altura pensei que depois de ele morrer eu teria este aniversário duplo para suavizar a tristeza de o perder. Caroline morreu à meia-noite do dia 3 de junho, sete anos mais tarde, e a data assumiu um significado doloroso.
No primeiro ano em que tive o cachorrinho, mesmo antes de Caroline e eu nos tornarmos amigas, eu levara Clementine até Castle Island, um passeio ao longo da praia no porto de Boston, num dia ventoso de março. Percorremos um longo caminho construído por cima da água, quando o vento se levantou e eu vi que ela hesitava; olhou para mim, em busca de uma indicação quanto ao sentido a seguir, e depois continuou a bom ritmo. O primeiro ano de relacionamento entre um dono e o seu cão pode ser representado por uma curva relacional acentuada, em que cada um descobre quem é o outro e como serão juntos. Soube naquele instante, quando nos olhámos diretamente nos olhos e ela começou a avançar, levando-me atrás de si, que nos tínhamos tornado uma equipa e que ela também o sabia, e que me acompanharia onde quer que eu fosse.
Durante a década seguinte, Clementine fora parte integrante dos anos mais intensos e alegres da minha vida e testemunha de alguns dos mais tristes. Conduziu-me para os bosques com a melhor amiga que tive na vida, e estava sempre à minha espera quando eu voltava à noite do hospital onde Caroline estava a morrer. Foi a sentinela no final de cada viagem que fiz de volta ao Texas para cuidar dos meus pais, que envelheciam. Depois de ambos morrerem, enterrados ao lado um do outro sob o sol do Texas, voltei de avião para Cambridge e, quando entrei em casa, Clementine mordeu-me o nariz, uma mordidela amável de boas-vindas, e depois encostou-se a mim e mal saiu do meu lado durante dias.
Os cães velhos podem ser uma visão majestosa. Com o passar dos anos, a sua exuberância acalma e transforma-se numa nobreza amadurecida, as rotinas tornam-se tão ligadas às nossas que até parece o mais tranquilo e generoso dos casamentos. Quando fez onze anos, Clementine começou a perder o pelo, um problema que pode suceder nas fêmeas mais velhas de raça samoiedo e, por isso, estava muito longe da imponente figura branca dos seus primeiros anos. Outrora um modelo para a sua raça, assemelhava-se agora a um coelho de veludilho, desgrenhado e feito de retalhos, e amado até ficar completamente puído. Por vezes, na rua, algumas pessoas mais insensíveis diziam, «Oh, o que aconteceu ao seu cão?», mais curiosos do que verdadeiramente preocupados, e eu respondia, só para os aborrecer: «Acho que ela se parece um pouco com a Katharine Hepburn, não acha?» Para mim, ela estava sempre na mesma. Nos últimos anos, os nossos passeios diários tornaram-se mais lentos e mais curtos. Às vezes íamos só até ao banco de Virginia Woolf, um assento de granito nos bosques de Fresh Pond com vista para a extremidade do lago e que tem escrita uma citação de Orlando, e Clementine deitava-se debaixo do banco no qual eu me sentava, observando os pinheiros altos e o céu por cima de mim. Ou então, ela deitava-se no jardim em frente de casa, ao meu lado, enquanto eu plantava flores, parecendo satisfeita por contemplar o mundo em vez de tentar correr nele.
Na primavera de 2008, Clementine começou a tossir com uma bronquite que não melhorava e eu soube que estávamos naquela altura da vida dos cães idosos, em que surgem uma multiplicidade de sintomas que pressagiam o resultado final. Não conseguia suportar a ideia de que ela podia deixar-me no dia 3 de junho e naquela noite deitei-me ao seu lado no chão, coloquei os meus braços à sua volta e disse-lhe: «Bem, conseguimos, querida, não foi?» Duas noites depois o seu estado começou a deteriorar-se rapidamente. Dei-lhe uma dose de Valium suficiente para aliviar a sua aflição e, quando entrei no Hospital Angell Memorial, à uma e meia da manhã, fi-lo com a boca seca e a certeza de que voltaria para casa com a trela e a coleira, mas sem ela. Tinha uma amiga chegada que era veterinária e que conhecera Clementine desde cachorrinho, e ela insistira para que eu lhe ligasse a meio da noite quando chegasse a altura. Por isso, Amy estava à minha espera no parque de estacionamento do hospital, pronta para me servir de navegador pelo terreno amargo da eutanásia e dos clínicos anónimos, e estava no chão ao nosso lado quando a deixámos partir. Eu chorava mais do que desejava e tinha receio de perturbar Clementine, mas ela manteve-se calma, com a pata no meu braço. «Vai ter com Caroline», disse-lhe, e quando ela morreu esticou as pernas da frente na minha direção e voltou-se de modo a ficar nos meus braços, onde tenho a certeza de que permanecerá para sempre.
Não queria deixá-la ali. Depois de o corpo ter sido etiquetado, colocámo-la na carrinha de Amy para que ela a pudesse levar para o seu consultório naquela manhã, quando abrisse, para então ser cremada. Ficámos sentadas na carrinha durante muito tempo, do lado de fora das luzes brilhantes e acolhedoras do hospital falando e, por vezes, chorando, com o corpo de Clementine na bagageira como um consolo estranho. Eu olhava fixamente aquele espaço, demasiado familiar, de um mundo ainda fresco, com a incredulidade inicial que acompanha o sofrimento. Eram quase cinco da manhã quando regressei a pé à minha casa terrivelmente silenciosa, mais triste do que as lágrimas alguma vez poderão expressar, sabendo que me encontrava no corredor de algo bem maior do que eu e que tinha de o suportar e de ficar onde estava. Entrei no quarto e vi a fotografia de Caroline na minha cómoda. Olhei para ela através daquele enorme abismo que é a morte e disse «Apanha».
* * *
«O Carlo morreu», escreveu Emily Dickinson ao seu amigo e mentor a propósito da morte do seu adorado cão de raça terra-nova. «Pode dizer-me o que hei de fazer?» Dizer que eu não era capaz de aguentar esta última partida é um comentário inútil, porque aguentar foi o que fiz e aguentar é o que todos fazemos; dizer que eu não acreditava que fosse capaz é talvez mais pertinente. Caroline e eu faláramos durante anos sobre a ideia impensável de perder Clementine e Lucille; a probabilidade de suportarmos juntas a morte dos nossos cães parecia-nos uma elegante coincidência temporal.
O cantinho preferido de Clementine no jardim das traseiras era debaixo de um teixo enorme, um arbusto que crescera tanto que uma roseira selvagem que nascera ao seu lado serpenteava por entre os seus ramos e à volta deles. Na primavera, visto da varanda do segundo andar, parece que o teixo dá flores brancas – um híbrido mágico com espinhos, flores e ramos sempre verdes. Por um truque de magia ou obra de Deus, hoje sei que há visões como esta em todo o lado. Talvez a questão seja a de aceitar a tristeza inerente à vida sem cair de cabeça dentro dela ou deixar que ela defina os nossos dias. O verdadeiro truque é permitir que a vida, com todos os seus erros e desgostos habituais, seja sempre mais misteriosa e sedutora do que o seu fim.
Bem cedo na vida de Clementine, quando Caroline e eu tínhamos começado a forjar os laços profundos que nos uniam, aluguei uma casa por algumas semanas, durante o verão, nos bosques de Truro, em Cape Cod. Caroline e Lucille tinham ficado de se reunir connosco no dia seguinte. Na noite em que cheguei, as pessoas que zelavam a enorme casa existente na propriedade passaram por lá para me informar que também cuidavam de uma senhora idosa que ali vivia – uma senhora com mais de noventa anos e cada dia mais fraca. Não me devia alarmar, disseram, se ouvisse carros a ir e vir; a assistência era prestada em turnos de vinte e quatro horas.
Uma hora mais tarde, ao anoitecer, depois de eu ter descarregado o carro com Clemmie junto a mim, uma das enfermeiras voltou e bateu-me à porta. «A senhora C. pergunta se não se importa de passar por lá», disse, timidamente. «Ela quer ver o grande cão branco.» Clemmie crescera perto de um vizinho que estava numa cadeira de rodas, por isso, não me preocupava a possibilidade de ela não ser dócil, e quando entrámos na casa ela dirigiu-se à cadeira de rodas da senhora C. e colocou-se ao lado da sua mão. Os olhos enevoados da senhora iluminaram-se e ela sorria à medida que passava a mão pelo tufo de pelo de Clementine em volta do pescoço. «Gosto de um cão grande», disse, à laia de introdução; falava com uma autoridade decidida, como se apenas tivéssemos retomado uma longa conversa em que a sua opinião era de enorme importância. Por mais fraca que estivesse, toda a sua força se concentrava na voz. «Quando era pequena, tinha lobos-da-alsácia», disse-me, a voz animada com a lembrança. «Costumavam correr aqui pelos bosques e aterrorizar toda a gente.» Sorria ao contar esta história e, por um instante, pude vê-la quando ainda era rapariga, destemida nas regiões selvagens da Truro de meados do século XX, protegida pelos seus cães pastores e correndo livremente.
Sempre pensei que devia haver destinos bem piores do que o daquela mulher, curvada mas intrépida perante a realidade física da vida, as suas recordações e a sua presença imperiosa brilhando mais do que a luz que se desvanece ao envelhecer. Uma mulher ainda capaz de convocar para junto de si uma criatura quase mais pesada do que ela; ainda capaz de dizer, com uma convicção feliz: «Gosto de um cão grande.» Também eu gosto de um cão grande.
«O coração parte-se em dois», disse-me um amigo a seguir à morte de Clementine. Hoje sei que nunca ultrapassa mos as grandes perdas: absorvemo-las e elas esculpem-nos até nos tornarmos uma pessoa diferente, frequentemente mais generosa. Por vezes penso que é a dor que gera a solução. O sofrimento e a memória criam a sua própria narrativa: esta é a verdade cintilante no íntimo de Freud e de Neruda, e de cada história de guerra contada. A morte comanda e origina a história pela mesma razão pela qual as tribos antigas costumavam enterrar flores com os seus mortos. Contamos a história para os termos de volta, para capturar os vestígios dos seus passos na neve.
Depois da morte de Caroline, fiz uma lista das coisas que queria realizar antes que a minha vida chegasse ao fim: escrever um livro, ir a Paris, encontrar um grande amor, ter o maior número de cães que pudesse. Ah, e encontrar Deus, disse a uma pessoa amiga, o pós-escrito que podia mudar completamente o mundo. Não era uma lista muito comprida, mas tudo nela me parecia essencial. Comecei a levar a cabo estas coisas de uma forma sistemática e inconsciente, inteirada de que o mapa da vida é feito de sorte, circunstância e determinação. Sempre dissera a Caroline que quando perdesse Clementine iria a Paris, choraria amargamente durante seis meses e depois regressaria a casa e arranjaria um cachorrinho.
Paris ainda está na lista. A primavera em que o estado de Clemmie se começou a deteriorar foi esgotante e desoladora e, quando ela partiu, eu não estava mais capaz de viajar para o estrangeiro do que estaria para ir à Lua de bicicleta. Em vez disso, passei o verão sob a influência negativa da mágoa e da angústia, perguntando-me como conseguiria continuar no mundo sem a sua presença. A minha própria existência parecia diminuída.
Coloquei as flores que as pessoas me ofereceram no seu cantinho junto ao teixo, e quando elas amareleceram empilhei mais flores em cima, de modo a haver uma cama de flores secas no local onde ela se deitara. Sentei-me na varanda e falei com ela, como falara com Caroline depois de ela morrer e com Clemmie durante toda a sua vida. Ao escutar as recordações e o silêncio, descobri que não me interessava grande coisa ir a Paris, pelo menos naquela altura. Que o que eu queria era sentir a respiração dentro de casa e o entusiasmo e as exigências de alguém que precisava de mim. «É o teu amor», dissera o meu velho amigo Pete anos antes, quando eu estava a tentar sair de um mau relacionamento. «Pertence-te.» O meu amor: uma dádiva preciosa e solitária.
Uma tarde, passei uma hora ao telefone com um criador de border collies, um desconhecido que compreendeu a minha angústia e se manteve em contacto comigo durante os meses subsequentes sem qualquer outro objetivo senão o de ser amável. Peter, que ajudara a salvar Clementine naquele dia frio alguns anos antes, sabia o que eu perdera mas não o conseguia expressar, por isso, na maior parte dos dias, depois de ele e Shiloh, o seu jovem pastor belga, terminarem a sua corrida, abria a minha porta das traseiras e gritava: «Cão!» Shiloh, o meu pastor ajudante durante a manhã, que há muito me incluíra na sua matilha e que provavelmente sentira a partida de Clemmie antes de ela morrer, entrava. Ficava deitado ao meu lado durante uma hora enquanto eu escrevia, tão tranquila e concentrada como uma enfermeira ao domicílio.
Os velhos tecelões navajos costumavam introduzir um fio desirmanado em cada um dos seus tapetes, uma cor contrastante que corre na direção da borda exterior. Pode distinguir-se um tapete autêntico por este defeito intencional, a que se chama linha do espírito, cujo objetivo é libertar a energia presa dentro do tapete e preparar o caminho para a criação seguinte.
Na vida, qualquer história que valha a pena guardar tem de ter uma linha do espírito. Podemos chamar-lhe esperança, amanhã ou o «e depois» da própria narrativa, mas sem isso – sem aquele facto brilhante e discordante que é o desconhecido, aquilo que não podemos controlar – a consciência e tudo o que ela implica – tombariam para dentro e implodiriam. O universo insiste em que o que é fixo é também finito.
* * *
Num dia luminoso e quente do final do verão, viajei, não para Paris, mas para Baltimore, numa missão mais sinuosa e menos deslumbrante do que uma visita ao Louvre. Aluguei um automóvel no aeroporto de Baltimore e parti de Maryland através da Pensilvânia rural, para me encontrar com um criador de samoiedos cujos cães vira dez anos antes. Aquela parte do estado proporciona uma sensação rústica, própria do Sul, cheia de estradas secundárias e colinas verdes e ondulantes, com estrelas
de celeiro 20 em metade das casas. Eu estava a pé desde a madrugada e sentia-me sozinha e meia perdida, perguntando a mim própria que diabo estava a fazer nesta parte isolada da Pensilvânia quando podia estar em Itália, por exemplo, ou em Montana, ou no Sul de França. Passei por um pequeno sinal rodoviário na estrada principal, tão discreto como um sinal
de trânsito, onde se lia 21 LINHA MASON DIXON e o meu coração começou a palpitar.
Logo a seguir ao sinal, do outro lado da estrada, havia uma loja de bebidas alcoólicas de aspeto desmazelado, que ostentava um letreiro de néon roxo. Viajei muito no tempo em que bebia – o álcool dava-me a coragem estimulante que me tornava capaz de ir a qualquer lado – e onde quer que chegasse, a primeira coisa que fazia, que tinha de fazer, era encontrar a loja de bebidas mais próxima. Sempre fingi que era uma missão de vontade, mas sentia que era como uma condenação. Quando passei sem parar por aquela loja na Pensilvânia, com o seu parque de estacionamento meio cheio de automóveis logo ao início da tarde, tive uma visão do que fora ser obrigada a fazer aquilo, encontrar o lugar que guardava a minha garrafa de esperança.
Mas a loja, com a sua luz brilhante – BEBIDAS –, também me trouxe uma outra lembrança, de alguns anos atrás, que quase me fez rir alto. No Texas, quando eu era pequena, sempre que alguém ia à loja de bebidas ou dava um pulo até ao carro para beber um copo, a expressão informal utilizada era: «Tenho de ir ver um sujeito por causa de um cão.» Agora, aqui estava eu, tantas décadas e quilómetros depois, sóbria e magoada e ainda viva, e tinha realmente de ir ver uma pessoa por causa de um cão. Fazia parte de uma ninhada que nascera em junho, e apesar de ainda não a ter visto, já lhe tinha dado um nome: Tula, um maravilhoso nome antigo do Sul, de que eu sempre gostara. Pesquisara as suas origens e ficara a gostar dele ainda mais. Tula deriva do sânscrito e significa «equilíbrio», ou de «tulayati», que quer dizer «levantar».
As nuvens corriam à minha frente e eu dirigi-me a Gettysburg, um lugar cujo solo e memória são tão sagrados que a minha própria vida foi relegada para o horizonte nebuloso onde pertencia. Entrei com o carro no parque militar, fui até aos velhos campos de batalha e parei no cemitério o tempo suficiente para prestar a minha homenagem. Depois, regressei ao carro e continuei o meu caminho.
20 Objeto decorativo, geralmente com a forma de uma estrela de cinco pontas, pendurado na porta dos celeiros e considerado um símbolo de boa sorte. (N. da T.)
21 Antiga linha de demarcação entre estados, que se tornou parte da fronteira entre os estados abolicionistas e esclavagistas, utilizada simbolicamente como fronteira cultural entre o Norte e o Sul dos Estados Unidos. (N. da T.)
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