Um Longo Regresso a Casa

Gail Caldwell · Capítulo 3 de 15

Páginas do PDF

Um Longo Regresso a Casa

.1.

Ainda consigo vê-la de pé, junto à margem, com uma toalha à volta do

pescoço e um cigarro pós-exercício na mão – metade Gidget 1e metade

atleta de eleição2, os braços de remadora num contraste provocador com o horrível fato de banho cor-de-rosa que ela descobrira não sei onde. Era o verão de 1997 e Caroline e eu tínhamos decidido trocar desportos: eu iria ensiná-la a nadar e ela ensinar-me-ia a remar. Era por isso que eu estava aninhada no barco de competição da minha melhor amiga, estreito como uma agulha, trinta centímetros e meio de largura no máximo, parecendo menos uma remadora e mais uma aranha embriagada. Estávamos no lago Chocorua, em New Hampshire, uma massa de água com cerca de mil e seiscentos metros de extensão, próximo das Montanhas Brancas, e a única pessoa também presente para observar os meus progressos era o nosso amigo Tom, que se encontrava de férias connosco.

«Excelente!», gritava Caroline de cada vez que eu conseguia fazer a mais pequena manobra, ainda que débil. Eu agarrava os remos num aperto tenso. Com trinta e sete anos de idade, Caroline remava há mais de uma década; eu tinha quase mais nove anos, fora nadadora durante toda a vida e imaginava que ainda tinha capacidade física para captar os princípios

básicos de um 3 scull em cima da água. Mas de tanto desejar imitar Caroline, cuja cadência da remada tinha a precisão de um metrónomo, nem percebera que o simples facto de me sentar no barco me fazia sentir tão instável como se procurasse o equilíbrio numa folha flutuante. Como é que eu a deixara convencer-me?

Habitualmente, os principiantes aprendem a remar num barco com o triplo da largura e do peso do de Caroline Van Dusen; mais tarde, confessou-me que mal podia esperar para ver o barco voltar-se num movimento súbito. Mas equilibrada à beira da água, gritando instruções, ela era só bom ânimo e entusiasmo férreo. E pode também ter estado a calcular o meu sucesso, fugaz como era, com um cronómetro. Tendo os remos como única força de alavanca, comecei a inclinar-me em direção à água e depois fiquei imobilizada num ângulo precário de sessenta graus, suspensa mais por paralisia do que por um qualquer sentido de equilíbrio. Na doca, Tom ria a bandeiras despregadas; quanto mais eu tombava, mais ele ria.

«Vou ter com vocês!», disse-lhes, a chorar.

«Não», respondeu-me Caroline friamente, como um treinador numa temporada perdida. «Não vens nada. Mantém as mãos juntas. Fica calma... não olhes para a água, observa as tuas mãos. Agora, olha para mim.» A voz consolou-me e as suas instruções foram o suficiente para que eu me endireitasse e retomasse a posição, e então consegui dar cinco ou seis remadas naquela água rasa antes de sair do barco a voar e mergulhar no lago. Quando voltei acima, alguns segundos depois e cerca de nove metros à frente, Caroline ria e eu fora contemplada com um vislumbre do êxtase.

Tínhamos ido os três para Chocorua durante o mês de agosto depois de Tom ter colocado um anúncio para um aluguer de verão: «Três escritores com cães procuram casa perto de água e trilhos para caminhada». O resultado da sua pesquisa foi uma quinta decrépita do século XIX à qual regressámos durante anos. Rodeada de prados ondulantes, o lugar tinha tudo o que podíamos ter desejado: quartos enormes com cobertores velhos e rodas de fiar, uma cozinha de campo e uma lareira de pedra maciça, e janelas altas que davam para as Montanhas Brancas. O lago ficava a algumas centenas de metros de distância. De manhã, e por vezes à noite, Caroline e eu deixávamos os cães para trás, que ficavam a olhar-nos através das janelas da frente, e caminhávamos até à água – ela remava a todo o comprimento do lago e eu nadava ao longo do seu perímetro. Eu era a lontra e ela a libelinha, e eu parava várias vezes a vê-la voar, para trás e para a frente, durante nove quilómetros e meio. Por vezes, ela encostava-se aos pântanos para poder examinar as minhas viragens na água. A nossa amizade durava há dois anos e entre nós existia o espírito competitivo próprio de duas irmãs ou adolescentes – cada uma ambicionando alcançar uma qualquer proeza que a outra possuísse.

O colorido dourado daquele lugar e os dias simples que oferecia – passeios junto ao rio, flores silvestres e tarte de ruibarbo – eram muito mais sublimes do que Caroline podia ter imaginado: para ela, a maioria das férias eram marchas forçadas para fora da cidade. Eu era apenas ligeiramente mais aventureira, desejando poder descer de para-quedas nas viagens de verão sem ter de me preocupar com o cão ou em comprar quilos de produtos. Como duas escritoras a viver sozinhas, Caroline e eu partilhávamos uma irascibilidade geral no que tocava à interrupção das nossas rotinas: os passeios diários em Cambridge, no Massachusetts, os programas de exercício que partilhávamos ou comparávamos, as refeições, os telefonemas, e as horas de trabalho solitário a que nos referíamos como «as nossas pequenas vidas». «Paris está sobrevalorizada», gostava Caroline de reclamar, em parte para me fazer rir. Uma noite, um amigo meu que conhecia os seus livros perguntou-lhe se ela costumava passar muito tempo em Nova Iorque. «Estás a brincar?», respondeu-lhe. «Raramente vou a Somerville.» Presas à santidade de tudo o que é familiar, decidimos sair da cidade apenas para tirar as férias da lista e depois regressar às alegrias e horrores da vida comum.

* * *

Tenho comigo uma fotografia de um desses verões em Chocorua, onde se vê o dorso da minha cadela e o da cadela de Caroline, Clementine e Lucille, e as suas silhuetas perfiladas num assento junto à janela, contemplando o exterior. É uma fotografia clássica de cães, que capta a vigilância e a lealdade: duas caudas lado a lado, dois animais grudados no seu posto. Durante anos não me apercebi de que a meia distância da imagem, visíveis através da janela e pelos campos fora, se adivinham duas pequenas figuras – o contorno de Caroline e eu caminhando na encosta. Dirigíamo-nos provavelmente para o lago, e os cães, já habituados à nossa rotina, tinham assumido as suas posições. Morelli, o namorado de Caroline, apercebeu-se da beleza do instantâneo e agarrou na câmara.

Descobri esta imagem no ano a seguir à sua morte, e pareceu-me sempre uma pista num quadro – um jardim secreto apenas revelado depois de desaparecer. A própria Chocorua ganhou um brilho idílico: lembro-me da noite em que Caroline quase bateu Tom numa luta de braços; o rato que me fez saltar para cima da mesa de jantar enquanto ela ria a bandeiras despregadas; os prémios Best Camp que instituímos (e que ela ganhou sempre). Encobri os mosquitos, o dia em que Caroline se zangou quando a deixei num caiaque mais lento e remei em direção à neblina sozinha. Como a maioria das memórias tingidas com o capítulo final, a minha transporta o peso físico da tristeza. Aquilo que nunca ninguém nos diz sobre o sofrimento é que perder alguém é a parte simples.

* * *

Depois daquele primeiro verão, continuámos a remar juntas, uma atrás da outra, durante cinco anos. Vivíamos próximo do rio Charles, uma labiríntica massa de água que serpenteia através da região de Boston ao longo de cerca de catorze quilómetros, desde a zona norte de Newton, passando por Cambridge até entrar no porto de Boston, com curvas suficientes e água consistentemente rasa para poder ser considerada uma Meca para remadores. Devido à pequena estatura de Caroline e porque o seu corpo conseguia pressionar mais do que o seu próprio peso, acabei por lhe chamar Brutita, ou «brutinha». Os ancoradouros de onde partíamos ficavam a mais de três quilómetros de distância e eu conseguia reconhecer a remada de Caroline quase a uma centena de metros – esperava por ela junto da ponte Eliot ou próximo da ponte pedonal Weeks Footbridge, em Harvard, preparada para enchê-la de perguntas sobre a forma e a velocidade e onde posicionar o polegar. Quando ela saía horas antes de mim, disparava e-mails sem pontuação assim que chegava a casa: «despacha-te a água está rasa». Fizemos centenas de quilómetros, juntas e sozinhas, entre abril e novembro, aguentando ela os meus telefonemas, naqueles primeiros verões, para discutir a mecânica do remo: «Quero falar sobre confiança», dizia-lhe, com uma veemência insensata, ou «Sabes que a cabeça humana pesa treze quilos?» «Ummmm-hmmmm?», respondia, e subitamente eu começava a ouvir atrás um suave clique-clique, sinal de que ela iniciara um jogo de computador solitário, o seu equivalente a um bocejo telefónico. No final do dia, quando íamos passear os cães, comparávamos os calos das mãos e dos dedos – cicatrizes de batalha de um bom remador – da mesma forma que as adolescentes comparam o bronzeado ou umas pulseiras bonitas; como ela era e será sempre a melhor remadora, eu aceitava a sua permanente presunção e prometia vingar-me na piscina. Uma vez, no Natal, ofereci-lhe uma fotografia da década de

1940 com duas mulheres remadoras num 4 double scull, tirada em Oxford, em Inglaterra. Ela pendurou-a numa parede próximo da cama, por cima de um dístico emoldurado que dizia «O ZELO É UM FOGO ÚTIL».

As duas imagens estão hoje por cima da minha cama, junto da fotografia dos cães. Caroline morreu no início de junho de 2002, aos quarenta e dois anos de idade, sete semanas depois de lhe ter sido diagnosticado cancro do pulmão na fase 4. Durante as primeiras semanas no hospital, enquanto tentava escrever um testamento, disse-me que gostaria que eu ficasse com o seu barco, o velho Van Dusen, no qual eu aprendera a remar e de que ela cuidara ao longo dos anos como se fosse um cavalo amado. Estava sentada na sua cama de hospital quando me manifestou o seu desejo, durante uma daquelas conversas sobre morte precoce em que sabemos o que vai acontecer e tentamos forçar o caminho. Respondi-lhe então que só ficaria com o barco se pudesse cumprir a tradição de mandar pintar o seu nome na proa: seria o Caroline Knapp. «De maneira nenhuma», retorquiu, com o mesmo brilho nos olhos do dia em que me ensinou a remar. «Tens de chamar-lhe Brutita.»

* * *

Antes de entrarmos neste espetro de desgosto, que altera até a cor das árvores, há uma assunção cega e ousadamente errada que, provavelmente, nos permite deambular pelos dias. Pensamos que o espetáculo não acaba nunca – ou que a perda, quando chega, é próximo do fim da estrada, não no meio. Eu tinha cinquenta e um anos quando Caroline morreu, uma altura da vida em que supostamente já assistimos a tantos funerais que sabemos de cor os versos do Eclesiastes. Mas no dia em que soubemos que Caroline estava doente – o dia em que os médicos proferiram aquelas palavras terríveis, «Podemos fazer com que se sinta mais confortável» – lembro-me de descer a rua, uma rua resplandecente de abril cintilando vida, e de dizer para mim própria com uma espécie de inocência chocante: «Pensavas mesmo que podias escapar, não era?»

Acreditava que, de alguma forma, conseguiria contornar a crueldade de uma perda intolerável, uma perda que chegara sem os sinais premeditados ou naturais de uma overdose de drogas, do suicídio ou da velhice. Estes eu enfrentara antes, mas havia ainda a questão habitual de uma ação trágica (se tivesse tomado lítio; se não tivesse tentado passar cocaína clandestinamente) ou da aceitação triste – teve uma vida boa e longa. Porém, ninguém que eu tivesse amado – ninguém que eu incluísse nos pilares fundamentais da vida – morrera subitamente, tão novo e determinado a não partir. Ninguém recebera do laboratório o relatório cruel, ninguém perdera o cabelo, ninguém tivera de pôr os seus assuntos em ordem. E, o que é mais importante, não a Caroline. Não a melhor amiga, a irmã mais nova, aquela que, durante anos, dissera a brincar que, no final da vida, quando eu já estivesse demasiado velhinha e debilitada para cozinhar, haveria de me levar a sopa.

Havia, desde o início, algo intangível e até mesmo arrepiante entre nós, algo que podia levar os mais estranhos a confundir-nos com duas irmãs ou amantes e que fazia com que os amigos, por vezes, nos trocassem o nome: um ano após a morte de Caroline, um amigo comum gritou por mim em Fresh Pond, o parque por onde passeávamos – «Caroline!» – e depois as lágrimas brotaram-lhe quando se apercebeu do erro. A amizade deve ter anunciado a sua profundidade pela afeição óbvia, mas também pelas nossas semelhanças, contidas ou aparentes. As nossas histórias de vida tinham seguido o seu percurso uma em direção à outra em caminhos correspondentes, e isso fazia parte da ligação inicial. Conhecer Caroline fora como procurar um amigo imaginário através de um anúncio pessoal e depois recebê-lo à porta de casa melhor e mais divertido do que alguma vez imaginara. Além disso, ambas tínhamos sido consumidoras de álcool assustadas, aspirantes a escritoras e amantes de cães; juntas, tornámo-nos uma pequena corporação.

Tínhamos muitos sonhos, alguns ridículos, todos parte do código privado partilhado por pessoas que planeiam viver por muitos e bons anos.

Um deles era o centro 5 tatting que planeávamos abrir na zona ocidental de Massachusetts para cães de raça border collie e corgi, porque então seríamos demasiado velhas para termos cães grandes ou rebeldes. Os border collies treinariam os corgi, era esse o nosso desejo, e os corgis seriam aquilo a que carinhosamente chamamos cães de bolso. A noção de tatting surgiu durante uma das nossas intermináveis conversas sobre se estaríamos a viver corretamente as nossas vidas – um diálogo permanente que ia do sério (a escrita, o isolamento, a solidão) ao mundano (o tempo perdido, as idiotices da vida urbana, o lixo televisivo). «Não te preocupes», respondi-lhe, quando me perguntou se eu achava que ela perdia muito tempo com as reposições de Lei e Ordem. «Pensa bem – se vivêssemos há duzentos anos, estaríamos a jogar às cartas ou a fazer espiguilha em vez de vermos televisão e teríamos a mesma dúvida.» Seguiu-se uma pausa prolongada. «O que significa espiguilha?», inquiriu, timidamente, como se o velho ofício de fazer renda fosse algo de grande importância, e então também isso se tornou parte do léxico privado – «tatting» era a palavra de código para as coisas em que nós e, provavelmente, todas as pessoas, desperdiçávamos tempo.

Foi este tipo de apontamentos desgarrados que chegou a voar até mim, num vento forte de angústia, quando ela estava a morrer: lembro-me de tentar explicar o centro tatting a alguém que nos conhecia, depois perceber como aquilo soava absurdo e então parar. É claro que ninguém compreendia a razão de um centro tatting; tal como a maioria dos códigos de intimidade, também este resistiu à tradução. Em parte, o que o tornava divertido é que ele permanecia apenas nosso.

* * *

Uma das coisas de que gostávamos sobre a prática do remo era a sua beleza quase mística – as remadas elevando-se na água, o silêncio cintilante do próprio remo. Dias depois da sua morte, sonhei que estávamos as duas de pé, juntas, numa garagem de barcos escura, tendo como única fonte de luz uma linha de sculls de um azul incandescente suspensos sobre nós como um banho de constelações. No sonho eu sabia que ela estava morta, estendi-lhe a mão e disse-lhe: «Mas vais voltar, não vais?» Ela sorriu e abanou a cabeça; o seu rosto emanava tristeza.

1 Gidget é uma personagem criada pelo escritor Frederick Kohner, em 1957, mais tarde retomada no cinema e em séries de televisão. A história conta as aventuras de uma adolescente e os seus amigos surfistas na praia de Malibu. (N. da T.)

2 No original splendid splinter: referência a um famoso jogador de basebol norte-americano, Ted Williams. (N. da T.)

3 Barco a remos para um remador, com dois remos. (N. da T.)

4 Barco a remos para dois remadores, com um par de remos para cada um. (N. da T.)

5 Espiguilha, renda de bicos. (N. da T.)

OceanofPDF.com