Um Longo Regresso a Casa
.2.
Tudo começou de facto com os cães.
Conheci brevemente Caroline Knapp no início da década de 1990, numa altura em que ela era colunista no Boston Phoenix e eu redatora no Boston Globe. Acabava de ser publicada uma compilação das suas crónicas e alguém nos tinha apresentado num encontro literário que eu classifiquei de insuportável. «Caroline tem um novo livro!», disse, entusiasmada, a nossa anfitriã, certa de que ambas teríamos algo a oferecer uma à outra. Depois de a mulher nos ter deixado, trocámos olhares e meios sorrisos. Gostei logo disso em Caroline – não havia nela nenhum tipo de autopromoção. Parecia envolver a sua discrição como uma armadura de seda: as unhas arranjadas à francesa, na mão um copo de vinho branco, a voz tímida e sonora. Trocámos algumas palavras amáveis de reconhecimento mútuo e depois separámo-nos para as voltas obrigatórias.
Alguns anos mais tarde, quando voltei a vê-la de pé junto ao lago de patos em Fresh Pound Reservoir, em Cambridge, a nossa aparência já não era a mesma. Ambas possuíamos dois cães jovens e uma treinadora de cães que eu conhecia falara-me recentemente de Caroline. «Conheces a Caroline Knapp?», perguntou Kathy. «Ela também tem um cachorrinho. Acho-vos parecidas – deviam encontrar-se.»
Murmurei um consentimento vago, embora no íntimo não percebesse a semelhança. A figura de Caroline que eu recordava era demasiado cuidada para combinar com a forma como eu me apresentava naquela altura. Tinha um samoiedo com cerca de vinte e sete quilos e passeava-me com relva no cabelo e fígado liofilizado no bolso. Passava a maior parte do tempo deleitando-me com o prazer selvagem de educar um cão, não dando muita importância à minha aparência. Mas a mulher que encontrei no lago naquela tarde de final de verão estava muito longe do requinte inicial da Caroline que a minha memória evocava. Continuava tímida e eu julgava que ela não se lembrava de mim. O véu de traje elegante fora substituído por ténis e uma trança descuidada; sempre à volta de Lucille, a sua cadela raçada de pastor alemão que tinha a mesma idade de Clementine, parecia tão apaixonadamente absorvida por ela como eu pela minha.
Soube também, por razões que eram tão pessoais quanto públicas, que o vinho branco que Caroline bebia naquela noite em que, pela primeira vez, nos tínhamos encontrado fora o seu cetro e punhal mágicos. Razões públicas, porque a própria Caroline as revelara no seu livro de memórias Drinking: A Love Story. Estávamos no verão seguinte à publicação do livro e ela participara em tantos talk shows e aparecera em tantos artigos de fundo que já era considerada uma jovem escritora de sonho. E «tinha boa presença», como se dizia no meio: a longa trança loura, uma voz bonita, a sobriedade que sugeria um fundo sombrio por detrás daquela pose educada. Habitualmente, pensamos que a maioria dos escritores deseja apenas o tipo de sucesso que os livros de Caroline haviam alcançado. Eu tinha uma perspetiva diferente, que derivava da minha experiência e intuição. Se existe alguma característica comum aos escritores é a de que eles tendem a ser egomaníacos tímidos; a publicidade é o holofote que têm de suportar para alcançarem o reconhecimento a que aspiram.
A empatia pessoal derivava do meu passado igualmente enclausurado: eu deixara de beber há doze anos, em 1984. Mas enquanto Caroline fora aceite com a sua dependência, eu pertencia à velha guarda e agia de forma profundamente privada na minha luta contra o álcool. Acreditava que o «anónimo» de Alcoólicos Anónimos (AA) funcionava como um escudo protetor e durante anos usei-o como tal.
Naquele dia, trocámos uma tentativa de olá junto ao lago enquanto os cães se apresentavam de forma mais exuberante. «Caroline, lembras-te de mim?», perguntei-lhe, e ela sorriu e respondeu que sim. «Meu Deus, tens passado por tanto ultimamente – estás bem?», continuei. Ela pareceu surpreendida, mas depois sentiu-se aliviada. Contou-me mais tarde que andara a vaguear exausta, meia perdida pela exposição a que estava sujeita, e que aquela conversa comigo fora como um bálsamo, pois eu estava mais interessa da na sua cadela do que na venda dos seus livros. Também ela: parecíamos duas jovens mamãs no parque, trocando informações vitais sobre os nossos dependentes, o que só para nós era fascinante. Falei-lhe num parque estadual com dois mil hectares a norte da cidade, chamado Middlesex Fells, onde eu treinava o meu obstinado cão de trenó a correr sem trela, e Caroline quis saber como se chegava até lá. Como o caminho era complicado, expliquei-lho discretamente, receando que ela estivesse a ser delicada e eu uma tagarela. O local ficava a meia hora de distância, era difícil de encontrar mesmo sem trânsito e só alguém que gostasse muito de treinar, como eu, se daria ao trabalho de o descobrir.
Uma semana depois, no Fells, ouvi alguém chamar pelo meu nome em Sheepfold Meadow e vi Caroline à beira do parque acenando e sorrindo – efetivamente, ela deve-se ter lembrado das minhas indicações bizantinas e seguiu-as. Acabei depois por perceber que estar atenta era uma das coisas que Caroline fazia. Uns dias mais tarde, ligou-me para me propor um passeio; quando não conseguia encontrar-me, voltava a ligar. Sendo uma introvertida com a afabilidade típica de qualquer texano, eu tinha boas intenções mas falhava no acompanhamento; não era em vão que um velho amigo se referia a mim como a eremita gregária. Desejava o calor das relações espontâneas e a liberdade de ser deixada a sós. Caroline bateu delicadamente na porta da frente do meu espaço interior, esperou, e depois bateu de novo. Era persistente, parecia inteligente e calorosa, e – para minha satisfação – estava a escrever um livro, revelou-me mais tarde, sobre a ligação emocional das pessoas aos cães. Parecia ser alguém com quem eu não me importaria de quebrar as minhas regras monacais.
O livro viria a intitular-se Pack of Two: The Intricate Bond Between People and Dogs, e seria publicado dois anos mais tarde; Caroline chamou-me Grace e transformou Clementine num malamute do Alasca de nome Oakley. Nas semanas que se seguiram ao nosso encontro em Sheepfold Meadow planeámos saídas todos os dias; o Fells tornou-se um dos nossos destinos regulares. Passeávamos os cães durante horas nos bosques fora da cidade, e noutros, à procura de reservas deslumbrantes de florestas e campos por todo o Massachusetts oriental. Naquele outono, deambulámos pelas praias e, no inverno, pelas estradas corta-fogo, munidas de lanches de fígado para os cães e bolachas integrais para nós. Caminhávamos até ficarmos os quatro mudos de fadiga. Os cães investiam pelos trilhos que serpenteavam as encostas enquanto Caroline e eu passeávamos e conversávamos – com o tempo, as nossas conversas tornaram-se tão demoradas e profundas que começámos a referir-nos às nossas longas caminhadas pela tarde como digressões analíticas.
«Vamos pelo caminho mais longo», dizia ela quando chegávamos ao carro, e então seguíamos o nosso percurso pelo tráfego diário de Somerville ou Medford, sem pressa de nos separarmos. Quando chegávamos ao fim da volta de carro, com a Clementine a ressonar baixinho no banco de trás, sentávamo-nos no exterior da casa de uma das duas, aquela que fosse a primeira a sair, e continuávamos a conversar. Cada uma seguia então para sua casa e depois prosseguíamos a conversa ao telefone.
«E o gelo nos lagos?», indaguei uma noite, depois de uma caminhada no início do inverno, quando os cães ainda se divertiam na água alheios a tudo exceto ao seu próprio prazer. «Preocupa-me o gelo estar tão fino e os cães pode rem cair quando vão à caça de pássaros – sabes que todos os invernos isto acontece. O cão sai a correr em direção ao gelo, o dono vai atrás dele e o cão consegue escapar, mas o dono afoga-se. E tu sabes que ambas iríamos atrás dos nossos.»
Caroline escutou a minha retórica – acabei por perceber que a sua forma de ouvir podia ser tão atenta que quase produzia um som – e suspirou antes de responder. «Vamos ter de começar a andar com uma corda e um machado, não é?», proferiu. Sabia sempre como me convencer.
Penso que todas as amizades têm estes indicadores – os freios e contrapesos da relação, que a tornam mais forte ou mais generosa do que qualquer um dos seus elementos sozinho. Para nós as duas, de formas diferentes, o volume do mundo tinha aumentado um pouco. Quer esta sensibilidade funcionasse como uma fraqueza ou uma vantagem julgo que a reconhecemos uma na outra desde o início. Mesmo naquela primeira tarde que passámos juntas – um passeio de quatro horas pelo bosque, num final de verão – lembro-me de me sentir impelida por Caroline: era uma resposta diferente da simples afeição ou camaradagem. Ela era tão calma, tão cuidadosa e, além disso, tão inteiramente presente, que estar com alguém cuja intensidade parecia encaixar na minha e, por vezes, até ultrapassá-la me pareceu uma libertação sem peso. A sua hesitação era o que prendia a sua sinceridade: por muito que Caroline se revelasse nos seus livros, ela era uma pessoa profundamente privada que se entregava às relações com grande intencionalidade. Na minha vida, conhecera um número suficiente de escritores, incluindo eu própria, para reconhecer esta característica: o que chega à página nunca é a história completa, mas sim a versão do próprio escritor – uma narrativa que o seu criador controla totalmente.
Naquele primeiro dia pensei também, mais do que uma vez, que Caroline gostaria de estar noutro lugar qualquer, porque verificava constantemente o seu relógio – deve ter olhado para ele, acreditava secretamente, uma meia dúzia de vezes. Com o tempo, aprendi a viver com este pequeno ritual, que nada tinha a ver comigo. Era um indicador do grau de ansiedade de Caroline, uma forma de ancorar o seu lugar no mundo independentemente de quão flexível fosse o seu plano. Mas, naquele dia, aquilo pareceu-me irritante, e acabei por lhe perguntar se ela tinha de estar em algum lugar. Creio que ficou embaraçada; pediu desculpa e caminhámos até o anoitecer nos empurrar para fora do bosque. Vigiar o passar do tempo, particularmente depois de ter deixado de beber, era o substituto de Caroline contra a queda livre dos dias.
Um outro gesto repetido tocou-me naquele dia de uma forma que então não pude articular. Determinada a acompanhar Clementine, eu tornara-me uma pessoa dedicada que adorava passear com cães; também tivera poliomielite em criança e, por isso, seguia no mundo com um ligeiro coxear e desequilíbrio. Por muito que compensasse desbravando o meu caminho, a minha fragilidade no terreno era maior do que eu gostava de admitir. No final de setembro, o chão da floresta estava coberto de bolotas acabadas de cair e eu escorregava nelas permanentemente, chegando mesmo a tombar mais de uma vez. Estava habituada à minha deselegância de toda a vida e referi-o, desvalorizando-a; o que eu não disse foi que me familiarizara com reações embaraçosas. Quando explicava o meu coxear dizendo que tinha tido pólio, as pessoas tendiam a ficar excessivamente preocupadas ou desconfortáveis. Caroline, que nem por um momento pareceu desconfiar das minhas capacidades, não reagia de nenhuma destas formas. Depois daquele primeiro tropeção, e sempre que eu escorregava, ela estendia um braço para me ajudar; agarrar-me a ela tornou-se tão natural como procurar um ramo. Se eu andava tranquila mente, pela minha natureza e capacidades, Caroline era uma sprinter – rápida, ágil e sempre com pressa, fosse ou não necessário. Mas quando se apercebia da minha forma habitual de andar, abrandava a passada para me acompanhar e mantinha-se a meu lado.
Exceto o facto de as duas termos tido irmãs, a nossa infância teve pouco em comum. Caroline nasceu gémea, uns minutos antes da sua irmã Becca, e as duas mantiveram-se próximas ao longo da vida. Tive uma amiga no Texas que era gémea e, por isso, reconheci em Caroline os traços semelhantes que parecem resultar daquela díade original – ela tinha uma capacidade para a intimidade que, por vezes, podia parecer privada e absoluta. Eu tinha uma irmã mais velha dois anos e crescera habituada a ser ora mandada ora alvo dos seus cuidados. Era filha de uma quarta geração de texanos que descendiam de famílias de agricultores esforçados; os meus pais tinham-se fixado na desolada região de Texas Panhandle e o meu pai fora sargento-chefe na Segunda Guerra Mundial. Caroline tinha tido aquilo a que ela chamava uma existência protegida no seio do meio intelectual de Cambridge. O seu pai, que morrera alguns anos antes de eu a conhecer, era um psiquiatra e psicanalista reconhecido; Caroline identificava-se com ele e adorava-o. Contou-me no início da nossa amizade, sem qualquer ar de gozo, que quando tinha seis ou sete anos, ele se sentara à beira da sua cama com um bloco de notas, caneta em riste, questionando-a sobre os seus sonhos. A mãe era uma artista e uma introvertida, que morrera um ano depois do pai. Caroline perdera ambos para o cancro quando tinha pouco mais de trinta anos, uma dupla lesão que se revelara catastrófica para ela; continuou a beber durante mais um ano, e depois submeteu-se a uma cura de desintoxicação em 1994.
Fiquei a saber muitas destas coisas através do seu livro, e outras pelo que me contou naquela nossa primeira longa tarde no bosque. Naquele dia, soube também que Caroline acabava de se separar do namorado, com quem estava há seis anos – um homem generoso conhecido pelo sobrenome, Morelli. A rutura acabou por ser temporária, e depois de ambos nos termos tornado amigos, Caroline e eu chamávamos-lhe muitas vezes «o último namorado americano bom». Toda esta história aos bocados – a narrativa que se revela no início de uma amizade – pertencia a uma mulher solene e vigorosa que me parecia o tipo de pessoa que escolhemos para conduzir o trator de regresso a casa num dia de tempestade de granizo. Era forte, modesta, e penso que a sua segurança decidida, que me foi revelada em mais do que uma crise, resultava em parte da prática: tendo sobrevivido à anorexia e ao alcoolismo, ela já tivera a sua versão de piores medos.
* * *
Eu acabava de percorrer a minha própria encruzilhada. Estava no início dos meus quarenta anos, uma idade em que o que vemos a partir da encosta da vida pode ser igualmente claro e pungente. As vistas imaginárias tornaram-se caminhos percorridos, e hoje penso que podemos viver no presente durante aqueles anos mais do que em qualquer outra altura desde a infância. Passara os meus trinta anos na sala de redação de uma grande cidade, onde a adrenalina e a testerona estavam tão infiltradas quanto os prazos, e abandonara recentemente o cargo de redatora para voltar à minha função habitual de crítica literária para o Boston Globe. Esta transição, juntamente com as mudanças tecnológicas recentes, permitiam-me trabalhar a partir de casa e vaguear com o meu cão, o qual rapidamente aprendeu que ler era o meu equivalente a roer um osso. Durante muito tempo pensei que os deuses me tinham oferecido um trabalho à medida pelas minhas idiossincrasias: eu era demasiado obstinada para ser uma simples jornalista de informação e demasiado inconstante para ser uma académica. Era sonhadora, rebelde e seletivamente fanática; a minha ideia de um dia produtivo, em criança ou como adulta, era ficar a ler durante horas e olhar pela janela. Tinha muita sorte em ter encontrado uma ocupação que exigia apenas estes dois talentos; agora, com Clementine, podia passar dias inteiros quase em silêncio, a ler, escrever ou falar no mais simples e genuíno vernáculo entre um humano e um cão.
Os primeiros meses que Caroline e eu passámos juntas retornam agora à minha memória com o aroma do inverno: a aura nítida e distinta da neve, das estradas da cidade e do calor dos radiadores na Costa Oeste. No seu aniversário, em novembro, ofereci-lhe umas luvas de lã sem dedos forradas a pele; umas semanas mais tarde, ambas pedimos para sermos dispensadas de outros planos para o Dia de Ação de Graças e cozinhámos uma galinha no forno depois de um dia no bosque com os cães. O tempo piorou e ficou mais frio e nós tivemos de reajustar o nosso programa. Ela ensinou-me a andar por entre trilhos gelados e de lado nas ladeiras íngremes, cravando os pés no terreno. Eu ensinei-lhe o estilo livre numa piscina interior, convencendo-a a colocar o rosto na água para aprender a controlar a respiração enquanto ela continuava a praguejar e a tremer.
Hoje, acho que Caroline estava sempre com frio. Depois da anorexia dos seus vinte anos, ela ficara no limiar da normalidade e aparecia para as nossas caminhadas enfaixada em camadas de lã cardada. Sempre que possível, seguíamos até ao bosque ou ao parque mas, por vezes, à noite, nos dias em que o sol da Nova Inglaterra desaparecia cedo, esgueirávamo-nos pelos campos de atletismo de Harvard, próximo do local onde então eu morava, para que os cães pudessem ter um espaço aberto para correrem. Os campos terminavam junto de um complexo de habitação social separado por uma cerca em malha metálica, alta e degradada. Chegar aos terrenos sagrados era trabalho para duas pessoas: uma de nós levantava a cerca no local onde ela se soltara sobre uma vala, enquanto a outra passava por baixo com os cães e depois erguia-a do outro lado. A transgressão era tão ilegal quanto grosseira – era o tipo de coisas que eu sempre fizera como rapariga do Texas – e agradava-me que Caroline também alinhasse; apesar de todas as suas façanhas no mundo da bebida, ela ainda conservava a qualidade de boa rapariga que eu nunca conseguira. Ficávamos ali na escuridão fria, os cães iluminados contra o céu noturno pela brancura de Clementine e as luzes dos campos de basebol. Era como se estivéssemos reclusas numa cave de silêncio e frio, e ficávamos até não conseguirmos suportar mais, contando histórias uma à outra – Caroline nas suas botas novas Ugg, tiritando e fumando, e eu a apanhar baforadas de fumo ilícito mas ainda assim agradável – tinha deixado de fumar quatro anos antes. Por vezes, baixávamo-nos no chão e encostávamo-nos à velha cerca destruída deixando os cães procurarem biscoitos nos nossos bolsos antes de se precipitarem novamente no escuro. Costumávamos rir por saber que as pessoas de bom senso ou sem cães estariam algures num restaurante quente ou a viajar, ou então a viver o tipo de vida que todos nós, de tempos a tempos, pensamos que devíamos viver ou pelo menos ambicionar. Mas eu não pretendia estar em nenhum outro lugar a não ser ali, sentada na terra dura sob um céu noturno, a contemplar os cães e a conversar.
Foi também naqueles campos que tivemos o nosso primeiro desentendimento ou confrontação, ou seja lá o que for que se chama às falhas empáticas, aparentemente triviais, que servem de teste e porta de entrada para a intimidade. No final daquele inverno, era óbvio que nos importávamos uma com a outra e com as rotinas que tínhamos estabelecido tão rapidamente; menos reconhecido era o papel crucial que estávamos a construir na vida de cada uma. Durante alguns dias, eu suportara em silêncio uma ferida que tinha a ver com o nosso respeito uma pela outra enquanto escritoras: algo tão crucial para mim que ainda hesito em recordar o meu desconforto. Enquanto crítica literária de um grande jornal diário, eu era a escritora mais velha e mais experiente; Caroline era a jovem rebelde do jornal alternativo que gozava de uma súbita atenção do público pelo seu livro de memórias. Como já estávamos informadas uma sobre a outra antes de nos conhecermos, confiámos naquela assunção implícita entre escritores sobre o reconhecimento dos sucessos alheios; na maioria das relações, esta comunhão de objetivos era mais do que suficiente. Mas Caroline nunca fizera um comentário direto sobre o que eu fazia ou sobre o que ela pensava em relação ao êxito do meu trabalho, apesar de me ter dado um exemplar do seu livro de memórias e me ter perguntado repetidamente se eu tinha gostado.
Hoje olho para tudo isto de forma diferente: acredito que ela me via como alguém que tinha um ego mais forte e com menos necessidades ou exigências. Naquele dia no campo, eu não tive esse discernimento. O Globe acabava de publicar um longo artigo meu e eu estava exausta. Estávamos a passear quando Caroline murmurou algo sobre o facto de reconhecer que eu tinha trabalhado bastante, mas nada sobre o texto em si. No final, deixei escapar: «Tenho de fazer-te uma pergunta difícil – preciso de saber o que pensas sobre o meu trabalho.»
Ela olhou para mim aterrada. «Meu Deus!», disse. «Pareço a minha mãe. Assumi que sabias como eu me sentia, mas nunca to disse.» Apressou-se a tranquilizar-me e durante o resto da caminhada conversámos sobre como o facto de tudo parecer um pântano: o mundo de invejas, rivalidades e dúvidas pessoais (entre mulheres, escritores e mulheres escritoras), a insegurança e a diferença de capacidades. Naquele dia, percebemos rapidamente como era grande e complexo o afeto que sentíamos uma pela outra. Apercebi-me também, pela primeira vez, de algo fundamental sobre Caroline que se tornaria um pilar na nossa relação. Quando confrontada com alguma dificuldade emocional, fosse ela grande ou pequena, a sua resposta era de a abordar em vez de fugir. Ficava até que a questão se resolvesse, e o rescaldo emocional estava isento de qualquer tipo de ressaca ou recriminação. Os meus instintos quanto à resolução eram semelhantes: sabia que o silêncio e a distância eram muito mais perniciosos do que o compromisso frontal. Foi esta compatibilidade que ajudou a garantir que não havia entre nós qualquer pedra no sapato nos anos que se seguiriam.
De tão aliviada que estava naquele dia com aquela conversa, eu sentia-me incomodada com a minha própria vulnerabilidade. Era como se Caroline e eu tivéssemos atravessado um território onde tudo importava e nós estávamos juntas. «Meu Deus!», disse, meio a rir, mas com lágrimas nos olhos. «O que é?», indagou, preocupada. E eu respondi: «Eu preciso de ti.»
OceanofPDF.com