Um Longo Regresso a Casa
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Caroline retorquiu, julgo, que a necessidade era maior do seu lado. Iniciava aquilo que seria uma separação de Morelli por dois anos, com quem estivera envolvida durante vários anos e mais tarde viria a casar, perdera pai e mãe recentemente e via-me, provavelmente, através de umas lentes idealizadoras, como uma mulher competente que construíra uma vida sozinha. A verdade mais complexa era que também eu me encontrava num ponto crucial: desistira de muito daquilo que não funcionava, e beber era apenas o princípio da lista. Um outro amigo dissera-me, «tu escolheste a solidão». «Bem, penso que foi a solidão que me escolheu a mim», respondi. «A velha história da noiva de Cristo.» Ainda assim, sempre me sentira confortável na minha própria companhia, por vezes para descontentamento de alguns amigos ou parceiros românticos. O meu último interesse amoroso sem importância terminara mal alguns anos antes. Um dos meus amigos mais chegados da última década, um artista e realizador de cinema, acabava de trocar Cambridge por Nova Iorque. Eu tinha uma série de velhas e sólidas amizades, masculinas e femininas, mas naquela altura a maior parte das amizades locais pertencia ao segundo círculo de intimidade – aqueles que contactamos quando somos atropelados por um autocarro, mas não necessariamente se apenas torcemos um tornozelo.
«Os homens não entendem realmente as amizades das mulheres, pois não?», perguntei uma vez à minha amiga Louise, uma escritora que vivia no Minnesota. «Não!», respondeu-me. «E nunca lhes podemos dizer isso.» O facto é que eu fora influenciada por amizades intensas e corajosas entre mulheres, graças ao meio em que crescera, no Texas. Iniciei os meus vinte anos durante o apogeu do movimento antiguerra e do surgimento do feminismo na década de 1970, acontecimentos que em Austin estavam intimamente ligados. As mulheres que conhecera naquela cidade tinham quebrado as velhas regras: a de que elas iam às compras em vez de conversarem e a de que competiam pelo macho independentemente dos meios, ou a de que protegiam os seus medos e os anseios umas das outras como se fossem segredos profissionais. Fiz parte de uma banda de rock’n’roll feminina e fomos presas em conjunto; confiámos umas nas outras em todas as experiências que a década nos apresentou, desde a Faculdade de Medicina até à dependência de drogas. Quando troquei Austin por Nova Inglaterra, em 1981, tencionando tornar-me escritora, toda a coragem que possuía resultava em parte dessas ligações intensas.
As mulheres em torno de quem gravitara no Nordeste tinham a sua própria versão sobre os anos tumultuosos das décadas de 1960 e 70, mas as exigências da idade adulta contiveram as suas paixões. As minhas amizades em Boston tendiam a ser mais distantes, menos profundas. No território predominantemente masculino da sala de redação do Globe, onde trabalhei em meados da década de 1980, a maioria das mulheres que conheci estava demasiado ocupada a fazer a cobertura de guerras ou questões de política – o doce preço da vitória! – para dedicar muito tempo a relações próximas. A minha independência e solidão provaram-no: investira a maior parte dos meus recursos emocionais na construção do meu percurso como escritora, o que solidificara a minha vida e, provavelmente, até a salvara.
Percebi também, gradualmente mas sem margem de erro, que não queria ter filhos. Julgo que vislumbrara cedo essa possibilidade, apesar ter crescido na região conservadora de Texas Panhandle onde o casamento e a maternidade eram tão implícitos como a oração e o futebol. Os meus pais descendiam de famílias numerosas – o meu pai era o nono de dez irmãos, a minha mãe a mais velha de seis – e as suas infâncias apinhadas de gente tinham-nos convencido de que uma família pequena significava um luxo mais tranquilo. A minha mãe, Ruby, teve sempre um irmão mais novo pendurado em si durante toda a juventude e presumo que ela estivesse farta da sua tarefa quando deixou a quinta, aos dezoito anos, no auge da Grande Depressão. Fez o seu percurso no mercado de trabalho durante uma década, antes de casar com o meu pai, e depois esperou até ao final dos seus trinta anos para ter filhos – uma atitude radical na América de meados do século XX. Celebrou todas as vias para a felicidade: quando a minha irmã teve a sua filha, Ruby exultou de alegria; quando troquei o Texas pelo Leste e me tornei escritora, reagiu como se eu tivesse subido ao Kilimanjaro.
Quaisquer que fossem os caminhos alternativos que a minha mãe pudesse ter desejado para mim, o feminismo converteu-se numa autoestrada de quatro faixas. Conheci muitas mulheres cujas escolhas emocionais estavam intimamente ligadas à ideia de maternidade; como isso não tinha lugar no meu sonho, eu sentia-me livre para basear a minha necessidade de um parceiro apenas no amor. Fazendo parte da enorme vaga de mulheres que já não precisavam de casar para garantir um estatuto social, económico ou para terem filhos, concedera a mim própria o direito aos vastos e suaves pastos do não-compromisso. Esta era a boa notícia e, por vezes, também a má. Fizera a minha pequena odisseia para o Leste sozinha e desimpedida, e sabia que tinha evitado o jugo de um casamento infeliz ou ficar cativa do cheque de alguém. Nos dias bons, sentia-me livre, forte e orgulhosa de mim própria; nos maus, estava terrivelmente sozinha. Cansada da minha firmeza calvinista, uma velha amiga do Texas enviou-me um postal onde rabiscara uma divisa de quatro palavras: «BAIXA A TUA BITOLA».
Emocionantes ou cansativas, as narrativas de amor escritas por mulheres solteiras tendem a ser histórias sem nexo: caro leitor, eu segui em frente. Tive diversos relacionamentos ao longo dos meus vinte e trinta anos que oscilaram entre o drama profundo e o cómico tiro falhado, mas todos pertenciam ao meu período de liberdade demagógica – eram fugazes e intensos, ou falsos revolucionários e frustrantes, ou uniões adequadas num tempo errado. A maioria estava envolta na bruma âmbar do álcool, o que significava que a possibilidade de enganar a minha afeição pela garrafa era ínfima. Com uísque por perto, era quase sempre um ménage à trois.
Mesmo depois de estar sóbria, mantive durante algum tempo uma tendência para escolher mal e apaixonadamente. Não dei importância às investidas de um jovem repórter que, até conseguir uma missão numa delegação estrangeira, cirandava pela minha secretária no Globe; assim que soube que, daí a seis semanas, ele iria chefiar uma zona perigosa, onde permaneceria durante anos, tive um caso com ele. Depois conheci um jornalista que trabalhava para um diário numa grande cidade e vivia a cerca de oitocentos quilómetros de distância; quando me contou que sofria de trauma de guerra após um divórcio difícil, decidi que tínhamos sido feitos um para o outro.
Se não estivessem indisponíveis ou prestes a deixar o país, eu elegia o efeito morte lenta de Pigmalião, escolhendo um mentor inteligente, habitualmente narcisista, que quisesse puxar-me para a sua órbita. A minha última relação séria, com um homem chamado Sam dez anos mais velho do que eu, encaixava neste modelo de forma tão perfeita que provavelmente me libertou desta tendência para sempre. Ficámos juntos dois anos, uma pequena eternidade de drama intenso, e embora eu goste de pensar que teria sido capaz de reunir forças para o deixar por minha iniciativa, foi a sua mudança para outra cidade que acabou por ditar a separação.
Na noite em que o deixei, despedi-me num aeroporto cheio de gente, as lágrimas a caírem-me pela cara, e depois apanhei um pequeno autocarro de regresso a Boston. Na manhã seguinte, ao acordar, em vez de devastada, senti-me segura pela primeira vez em meses. A sensação era física, como se terminasse uma viagem de barco em que enjoara, num dia de mau tempo. Naquela noite, tinha uma festa de aniversário – vesti uma blusa de veludo, calcei botas de cowboy e passei a cara por água fria. Quando a anfitriã me veio receber à porta, franziu a testa preocupada e eu retorqui simplesmente: «Deixei-o.»
«Estás bem?», perguntou-me.
«Não», respondi, já sem o meu sorriso trágico. «Mas vou estar.»
Acabei por encontrar um bom terapeuta: um homem de voz suave, tão generoso e inigualavelmente irónico que a minha afeição inicial por ele rapidamente cresceu e se transformou em confiança. Era um jovem judeu de Brooklyn que citava Baudelaire e o Cântico dos Cânticos ; ria-se das minhas piadas, mas não quando eu me armava em sabichona para esconder a minha dor. Quando chorei e lhe contei que receava ser demasiado intensa, excessiva, ele interrompeu as minhas lágrimas e disse: «Se alguém descesse do céu à terra e me dissesse que apenas podia guardar uma coisa sobre si, eu escolheria a sua excessividade.»
Foi assim que começou uma das melhores relações da minha vida, a qual traçou, e por vezes guiou, a minha viagem em direção à luz. Fiz quarenta anos e dois dias, depois deixei de fumar – um hábito de um maço por dia durante vinte anos. A minha vida parecia espartana, mas sólida: Freud prometera trabalho e amor às pessoas equilibradas, e eu procurava alcançar uma versão moderna dos dois. O trabalho era a minha base; o amor pertencia a uma constelação de amigos em vez das preocupações e do conforto de um parceiro romântico. A noite era um pouco mais difícil de suportar, mas do alto da montanha que eu escalara até aqui nesta minha viagem ainda alcançava uma boa vista.
* * *
Então, na primavera de 1995, surgiu um cão de nome Clementine – uma experiência emocionalmente tão humilhante que abalou o meu mundo austero. Sempre desejara ter um samoiedo – cheguei a encontrar um guia de treino sobre a raça, um livro que eu tivera em criança –, mas como eram cães de trenó de grande porte decidi que era injusto manter um na cidade. Também tinha relutância em deixar um cão sozinho enquanto passava longos dias na sala de redação. Na mesma altura em que comecei a trabalhar em casa, os meus vizinhos de baixo, um jovem cirurgião e uma advogada, trouxeram para casa uma cachorrinha labrador com seis semanas. Ofereci-me para lhe fazer uma breve visita durante o dia e depressa me habituei a trazê-la para cima todas as manhãs. Ela adormecia no meu colo enquanto eu lia, um acordo de recompensa mútua que abriu a porta à minha velha fantasia de ter um cão de trenó. O meu velho gato persa tolerava o labrador, receção que me convenceu de que era possível introduzir outro cachorrinho no seu domínio. E assim começou a expedição em busca de um samoiedo, que me levou a viajar por toda a Nova Inglaterra. Falei com treinadores de cães que me asseguraram ser possível ter um samoiedo na cidade; procurei ajuda sobre a raça e criadores de referência que me interrogaram incessantemente para saber se eu corresponderia às expectativas. De cada vez que via um samoiedo na rua, abordava o dono e chateava-o com perguntas. Conduzi durante cerca de cento e sessenta quilómetros ao encontro de um criador cujos cães premiados eram campeões nacionais; os seus canis estavam tão cheios, e obviamente orientados para o lucro, que fugi angustiada. Depois fui a Connecticut: mais interrogatório, desta vez agradável pelos cinco samoiedos adultos que disputavam o meu colo. Por fim, depois de vários contratempos e pequenas confusões inesperadas, encontrei uma mulher no Norte de Nova Iorque que possuía uma ninhada de sete com cinco semanas. Disse-me que tinha uma longa lista de espera de um ano para os seus cachorrinhos, mas que alguém desistira naquela manhã, duas horas antes de eu telefonar. Nunca soube se foi o destino ou a arte de vender. Mas dois dias depois, conduzi durante cerca de trezentos quilómetros até Kingston, Nova Iorque, com uma reserva para o Holiday Inn local, quase deserto. O meu coração deixara já a estratosfera.
Aquela viagem era apenas para conhecer os cachorros e para que a criadora me pudesse conhecer a mim – para ver se eu era digna de fazer parceria com um dos seus cães. Ninguém que tivesse feito a viagem labiríntica ao mundo dos cães de raça pura reconheceria isto como um comportamento normal entre criadores, embora para os principiantes fosse simultaneamente intimidador e emocionante. Eu tinha conseguido empregos e hipotecas com mais facilidade do que a Clementine. A criadora deixava os candidatos escolherem dois cachorros e depois associava-os ao cão que lhe parecia ser o mais adequado. Escolhi uma cadela refilona e provocadora que tomou de assalto o meu colo no momento em que a conheci, e, uma cachorrinha pacata que dormitou durante a maior parte da visita. Ri-me quando a criadora me chamou para me dizer que eu ficava com a provocadora.
Duas semanas depois, voltei a Kingston. Regressei no mesmo dia com uma amiga que conduzia o seu Saab enquanto eu viajava no banco de trás com Clementine, que pesava perto de cinco quilos e num ano haveria de pesar cinco vezes mais. Trouxe-a para casa e dei início à frenética reorganização que um animal novo implica sempre: parecia que deixara um filhote de lobo à solta em casa. Ela não parava, era teimosa e não mostrava medo de nada; quando um cão-lobo irlandês com cerca de cinquenta e quatro quilos nos veio visitar, Clemmie colocou-se debaixo dele a ladrar furiosamente e não se deixou intimidar pelo facto de ser ultrapassada por um fator de dez. Após as primeiras vinte e quatro horas de privação de sono depois da sua invasão, sentei-me na varanda de trás com ela a dormir esparramada no meu colo – Ela tem pestanas brancas!, pensei –, e as lágrimas começaram a cair-me pela face. Toda a vida tivera animais, mas nunca o meu coração fora conquistado por um amor tão inequívoco.
Interpretei este vínculo pelo que ele representava: sentimentos instintivos e profundos, provavelmente maternais, por um ser que depende de nós para a sua sobrevivência. O meu respeito pela relação homem-animal era bem merecido: o meu pai sempre tivera cães a gravitar em torno de si e eu crescera com animais. No Texas, a minha irmã tinha um airedale e um border collie. Por isso, não estranhava o vínculo entre espécies e o momento e a forma como a Clementine surgira – mulher solteira, que não deseja filhos e adora cães – foi uma resposta providencial às relações primárias que todos desejamos. Este animal misterioso e inteligente que eu introduzira na minha vida parecia-me não um substituto, mas uma bênção.
A minha vida mudou da forma mais gratificante e banal. Em vez de sair para jantar fora com amigos, juntava-me à noite no parque com grupos de vizinhos que também tinham cães e vagueava com um conjunto de gente cujos caminhos provavelmente nunca se cruzariam num mundo sem eles. Como uma coruja noturna incorrigível, comecei a acordar às seis da manhã para manter as rotinas de treino; o meu apartamento, outrora um mundo ordenado de velhos tapetes persas e estantes, estava agora atulhado de brinquedos estridentes e lémures de peluche. Adiei a ideia da viagem ao estrangeiro que andava a planear e, em vez disso, aluguei uma casa junto de um lago em Wellfleet, onde ensinei Clementine a nadar. Tendo crescido em Panhandle, onde o cheiro das reservas de gado se sente a mais de uma dezena de quilómetros de distância, eu perdera aquele estilo de vida rústico desde que me mudara para o Nordeste. Agora, voltava a vestir o uniforme – calças de ganga, botas e sujidade nos joelhos – e sentia-me como se tivesse regressado a um porto seguro há muito esquecido.
Os meus novos amigos – o enclave subterrâneo de gente ligada a cães – entretinham-se durante horas a falar do comportamento de medo/agressividade ou das técnicas de socialização; se éramos vistos como pessoas loucas ou enfadonhas pelos nossos amigos que não tinham cães, lamentávamos o que eles estavam a perder. Agora, as longas noites de verão eram passadas no exterior, refastelados no campo a ver jogar basebol ou em passeios pela vizinhança. As minhas prioridades tinham mudado, muitas vezes para desconsolo de outros: numa elegante receção a que assisti em Newton, irritei os meus anfitriões por ignorar os convidados e ter ficado no jardim das traseiras a jogar com o seu retriever dourado. Inscrevi-me em aulas de treino de animais, depois num segundo e terceiro ciclos, e aguardava-as ansiosamente todas as semanas, divertindo-me com a clareza de comunicação inerente ao treino de um cão de trenó. A coação revelou-se desde logo inútil, tal como os sinais mistos, a ironia ou a indecisão. Os cães ansiavam e respondiam a instruções precisas, ao reconhecimento e ao elogio, tudo aquilo que é a linguagem clara e direta do coração. Para uma escritora, que todos os dias passava horas a pensar por entre a complexidade e beleza das palavras, esta ligação entre espécies era um espaço de conforto e libertação.
Assim, quando Caroline me contou, pouco depois de nos conhecermos, que estava apaixonada pelo seu cão, não precisei de explicações. Enquanto eu estivera imersa nos desafios de Clementine, a vida de Caroline era virada do avesso por Lucille, uma experiência mais tarde retomada em Pack of Two, o livro que ela tinha acordado escrever. Também ela assumira o treino como se estivesse a cumprir uma missão da NASA. Eu passei pelo Concord Armony, em Cambridge, para duas séries de treino com um antigo fuzileiro naval que estava convencido de que Clementine era um macho insubordinado; de cada vez que ela se portava mal ele gritava comigo, como se estivesse a falar com um batalhão: «Diz-lhe que é um patife!» Caroline estava tão encantada com os monges de New Skete, em Nova Iorque, mestres em pastores alemães e autores de reconhecidos guias de treino, que encontrou o número de telefone do mosteiro e suplicou-lhes que a deixassem levar Lucille até lá. Éramos particularmente pretensiosas em relação ao nosso conhecimento canino e fazíamos sinais uma à outra, engelhando o sobrolho, de cada vez que víamos alguém a cometer erros com os seus cães – dizendo «não» quando queria dizer «senta», ou usando o comando «vem» desregradamente. Porém, reservávamos para nós a nossa superioridade, exibindo-nos apenas uma para a outra. Mas Caroline superou-me no dia em que viu um bonito cão de pelo comprido que passeava em Fresh Pond, e gritou para o dono: «Esse é um Nova Scotia duck tolling retriever?»
Cada uma de nós pôs esta devoção à prova nos primeiros meses da nossa amizade: por coincidência, tínhamo-nos inscrito num campo de treino para cães, em Vermont, a decorrer durante uma semana em outubro. Uma multidão de gente apaixonada por cães reuniu-se em camaratas instaladas em extensos campos verdes, onde pessoas e cachorros passaram pela experiência de uma concentração total em treino, agilidade, refeições em grupo e diversões organizadas. Em meados da década de 1990, estes locais eram uma exceção, e Caroline tinha avaliado o local como uma oportunidade de estudo. Eu estava lá simples mente por brincadeira. Era como um campo de nudistas para adeptos de cães, onde podíamos gozar um estado natural longe das pressões inibidoras da sociedade. Se alguém quisesse vestir o seu animal de forma engraçada ou praticar exercícios de agilidade com um cão de caça afegão ninguém faria troça, pelo menos publicamente.
De um ponto de vista razoável, o campo era efetivamente uma confusão total. Cerca de oitenta pessoas e os respetivos cães compareciam para o encontro de outono e a atmosfera carnavalesca era, provavelmente, mais fácil para os humanos do que para os animais. Border collies lançavam-se
em competições de 6 frisbee, os seus olhos brilhando com motivação evangélica. Welsh corgis marchavam colina acima determinados como soldados. Eu observava o meu cão a correr atrás de um chamariz a uma velocidade que parecia superior a sessenta quilómetros por hora; o programa da manhã da CBS estava lá a filmar, por isso Clementine pôde gozar do seu tempo de antena ao sol. À noite, Caroline e eu suportávamos um jantar de estilo cafetaria e depois escapávamo-nos antes das preleções agendadas e dirigíamo-nos aos nossos quartos no exterior para longas conversas sobre os absurdos do dia. Perto do final da semana, durante uma caminhada de grupo pelos terrenos ondulados de Vermont, olhei para trás e vi uns vinte cães descontroladamente enérgicos investindo colina acima, metade deles com coleiras e trelas reguláveis e os donos a tentarem, em vão, contê-los. Parecia um filme louco da Disney. Caroline e eu esgueirámo-nos, procurámos um trilho isolado em ziguezague, e deixámos os cães correrem. Clementine descobriu um veado na subida e desatou a correr atrás dele; para meu espanto e contentamento, parou quando ia no seu encalço assim que ouviu o meu assobio de longo alcance, que era o sinal para regressar. Olhou para baixo, para mim, depois novamente para o veado, e desatou a correr para trás na minha direção. Foi o suficiente para me convencer de que eu estava a fazer bem o meu trabalho. Naquela altura, eu já estava farta da agenda da colónia. Esquivei-me dos eventos do último dia, abdiquei de uma noite no B&B [alojamento e pequeno-almoço] mais próximo e dirigi-me a Boston. Caroline, sempre a melhor aluna, ficou irritada, embora impressionada, com a minha revolta e assumiu-a como uma deixa para a sua própria retirada, apesar de, delicadamente, ter procurado os organizadores (que não podiam ter-se importado menos) para os informar de que estava de saída.
Esta era uma das dinâmicas entre nós que acabámos por valorizar: ela era a menina bem-comportada e eu a rebelde, e cada uma de nós aprendeu o suficiente com a outra para expandir o seu respetivo território. Filha de intelectuais liberais que tinham venerado Freud e a arte em vez de Deus, queixava-se frequentemente de que na vida não tivera muito com que se
revoltar. Na região do «Cinturão da Bíblia»7 abundavam os eventuais motivos para a minha revolta. A minha mãe fora educada num ambiente batista tão rigoroso que renunciava a jogar cartas ao domingo; o meu pai era um democrata apoiante de Nixon que patrulhava a nossa rua suburbana com uma espingarda – descarregada, mas verdadeira – para proteger as jovens filhas, particularmente quando a presa era um grupo de rapazes adolescentes. Caroline adorava ouvir estas histórias. O seu pai, enfrentando semelhantes rivais pelas suas filhas, ter-lhes-ia brandido com um teste de Rorschach em vez de uma arma.
Era outono e nós passeávamos pelas estradas corta-fogo próximo de Sheepfold Meadow, em Middlesex Fells; estava uma tarde de domingo magnífica e dezenas de pessoas tinham-se afastado dos limites, para lá das placas que indicavam Propriedade Privada, próximo da zona proibida, para aproveitarem a vista. Um polícia municipal aproximou-se e reuniu apenas aqueles que tinham cães, ignorando as famílias com carrinhos de bebé e os solitários que vagueavam por ali. Juntou-nos numa fila, como se fôssemos um grupo de delinquentes, e começou a redigir citações por invasão de propriedade. Eu planeava usar um nome falso, uma atitude que me parecia ser a mais óbvia, mas Caroline, que estava à minha frente, informou respeitosamente o agente sobre quem era e onde vivia. Suspirei e decidi fazer como ela.
Algumas semanas mais tarde fomos citados a comparecer em tribunal na cidade vizinha de Stoneham, onde todos – dezanove infratores – recebemos uma repreensão comicamente severa pela nossa transgressão e fomos sentenciados com uma pena de seis meses em liberdade condicional. («Onde fica Stoneham?», perguntara Caroline ao telefone na manhã anterior à da ida ao tribunal.) Levantei-me para me dirigir ao juiz e comecei a queixar-me de tratamento discriminatório, uma vez que só os donos de cães haviam sido citados. O juiz anotou sumariamente a minha objeção e Caroline pareceu ter ficado embaraçada comigo. O nosso amigo Tom, vendo o aspeto cómico da detenção de Caroline, ofereceu-lhe uma T-shirt com uma imagem estampada de Lucille atrás das grades, que ostentava a legenda: LIBERTEM OS ANIMAIS.
Kathy, a treinadora de cães que primeiro nos tinha sugerido que nos conhecêssemos, fizera-o baseada num pressentimento; era uma pessoa profundamente intuitiva que passava os dias a observar cães e pessoas para todo o tipo de dicas de comportamento. Uma mulher pequena e de voz suave que tinha dois pastores alemães e que conseguia travar um cão teimoso ou dominador com o seu temperamento calmo e a sua voz eficiente. Era igualmente perspicaz em relação às pessoas e tinha reconhecido algo em Caroline e em mim antes mesmo de nos tornarmos amigas. Um dia, alguns meses mais tarde, quando estávamos numa sessão de treino conjunta no jardim das traseiras de Kathy, estendi a mão para mexer na gola de Caroline e exclamei: «Meu Deus, tenho um colete igual!»
«É claro que tens», disse Caroline, pouco impressionada. «Porque não? Nós temos a mesma vida.»
Mais intensa do que a maior parte dos paralelismos mais óbvios que existia entre nós era a história que tínhamos em comum – aquele lugar vazio no coração que é a essência da dependência. Caroline e eu cedo passaríamos a contar tudo uma à outra, mas durante os primeiros meses da nossa amizade eu guardei a nossa maior semelhança para mim. No verão, antes de nos tornarmos amigas, li o livro de memórias de Caroline, Drinking: A Love Story, numa cabana ensopada de chuva em Truro, Cape Cod, para onde tinha ido uma semana com Clementine. Nadava nos lagos durante o dia e lia na varanda protegida até ao crepúsculo, e ainda me lembro de mim ali sentada, com a Clemmie dormindo a meu lado enquanto eu lia até, lá fora, o anoitecer ficar escuro como breu. Foi a época da primeira vaga de livros de memórias escritos por celebridades com vícios, quando Pete Hamill e alguns outros se revelaram em novas versões másculas de «Debaixo do Vulcão». Até então, a maioria das histórias sobre bebida pertencia ao clube masculino. Naquela noite em Truro, li o livro de Caroline de uma assentada. Percebi que era doloroso, honesto e revelador. E como tinha despejado a minha última garrafa de Jack Daniel’s no lavatório da cozinha doze anos antes, sabia também que era verdadeiro.
6 Frisbee é um objeto em forma de disco, geralmente feito de plástico, cujo formato permite o voo quando lançado em rotação. O nome é também uma marca registada, mas é frequentemente usado para descrever todos os tipos de «discos voadores» usados em jogos onde podem participar pessoas e cães. Estes jogos consistem em lançar o disco e depois apanhá-lo ainda no ar. (N. da T.)
7 Cinturão da Bíblia (Bible Belt, em inglês) é um termo informal que designa uma área dos Estados Unidos (grande parte do Sul) onde a prática fervorosa da religião protestante evangélica faz parte da cultura local. (N. da T.)
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