Um Longo Regresso a Casa
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Se a compatibilidade é devida em parte à sorte e em parte ao esforço, a nossa determinação fora posta à prova pelas viagens que fizéramos durante o verão, quer juntas, quer separadas. Mais do que uma vez, essas férias transformaram-se numa missão de salvamento. Caroline livrou-me de duas semanas deprimentes e chuvosas em Truro, ao aparecer com uma cassete da série Os Sopranos e um pudim de pão do Formaggio. Um mês depois, devolvi-lhe o favor quando ela e Morelli estavam abandonados à sua sorte em New Hampshire, com mau tempo, enviando-lhes por correio expresso um vídeo do programa Sobreviventes – o prazer secreto de Caroline. Num ano em que Tom chegou a Chocorua um ou dois dias antes de mim, Caroline telefonou para Cambridge suplicando-me que fosse um dia mais cedo. «Tens de vir para cá», murmurou. «O homem fez-me caminhar durante mais de catorze quilómetros, hoje. Quase não me consigo mexer.»
Estava fora de questão deixar que Tom descobrisse as suas limitações: no ano anterior, Caroline por pouco não o vencera no braço de ferro. Eu era um parceiro mais fácil, pelo menos no que dizia respeito às caminhadas na montanha. Também tínhamos percebido que podíamos seguir caminhos paralelos, em silêncio. No início da nossa amizade, estivéramos numa casa pertencente à família dela em Gay Head, na ilha de Martha’s Vineyard, no final de março. Naquela extremidade da ilha, a paisagem é agreste mesmo no pico do verão; no início da primavera, o lugar era frio e desolado. Foi uma viagem difícil. Havia imensas carraças novas nos pântanos à volta da casa e, depois de uma corrida, os cães emergiam da erva alta com o aspeto de terem sido polvilhados com sementes de papoila. Caroline e eu embrulhávamo-nos em camisolas de manga comprida, munidas de escovas e álcool, e sentávamo-nos no chão, na luz que enfraquecia, escovando dezenas de carraças do pelo dos cães. Ao fim de dois dias de chuva, eu estava com um tal ataque de claustrofobia que guiei trinta e dois quilómetros através da ilha para ir nadar na piscina de um hotel. Caroline passou a maior parte do tempo em que estive ausente a falar com Morelli ao telefone, atormentada pelas recordações que a casa lhe suscitava. Quando fechámos a casa e nos dirigimos a Vineyard Haven para apanhar o ferry, estávamos ambas esgotadas e incapazes de fazer um esforço para nos mostrarmos bem-dispostas. Uma hora antes da saída, levámos o carro para a longa fila do ferry que faz parte da vida em Martha’s Vineyard, e esperámos com os cães no parque de estacionamento até serem horas de partir.
Então, no passeio de tábuas do outro lado da estrada, vi uma silhueta que fez o meu estômago saltar até à garganta. Estava alguém sentado num banco a ler o New York Times e eu convenci-me de que era Sam, o homem de quem me tinha separado cinco anos antes – a cujas cartas nunca respondera e a quem não tinha voltado a ver depois do dia em que o deixara num aeroporto, noutra cidade. «Oh, meu Deus, Caroline», disse eu, «é o Sam!» Ela conhecia todas as histórias sobre essa parte dolorosa da minha vida, incluindo o facto de ele passar muito tempo em Martha’s Vineyard, e percebeu ao primeiro olhar o quanto me sentia infeliz perante a perspetiva de o encontrar.
«Segura os cães», disse ela abruptamente, passando-me a trela de Lucille. «Tem calma. Sei o que hei de fazer.» Moveu-se demasiado depressa para que eu lhe pudesse responder, por isso, fiquei ali de pé enquanto ela marchava na direção do homem no banco. Pôs-se a cerca de nove metros à sua direita e gritou o seu nome, sorrindo e acenando para uma pessoa inexistente para além dele. Agia com base na suposição de que, se o homem fosse Sam, saberíamos imediatamente porque ele se sobressaltaria ao ouvir o seu nome; se eu estivesse enganada e ele a ignorasse, então não teríamos de passar as próximas duas horas a fugir dos fantasmas do passado.
O homem mal olhou na sua direção antes de voltar a ler o jornal. Mas todas as outras pessoas sim – bem, Caroline gritava e acenava e ninguém lhe respondia, mas havia um monte de gente, cerca de sessenta ou setenta pessoas, a fitá-la. Caroline era uma mulher tão tímida que mal conseguia suportar ser alvo de qualquer tipo de atenção mas, agora, deixara-me a rir até me doer o estômago e fizera figura de parva em público para me sossegar. Nunca gostei tanto dela como naquele momento. Voltou a passos largos para o lugar onde eu estava, orgulhosa das suas palhaçadas e contente por me ver rir. «Aquele tipo tem quase cem anos», disse, encolhendo os ombros. Agarrou a trela de Lucille e acendeu um cigarro.
Os cigarros. Gostaria de os deixar de fora desta história, mas não posso. Durante a viagem a Martha’s Vineyard, eu aprendera a dar a Caroline o tempo de que ela precisava diariamente para resolver as palavras cruzadas do New York Times – uma condição sine qua non para a qual necessitava de silêncio absoluto à medida que a semana avançava e as palavras cruzadas se tornavam mais complicadas. Se interrompêssemos a sua concentração, ela fuzilava-nos com um olhar de tal modo carregado de desprezo humilhante que era capaz de fazer parar um pregador. As minhas regras de proximidade numa relação eram tão exigentes como as dela. A única maneira de Caroline conseguir sobreviver a uma viagem de carro de três horas comigo era mastigando pastilhas de nicotina. O facto de eu ter entendido o seu gosto pelo tabaco e de ela ter tolerado a minha aversão era uma prova do afeto imediato que sentimos uma pela outra. Eu deixara de fumar há quatro anos e levara vários a tentar antes de conseguir, pelo que sabia que cultivar o seu desejo de deixar o tabaco era muito mais eficaz do que qualquer tipo de ameaça ou tática de intimidação que eu pudesse utilizar.
Mas nem sempre imperava esta equanimidade: quanto mais próximas nos tornávamos, menos eu conseguia suportar o facto de Caroline fumar. Um dia, comecei a gritar com ela ao telefone depois de a ter pressionado para deixar o tabaco, de ela me ter pedido que a deixasse em paz e de eu não ter sido capaz de o fazer, e proferi algo que me é penoso recordar. «Tens menos oito anos do que eu», gritei. «Não quero ter de assistir ao teu funeral.»
Esta preocupação não era só minha. Antes de morrer, a mãe de Caroline tinha-lhe suplicado que deixasse de fumar, e Caroline disse-me mais do que uma vez que não estava à altura da aliança existente entre mim e a sua irmã, Becca – com a pressão exercida pelas duas, ela sabia que teria de deixar o tabaco. Mas adorava fumar, tal como outrora o meu pai com o seu hábito de três maços de tabaco por dia durante décadas. Eu crescera com o cheiro do seu café e dos seus cigarros Camel produzindo em mim uma sensação de segurança, e sabia que esta ligação podia ser uma mistura de veneno e desejo. A maior parte das dependências, incluindo as de Caroline, são ao mesmo tempo complexas e previsíveis. O cérebro, eterno cúmplice, transforma o desejo numa narrativa: o cigarro, o bourbon ou a relação obsessiva tornam-se a corda a que nos agarramos, aquilo que conduz o nosso dia. Caroline acreditava que não conseguiria escrever sem um cigarro, que não seria capaz de suportar uma noite ou uma hora no interior das vastas cavernas de um mundo sem tabaco. Experimentou as pastilhas de nicotina e tentou olhar para fotografias com pulmões de fumadores; pesquisou centros de tratamento para o vício da nicotina e, finalmente, conseguiu parar sozinha, mesmo antes de ser obrigada.
O tabaco não era uma fonte de problemas entre nós, mas antes uma fonte de angústia comum. Caroline e eu partilhámos alguns dos momentos mais idílicos das nossas vidas, mas a parte mais importante da nossa amizade resultou das expedições mais difíceis que suportámos juntas. Desde aquela primeira tarde de inverno nos campos de basebol de Harvard, o sentimento de «Oh, não!, preciso de ti» tornara-se uma confissão e um apelo estridente – o dogma da dependência que forma a teia da amizade. Precisávamos uma da outra, de modo a podermos contar com dias intermináveis de florestas e água rasa, mas a verdadeira necessidade foi soldada pelos momentos mais tristes e duros – momentos de discórdia, impotência ou medo – que ousámos revelar entre nós.
Levei anos a compreender que este desgaste e mal-estar num relacionamento são um indicador de proximidade, não o seu oposto. Aprendemos desde o início a lutar bem e de forma justa: ao assistir a um conflito direto entre nós, Tom pegou no livro que estava a ler e subiu as escadas. «Cresci com as minhas irmãs», disse, ao retirar-se. «Sei como isto vai acabar.» Caroline e eu tínhamos uma grande capacidade de nos magoarmos uma à outra e como reconhecíamos a existência desta arma tentámos não a utilizar nunca. Para além do tabaco, penso que nos zangámos por nada de importante. Ambas podíamos ser arrogantes e rabugentas e excessivamente sensíveis e, no entanto, perdoámos estas características uma à outra quase imediatamente e sem grande esforço.
A confiança existente entre nós permitia-nos abreviar a comunicação e ir direto ao assunto rapidamente. Caroline sabia que quando me recolhia no meu canto mais profundo de melancolia existencial esta se manifestava de uma forma ora cómica ora moderada. Durante anos, tive uma jovem e encantadora rapariga da Guatemala que me vinha limpar a casa de duas em duas semanas. Ela adorava Clementine e dizia muitas vezes: «Um destes dias levo-a comigo!» Uma tarde, depois de Lilian ter saído, numa altura em que me sentia ameaçada pelas pequenas traições da vida, convenci-me de que ela falava a sério. Num ataque de ansiedade maternal telefonei a Caroline, que conhecia Lilian e a sua atitude meiga e brincalhona. «Achas que ela estava a falar a sério?», perguntei. «Quer dizer, realmente, achas que ela poderia levar a Clementine?» Caroline foi gentil naquele dia – não se riu nem fez troça – mas, durante os anos que se seguiram, sempre que eu começava a complicar as coisas a propósito do mundo e dos seus potenciais infortúnios, tudo o que Caroline tinha de fazer para me trazer de volta à realidade era dizer, com a calma de quem faz um diagnóstico: «Receio que a Lilian esteja outra vez a roubar o cão.»
Estes eram os dramas quotidianos que confessávamos uma à outra e aos quais retirávamos importância pelo simples facto de os expressarmos. Caroline telefonou-me, aflita, por causa de um jantar informal – era tão tímida que andava há dias a temer a data. Eu disse-lhe para comparecer e sair cedo e ela conseguiu ficar onze minutos. Apressava-me quando eu perdia tempo com ninharias e eu consolava-a quando se metia em sarilhos por causa da sua eficiência excessiva, como quando entrava a toda a velocidade num estacionamento coberto e quase arrancava do tejadilho do automóvel a grelha porta-bagagens destinada ao barco. Dividíamos o mundo conforme os nossos pontos fortes: eu tinha jeito para os computadores e para as tarefas de veterinária e Caroline encarregava-se das reparações domésticas e de qualquer façanha que exigisse força física. No que dizia respeito aos assuntos da alma e da mente, cada uma de nós sabia como cuidar da outra. Mas a capacidade de aceitação de Caroline era maior do que a minha, como o eram também as suas competências diplomáticas.
Em privado, e não inteiramente a brincar, acreditávamos que todas as pessoas podiam ser caracterizadas por uma raça de cães. «Meu Deus, ele é mesmo um caniche fulvo-alaranjado», dizia Caroline sobre alguém vaidoso ou importante, ou então, entre dentes, sobre uma mulher cujo riso parecia o zurrar de um burro: «Beagle.» Uma tarde, Morelli ouviu-nos a fazer isto durante uma caminhada e parou abruptamente, passando de divertido a incrédulo: «Vocês estão mesmo a falar a sério, não estão?» Esta taxonomia tornou-se um código para a personalidade humana e, sempre que alguém nos despertava a atenção, a questão inevitável era identificar a raça à qual pertencia. Gostávamos de classificar Morelli como um labrador cor de chocolate (coração grande, sentido de humor) e eu teimava que Caroline era um collie (esperta, nervosa, leal), mas durante anos cogitámos sobre qual seria a minha raça. Finalmente, um dia, no início de um passeio, Caroline declarou que a sua investigação terminara.
«Já decidi a que raça pertences», disse-me, com uma certeza mordaz. Engoli em seco – aquilo era um assunto importante. Caroline fez uma pausa antes de pronunciar o veredicto: «Um jovem pastor alemão fêmea.»
«Oh! Mas...» Eu estava abalada e um pouco nervosa. «Quer dizer, são uns cães ótimos», retorqui, «e sei que são espertos, e tudo. Mas são tão sérios. E são pastores – são tão mandões e dominadores.»
O sorriso de Caroline foi a sua resposta. «Bem, foi por isso que disse que és uma jovem fêmea», disse ela. «Para dourar um bocadinho a pílula.»
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