Um Longo Regresso a Casa

Gail Caldwell · Capítulo 10 de 15

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Um Longo Regresso a Casa

.8.

Naquele mês de dezembro, uma tempestade de neve e vento deixou-me pendurada durante dias no Texas, onde aproveitara os feriados para visitar a minha família. Finalmente, consegui lugar num voo, cuja rota fora desviada por Chicago, com destino ao Massachusetts. Caroline, com quem estivera em contacto por telefone durante a penosa experiência, levara Clementine para o meu apartamento uma hora antes da chegada do meu voo a Boston. No final de um dia de viagem longo e difícil, afundei-me no assento de trás de um táxi no Aeroporto Internacional Logan, desejando apenas estar na minha própria casa, sentar-me no sofá, sentir o tufo de pelo em volta do pescoço de Clementine e ouvir a voz de Caroline ao telefone. «Refém do afeto», recordo-me de pensar, as palavras surgindo sem saber de onde. Ter saído da cidade foi o que me mostrou, o que me recordou, o quanto estas duas criaturas me ajudavam a manter a minha estabilidade emocional. Embora, naquela altura, esta constatação fosse mais reconfortante do que desanimadora, ainda assim era um desvio radical da minha norma. Por mais reservada que Caroline fosse, eu era provavelmente pior – mais teimosa, mais orgulhosa, de uma forma refletida – quando me magoavam a sério. Numa situação de crise, fechava-me em mim própria, mais receosa de que alguém me desiludisse do que de ter de fazer as coisas sem ajuda.

Por razões que talvez tenham a ver, quer com temperamento, quer com hereditariedade, passara a vida inteira cultivando a independência, talvez um pouco exageradamente. Absurdo ou louvável, muito deste comportamento era desnecessariamente grave. Percorrera longas distâncias à boleia, sozinha, quando tinha vinte e poucos anos; durante

anos, nadara nos lagos Wellfleet depois do 15 Labor Day, quando estavam completamente desertos, até que um temporal do início de outono me convenceu de que era má ideia. Tais proezas eram heroicas, pensava eu, em relação ao enorme sofrimento que a sua realização implicava. Mesmo depois de ter deixado de beber, nunca quis que a solidão limitasse a minha liberdade de movimentos, por isso oferecia-me para ir trabalhar para o Wyoming ou para Londres ou para qualquer outro sítio onde nunca estivera – rangendo os dentes perante a dificuldade de tais empreendimentos e obrigando-me a continuar porque achava que devia estar disposta a suportar a dor e o isolamento para gozar a aventura.

Mas por muito que me queixasse da solidão, também precisava dela. Estar livre de compromissos, não ter de responder perante ninguém, era algo que me era muito caro. A minha irmã, casada e feliz a mil e seiscentos quilómetros de distância, ria-se de cada vez que eu expressava a fantasia de esperar até que surgisse o homem certo para casar. «Não sei, Caldwell», dizia, recorrendo ao nosso velho hábito adolescente de chamar a outra pelo apelido. «Não creio que sejas capaz. Ias precisar de uma trela muito comprida.»

A verdade era que eu sempre fugira. Os homens com os quais não casei, as relações que abandonara ou nas quais me envolvera com pouco entusiasmo – havia sempre um sinal de saída bem iluminado de acordo com as normas da construção civil em cada edifício que ajudei a criar. «Sejamos francos», disse-me um dia um amigo do sexo masculino, solteiro e com quarenta e tal anos, sobre o facto de vivermos sozinhos, «nenhum de nós chegou a este ponto sem uma grande habilidade e muito esforço.» Na altura ri-me, mas fiquei inquieta com a perspicácia do comentário e com o facto de isso ser mais óbvio para ele do que para mim.

Depois de o táxi me ter deixado à porta do apartamento, naquela noite de inverno, abracei o cão e liguei para o atendedor de chamadas de Caroline para lhe dizer que chegara. Já passava das oito da noite e não estava realmente à espera de conseguir falar com ela. «Já cheguei, está tudo bem», disse. «Não precisas de atender. Vou às compras e falo contigo amanhã.»

Passados vinte minutos, quando estava a pôr as mercearias no meu velho Volvo, um condutor descontrolado apareceu às guinadas pelo parque de estacionamento, a grande velocidade, e enfiou-se na traseira do meu carro. Tudo aconteceu tão depressa que, mais tarde, só me lembrava de ver uma mancha branca em movimento e em seguida estava a voar pelo ar. O Volvo salvara-me a vida: o impacto de um carro a embater no outro atirara-me pelos ares como uma bola de bilhar. Quando voltei a mim, estava de gatas no pavimento, a alguns metros do ponto de impacto, deitando sangue do queixo e praguejando. Havia várias pessoas de pé à minha volta. Alguém chamou o 112; outra voz sem corpo declarou reconhecer-me e recolheu o que restava das mercearias espalhadas para levar a minha casa. Quando os paramédicos chegaram e me amarraram a uma maca, comecei a discutir com eles para não me cortarem as calças de ganga e as botas Lucchese. Ao chegar ao hospital estava excitada por causa da adrenalina e a contar anedotas: a exuberância falsa característica das trincheiras.

Estive uma hora na maca à espera para tirar uma radiografia. Quando me deram alta eram onze horas da noite. Os meus ferimentos não eram graves – pontos no queixo, algumas entorses e contusões, mas nenhum osso partido – mas gritei de dor quando tentei apoiar-me na perna. Assoberbado por emergências mais prementes, o pessoal do hospital deu-me uma bengala e chamou um táxi. Nas três horas que lá passei, com um telefone a pouco mais de um metro de distância de onde me encontrava, nem uma só vez me ocorreu ligar a Caroline, ou a qualquer outra pessoa, para pedir ajuda.

Ou deverei dizer que, quando efetivamente me ocorreu, rejeitei a ideia com o sangue-frio defensivo dos momentos de crise. Era domingo à noite e eu sabia que Morelli estaria em casa de Caroline para passar a noite. Não os queria acordar e sabia que, se telefonasse, eles se sentiriam obrigados a vir ao hospital. Satisfeita com a minha independência, subi as escadas para o meu apartamento, meio aos trambolhões, meio a rastejar.

Mas lá dentro, quando estava na sala de estar, à meia-noite, com Clementine a farejar as minhas calças de ganga manchadas de sangue, fui-me abaixo. Telefonara aos meus pais, que estavam no Texas à espera de saber se o meu avião chegara em segurança, e mentira-lhes com quantos dentes tinha na boca. Eles tinham oitenta e tal anos, o meu pai estava na fase inicial da doença de Alzheimer e eu não achara necessário alarmá-los. Então, toda a minha bravura desabou e marquei o número de telefone de Caroline. A minha voz quebrou-se quando ela atendeu. «Estou bem, estou bem», repetia, insistindo neste prefácio antes de contar a história para não a assustar. Ficámos a falar ao telefone até que ela me convenceu a arranjar alguma coisa para comer e ir para a cama.

O meu carro, um Volvo com dez anos, ficara muito danificado. No dia seguinte, Caroline veio buscar-me no carro dela e voltámos ao parque de estacionamento do supermercado. Ela foi à loja comprar algumas coisas de que eu precisava, enquanto eu tentava pôr o meu carro a trabalhar e retirar o livrete. Dez minutos depois, quando saiu, encontrou-me em pé, de olhos vidrados, perto do local onde eu tinha aterrado; havia uma poça de sangue seco no asfalto. Durante a viagem de regresso a casa ela estava estranha mente calada e, por fim, de repente, disse-me porquê. «Não paro de pensar que, se ao menos tivesse atendido o telefone da primeira vez que telefonaste», proferiu, «isto nunca teria acontecido. Mais três minutos e estarias fora do caminho daquele carro.»

Eu conhecia este diálogo interior de autoculpabilização: era traiçoeiro e impossível de vencer. Caroline não estava apenas preocupada por não ter podido interferir com os estúpidos desastres do destino, mas com o facto de ser, de alguma forma, responsável pelo sucedido – preocupada que as suas tendências isolacionistas me tivessem colocado em perigo. Este era o tipo de ideia fixa a que ambas nos podíamos dedicar, por isso declarei que o oposto era verdadeiro: se ela tivesse atendido o telefone, insisti, eu poderia estar naquele momento a sair da loja, mesmo em cheio na trajetória do carro.

Apesar de todos os ensinamentos práticos deste incidente, o seu único momento indelével, que permaneceu muito depois das feridas terem sarado e do carro ter sido substituído, foi aquele que eu contara a Caroline nessa tarde: o pensamento que passou pela minha cabeça enquanto estava no ar. O mundo surge com um tecnicolor feroz durante uma crise e, dez anos depois, ainda recordo o arco visual descrito pelo meu corpo ao ser atirado pelo ar, a minha linha de visão cerca de sessenta centímetros acima do habitual. Mas aquilo que recordo melhor é o ataque territorial que senti, a indignação, à medida que deslizava pelo espaço. Como se atrevem, sentiam a minha mente e o meu corpo, ambos de acordo e furiosos. Estou a viver a minha vida. Sentia-me indignada porque andava há anos a trabalhar nesta história e sabia que ainda não estava acabada.

* * *

Depois de uma década a viver no Leste, tempo suficiente para separar a realidade do sonho, conduzia pela Battle Street abaixo, numa noite de inverno, no início de uma tempestade, a neve surfando nas correntes de um vento suave, quando me surgiu o pensamento dissonante de que poderia envelhecer neste lugar – algo que antes nunca me tinha ocorrido acerca de nenhum outro local, e de certeza nunca durante o inverno da Nova Inglaterra. Mas Cambridge tocara-me desde o início. Adorava as típicas calçadas de tijolo, bem como a serenidade contida que a cidade projetava: toda aquela história imponente, misturando-se com pereiras em flor e músicos de rua.

Durante anos, eu acalentara a ideia de ser proprietária, geralmente como uma realidade alternativa ao sítio onde me encontrava. Sonhei com um pequeno pedaço de terra em Truro, naquilo que era, à época, a extremidade deserta de Cape Cod. Pensei numa pequena casa em Austin onde poderia passar o inverno, ou numa quinta fora da cidade com espaço para um par de cães. À medida que a procura se tornara mais realista, comecei a ver casas por toda a região de Boston, consumindo-me com as possibilidades ou suspirando por propriedades que não podia comprar. Era como um lobo às voltas em torno das suas fronteiras, procurando em todo o lado exceto no epicentro da minha vida.

Estas falsas partidas provavelmente refletiam a minha tendência para fugir e depois desejar ardentemente. Deixa o Texas, depois sente-lhe a falta para sempre. Ama a tua família a mais de três mil quilómetros de distância. Recusa-te a casar, depois passa o resto da vida queixando-te que devias tê-lo feito. A característica enraizada a que a minha mãe chamara cisma tinha o caminho livre no que respeitava ao sítio onde eu imaginava pertencer. Podia explorar universos alternativos a meu bel-prazer dentro da geografia do mundo do «podia ter sido», onde o desenlace era sempre mais agradável e as propriedades imobiliárias mais baratas. «Devia ter ficado na região do Panhandle e estaria feliz, casada com um rancheiro e com cinco ou seis filhos», anunciei uma vez ao meu terapeuta, que geralmente não costumava rir às gargalhadas com tais declarações formais. «Acho que a palavra-chave aqui é ‘feliz’», disse ele, sempre pronto a destruir uma ilusão, se pudesse. Para dar seguimento à piada, enviou-me um mapa da verdadeira cidade de Happy, no Texas, uma pequena comunidade com cerca de setecentas pessoas a sul de Amarillo. Mantive o mapa de Happy na parede do meu escritório durante vários anos, para me lembrar dos Campos Elísios que todos nós imaginamos.

«Nem tudo o que luz é ouro.» Este era um dos ditados preferidos de Caroline, dito originalmente a respeito de uma amiga comum, uma mulher que tinha ido atrás de uma vida de sonho no estrangeiro e acabara enganada e infeliz. O ditado tornou-se um código para todas aquelas vidas aparentemente perfeitas que são vividas noutro lado qualquer, com melhores empregos, melhores companheiros ou estados de alma. Sempre que eu perguntava (no inverno, no meio do trânsito ou num dia mau), «Por que razão vivemos aqui?», Caroline respondia imediatamente, «Fresh Pond e o Starbucks». Ainda não havia um Starbucks em todos os pontos da América, mas Caroline estava a resumir o todo indefinível: o poeta sombrio na esquina, o rio ao anoitecer ou o talho onde nos conheciam pelo nome. Vivíamos aqui uma pela outra, por toda a gente que amávamos dentro de um raio de cerca de trinta quilómetros e por todas as boas razões pelas quais as pessoas vivem onde vivem. Precisam de contemplar um campo de trigo ou o oceano; precisam do cheiro de uma trovoada ou do barulho da cidade. Ou precisam de partir, de forma a poderem inventar o que necessitam em qualquer outro lugar.

De acordo com os nossos respetivos passados imaginários, eu era a exilada e Caroline a filha que ficara. Eu fugira das terras desoladas da região do Panhandle, povoadas por quintas e ranchos, conseguira ir até Austin, oitocentos quilómetros para sul, e vivera em São Francisco durante alguns anos antes de me dirigir finalmente para leste. Caroline crescera em Cambridge, a alguns quarteirões do Radcliffe Quad. Quando chegou a altura, frequentou a Universidade de Brown, em Providence, a uma hora de distância. Regressou a Cambridge quatro anos depois, não se tendo afastado da casa da sua infância mais do que alguns bairros. O que era familiar para ela era exótico para mim – a sua Cambridge era a minha Amarillo –, e parecia fazer parte do preço a pagar pela urbanidade, tal como crescer em Greenwich Village, considerar que era uma cidade natal demasiado sofisticada para se fugir dela. No ano a seguir à morte dos pais, Caroline comprara uma casa vitoriana no centro de Cambridge, com um chão de tábua corrida em pinho, uma chaminé de tijolo e um pé-direito de três metros. Com mais de um século, a casa estava repleta de ângulos e elegância, com mobília confortável estilo Missão e os brinquedos de Lucille cuidadosamente organizados de modo a que ela os pudesse alcançar. Eu vivia a alguns quilómetros de distância, num apartamento situado num segundo andar cheio de luz, que arrendara por dez anos. Muita da ambivalência que sentia relativamente a assentar raízes era atenuada pela sensação de abrigo que eu sabia que a casa de Caroline lhe proporcionava. Quando o pragmatismo finalmente venceu a inércia, dei início à tarefa árdua de visitar as casas abertas ao domingo, através de uma imensidade de catálogos de propriedades – o longo e sinuoso percurso que acompanha habitualmente a procura de casa. E Caroline, soldado intrépido, acompanhou-me durante toda a marcha.

Pondo de parte as limitações financeiras, uma mulher sozinha à procura de casa pode ser uma expedição de arrasar os nervos complementada com esquemas do status quo. Descobri que as propriedades residenciais, especialmente na Nova Inglaterra, ilustravam a demografia: as vivendas unifamiliares eram precisamente isso – casas coloniais e vitorianas construídas a pensar na família nuclear. Cada vez que visitava uma, o estômago caía-me aos pés e sentia um cansaço esmagador. Salas de jantar formais e quartos de dormir no primeiro andar? Apetecia-me chorar, de tal forma me sentia deslocada. A arquitetura para quem vive sozinho tinha os seus próprios problemas: espaços diminutos e características que pareciam ser um castigo subtil para quem decidia fazer as coisas sem ajuda. As casas eram opressivamente exíguas, com tetos baixos e quartos apertados – como se as pessoas que vivem sozinhas fossem necessariamente pequenas! Ou então andares em velhos prédios de três pisos ou grandes edifícios de apartamentos, o que significava que era preciso desistir do jardim, da privacidade e do estacionamento em troca de uma hipoteca razoável.

Caroline e eu analisámos todos os aspetos deste atoleiro. Eu regressava a casa depois de visitar as casas abertas ao domingo, exausta e com a cabeça oca, e ligava-lhe para um banho de realidade, ou então ela encontrava-se comigo no local combinado e caminhava pelos quartos, simultaneamente animadora e cética. Será que eu queria mesmo viver neste magnífico aviário situado num terceiro andar, perguntava, com a minha perna má e um cão que pesava vinte e sete quilos? Era a época da guerra de propostas e da corrida às propriedades e as casas vendiam-se num dia ou numa hora – um agente imobiliário maníaco telefonara-me às nove e meia da noite, para me convencer a fazer uma oferta por uma casa que eu ainda nem tinha visto. Estivera nesta fila desesperada (e perdera) algumas vezes, apenas para ser ultrapassada por aqueles que tinham mais dinheiro ou menos sangue-frio do que eu. O alto nível de risco da caça à propriedade alimentava a minha ansiedade. Naquela altura, o mercado era um autêntico jogo de cadeiras, com toda a gente a tentar freneticamente sentar-se antes de a música acabar. No início da primavera de 2001, fiz uma oferta para uma pequena casa situada nos subúrbios, que tinha um jardim grande coberto de vegetação. Caroline trepara a vedação das traseiras no dia anterior à casa estar aberta para dar uma olhadela. Então, no último minuto, entrei em pânico. Vi o futuro desenrolar-se diante dos meus olhos, anos e anos de ruas bem arranjadas e serenidade contida, características da Nova Inglaterra, e a imagem horrorizou-me. Por mais confusos que pudessem parecer a quem estava de fora, os meus critérios tinham sido apurados por anos de reflexão sobre o que eu não queria e pelas linhas gerais daquilo que o meu espírito desejava. O que eu queria era um dormitório para adultos, algures onde houvesse flores e cães e pessoas que se parecessem comigo. Em meu benefício, uma colega descrevera este lugar inventado pela minha intuição. Era uma lésbica afro-americana jovem e moderna, com vários piercings. Tínhamos falado incessantemente sobre os perigos que uma mulher solteira corria ao adquirir um bem imobiliário e sobre o lugar a que cada uma de nós pertencia. «Deixa-me explicar», disse ela. «Não quero ser a coisa mais interessante do bairro no dia em que me mudar para lá.» A sua perspicácia irónica veio-me à memória quando assinei uma proposta para a casa dos subúrbios. O agente bem-parecido apertou-me a mão e disse: «Você parece uma pessoa muito interessante!» Dois dias depois, retirei a minha pessoa interessante do negócio.

E então, num dia de maio repleto de flores desabrochadas, quando eu praticamente já tinha desistido, vi num catálogo o anúncio de metade de uma casa da década de 1920, desengonçada e coberta de tábuas de madeira, situada numa rua ladeada de magnólias em Cambridge. O apartamento era menor do que eu pretendia. O proprietário pintara as paredes de amarelo-mostarda e pendurara cortinas de veludo vermelho na sala de jantar. Nada disso me importava. O que cativara o meu coração, mesmo antes de entrar na casa, tinham sido os enormes áceres que se elevavam acima do longo caminho por onde entravam os carros. O caminho conduzia a um jardim murado onde havia abrunheiros e lilases e um plátano-bastardo que se erguia a dezoito metros de altura no meio da cidade. Eu vivera na Nova Inglaterra durante duas décadas, mas ainda era texana, e sabia que a terra era mais importante do que aquilo que se encontrava nela. Decidi-me pelas árvores.

Caroline adorou a casa. Viu para além dos seus defeitos – a falta de um quarto de hóspedes, o vizinho no andar de cima –, certa de que este era o meu lar. A casa ficava a meio caminho entre o rio onde eu remava e os bosques onde passeávamos. Havia um parque e um pronto-a-comer italiano e uma dúzia de pessoas conhecidas na vizinhança. A casa aberta durou uma hora e no final da tarde havia quatro ofertas de compra. Houve um casal que, estranhamente, suplantou a minha oferta, oferecendo dezenas de milhares de dólares acima do preço inicial; por certo, também tinham adorado as árvores. Dois dias depois desistiram do negócio e o agente telefonou-me para informar que a casa era minha, caso estivesse interessada. Disse-lhe que precisava de uma hora para pensar; desliguei e liguei a Caroline. «Sim», disse ela, de forma inequívoca. «Sim.»

Algumas semanas mais tarde, após as árduas diligências que geralmente acompanham a compra de uma propriedade, estava de pé na varanda da frente daquela que era agora a minha casa, brincando com as chaves, emudecida pelo cansaço e por uma vaga apreensão. Lá dentro havia um trabalho de remodelação que iria durar meses e que implicava uma renovação quase total do interior. Ouvi um carro percorrer o caminho atrás de mim e voltei-me para ver Caroline e Morelli na berma do passeio, no Toyota RAV dela, ambos com um largo sorriso, acenando-me para esperar por eles. Abri a porta ao mesmo tempo que Caroline subia os degraus de um salto. E, enquanto Morelli agarrava os cães e ria, levantou-me – eu pesava quase cinco quilos a mais do que ela – e carregou-me, como um saco de cereais, pela soleira da porta.

No final daquele verão, Caroline e eu tínhamo-nos habituado aos novos percursos do nosso caminho comum. O meu apartamento novo ficava situado a alguns quarteirões de Fresh Pond e os carpinteiros e pintores trabalharam durante todo o verão. Todos os dias dizia para Clementine, «Queres ir a Cambridge?», e ela respondia com um latido feliz, mais por causa da minha entoação do que por qualquer outra coisa. Então, pegava no carro, íamos ambas até ao local da obra falar com os operários que aí estavam a trabalhar e depois dirigíamo-nos ao parque para nos encontrar mos com Caroline e Lucille ao fundo da encosta. Eu levava geralmente uma coleção de amostras de tinta enfiadas no bolso de trás. Como a cor dos samoiedos é uma mistura de creme e branco-sujo, alinhávamos as amostras em cima do dorso de Clementine para podermos examiná-las. Eu ensinara-lhe a ficar imóvel e, por isso, ela permitia esta tolice, ficando quieta, pacientemente, enquanto nós imaginávamos a sua colorida cobertura como, por exemplo, uma decoração para a sala de jantar. Uma tarde, passou por nós uma senhora junto ao lago dos patos onde Caroline e eu observávamos oito tonalidades da cor pêssego, olhou-nos com ar desaprovador e gritou: «O que é que estão a fazer a esse cão?» Foi um verão despreocupado, repleto de caminhadas sem destino e passeios de remo ao final da tarde e da certeza, cada vez maior, de que eu dera um enorme passo em frente e me dirigia de alma, coração e caixotes cheios de livros para o lugar a que pertencia.

Na manhã do 11 de setembro, acordei ao som de duas vozes simultâneas: na rádio, o locutor da BBC informava que o primeiro avião atingira o World Trade Center; e no atendedor de chamadas, o meu amigo Pete dizia: «A esta altura, provavelmente já sabes o que aconteceu.» Os dez minutos seguintes foram preenchidos pelo caos da perceção. Com a televisão e a rádio pública nacional em segundo plano, liguei a Internet e vi que tinha recebido um e-mail com duas palavras enviado por Caroline alguns minutos antes, ainda desconhecendo o que se passara: «Foste remar?» Disparei outro em resposta: «Torres de Nova Iorque atingidas por terroristas, desce e liga a televisão.» O escritório de Caroline ficava no sótão, no terceiro andar da casa, e ela estava geralmente sentada à secretária por volta das oito e meia, afastada do rádio e do telefone. Daí a poucos minutos estávamos a falar uma com a outra pelo aparelho, vendo o horror recorrente no ecrã do televisor, no mesmo limbo em que toda a gente se encontrava. Como os aviões tinham levantado voo do Aeroporto Logan, em Boston, pairava um receio adicional sobre a própria cidade: a maioria das linhas fixas e das comunicações por telemóvel estiveram bloqueadas durante parte da manhã. A nossa chamada estava sempre a cair e finalmente elaborámos um plano de emergência para o caso de os sistemas deixarem de funcionar. Se as coisas piorassem – se algo sucedesse em Boston – ambas arranjaríamos maneira de chegar a Fresh Pond, que ficava à mesma distância das nossas casas, pois sabíamos que aí conseguiríamos encontrar-nos.

Era um plano ridículo, como milhões de outros planos que foram feitos naquele dia. Mais tarde, rimo-nos dele – um riso frio e angustiado, semelhante ao humor de combate, que acompanhou os dias seguintes – e refletimos sobre o nosso mau planeamento: Fresh Pond não era exatamente um centro de evacuação da Cruz Vermelha. Mas o que me impressiona hoje é perceber o absurdo daquele plano. Agimos por instinto, como cavalos que se dirigem para o celeiro ou pássaros que, espantados, levantam voo da árvore. Estávamos apenas a tentar encontrar um refúgio, a nossa própria área de segurança.

Mais tarde, ainda naquele dia, acabei por ir remar. Não sabia o que mais havia de fazer. A meio da tarde, a cidade estava mais sossegada do que alguma vez deverá voltar a estar: não havia aviões no céu e a maior parte do tráfego, pedestre e automóvel, fora interrompido. Já se sentia a dissonância que se haveria de revelar durante as semanas seguintes: vi um pateta no rio que me gritou: «Está um lindo dia, não está?» O cenário, aparentemente perfeito, era como uma paisagem bucólica na cena de abertura de um filme de terror, só que o horror já acontecera. Eu só pensava nas imagens finais do filme On the Beach, em que o vazio pós-nuclear de uma praia australiana é acompanhado pelos acordes de

«Waltzing Matilda»16. Remava debaixo daquele céu que agora se apresentava infamemente azul, o seu vazio frio e inerte, e ouvi a melancolia lúgubre de «Waltzing Matilda» durante todo o percurso.

Mudei-me para a minha casa no início de novembro, no dia do aniversário de Caroline. Naquela manhã, enviei-lhe flores – ela estava a tomar conta de Clementine enquanto eu observava os funcionários da empresa de mudanças, que subiam e desciam as escadas. O outono da Nova Inglaterra, que em circunstâncias normais era impressionante e lúgubre, fora eclipsado e virado de pernas para o ar pelos efeitos secundários da história. Houve o suicídio, na casa ao fim da rua, de uma mulher cujo noivo morrera nas torres. O amigo do amigo cujo paradeiro nunca fora descoberto. Toda a gente tinha uma dúzia de histórias como estas, círculos concêntricos em torno da calamidade, pormenores tristes guardados entre o trauma e a perda. Nos primeiros dias após o ataque, em resposta a um plano que abrangeu toda a cidade, Caroline e eu ficámos de pé nas nossas varandas uma noite, segurando bem alto uma vela acesa, a falar ao telefone uma com a outra. Nenhuma de nós conseguia ver a luz de qualquer outra pessoa, o que nos fazia sentir alternadamente aborrecidas e consternadas com a nossa futilidade. Nas semanas que se seguiram, ambas caímos numa versão da síndrome do sobrevivente, o surgimento repentino da consciência que podia atingir-nos no meio de uma qualquer forma instintiva de negação. Caroline podia estar a jogar um jogo de solitário no computador e ser dominada pela mágoa ou pela ansiedade; eu podia estar preocupada com a remodelação da minha casa num minuto, e no minuto seguinte pronta para despedir todos os pintores, conjeturando enviar o que me restava do orçamento das obras para o fundo dos bombeiros de Nova Iorque. Toda a gente seguia um curso intensivo sobre a ironia, aprendendo a lição de que o doloroso e o banal existem em órbitas paralelas. Um dia, disse-lhe que me sentia envergonhada por pensar na minha casa enquanto o mundo estava em farrapos, e ela colocou a mão no meu ombro e, encolhendo ligeiramente os seus, disse: «Amostras de tinta... Osama bin Laden», usando as mãos para abarcar toda a extensão da experiência humana. «É isto, afinal, que é a vida.» Naqueles dias, vivíamos todos dentro da visão de Ícaro descrita por Auden. Mesmo com um rapaz a cair dos céus, os navios seguiam calmamente o seu rumo.

Levei anos a compreender que a morte não acaba a história, apenas a transforma. Editar, reescrever, a falta de nitidez e a epifania do diálogo solitário. A maioria das pessoas deambula para dentro e para fora das vidas uns dos outros, até que a distância, não a morte, as separe – o tempo e o espaço e o cansaço do coração são os carrascos suaves das ligações humanas.

Tenho vários sonhos recorrentes com Caroline. Num deles, ela vive tranquilamente no bosque numa pequena casa em tons de verde e azul; noutro, estou a datilografar-lhe uma carta e, à medida que escrevo, a tinta insiste em desaparecer da página. Nestes meus sonhos, Caroline está sempre morta ou a morrer, mas eles não são horríveis nem angustiantes – a ligação entre nós triunfa sempre sobre a perda. E, no entanto, o meu único sonho insuportável é aquele em que ela está doente e em tratamento e eu não a consigo encontrar. Perdemos o contacto, o telefone desligou-se ou a minha chave parte-se numa porta fechada e ela está do outro lado. Tenho muitas variantes deste sonho, do qual acordo rasgando o espaço com as mãos, mas a mensagem permanece inalterada: foi a vida, não a morte, que se intrometeu.

«A santidade dos afetos do Coração», escreveu Keats, confiando apenas nisso e na imaginação; e hoje penso que Caroline e eu serenámos algo uma na outra, o que nos permitiu libertarmo-nos e dedicarmo-nos ao mundo lá fora. E, certa como estou dos factos e das recordações, e da influência que cada uma teve sobre a outra, procurar os fios de todas estas histórias lançou-me numa insistência estranha e indiferente de que ela ainda não partiu. Todos os detritos da vida e da morte me dizem o contrário: a receita de batatas au gratin, escrita na sua letra pequena e cuidada que cai de um livro de cozinha; uma primeira edição da obra clássica de J. R. Ackerley, My Dog Tulip, que ela procurou para mim num Natal; e um CD misterioso que encontrei na casa dela depois da sua morte chamado «Música para Caroline», cada uma das suas canções, desde Norah Jones e Fiona Apple até Edith Piaf, um testemunho das paixões desconhecidas que todos carregamos em nós.

Uma vez, Caroline referiu-se às ambiguidades fulcrais da vida como «o lado sombrio da alegria», e aqui, nestes dias, tem sido o oposto: um limbo feliz no qual ela é a minha companheira de viagem. O estado de fuga que o escritor impõe a si mesmo. Caroline tem estado inteiramente viva nos prados e nos bosques com os cães, em cada lição de remo, em cada discussão e em cada telefonema despreocupado. Nestes dias, a sua morte está algures ao fundo do corredor, atrás de uma porta fechada mas não trancada. Por agora, porém, tem a pele bronzeada pelo rio, sorri e em breve o telefone vai tocar e uma de nós dirá, O que estás a fazer?, e tudo recomeçará de novo.

15 Dia do Trabalho, feriado celebrado nos Estados Unidos na primeira segunda-feira de setembro. (N. da T.)

16 Canção muito popular na Austrália, composta em 1885 pelo poeta australiano Banjo Patterson. (N. da T.)

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