Um Lugar Bem Longe Daqui
8. Dados negativos
8.
Dados negativos
1969
Após concluir seu trabalho investigativo da manhã na torre, o xerife Ed Jackson e o delegado Joe Purdue foram com Pearl, a viúva de Chase, e os pais dele, Patti Love e Sam, vê-lo deitado numa mesa de aço debaixo de um lençol num laboratório gelado na clínica que servia de necrotério. Para se despedir. Mas aquilo lá era frio demais para qualquer mãe; insuportável para qualquer esposa. Ambas tiveram de sair do recinto amparadas.
De volta ao escritório do xerife, Joe disse:
— Bem, não daria para ser pior...
— É. Não sei como alguém consegue passar por isso.
— Sam não falou nada. Ele nunca foi muito falador, mas isso vai acabar com ele.
Um brejo de água salgada, dizem alguns, é capaz de devorar um bloco de cimento no café da manhã, e nem mesmo o escritório ao estilo bunker do xerife poderia contê-lo. Marcas d’água debruadas por cristais de sal ondulavam pela parte baixa das paredes e um mofo preto se espalhava em direção ao teto feito vasos sanguíneos. Minúsculos fungos escuros se acumulavam nos cantos.
O xerife tirou uma garrafa da gaveta de baixo da sua escrivaninha e serviu uma dose dupla para cada um em canecas de café. Eles ficaram bebendo até o sol, dourado e encorpado feito o bourbon, escorregar para dentro do mar.
* * *
Quatro dias mais tarde, Joe entrou no escritório do xerife balançando alguns documentos no ar.
— Recebi os primeiros resultados do laboratório.
— Vamos dar uma olhada.
Eles se sentaram em lados opostos da mesa do xerife e começaram a examinar os papéis. De vez em quando, Joe enxotava uma mosca solitária.
Ed leu em voz alta:
— Horário do óbito: entre meia-noite e duas da manhã, entre os dias 29 e 30 de outubro de 1969. Bem como pensamos. — Após um minuto lendo, ele continuou: — O que temos são dados negativos.
— Tem razão. Não tem nada aqui, não, xerife.
— A não ser pelos dois meninos subindo até a terceira curva da escada, não tem nenhuma impressão digital nova no guarda-corpo, nas grades, nada. Nem do Chase nem de mais ninguém.
Uma barba por fazer vespertina escurecia a tez normalmente avermelhada do xerife.
— Quer dizer que alguém limpou. Limpou tudo. Por que as impressões dele não estão pelo menos no guarda-corpo ou nas grades?
— Exato. Primeiro não tínhamos pegadas... e agora não temos digitais. Não há provas de que ele tenha caminhado pela lama até a escada, subido os degraus ou aberto as duas grades... a que fica em cima da escada e a outra de onde ele caiu. Ele ou qualquer outra pessoa, aliás. Mas dados negativos continuam sendo dados. Alguém fez uma faxina muito bem-feita, ou então matou o cara em outro lugar e levou o corpo até a torre.
— Mas se o corpo tivesse sido levado até a torre a gente teria visto marcas de pneu.
— Certo, precisamos voltar lá e procurar marcas de pneu que não sejam nossas ou da ambulância. A gente pode ter deixado passar alguma coisa.
Após mais um minuto de leitura, Ed falou:
— Enfim, agora estou confiante de que não foi um acidente.
— Concordo — disse Joe. — E não é qualquer um que consegue apagar os rastros tão bem assim.
— Estou com fome. Vamos passar no restaurante depois daqui.
— Bom, a gente tem que se preparar para uma emboscada. A cidade inteira está em polvorosa. O assassinato de Chase Andrews é a coisa mais importante que aconteceu aqui, talvez em todos os tempos. As fofocas estão se espalhando feito fogo de mata.
— Bom, fique de olho. Pode ser que a gente cate uma coisinha ou outra. A maioria dos malfeitores não consegue ficar de boca fechada.
Uma vitrine inteira de janelas emolduradas por venezianas de segurança ocupava a fachada do Barkley Cove Diner, que dava para o porto. Apenas a rua estreita separava a construção, erguida em 1889, dos degraus molhados do píer da cidade. Cestos de camarão descartados e redes de pesca emboladas margeavam a parede abaixo das janelas, e conchas de moluscos coalhavam a calçada aqui e ali. Por toda parte: gritos de aves marinhas, fezes de aves marinhas. Felizmente, o aroma de linguiça e pães, folhas de nabo cozidas e frango frito superava o cheiro forte dos barris de peixe que margeavam o cais.
Uma agitação leve escapou de dentro do pequeno restaurante quando o xerife abriu a porta. Todos os cubículos de mesas e cadeiras — cadeiras de encosto alto e estofadas de vermelho — estavam ocupados, assim como muitas das mesas avulsas. Joe apontou para dois bancos vagos diante do balcão com as torneiras de refrigerante, e os dois foram nessa direção.
No caminho, ouviram o Sr. Lane, do posto Sing Oil, dizer para seu mecânico de veículos a diesel:
— Acho que foi o Lamar Sands. Ele pegou a mulher se sassaricando com o Chase bem no convés do barco luxuoso de esqui de água, lembra? Ele tem motivo, e já teve problemas com a lei.
— Que problemas?
— Ele estava com aquele bando que furou os pneus do xerife.
— Eles eram crianças.
— Teve outra coisa também, eu é que não estou lembrando.
Atrás do balcão, o proprietário e cozinheiro Jim Bo Sweeny corria da chapa onde virava os bolinhos de caranguejo até o fogão para mexer uma panela de creme de milho e espetar as coxas de frango dentro da fritadeira; depois recomeçava. Entre uma coisa e outra, colocava pratos abarrotados de comida diante dos clientes. Diziam que ele era capaz de fazer massa de pão com uma das mãos enquanto cortava filés de bagre com a outra. Só preparava algumas vezes por ano sua famosa especialidade: linguado grelhado recheado com camarão e servido sobre mingau de milho com queijo apimentado. Não precisava nem divulgar; a notícia corria a cidade.
Enquanto passavam entre as mesas a caminho do balcão, o xerife e o delegado escutaram a Srta. Pansy Price, da Five and Dime, dizer a uma amiga:
— Pode ter sido aquela mulher que mora lá no brejo. Ela é louca de pedra. Aposto que faria esse tipo de coisa...
— Como assim? O que ela tem a ver com a história?
— Bom, por um tempo ela se envolveu com...
Quando o xerife e o delegado chegaram ao balcão, Ed falou:
— Vamos pedir uns sanduíches para viagem e sair daqui. A gente não pode ser arrastado para dentro disso.