Um Lugar Bem Longe Daqui

Delia Owens · Capítulo 46 de 58

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Um Lugar Bem Longe Daqui

45. Gorro vermelho

45.

 

Gorro vermelho

 

1970

Na segunda-feira de manhã, após a visita de Tate, Kya foi conduzida pelo oficial de justiça até a sala do tribunal e manteve os olhos longe da plateia, como da primeira vez, fixando-os bem no meio das árvores escuras lá fora. Mas ouviu um som conhecido, talvez uma tosse discreta, e virou a cabeça. E ali, na primeira fileira, ao lado de Tate, estavam Pulinho e Mabel, que usava seu chapéu de ir à igreja enfeitado com rosas de seda. A plateia tinha se agitado ao vê-los entrar com Tate e se sentarem no térreo, na “área branca”. Quando o oficial de justiça relatou isso ao juiz Sims, ainda em sua sala, o juiz mandou avisar que qualquer pessoa, de qualquer cor ou credo, poderia se sentar onde quisesse no seu tribunal, e se alguém não gostasse que ficasse à vontade para se retirar. Na verdade, ele faria questão que se retirasse.

Ao ver Pulinho e Mabel, Kya sentiu um tiquinho de força e suas costas se endireitaram um pouco.

A testemunha seguinte da acusação, o legista Dr. Stuart Cone, tinha cabelo grisalho cortado bem curto e usava uns óculos que desciam até a ponta do nariz, hábito que o obrigava a inclinar a cabeça para trás e ver através das lentes. Conforme ele respondia às perguntas de Eric, Kya começou a pensar nas gaivotas. Passara todos aqueles meses na cadeia sentindo falta delas, mas durante esse tempo Tate lhes dera de comer. Elas não tinham sido abandonadas. Pensou em Vermelho Grande, em como ele passava por cima dos dedos dos pés dela quando lhe jogava migalhas.

O legista inclinou a cabeça para trás para ajeitar os óculos e o gesto trouxe Kya de volta à sala do tribunal.

— Então, recapitulando, o senhor afirmou no seu depoimento que Chase Andrews morreu entre meia-noite e duas da manhã da noite de 29 de novembro de 1969 para a manhã do dia 30. A causa da morte foram ferimentos graves no cérebro e na medula devido à queda por uma das grades abertas na torre de incêndio, uns vinte metros acima do chão. Ao cair, ele bateu a cabeça numa viga de sustentação, fato confirmado por amostras de sangue e cabelo colhidas na viga. Isso tudo está correto de acordo com a sua opinião de especialista?

— Sim, está.

— Dr. Cone, por que um rapaz inteligente e em boa forma física como Chase Andrews iria pisar numa grade aberta e sofrer uma queda fatal? Para descartar a possibilidade, no sangue dele havia álcool ou qualquer outra substância que possa ter prejudicado seu julgamento?

— Não, não havia.

— Provas apresentadas anteriormente demonstram que Chase Andrews bateu na viga com a parte de trás da cabeça, não com a testa. — Eric parou diante do júri e deu um passo largo. — Mas quando eu dou um passo minha cabeça fica um pouquinho à frente do meu corpo. Se eu fosse pisar num buraco que estivesse aqui diante de mim, o impulso e o peso da minha cabeça fariam eu me inclinar para a frente. Correto? Se estivesse dando um passo à frente, Chase Andrews teria batido a testa na viga, não a parte de trás do crânio. Assim, Dr. Cone, é verdade que os indícios sugerem que Chase estava andando para trás quando caiu?

— Sim, os indícios corroborariam essa conclusão.

— Então podemos concluir também que, se Chase Andrews estava de costas para a grade aberta e foi empurrado por alguém, ele teria caído para trás e não para a frente? — Antes que Tom pudesse fazer qualquer objeção, Eric arrematou bem depressa: — Não estou pedindo para o senhor afirmar que se trata de um indício conclusivo de que Chase foi empurrado de costas para a queda que o matou. Estou apenas deixando claro que, se alguém empurrou Chase de costas pelo buraco, os ferimentos deixados pela viga na cabeça dele teriam coincidido com os que de fato foram encontrados. Correto?

— Sim.

— Certo, Dr. Cone. Quando o senhor examinou Chase Andrews na clínica na manhã do dia 30 de outubro ele estava usando um colar de concha?

— Não.

Para conter a náusea crescente, Kya se concentrou em Justiça de Domingo, que se embelezava no peitoril de uma janela. Contorcido numa posição impossível, com uma das patas esticada para cima, lambia a parte interna da ponta da cauda. O próprio banho parecia absorvê-lo e entretê-lo por completo.

Alguns minutos mais tarde, o promotor perguntou:

— Chase Andrews estava usando uma jaqueta jeans na noite em que morreu, correto?

— Sim, correto.

— E segundo seu parecer oficial, Dr. Cone, o senhor encontrou fios de lã vermelha na jaqueta dele, correto? Fios que não eram de nenhuma peça de roupa que ele estava usando.

— Sim.

Eric ergueu um saco plástico transparente contendo pedacinhos de lã vermelha.

— Estes fios vermelhos foram encontrados na jaqueta de Chase Andrews?

— Sim.

Eric ergueu um saco maior de cima da sua mesa.

— E não é verdade que as fibras de lã vermelha encontradas na jaqueta de Chase corresponderam às deste gorro vermelho?

Ele entregou o saco à testemunha.

— Sim. Estas são as minhas amostras e houve uma correspondência exata entre os fios do gorro e os da jaqueta.

— Onde este gorro foi encontrado?

— O xerife encontrou o gorro na casa da Srta. Clark.

Não era uma informação de conhecimento geral, e murmúrios percorreram a plateia.

— Havia algum indício de que ela tivesse usado o gorro?

— Sim. Fios de cabelo da Srta. Clark foram encontrados no gorro.

Observar Justiça de Domingo na sala do tribunal levou Kya a pensar que sua família nunca tivera um bicho de estimação. Nem um cão nem um gato. O mais próximo foi a fêmea de gambá — animal sedoso, gracioso e atrevido — que morava debaixo do barracão. Ma a chamava de Chanel.

Depois de algumas tentativas e erros, todos eles haviam se conhecido e Chanel tinha se tornado muito educada, usando seu armamento apenas quando as crianças ficavam agitadas demais. Ela ia e vinha, às vezes chegando a poucos metros de quem estivesse subindo ou descendo os degraus de tijolo e tábua.

Toda primavera, a fêmea de gambá acompanhava os filhotes em incursões às matas de carvalho e pelas valas. Eles corriam atrás dela, esbarrando e caindo uns por cima dos outros numa confusão de preto e branco.

Pa, é claro, vivia ameaçando se livrar da gambá, mas Jodie, demonstrando maturidade muito superior à do pai, falara de bate-pronto: “Outro vai acabar tomando o lugar dessa aí e acho que é melhor o gambá que você conhece do que o gambá que você não conhece.”

Ela sorriu ao pensar em Jodie. Então se controlou.

— Pois bem, Dr. Cone, na noite em que Chase Andrews morreu, na noite em que ele caiu de costas por uma grade aberta, posição condizente com ter sido empurrado, fios na jaqueta dele provinham de um gorro vermelho encontrado na casa da Srta. Clark. E no gorro havia fios de cabelo da Srta. Clark.

— Sim.

— Obrigado, Dr. Cone. Sem mais perguntas.

Tom Milton olhou rapidamente para Kya, que fitava o céu. O recinto pendia fisicamente para o lado da acusação, como se o piso estivesse inclinado, e o fato de Kya estar ali sentada, rígida e alheia não ajudava; ela parecia esculpida em gelo. Ele afastou o cabelo branco da testa e se aproximou do legista:

— Bom dia, Dr. Cone.

— Bom dia.

— Dr. Cone, o senhor afirmou no seu depoimento que o ferimento na parte de trás da cabeça de Chase Andrews condizia com o fato de ele ter caído de costas pelo buraco aberto. É verdade que se ele tivesse dado um passo para trás sozinho e caído pelo buraco por acidente o resultado do impacto na parte de trás da cabeça teria sido exatamente o mesmo?

— Sim.

— Havia algum hematoma no peito ou nos braços dele condizente com o fato de ter sido empurrado ou arremessado?

— Não. Havia, obviamente, hematomas feios por todo o corpo devido à queda. Sobretudo na parte de trás do corpo e das pernas. Mas nenhum que pudesse ser identificado como decorrente de um empurrão ou arremesso.

— É verdade então que não existe absolutamente nenhum indício de que Chase Andrews tenha sido empurrado no buraco?

— Sim, é verdade. Não há indícios, que eu saiba, de Chase Andrews ter sido empurrado.

— Isso significa então, Dr. Cone, que o exame profissional do corpo de Chase Andrews não encontrou qualquer prova de que a morte dele tenha sido um assassinato e não um acidente?

— Correto.

Tom fez uma pausa para deixar o júri absorver a resposta, então retomou:

— Agora vamos falar sobre os fios vermelhos encontrados na jaqueta de Chase. Existe alguma maneira de determinar há quanto tempo os fios estavam na jaqueta?

— Não. Podemos dizer de onde vieram, mas não quando.

— Em outras palavras, os fios poderiam ter estado na jaqueta dele por um ano ou até mesmo por quatro anos?

— Correto.

— Mesmo que a jaqueta tenha sido lavada?

— Sim.

— Isso significa que não há provas concretas de que os fios ficaram presos na jaqueta na noite em que Chase morreu?

— Correto.

— Por outros depoimentos sabemos que a ré conheceu Chase Andrews quatro anos antes da morte dele. O senhor pode afirmar então que é possível que os fios tenham sido transferidos do gorro para a jaqueta em qualquer momento desses quatro anos, quando eles se encontraram usando essas peças de roupa?

— Pelo que eu vi, sim.

— Então os fios vermelhos não são uma prova de que a Srta. Clark esteve com Chase Andrews na noite em que ele morreu. Havia algum indício de que a Srta. Clark tenha estado perto de Chase Andrews naquela noite? Fragmentos da pele dela no corpo dele, por exemplo, sob as unhas, ou digitais nos botões ou fechos da jaqueta dele? Fios de cabelo dela nas roupas ou no corpo dele?

— Não.

— Então, na verdade, como os fios vermelhos poderiam ter estado na jaqueta dele por até quatro anos, não existe qualquer prova de que a Srta. Catherine Clark tenha estado perto de Chase Andrews na noite da morte dele?

— Segundo o meu exame, não existe.

— Obrigado. Sem mais perguntas.

O juiz Sims decretou uma pausa para o almoço.

Tom tocou de leve o cotovelo de Kya e sussurrou que tinha sido uma boa interrogação. Ela aquiesceu enquanto todos se levantavam e esticavam o corpo. Quase todos ficaram para ver Kya ser algemada e conduzida para fora do recinto.

Quando os passos de Jacob ecoaram pelo corredor após deixá-la na cela, Kya sentou-se pesadamente na cama. No começo da sua estadia na cadeia não a tinham deixado carregar a mochila para a cela, mas lhe permitiram levar parte do conteúdo dentro de um saco de papel pardo. Ela enfiou a mão no saco e pegou o pedaço de papel com o telefone e o endereço de Jodie. Desde que chegara ali, tinha olhado para aquele papel quase todos os dias e pensado em ligar para o irmão e pedir que ele fosse lhe fazer companhia. Sabia que ele iria, e Jacob tinha dito que ela podia usar o telefone. Mas não tinha ligado. Como poderia dizer: Por favor, venha para cá, eu estou presa, acusada de assassinato.

Com todo o cuidado, tornou a guardar o papel na sacola e pegou a bússola da Primeira Guerra Mundial que Tate lhe dera. Deixou a agulha se mover para o norte e a observou ficar imóvel. Segurou-a junto ao coração. Onde mais uma pessoa poderia precisar tanto de uma bússola do que naquele lugar?

Então sussurrou as palavras de Emily Dickinson:

O Coração varrido

E o Amor posto de lado

Que não vamos usar de novo

Até a Eternidade.