Um Lugar Bem Longe Daqui
49. Disfarces
49.
Disfarces
1970
Declarando se chamar Larry Price, um homem de cabelo branco e encaracolado cortado curto, usando um terno azul cujo tecido barato reluzia e afirmando conduzir o ônibus da Trailways em diversas rotas por aquela região da Carolina do Norte, a testemunha seguinte prestou juramento. Quando Eric o interrogou, o Sr. Price confirmou que era possível ir de ônibus de Greenville até Barkley Cove e voltar na mesma noite. Afirmou também que estava dirigindo o ônibus de Greenville com destino a Barkley Cove na noite em que Chase morreu, e nenhum dos passageiros se parecia com a Srta. Clark.
Eric falou:
— Sr. Price, durante a investigação o senhor disse ao xerife que havia um passageiro magro no ônibus que poderia ter sido uma mulher alta disfarçada de homem. Procede? Descreva esse passageiro, por favor.
— Sim, é isso mesmo. Um rapaz branco. Acho que tinha quase um metro e oitenta, a calça estava folgada feito lençóis pendurados no varal. Ele usava uma boina grande e volumosa azul. Manteve a cabeça baixa, sem olhar para ninguém.
— E agora que o senhor viu a Srta. Clark, acredita que seja possível que o homem magro do ônibus fosse a Srta. Clark disfarçada? O cabelo comprido dela poderia estar escondido debaixo da boina volumosa?
— Acredito que sim.
Eric pediu ao juiz para mandar Kya se levantar e ela o fez ladeada por Tom Milton.
— Pode se sentar, Srta. Clark — falou Eric, então tornou a se dirigir à testemunha: — O senhor diria que o rapaz no ônibus tinha a mesma altura e porte físico da Srta. Clark?
— Eu diria que quase exatamente igual — respondeu o Sr. Price.
— Então, resumindo, o senhor diria que é provável que o homem magro a bordo do ônibus das 23h50 de Greenville para Barkley Cove na noite de 29 de outubro do ano passado seja na realidade a ré, Srta. Clark?
— Sim, eu diria que é bem possível.
— Obrigado, Sr. Price. Sem mais perguntas. A testemunha é da defesa.
Tom parou diante do banco das testemunhas e, após um interrogatório de cinco minutos, resumiu o depoimento do Sr. Price:
— Então o senhor nos disse o seguinte: primeiro, não havia nenhuma mulher parecida com a ré no ônibus de Greenville para Barkley Cove na noite de 29 de outubro de 1969; segundo, havia um homem alto e magro, mas, na ocasião, mesmo o senhor tendo visto o rosto dele de muito perto, não pensou que fosse uma mulher disfarçada; terceiro, essa ideia de disfarce só lhe ocorreu quando o xerife lhe sugeriu. — Tom continuou antes de a testemunha poder reagir: — Sr. Price, diga como tem certeza de que o homem magro estava a bordo do ônibus das 23h50 no dia 29 de outubro? Fez alguma anotação, escreveu isso em algum lugar? Pode ter sido na noite anterior ou na seguinte. Tem cem por cento de certeza de que foi no dia 29 de outubro?
— Bem, entendo aonde o senhor quer chegar. Quando o xerife estava puxando pela minha memória tive a impressão de que esse tal homem estava naquele ônibus, mas agora acho que não tenho cem por cento de certeza.
— Além disso, Sr. Price, o ônibus estava muito atrasado naquela noite, certo? Na realidade, vinte e cinco minutos atrasado, e só chegou a Barkley Cove à 1h40 da manhã. Correto?
— Sim. — O Sr. Price olhou para Eric. — Só estou tentando ajudar, fazer a coisa certa.
Tom o tranquilizou.
— O senhor foi de grande ajuda, Sr. Price. Muito obrigado. Sem mais perguntas.
* * *
Eric chamou a testemunha seguinte, o motorista do ônibus das 2h30 da manhã de Barkley Cove para Greenville na manhã do dia 30 de outubro, um homem chamado John King. Ele afirmou que a ré, a Srta. Clark, não estava no ônibus, mas que havia uma senhora mais velha...
— …alta como a Srta. Clark, de cabelo grisalho curto e encaracolado, como num permanente.
— Olhando para a ré, Sr. King, seria possível que, caso a Srta. Clark tivesse se disfarçado como uma senhora de idade, ela houvesse ficado parecida com a mulher no ônibus?
— Bem, é difícil de imaginar, mas pode ser.
— Então é possível?
— É, acho que sim.
Na sua interrogação, Tom disse:
— Não podemos aceitar a palavra acho num julgamento por assassinato. O senhor viu a ré Srta. Clark no ônibus das 2h30 de Barkley Cove para Greenville na madrugada do dia 30 de outubro de 1969?
— Não, não vi.
— E algum outro ônibus foi de Barkley Cove para Greenville naquela noite?
— Não.