Um Lugar Bem Longe Daqui

Delia Owens · Capítulo 36 de 58

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Um Lugar Bem Longe Daqui

35. A bússola

35.

 

 

A bússola

 

1969

Numa tarde de julho de 1969, mais de sete meses depois da visita de Jodie, Aves da Costa Leste, de Catherine Danielle Clark — seu segundo livro, um exemplar de detalhes minuciosos e grande beleza —, apareceu na caixa de correio. Ela passou os dedos pela capa linda com seu desenho de gaivota. Sorrindo, falou:

— Oi, Vermelho Grande, você foi parar na capa.

Com seu livro novo, Kya caminhou em silêncio até a clareira à sombra dos carvalhos perto do seu barracão, procurando cogumelos. O solo úmido estava fresco sob seus pés enquanto ela se aproximava de um grupo de cogumelos muito amarelos. Entre um passo e outro, estacou. Ali, em cima do velho toco das penas, havia uma pequena embalagem de leite vermelha e branca, igualzinha àquela de tanto tempo atrás. Inesperadamente, ela gargalhou.

Dentro da embalagem, embrulhada em papel de seda, estava uma bússola velha de fabricação militar dentro de um estojo de latão esverdeado e acinzentado pelo tempo. Kya arquejou ao ver aquilo. Nunca tinha precisado de bússola, pois a direção lhe parecia algo muito óbvio. Mas nos dias nublados, quando o sol se esquivava, a bússola iria guiá-la.

Um bilhete dobrado dizia: Querida Kya, esta bússola foi do meu avô, data da Primeira Guerra Mundial. Ele me deu quando eu era pequeno, mas nunca usei, e achei que talvez você conseguisse tirar melhor proveito dela. Com amor, Tate. P.S.: Que bom que você consegue ler este bilhete!

Kya tornou a ler as palavras querida e amor. Tate. O menino de cabelo dourado no barco guiando-a até sua casa antes de um temporal, deixando penas de presente em um velho tronco de árvore, ensinando-lhe a ler; o adolescente carinhoso ajudando-a a passar pelo seu primeiro ciclo como mulher e despertando seus primeiros desejos sexuais de fêmea; o jovem cientista incentivando-a a publicar seus livros.

Apesar de ter dado a ele o livro das conchas, ela continuara se escondendo na vegetação sempre que o via no brejo, remando para longe sem que ele a notasse. Os sinais desonestos dos vaga-lumes eram tudo que ela conhecia do amor.

Até Jodie tinha dito que ela deveria dar mais uma chance a Tate. Mas toda vez que ela pensava nele ou o via, seu coração saltava do amor antigo para a dor do abandono. Queria que ele se decidisse por uma coisa ou outra.

Várias manhãs depois disso, ela seguiu pelos estuários em meio à névoa matinal com a bússola na mochila, embora duvidasse que fosse precisar dela. Planejava procurar flores silvestres raras numa língua de areia arborizada que se estendia mar adentro, mas parte dela vasculhava os cursos d’água em busca do barco de Tate.

A névoa ficou teimosa e se demorou, enroscando seus filamentos em volta dos troncos das árvores mortas e dos galhos baixos. O ar estava parado; até mesmo os pássaros permaneceram calados enquanto ela avançava pelo canal. Ali perto, um tum tum soou quando um remo bateu devagar numa amurada, e então um barco emergiu da bruma como se fosse um espectro.

As cores, antes apagadas pela penumbra, foram tomando forma ao entrarem na luz. Cabelo dourado sob um gorro vermelho. Como se saído de um sonho, Tate remava pelo canal de pé na popa do seu velho barco de pesca. Kya desligou o motor e remou para trás até um matagal para vê-lo passar. Sempre recuando para vê-lo passar.

Ao pôr do sol, já mais calma, com o coração de volta ao lugar, ficou parada na praia e recitou:

Poentes nunca são simples

O crepúsculo é refratado e refletido

Mas nunca verdadeiro.

A maré cheia, um disfarce,

Cobre rastros,

Cobre mentiras.

Nós não ligamos

Para o engodo do crepúsculo.

Vemos cores vivas

E nunca aprendemos

Que o sol já caiu

Para baixo da terra

Quando vemos a queimadura.

Poentes são disfarces,

Cobrem verdades, cobrem mentiras.

A.H.