Um Lugar Bem Longe Daqui

Delia Owens · Capítulo 35 de 58

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Um Lugar Bem Longe Daqui

34. Revista no barracão

34.

 

 

Revista no barracão

 

1969

— Bom, mais uma vez ela não está — disse Joe, batendo na aldrava da porta de tela de Kya.

Ed estava parado nos degraus de tijolo e tábua, com as mãos em concha rente à tela para espiar lá dentro. Galhos imensos do carvalho enfeitados por fios longos de barba-de-velho faziam sombras nas tábuas gastas e no telhado pontudo do barracão. Apenas pedaços cinza de céu apareciam e desapareciam naquele fim de manhã de novembro.

— É claro que ela não está. Não importa. Temos um mandado de busca. Vamos entrar e pronto, aposto que não está trancado.

Joe abriu a porta enquanto chamava:

— Alguém em casa? É o xerife.

Lá dentro, eles ficaram encarando as prateleiras de espécimes.

— Ed, olhe só para isso. Continua no outro cômodo ali e no corredor também. Ela parece meio fora dos eixos. Doida feito um rato com três olhos.

— Pode ser, mas pelo visto é uma baita especialista no brejo. Você sabe que ela publicou aqueles livros. Bom, ao trabalho. Certo, aqui estão as coisas que devemos procurar. — O xerife leu em voz alta uma breve lista. — Roupas de lã vermelha que possam corresponder aos fios vermelhos encontrados no casaco de Chase. Um diário, calendário ou anotações, algo em que ela possa ter escrito os locais e horários do paradeiro dela; o colar de concha; ou canhotos das passagens de ônibus. E nada de bagunçar as coisas dela. Não há motivo para isso. Podemos procurar debaixo e em volta de tudo; não é preciso estragar nada.

— Sim, você tem razão. Isto aqui é quase um santuário. Metade de mim está impressionada, a outra metade está com calafrios.

— Vai ser trabalhoso, com certeza — falou o xerife, examinando com cuidado atrás de uma fileira de ninhos de pássaro. — Vou começar pelo quarto dela lá atrás.

Os dois trabalharam em silêncio, afastando roupas em gavetas, examinando cantos de armários, movendo vidros com peles de cobra e dentes de tubarão à procura de provas.

Dez minutos depois, Joe chamou:

— Venha ver isto aqui. — Quando Ed saiu na varanda, Joe falou: — Sabia que as aves fêmeas só têm um ovário?

— Do que você está falando?

— Veja aqui. Esses desenhos e anotações mostram que as aves fêmeas só têm um ovário.

— Porra, Joe. Isso aqui não é uma aula de biologia. Volte ao trabalho.

— Espere um minuto. Olhe aqui. Esta é a pena de um pavão macho e a anotação diz que, ao longo das eras, as penas do macho foram aumentando cada vez mais para atrair as fêmeas, a ponto de hoje os machos mal conseguirem sair do chão. Eles praticamente não conseguem mais voar.

— Já acabou? Temos trabalho a fazer.

— Cara, isso é muito interessante.

Ed saiu da varanda.

— Ao trabalho, rapaz.

 

* * *

 

Dez minutos mais tarde, Joe tornou a chamar. Ao sair do quartinho em direção à sala, Ed falou:

— Deixe eu adivinhar. Achou um rato de três olhos empalhado.

Não houve resposta, mas quando Ed entrou no cômodo Joe ergueu um gorro de lã vermelha.

— Onde achou isso?

— Bem aqui, pendurado nesta fileira de ganchos junto com estes casacos, outros chapéus e tal.

— Assim, à mostra?

— Bem aqui como eu falei.

Do bolso, Ed tirou o saco plástico que continha os fios vermelhos retirados da jaqueta jeans usada por Chase na noite da sua morte e o segurou junto ao gorro vermelho.

— Parecem iguais. Mesma cor, mesmo tamanho e espessura — disse Joe enquanto os dois observavam o gorro e a amostra.

— Parecem mesmo. Os dois têm um pouco de lã bege fina misturada com o vermelho.

— Rapaz, talvez seja isso.

— Vamos ter que mandar o gorro para o laboratório, claro. Mas se esses fios baterem nós vamos ter que chamar a garota para um interrogatório. Ponha o gorro num saco e etiquete.

Após horas de buscas, os dois homens se encontraram na cozinha.

Esticando as costas, Ed falou:

— Acho que se houvesse mais alguma coisa a gente já teria encontrado. E sempre podemos voltar. Por hoje chega.

Voltando para a cidade, manobrando entre os sulcos da estrada, Joe falou:

— Acho que, se ela é culpada de alguma coisa, teria escondido o gorro vermelho. E não simplesmente deixado pendurado ali, exposto daquele jeito.

— Provavelmente ela não fazia ideia de que as fibras iriam se soltar do gorro e prender na jaqueta dele. Ou de que o laboratório iria identificar. Não tinha como saber uma coisa dessas.

— Bom, ela pode até não saber, mas aposto que sabe um monte de coisa. Esses pavões machos que ficam se gabando por aí, competindo tanto por sexo, eles mal conseguem voar. Não sei muito bem o que isso significa, mas quer dizer alguma coisa.