Um Lugar Bem Longe Daqui

Delia Owens · Capítulo 28 de 58

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Um Lugar Bem Longe Daqui

27. Hog Mountain Road

27.

 

 

Hog Mountain Road

 

1966

O barracão estava silencioso em meio aos primeiros movimentos das asas dos melros enquanto uma vigorosa névoa invernal se formava rente ao chão, acumulando-se junto às paredes feito grandes fiapos de algodão. Com o dinheiro de várias semanas dos mariscos, Kya havia comprado mantimentos especiais e fritado fatias de presunto com melaço, preparado um molho com café e servido acompanhado por pães de minuto com creme azedo e geleia de amora. Chase bebeu café solúvel Maxwell House; ela, um chá Tetley quente. Fazia quase um ano que estavam juntos, embora nenhum dos dois comentasse sobre isso. Chase mencionou como era sortudo pelo fato de o pai ser dono da Western Auto:

— Assim a gente vai ter uma casa legal quando se casar. Vou construir uma de dois andares para você na praia, com varanda em toda a volta. Ou a casa que você quiser, Kya.

Ela mal conseguiu respirar. Ele a queria na sua vida. Aquilo não era apenas uma alusão, mas algo semelhante a um pedido de casamento. Ela iria pertencer a alguém. Fazer parte de uma família. Sentou-se mais ereta na cadeira.

Ele continuou:

— Acho que a gente não devia morar bem no meio da cidade. Seria uma mudança radical demais para você. Mas a gente poderia construir uma casa nos arredores. Perto do brejo, sabe?

Ultimamente, alguns pensamentos vagos sobre se casar com Chase haviam surgido na sua mente, mas ela não se atrevera a lhes dar muita atenção. Entretanto, ali estava ele, dizendo-os em voz alta. A respiração de Kya estava rasa, e ao mesmo tempo que custava a acreditar sua mente ia processando os detalhes. Isso eu consigo, pensou ela. Se a gente morar longe das pessoas, talvez dê certo.

Então, com a cabeça baixa, perguntou:

— E seus pais? Você contou para eles?

— Kya, você precisa entender uma coisa sobre os meus pais. Eles me amam. Se eu disser que te escolhi, vai ser isso e pronto. Eles vão se apaixonar por você quando te conhecerem.

Ela mordeu os lábios. Querendo acreditar.

— Vou construir um ateliê para todas as suas coisas — continuou ele. — Com janelas bem grandes, para você ver todos os detalhes dessas penas danadas.

Ela não sabia se o que sentia por Chase era o que uma esposa deveria sentir, mas naquele instante seu coração se encheu de algo parecido com amor. Ela não precisaria mais catar mariscos.

Estendeu a mão e tocou o colar de concha no pescoço dele.

— Aliás — disse Chase. — Preciso ir até Asheville daqui a alguns dias para comprar mercadorias para a loja. Estava pensando... Por que não vem comigo?

Com os olhos baixos, ela falou:

— Mas é uma cidade grande. Vai ter uma porção de gente. E eu não tenho roupa, nem sei qual seria a roupa, e...

— Kya, Kya. Escute. Você vai estar comigo. Eu sei tudo. A gente não precisa ir a nenhum lugar chique. Só na viagem de carro você veria uma boa parte da Carolina do Norte: a região de Piedmont, a cordilheira das Great Smoky Mountains, pelamordedeus. Aí, quando a gente chegar lá, podemos comprar hambúrgueres para viagem. Você pode usar a roupa que está agora. Não precisa falar com ninguém se não quiser. Vou cuidar de tudo. Já estive lá várias vezes. Já fui até Atlanta. Asheville não é nada. Olha, se a gente vai se casar, seria bom você começar a mostrar um pouco a cara para o mundo. A abrir essas suas asas compridas.

Ela assentiu. Senão por mais nada, para ver as montanhas.

Ele prosseguiu:

— É uma viagem de dois dias, então a gente vai ter que dormir lá. Num lugar informal. Um hotelzinho de beira de estrada, sabe? Não tem problema, porque a gente é adulto.

— Ah — foi tudo que ela disse. — Entendi — sussurrou, então.

 

* * *

 

Como nunca tinha andado de carro, alguns dias depois, quando ela e Chase saíram de Barkley rumo ao oeste a bordo da picape dele, Kya ficou olhando pela janela enquanto segurava o banco com ambas as mãos. A estrada serpenteava por quilômetros de capim-navalha e palmeiras, relegando o mar ao retrovisor.

Por mais de uma hora, as paisagens conhecidas de capim e cursos d’água foram passando pelas janelas da picape. Kya identificou corruíras e garças e sentiu-se reconfortada pela continuidade, como se não houvesse saído de casa, mas a levado consigo.

Então, de repente, numa linha traçada no solo, os prados alagados terminaram, e uma paisagem poeirenta — desmatada, dividida em quadrados e arada em fileiras — se estendeu à sua frente. Campos de árvores mortas paraplégicas se erguiam nas matas derrubadas. Estacas de cercas de arame marchavam em direção ao horizonte. Ela sabia, é claro, que o brejo litorâneo não cobria o mundo inteiro, mas nunca tinha saído dele. O que as pessoas tinham feito com a terra? Todas as casas, do mesmo formato de caixas de sapato, se erguiam no meio de um gramado cortado rente. Um bando de flamingos rosados se alimentava num quintal, mas quando Kya se virou, surpresa, viu que eram de plástico. Os cervos eram de cimento. Os únicos patos voavam pintados nas caixas de correio.

— Incríveis, né? — perguntou Chase.

— O quê?

— As casas. Você nunca viu nada igual, né?

— Não, nunca.

Horas depois, na região plana de Piedmont, ela viu os Apalaches desenhados no horizonte em delicadas linhas azuis. Quando eles chegaram mais perto, cumes se ergueram em volta e montanhas ocupadas por florestas se estenderam suavemente para longe até onde a vista de Kya alcançava.

Nuvens descansavam nos braços cruzados dos morros, então subiam rodopiando até sumir. Alguns fios se enroscavam em espirais fechadas e acompanhavam as ravinas mais quentes, comportando-se como a névoa que acompanhava os charcos escuros do brejo. O mesmo jogo de física num outro terreno da biologia.

Kya vinha das terras baixas, uma paisagem de horizontes onde o sol se punha e a lua nascia na hora certa. Mas ali, onde a topografia era confusa, o sol se equilibrava nos picos, pondo-se ora atrás de uma cresta, depois tornando a surgir quando a picape de Chase subia o aclive seguinte. Ela reparou que, nas montanhas, a hora do poente dependia de onde você estava na encosta.

Perguntou-se onde ficariam as terras do avô. Talvez sua família criasse porcos num celeiro acinzentado pelo tempo como o que ela viu numa campina com um córrego passando. Uma família que deveria ter sido a sua tinha trabalhado duro, rido e chorado naquela paisagem. Alguns ainda deviam estar ali, espalhados pelo condado. Anônimos.

A estrada se transformou numa rodovia de quatro pistas, e Kya segurou-se firme enquanto a picape de Chase corria a poucos metros de outros veículos velozes. Ele virou numa estrada curva que se erguia no ar como por mágica e os conduziu rumo à cidade.

— Um trevo — falou, orgulhoso.

Edifícios imensos de oito e dez andares se erguiam diante do contorno das montanhas. Dezenas de carros passavam depressa feito siris, e havia tanta gente na calçada que Kya pressionou a cabeça no vidro da janela para examinar seus rostos, pensando que com certeza Ma e Pa deviam estar entre elas. Um menino bronzeado e de cabelo escuro que corria pela calçada se parecia com Jodie, e ela se virou para observá-lo. Seu irmão devia estar crescido, claro, mas ela acompanhou o menino até eles dobrarem uma esquina.

Do outro lado da cidade, Chase reservou um quarto para eles num hotel de beira de estrada na Hog Mountain Road, um andar só com uma fileira de quartos marrons iluminada por luzes néon no formato muito estranho de palmeiras.

Depois que Chase destrancou a porta, ela entrou num quarto que parecia razoavelmente limpo, mas fedia a desinfetante e estava mobiliado com o que os Estados Unidos tinham de mais vagabundo: divisórias no lugar de paredes, uma cama afundada com um mecanismo vibratório movido a moedas e uma televisão em preto e branco presa à mesa por uma corrente e um cadeado bizarramente grandes. As colchas da cama eram verde-limão; o tapete, felpudo e laranja. Kya recordou todos os lugares em que eles tinham se deitado juntos: a areia cristalina junto a piscinas de água do mar, barcos à deriva sob o luar. Ali, a cama se destacava como peça central, mas o quarto não tinha uma aparência romântica.

Consciente do que aquilo significava, ela ficou parada junto à porta.

— Não é grande coisa — disse ele, pondo a mala em cima da cadeira. Então foi na sua direção. — Está na hora, Kya, você não concorda? Está na hora.

É claro que aquele era o plano dele. Mas ela estava pronta. Já fazia meses que seu corpo queria, e depois da conversa sobre casamento sua mente cedeu. Ela assentiu.

Ele se aproximou devagar e desabotoou sua blusa, então a virou delicadamente e abriu seu sutiã. Passou os dedos pelos seios. O calor da excitação desceu dos seus seios até as coxas. Assim que ele a deitou na cama sob a luz vermelha e verde dos néons que entrava pelas cortinas finas, ela fechou os olhos. Antes, em todas aquelas “quase vezes”, quando ela o havia impedido, os dedos curiosos dele tinham adquirido um toque mágico, despertando partes dela e fazendo seu corpo se arquear na direção dele, desejar e querer. Mas agora que a permissão fora enfim concedida ele foi tomado pela urgência, e pareceu ignorar as necessidades dela e forçar. Ela gritou ao sentir algo se rasgar, pensando que havia algo errado.

— Está tudo bem. Vai melhorar agora — disse ele cheio de autoridade.

Só que não melhorou muito, e pouco depois ele desabou ao seu lado, sorrindo.

Quando Chase pegou no sono, ela ficou olhando as luzes piscarem na placa de Temos Vagas.

 

* * *

 

Várias semanas mais tarde, após terminarem o café da manhã de ovos fritos e mingau com presunto no barracão de Kya, ela e Chase estavam sentados à mesa da cozinha. Ela estava toda enrolada num cobertor depois de eles terem transado, o que havia melhorado só um pouco depois da primeira tentativa no hotel. Nenhuma das vezes a deixara satisfeita, mas ela não fazia a menor ideia de como abordar um assunto desses. De toda forma, nem sequer sabia como deveria se sentir. Talvez aquilo fosse normal.

Chase se levantou da mesa, ergueu o queixo dela com os dedos, beijou-a e disse:

— Bom, não vou vir muito nos próximos dias, com o Natal chegando e tudo o mais. Tenho vários eventos e tal, e uns parentes vindo.

Kya o encarou e disse:

— Eu estava esperando que talvez... você sabe, talvez eu pudesse ir a algumas festas e tal. Pelo menos quem sabe o jantar de Natal com a sua família.

Chase tornou a se sentar na cadeira.

— Kya, olha, eu estava mesmo querendo falar com você disso. Quero te convidar para o baile do Elks Club, mas sei como você é tímida, como nunca faz nada na cidade. Sei que ia ficar muito infeliz. Você não conhece ninguém, não tem as roupas certas. Sabe dançar, por acaso? Nenhuma dessas coisas tem a ver com você. Você entende, né?

Olhando para o chão, ela falou:

— Entendo, e tudo isso é verdade. Mas, bom, eu preciso começar a me encaixar em algumas partes da sua vida. A abrir minhas asas, como você falou. Acho que preciso arrumar as roupas certas, conhecer alguns dos seus amigos. — Ela levantou a cabeça. — Você pode me ensinar a dançar.

— Claro, ora, e eu vou ensinar. Mas fico pensando em você e eu, no que a gente tem aqui. Amo o tempo que a gente passa junto, só você e eu. Para falar a verdade, estou meio de saco cheio desses bailes bobos. É a mesma coisa todo ano. No ginásio da escola. Velhos, jovens, todo mundo junto. A mesma música idiota. Estou pronto para o próximo passo. Você sabe, quando a gente se casar não vai fazer mesmo esse tipo de coisa, sabe, então para que arrastar você para lá agora? Não faz o menor sentido. Está bem?

Kya voltou a olhar para o chão, então Chase ergueu de novo seu queixo e fixou os olhos nos seus. Em seguida, com um largo sorriso, falou:

— E, cara, sobre o jantar de Natal com minha família, a tia velha coroca da minha mãe vai vir da Flórida. Ela fala sem parar. Eu não desejaria isso para ninguém. Principalmente para você. Acredite, você não está perdendo nada.

Ela permaneceu calada.

— Sério, Kya, eu quero que você fique numa boa com isso. O que a gente tem aqui é a coisa mais especial que alguém poderia querer. Todas as outras coisas... — Ele balançou as mãos no ar. — … não passam de bobagens. — Ele estendeu a mão e a puxou para seu colo, e ela apoiou a cabeça no seu ombro. — O que vale é isto aqui, Kya. Não as outras coisas. — E lhe deu um beijo morno e carinhoso. Então se levantou. — Ok. Tenho que ir.

Kya passou o Natal sozinha com as gaivotas, como havia feito todos os anos desde que Ma fora embora.

 

* * *

 

Dois dias depois do Natal, Chase ainda não tinha voltado. Quebrando a promessa que fez a si mesma de nunca mais esperar por ninguém, Kya ficou andando de um lado para outro pela margem da lagoa, o cabelo preso numa trança embutida, a boca pintada com o batom velho de Ma.

O brejo mais além estava coberto pela capa invernal de tons marrons e cinza. Quilômetros de capim exausto vergavam a cabeça em direção à água, rendidos, após terem dispersado suas sementes. O vento açoitava e rasgava, fazendo os caules ásperos chacoalharem num coro ruidoso. Kya soltou o cabelo com força e limpou a boca com as costas da mão.

Na manhã do quarto dia, estava sentada sozinha na cozinha, empurrando pão de minuto e ovos de um lado para outro no prato.

— Veio com aquele papo todo de “o que vale é isto aqui” e onde ele está agora? — disparou ela. Imaginava Chase improvisando partidas de futebol americano com os amigos ou dançando em festas. — Essas coisas idiotas que ele está de saco cheio.

Por fim, o som da lancha dele. Ela se levantou com um pulo, bateu a porta com força e correu do barracão até a lagoa no mesmo instante em que a lancha apareceu. Só que não era a lancha de Chase nem Chase, mas um rapaz de cabelo louro-dourado, cortado mais curto, mas mesmo assim mal contido debaixo de um gorro. Era o velho barco de pesca, e ali em pé, mesmo com o barco avançando, estava Tate, agora um homem-feito. O rosto não mais infantil; lindo e maduro. Seu olhar formava uma pergunta; seus lábios, um tímido sorriso.

O primeiro pensamento dela foi fugir. Mas sua mente gritou: NÃO! Esta lagoa é minha; eu sempre fujo. Desta vez, não. Seu pensamento seguinte foi pegar uma pedra, e ela a jogou na cara dele, a sete metros de distância. Ele se esquivou depressa, e a pedra passou zunindo rente à sua testa.

— Mas que merda, Kya! Que porra é essa? Espere — pediu ele, ao mesmo tempo que ela pegava outra pedra e mirava. Tate cobriu o rosto com as mãos. — Kya, pelo amor de Deus, pare. Por favor. A gente não pode conversar?

A pedra o acertou com força no ombro.

— VÁ EMBORA DA MINHA LAGOA! SEU SAFADO IMUNDO ORDINÁRIO! O QUE ACHOU DESSA CONVERSA?

Aos gritos, a vendedora de peixe procurou freneticamente outra pedra.

— Kya, me escute. Eu sei que agora você está com o Chase. Eu respeito. Só quero conversar com você. Kya, por favor.

— Por que eu deveria conversar com você? Nunca mais quero te ver na vida. NUNCA MAIS!

Ela catou um punhado de pedras menores e as jogou na cara dele.

Ele pulou para o lado, depois se curvou e segurou a amurada ao mesmo tempo que seu barco raspava no fundo.

— JÁ DISSE PARA IR EMBORA DAQUI! — Ainda gritando, porém mais baixo, ela acrescentou: — É, estou com outra pessoa agora.

Tate se equilibrou depois do tranco da batida, então se sentou no banco da proa.

— Kya, por favor, tem coisas que você deveria saber sobre ele.

Tate não havia planejado conversar sobre Chase. Nada da sua visita surpresa a Kya estava correndo como ele imaginara.

— Que história é essa? Você não tem direito de vir aqui me falar sobre a minha vida pessoal.

Ela havia chegado a um metro e meio dele e cuspiu as palavras.

Com firmeza, ele respondeu:

— Eu sei que não, mas vou falar mesmo assim.

Ao ouvir isso, Kya se virou para ir embora, mas Tate falou mais alto para as suas costas:

— Você não mora na cidade. Não sabe que Chase sai com outras mulheres. Na outra noite mesmo eu o vi sair de uma festa com uma loura na picape. Ele não é bom o bastante para você.

Ela girou nos calcanhares.

— Ah, é? Foi VOCÊ quem me deixou, quem não voltou quando tinha prometido, quem nunca mais voltou. Foi você quem nunca escreveu para explicar o motivo ou mesmo para dizer se estava vivo ou morto. Nem sequer teve coragem de terminar comigo. Não foi homem suficiente para me encarar. Simplesmente desapareceu. SEU BABACA MEDROSO. Aí aparece aqui no seu barco depois de todos esses anos... Você é pior do que ele. Ele pode não ser perfeito, mas você é muito pior.

Ela se calou e ficou encarando Tate.

Com as mãos espalmadas, ele suplicou:

— Kya, você tem razão sobre mim. Tudo que disse é verdade. Eu fui um babaca medroso. E não tinha o direito de falar sobre Chase. Não é da minha conta. E nunca mais vou incomodar você de novo. Só preciso me desculpar e explicar as coisas. Há anos estou arrependido, por favor.

Ela murchou feito uma vela de barco recém-esvaziada pelo vento. Tate era mais do que o seu primeiro amor: ele compartilhava a sua devoção pelo brejo, tinha lhe ensinado a ler, e era o único vínculo, por mais tênue que fosse, com sua família desaparecida. Ele era uma página de tempo, um recorte de jornal colado num caderno, porque isso era tudo que Kya tinha. Seu coração bateu com força à medida que a fúria foi se dissipando.

— Olhe só para você... tão linda. Uma mulher. Está indo tudo bem? Continua vendendo mariscos?

Ele estava impressionado com a mudança dela, os traços mais refinados, porém fascinantes, as maçãs do rosto bem marcadas, os lábios carnudos.

— Está. Continuo.

— Tome, eu trouxe uma coisa para você.

De um envelope ele tirou a pena minúscula e vermelha da bochecha de um pica-pau-mosqueado e lhe entregou. Ela pensou em jogá-la no chão, mas nunca tinha encontrado aquela pena; por que não deveria guardá-la? Enfiou-a no bolso sem agradecer.

Ele disse, depressa:

— Kya, deixar você não foi só errado, foi a pior coisa que eu já fiz e que vou fazer na vida. Passei anos arrependido e vou me arrepender para sempre. Penso em você todo dia. Pelo resto da minha vida vou me arrepender de ter te deixado. Achei mesmo que você não fosse conseguir sair do brejo e morar no outro mundo, então não imaginei como a gente poderia ficar junto. Mas foi errado, e foi horrível eu não ter voltado para conversar com você. Eu sabia quantas vezes você já tinha sido abandonada. Não me importei se eu tinha te magoado. Não fui homem o suficiente. Exatamente como você disse.

Ele parou de falar e ficou olhando para ela.

Por fim, Kya perguntou:

— O que você quer agora, Tate?

— Que de alguma maneira você me perdoe.

Ele inspirou e ficou aguardando.

Kya encarou os dedos dos pés. Por que a parte ferida e ainda sangrando deveria arcar com o ônus do perdão? Não respondeu.

— Eu simplesmente precisava te contar, Kya. — Como ela se manteve em silêncio, ele prosseguiu. — Estou fazendo pós-graduação em zoologia. Protozoologia, principalmente. Você iria amar.

Ela não conseguia imaginar aquilo, e tornou a olhar na direção da lagoa para conferir se Chase estava chegando. Tate não deixou de notar isso; tinha adivinhado desde o primeiro instante que ela estava ali esperando por Chase.

Na semana anterior mesmo, Tate vira Chase, de smoking branco, dançar com várias mulheres no baile de gala de Natal. O baile, assim como a maioria dos eventos de Barkley Cove, acontecera no ginásio da escola. Enquanto um aparelho de som pequeno demais montado debaixo da cesta de basquete tocava “Wooly Bully”, Chase fez uma morena rodopiar. Quando começou a tocar “Mr. Tambourine Man”, afastou-se da pista e da morena e foi bebericar seu uísque Wild Turkey na garrafinha do time Tar Heels com outros ex-atletas. Tate estava por perto conversando com dois de seus antigos professores do colégio, e ouviu Chase dizer:

— É, ela é brava feito uma raposa presa numa armadilha. Exatamente o que se poderia esperar de uma gata do brejo. Vale cada centavo da gasolina.

Tate precisou se obrigar a ir embora.

 

* * *

 

Um vento frio levantou e encrespou a superfície da lagoa. Imaginando que fosse Chase, Kya saíra correndo de casa de calça jeans e um suéter fino. Cruzou os braços com força ao redor de si.

— Você está morrendo de frio. Vamos entrar.

Tate indicou o barracão, onde a fumaça saía pela chaminé enferrujada do fogão.

— Tate, eu acho que você deveria ir agora.

Kya olhou várias vezes para o canal. E se Chase chegasse enquanto Tate estivesse ali?

— Por favor, Kya, só uns minutos. Quero muito rever suas coleções.

Em resposta, ela se virou e correu até o barracão, e Tate foi atrás. Ao entrar na varanda, estacou. As coleções dela tinham deixado de ser um hobby infantil para se transformarem num museu de história natural do brejo. Ele pegou uma concha de vieira etiquetada com uma aquarela da praia onde fora encontrada, além de inserções mostrando a criatura devorando criaturas menores do mar. Para cada espécime — centenas, milhares talvez — era a mesma coisa. Ele já tinha visto alguns na infância, mas agora que era doutorando em zoologia os enxergava como um cientista.

Virou-se para ela, ainda parada no vão da porta.

— Kya, que desenhos maravilhosos, quantos detalhes lindos... Você poderia publicar. Isto aqui poderia virar um livro... vários livros.

— Não, não. São só para mim. Eles me ajudam a aprender, só isso.

— Kya, me escute. Você sabe melhor do que ninguém que quase não existem livros de referência sobre esta região aqui. Com estas anotações, estes dados técnicos e estes desenhos esplêndidos, os livros que todo mundo estava esperando estão aqui.

Era verdade. Os guias velhos de Ma sobre conchas, plantas, pássaros e mamíferos da região tinham sido os únicos a serem impressos e eram de uma imprecisão lamentável, apenas com ilustrações simples em preto e branco e informações incompletas em cada verbete.

— Se eu puder levar algumas amostras vou me informar sobre um editor, ver o que eles dizem.

Ela manteve o olhar fixo, sem saber o que pensar sobre aquilo. Será que precisaria ir a algum lugar, conhecer gente? Tate notou a pergunta em seus olhos.

— Você não teria que sair de casa. Poderia mandar as amostras pelo correio para a editora. Ganharia algum dinheiro. Provavelmente não muito, mas talvez não precise passar o resto da vida catando mariscos.

Kya continuou sem dizer nada. Mais uma vez Tate a incentivava a cuidar de si mesma, não apenas se oferecendo para cuidar dela. Parecia que ele estivera ali durante toda a sua vida. Depois sumira.

— Dê uma chance, Kya. Que mal pode fazer?

Ela finalmente concordou em deixá-lo levar algumas amostras, e ele escolheu uma série de aquarelas suaves retratando conchas e a garça-azul-grande por causa dos detalhados desenhos da ave em cada uma das estações, além de um óleo delicado representando a pena curva da sobrancelha.

Tate pegou o desenho a óleo da pena: uma profusão de centenas de pinceladas finíssimas de cores vivas que culminavam num tom de preto fechado e tão brilhante que o sol parecia estar tocando a tela. O detalhe de um rasguinho na haste era tão nítido que tanto Tate quanto Kya se deram conta no mesmo instante de que aquele desenho retratava a primeira pena que ele lhe dera de presente na floresta. Tiraram os olhos da pena e se encararam. Ela desviou o olhar. Forçando-se a não sentir. Não se deixaria atrair outra vez para alguém em quem não podia confiar.

Ele se aproximou e tocou seu ombro. Tentou fazê-la se virar com delicadeza.

— Kya, eu sinto muito por ter deixado você. Por favor, não consegue me perdoar?

Por fim, ela se virou e o encarou.

— Eu não sei como te perdoar, Tate. Nunca mais conseguiria acreditar em você. Por favor, você precisa ir agora.

— Eu sei. Obrigado por ter me escutado, me dado essa chance de pedir desculpas. — Ele aguardou uma fração de segundo, mas ela não disse mais nada. Pelo menos ele estava saindo com alguma coisa. A esperança de encontrar uma editora era um motivo para procurá-la outra vez. — Tchau, Kya.

Ela não respondeu. Ele a encarou e ela manteve o olhar, mas em seguida se virou para o outro lado. Ele saiu pela porta em direção ao barco.

Ela o esperou partir, então se sentou na areia úmida e fria da lagoa para aguardar Chase. Falando em voz alta, repetiu as palavras que tinha dito a Tate:

— Chase pode não ser perfeito, mas você é muito pior.

Contudo, enquanto ela encarava as águas escuras, as palavras de Tate sobre Chase — “sair de uma festa com uma loura na picape” — não saíam da sua cabeça.

 

* * *

 

Chase só apareceu uma semana depois do Natal. Ao entrar na lagoa, disse que poderia ficar a noite toda e passar o Ano-Novo com ela. De braços dados, eles foram até o barracão, onde a mesma névoa parecia cobrir o telhado. Depois do sexo, ficaram aconchegados debaixo de cobertores junto ao fogão. O ar denso não suportava nem mais uma molécula de umidade; quando a água ferveu na chaleira, gotículas pesadas se formaram nas vidraças frias.

Chase tirou a gaita do bolso e, pressionando-a contra os lábios, tocou a triste melodia “Molly Malone”.

— “E hoje o fantasma dela empurra seu carrinho pela rua, gritando berbigões e mariscos, vivos, vivinhos.”

Kya tinha a impressão de que era nos momentos em que Chase tocava essas canções melancólicas que ele mais tinha alma.