Um Lugar Bem Longe Daqui
17. Cruzando o limiar
17.
Cruzando o limiar
1960
Um dia, durante o verão da leitura, quando ela foi de barco até o posto de Pulinho, ele falou:
— E tem mais uma coisa, Srta. Kya. Uns homens têm aparecido aqui perguntando sobre a senhorita.
Ela o encarou em vez de desviar o olhar.
— Quem, o que eles queriam?
— Acho que são do Serviço Social, senhorita. Fizeram um monte de pergunta. Se seu pai continua por aqui, cadê sua mãe, se a senhorita vai para a escola no outono. Quando é que a senhorita aparece aqui... Eles queriam saber principalmente que hora que a senhorita aparece aqui.
— O que disse a eles, Pulinho?
— Bem, eu fiz o que deu para disfarçar. Disse que seu pai vai bem, obrigado, que saiu para pescar. — Ele riu e inclinou a cabeça para trás. — Depois falei que eu nunca sei quando que a senhorita vai aparecer aqui de barco. Não precisa se preocupar, não, Srta. Kya. Pulinho vai despachar esses homens para procurar a senhorita num lugar imaginário se eles aparecerem de novo.
— Obrigada.
Depois de encher o tanque, Kya foi direto para casa. Teria de ser mais vigilante, quem sabe achar um esconderijo no brejo por um tempo, até desistirem dela.
No fim da tarde, quando Tate encostou na margem e seu casco arranhou suavemente a areia, ela perguntou:
— Podemos se encontrar em outro lugar sem ser aqui?
— Oi, Kya. É um prazer ver você.
Tate a cumprimentou ainda sentado à cana do leme.
— O que você acha?
— Não se diz “podemos se encontrar”, o certo é “podemos nos encontrar”, e é educado cumprimentar as pessoas antes de pedir um favor.
— Você fala assim às vezes — disse ela, quase sorrindo.
— É, todo mundo fala meio errado aqui na zona rural da Carolina do Norte, mas a gente precisa se esforçar.
— Boa tarde, Sr. Tate — disse ela, fazendo uma pequena mesura. Ele notou a audácia e a petulância em algum lugar lá dentro. — Mas podemos nos encontrar em algum lugar sem ser aqui? Por favor.
— Claro, acho que sim, mas por quê?
— Pulinho disse que o Serviço Social está atrás de mim. Estou com medo de eles me fisgarem como se eu fosse uma truta e me colocarem num lar adotivo ou algo assim.
— Bom, é melhor a gente se encontrar bem longe, lá onde cantam os lagostins. Tenho pena de qualquer família adotiva que receba você.
O rosto inteiro de Tate sorria.
— Como assim, onde cantam os lagostins? Ma dizia isso.
Kya recordou Ma sempre incentivando-a a explorar o brejo: “Vá o mais longe que puder, para um lugar bem longe daqui, lá onde cantam os lagostins.”
— Quer dizer bem no meio do mato, onde os animais são selvagens e ainda se comportam como animais. Você tem alguma ideia de onde a gente pode se encontrar?
— Tem um lugar que eu achei uma vez, um chalé velho, caindo aos pedaços. Se você souber onde virar, consegue chegar lá de barco; eu posso ir a pé daqui.
— Então sobe aqui. Me mostra desta vez; da próxima a gente pode se encontrar lá mesmo.
— Se eu não estiver, vou deixar uma pilha pequena de pedras bem aqui ao lado do tronco de amarrar barcos. — Kya apontou para um ponto na faixa de areia da lagoa. — Senão estou por aqui em algum lugar e vou aparecer quando ouvir o seu motor.
Eles saíram devagar pelo brejo, com o motor cuspindo, então seguiram rumo ao sul pelo mar aberto, na direção contrária à da cidade. Ela ia se balançando na proa, as lágrimas causadas pelo vento riscando suas bochechas e fazendo cócegas frias em suas orelhas. Quando eles chegaram a uma pequena enseada, ela o guiou por um córrego estreito de água doce sombreado por arbustos baixos. Em vários momentos o córrego parecia se extinguir, mas Kya sinalizou que dava para prosseguir, e eles entraram no meio de mais arbustos.
Por fim, chegaram a um vasto terreno baixo onde o curso d’água passava por um chalé velho de um cômodo só feito com toras de madeira e desmoronado de um dos lados. As toras tinham se soltado, e havia algumas espalhadas pelo chão como um jogo de pega-varetas. O telhado, ainda apoiado em meia parede, descia do ponto mais alto ao mais baixo feito um chapéu torto. Tate atracou o barco na lama e eles caminharam em silêncio até a porta aberta.
Lá dentro estava escuro e fedia a urina de rato.
— Bom, espero que você não esteja pretendendo morar aqui... O chalé inteiro pode desmoronar na sua cabeça.
Tate empurrou a parede. Pareceu razoavelmente sólida.
— É só um esconderijo. Posso estocar um pouco de comida caso eu precise passar um tempo fora.
Tate se virou e a encarou enquanto seus olhos se ajustavam à penumbra.
— Kya, você já pensou em voltar à escola e ponto? Não iria te matar, e talvez eles te deixassem em paz.
— Eles devem ter entendido que estou sozinha, e se eu for vão me pegar e me deixar com uma família. De qualquer forma, já estou velha demais para a escola agora. Em que série que eles iriam me colocar, na primeira?
Seus olhos se arregalaram quando ela pensou em se sentar numa cadeira minúscula cercada por criancinhas que conseguiam pronunciar palavras e contar até cinquenta.
— Então você pretende morar sozinha no brejo para sempre?
— Melhor do que ir para uma família adotiva. Pa dizia que ia mandar a gente para uma se a gente fizesse má-criação. Dizia que elas são más.
— Não são, não. Nem sempre. A maioria é gente de bem que gosta de crianças — falou Tate.
— Quer dizer que você preferiria uma família adotiva do que morar no brejo? — perguntou ela, com o queixo espichado e a mão no quadril.
Ele passou um minuto calado.
— É bom você trazer cobertores e fósforos para o caso de ficar frio. Quem sabe algumas latas de sardinha. Elas duram uma eternidade. Mas não deixe comida fresca aqui; vai atrair ursos.
— Tenho medo de urso não.
— Não tenho medo de urso.
* * *
Durante o resto do verão, Kya e Tate tiveram aulas de leitura no chalé em ruínas. Em meados de agosto, eles já tinham lido Pensar como uma montanha inteiro, e embora ela não conseguisse ler todas as palavras entendeu a maior parte. Aldo Leopold lhe ensinou que as planícies aluviais são extensões vivas dos rios, que podem tomá-las de volta na hora em que bem entenderem. Qualquer pessoa que more numa planície aluvial só está aguardando nas coxias do rio. Ela aprendeu para onde os gansos vão no inverno e o que significa o canto deles. As palavras suaves do autor, quase poemas aos seus ouvidos, lhe ensinaram que o solo está repleto de vida e é uma das riquezas mais preciosas da Terra; que secar os alagados seca a terra num raio de muitos quilômetros, matando junto com a água plantas e animais. Algumas das sementes ficam adormecidas na terra ressecada por décadas, à espera, e quando a água finalmente volta para o seu devido lugar elas explodem da superfície do solo e revelam seus rostos. Maravilhas e conhecimentos da vida real que ela jamais teria aprendido na escola. Verdades que todo mundo deveria saber, mas que, embora estivessem evidentes por toda parte, pareciam se manter em um segredo semelhante ao das sementes.
Eles se encontravam no chalé várias vezes por semana, mas na maioria das noites ela dormia em seu barracão ou então na praia com as gaivotas. Como precisava juntar lenha antes do inverno, transformou isso em missão, e trazia levas de perto e de longe, que foi empilhando de modo mais ou menos ordenado entre dois pinheiros. Os nabos da sua horta mal tinham espichado a cabeça acima das varas-de-ouro; mesmo assim, Kya tinha mais legumes e verduras do que ela e os veados conseguiam comer. Colheu o que ainda restava da safra do fim do verão e guardou as abóboras e beterrabas na sombra fresca debaixo dos degraus de tijolo e tábuas.
Durante todo o tempo, porém, manteve os ouvidos atentos ao resfolegar de um carro cheio de homens vindo para levá-la embora. Às vezes essa atenção a deixava cansada e com medo, então ela ia a pé até o chalé de madeira e passava a noite no chão de terra batida enrolada em seu cobertor sobressalente. Calculava o tempo de catar mariscos e defumar peixes para que Tate pudesse levá-los ao posto de Pulinho e lhe trazer os mantimentos. Assim ela se expunha menos.
* * *
— Lembra quando você leu sua primeira frase e disse que algumas palavras têm muita coisa? — perguntou Tate um dia, sentado na margem do córrego.
— Lembro, sim, por quê?
— Bom, principalmente poemas. As palavras dos poemas fazem mais do que dizer coisas. Elas despertam emoções. Fazem rir até.
— Ma costumava ler poesia, mas eu não me lembro de nenhum poema.
— Escute este aqui; é de Edward Lear.
Ele pegou um envelope dobrado e leu:
Então Dona Aranha Pernuda
Junto com Seu Mosca Mole
Correram para o mar de espuma
Gritando como se fossem um fole.
E lá encontraram um barquinho
De vela rosa e cinza flutuante
E foram embora pelas ondas,
Até se perderem no mar distante.
Sorrindo, ele falou:
— Ele cria um ritmo, feito as ondas na praia.
Depois disso, ela entrou na fase de escrever poemas, inventando-os enquanto percorria o brejo de barco ou catava conchas. Eram versos simples, cadenciados e bobos. “Uma fêmea de gaio-azul salta de um galho e voa; eu também voaria se pudesse na lagoa.” Eles a faziam gargalhar, preenchendo alguns minutos solitários de um dia longo e solitário.
Certo fim de tarde, enquanto lia à mesa da cozinha, ela se lembrou do livro de poemas de Ma e procurou até achá-lo. Estava muito gasto, as capas havia muito já perdidas, e as páginas, presas por dois elásticos puídos. Kya os retirou com cuidado e folheou o livro, lendo as anotações de Ma nas margens. E ao fim havia uma lista com os números das páginas dos poemas preferidos de Ma.
Kya encontrou um de James Wright:
Desolado e frio de repente,
O quintal estava deserto, eu sabia,
Desejei tocar e segurar no colo
Meu filho, meu filho a falar,
A rir ou bulir ou calado ficar...
As árvores e o sol tinham sumido.
Tudo já sumira exceto nós.
Dentro de casa a mãe dele cantava
E mantinha quente o nosso jantar,
E nos amava, sabe Deus como,
A vasta terra escura assim.
E esse de Galway Kinnell:
Eu me importei...
Disse tudo que pensava
Com as palavras mais suaves que sabia. E agora...
Devo dizer que estou feliz porque acabou:
No final só conseguia sentir pena
Daquela ânsia por mais vida.
… Adeus.
Kya tocou as palavras como se fossem um recado, como se Ma as houvesse sublinhado especialmente para a filha ler e compreender um dia à luz fraca do lampião de querosene. Não eram grande coisa, não um bilhete escrito à mão guardado no fundo da gaveta de meias, mas eram algo. Ela sentiu que as palavras tinham um significado potente, mas não foi capaz de sacudi-las para liberá-lo. Se algum dia virasse poeta, deixaria a mensagem clara.
* * *
Quando começou o último ano da escola, em setembro, Tate não conseguiu mais ir à casa de Kya com a mesma frequência, mas, quando ia, levava livros escolares de segunda mão. Não disse nada sobre o fato de os livros de biologia serem avançados demais para ela, de modo que Kya leu capítulos que só teria estudado na escola dali a quatro anos.
— Não se preocupe — dizia ele. — Você vai entender um pouquinho mais a cada vez que ler.
E era verdade.
Conforme os dias foram encurtando, eles voltaram a se encontrar no barracão, porque a luz do dia já não bastava para iluminar o chalé. Sempre tinham estudado fora de casa, mas certa manhã, enquanto um vento louco soprava, Kya acendeu o fogão a lenha. Ninguém havia cruzado o limiar do barracão desde o sumiço de Pa, mais de quatro anos antes, e pareceria inconcebível convidar qualquer um a entrar. Qualquer um menos Tate.
— Quer sentar na cozinha perto do fogão? — perguntou ela quando ele puxou o barco para a margem da lagoa.
— Com certeza — respondeu ele, sabendo que não deveria dar muita importância ao convite.
Assim que ele pisou na varanda, levou quase vinte minutos explorando e admirando as penas, conchas, ossos e ninhos que ela havia juntado. Quando eles finalmente se acomodaram à mesa, ela puxou a cadeira para perto da dele até os braços e cotovelos dos dois quase se tocarem. Só para senti-lo perto de si.
Com Tate tão ocupado ajudando o pai, os dias se arrastavam do início ao fim. Um dia, já tarde da noite, Kya tirou da prateleira de Ma um romance, Rebecca, de Daphne du Maurier, e leu sobre amor. Depois de algum tempo, fechou o livro e foi até o armário. Pôs o vestido sem mangas de Ma e começou a deslizar pelo quarto, rodando a saia e rodopiando em frente ao espelho. Com o cabelo e os quadris ondulando, imaginou Tate tirando-a para dançar. A mão dele na sua cintura. Como se ela fosse a Sra. De Winter.
Então conteve-se e inclinou o corpo, às risadinhas. E ficou imóvel.
* * *
— Vem cá, menina — entoou Mabel certa tarde. — Tem umas coisas aqui para você.
Normalmente quem trazia as caixas de artigos para Kya era Pulinho, mas quando Mabel aparecia costumava ter algo especial.
— Vai lá pegar as coisas, senhorita. Vou encher seu tanque — disse Pulinho, então Kya pulou no cais.
— Olhe aqui, Kya — disse Mabel, erguendo um vestido em tom de pêssego com uma camada de chiffon por cima da saia florida, a peça de roupa mais linda que a menina já vira na vida, mais bonita do que o vestido sem mangas de Ma. — Um vestido feito para uma princesa como você.
Ela o segurou diante de Kya, que tocou o tecido e sorriu. Então, virando as costas para Pulinho, Mabel se curvou com esforço e tirou um sutiã branco da caixa.
Kya sentiu um calor percorrer seu corpo.
— Ora, Kya, não precisa ficar com vergonha, não, meu bem. Você vai precisar disto aqui é já. E, menina, se algum dia precisar falar sobre qualquer coisa que não entender, é só contar para a velha Mabel. Tudo bem?
— Sim, senhora. Obrigada, Mabel.
Kya enfiou o sutiã bem no fundo da caixa, debaixo de algumas calças jeans e camisetas, um saco de feijão-fradinho e um vidro de pêssego em conserva.
Algumas semanas depois, enquanto seu barco subia e descia as ondas e ela observava os pelicanos planarem e se alimentarem no mar, Kya sentiu uma cólica na barriga. Nunca tinha enjoado no mar, e aquela dor era diferente de qualquer outra que já sentira. Ela atracou em Point Beach e se sentou na areia com as pernas dobradas para um lado só, feito uma asa. A dor piorou, e ela fez uma careta e deu um gemido discreto. Devia estar com dor de barriga.
De repente, ouviu o ronronar de um motor e viu o barco de Tate cortando as ondas encimadas de branco. No instante em que a viu, ele virou o barco para a praia e foi em direção à margem. Ela repetiu alguns dos palavrões de Pa. Sempre gostava de ver Tate, mas não naquele momento em que talvez precisasse correr para a mata de carvalhos com uma diarreia repentina. Depois de puxar o barco até perto do dela, ele se jogou na areia ao seu lado.
— Oi, Kya. O que está fazendo? Eu estava indo para a sua casa.
— Oi, Tate. Que bom ver você.
Ela tentou soar normal, mas sua barriga se contraiu com força.
— Qual é o problema? — perguntou ele.
— Como assim?
— Sua cara não está boa. Qual é o problema?
— Acho que estou doente. Estou com umas dores bem fortes na barriga.
— Ah.
Tate deixou os olhos se perderem no mar. Enterrou os dedos dos pés descalços na areia.
— Talvez seja melhor você ir embora — disse ela, com a cabeça baixa.
— Talvez seja melhor eu ficar até você melhorar. E se você não conseguir voltar sozinha para casa?
— Talvez eu precise ir para o mato. Talvez eu passe mal.
— Talvez. Mas acho que isso não vai resolver não — disse ele baixinho.
— Como assim? Você não sabe o que tem de errado comigo.
— É uma sensação diferente de outras dores de barriga?
— É.
— Você tem quase quinze anos, né?
— É. O que isso tem a ver?
Ele ficou calado por um minuto. Arrastou os pés, enterrando os dedos mais fundo na areia. Sem olhar para ela, falou:
— Pode ser que seja, você sabe, aquilo que acontece com as meninas da sua idade. Lembra? Alguns meses atrás eu trouxe um folheto sobre isso. Estava junto com aqueles livros de biologia.
Tate olhou para ela de relance, com o rosto pegando fogo de tão vermelho, e tornou a desviar o olhar.
Kya baixou os olhos, pois seu corpo inteiro enrubesceu. É claro que não houvera mãe para lhe ensinar nada, mas um folheto escolar trazido por Tate realmente explicara alguma coisa. Tinha chegado a hora, e ali estava ela, sentada na praia, virando mulher bem na frente de um menino. Sentiu a vergonha e o pânico a dominarem. O que deveria fazer? O que iria acontecer exatamente? Quanto sangue teria? Imaginou o sangue escorrendo na areia à sua volta. Ficou sentada sem dizer nada enquanto uma dor aguda atormentava o meio do seu corpo.
— Você consegue chegar em casa sozinha? — perguntou ele, ainda sem encará-la.
— Acho que sim.
— Vai ficar tudo bem, Kya. Toda menina passa por isso e fica tudo bem. Volte para casa. Vou seguir você bem de longe para ter certeza de que chegou bem.
— Não precisa.
— Não ligue para mim. Agora vá indo.
Ele se levantou e foi até o barco sem olhar para ela. Ligou o motor, afastou-se da praia e ficou esperando distante da margem até ela começar a subir a costa em direção ao seu canal. Assim ao longe, ele era apenas um pontinho, e seguiu-a até que chegasse à sua lagoa. Em pé na margem, ela lhe deu um breve aceno, com a cabeça baixa, evitando o contato visual.
Da mesma forma que dera um jeito na maioria das coisas, Kya deu um jeito de virar mulher sozinha. Mas, no dia seguinte, assim que amanheceu, pegou o barco e foi até o posto de Pulinho. Um sol pálido parecia boiar suspenso numa névoa espessa quando ela se aproximou do cais dele e procurou Mabel, sabendo que havia pouca chance de ela estar ali. Dito e feito: apenas Pulinho saiu para recebê-la.
— Oi, Srta. Kya. Já está precisando de gasolina?
Ainda sentada no barco, Kya respondeu baixinho:
— Preciso falar com Mabel, Pulinho.
— Eu sinto muito, menina, mas Mabel não está hoje não. Será que eu posso ajudar?
Com a cabeça bem baixa, ela respondeu:
— Eu preciso muito falar com Mabel. Depressa.
— Ora, ora. — Pulinho olhou para o mar do outro lado da pequena baía e não viu nenhum barco chegando. Qualquer um que precisasse de gasolina a qualquer hora do dia e em que dia fosse, inclusive no Natal, podia ter certeza de que Pulinho estaria ali, afinal ele não havia faltado uma única vez em cinquenta anos, exceto quando seu anjinho Daisy tinha morrido. Não podia abandonar seu posto. — Segura firme aí, Srta. Kya, vou subir correndo a estradinha e pedir para alguma criança chamar Mabel. Se aparecer algum barco, diga que eu já volto.
— Pode deixar. Obrigada.
Pulinho subiu depressa o cais e desapareceu. Kya ficou esperando, olhando para a baía de tantos em tantos segundos, apavorada que algum outro barco aparecesse. Mas ele voltou em um instante e disse que algumas crianças tinham ido chamar Mabel; Kya só precisava “esperar um pouquinho”.
Pulinho se ocupou desembalando pacotes de fumo de mascar e colocando-os nas prateleiras, arrumando as coisas em geral. Kya ficou no barco. Por fim, Mabel veio apressada pelas tábuas, que se sacudiam com seu peso como se um piano pequeno estivesse sendo empurrado pelo cais. Com uma sacola de papel na mão, não bradou um cumprimento, como teria feito normalmente, mas ficou em pé no cais acima de Kya e disse baixinho:
— Bom dia, Kya, que história toda é essa, menina? Qual que é o problema, meu bem?
A garota baixou ainda mais a cabeça e balbuciou alguma coisa que Mabel não escutou.
— Pode sair desse barco, ou quer que eu entre aí com você?
Como Kya não respondeu, Mabel, com seus quase cem quilos, pôs os pés um depois do outro no barquinho, que reclamou se chocando nas estacas do cais. Sentou-se no banco do meio de frente para Kya na popa.
— Agora me diga qual que é o problema, menina.
As duas aproximaram as cabeças, Kya cochichou, e então Mabel a puxou bem para o meio do seu peito farto, abraçando-a e ninando-a. No início Kya ficou rígida, desacostumada a ceder a abraços, mas nem por isso Mabel se deixou desencorajar, e por fim Kya se soltou e afundou no conforto daqueles travesseiros. Depois de algum tempo, Mabel se inclinou para trás e abriu a sacola de papel pardo.
— Bom, eu imaginei qual seria o problema, então trouxe umas coisas.
E ali, sentadas a bordo do barco no cais de Pulinho, Mabel explicou os detalhes para Kya.
— Não tem nada para ter vergonha, não, menina. Isso não é uma maldição coisa nenhuma como as pessoas ficam falando; é o início de toda a vida, e só uma mulher pode fazer isso. E agora você é uma mulher, filha.
* * *
Ao escutar o barco de Tate na tarde seguinte, Kya escondeu-se no meio dos densos arbustos e ficou observando. Já parecia estranho o suficiente alguém conhecê-la, mas ele agora sabia do acontecimento mais íntimo e pessoal de toda a sua vida. Suas bochechas arderam quando ela pensou nisso. Ficaria escondida até ele ir embora.
Ele parou o barco na margem da lagoa e saltou, carregando uma caixa branca amarrada com barbante.
— Ei! Kya, cadê você? — chamou. — Trouxe uns bolinhos da Parker’s.
Fazia anos que Kya não provava nada parecido com bolo. Tate tirou alguns livros do barco, então ela saiu devagarinho dos arbustos por trás dele.
— Ah, você está aí. Olha só isso. — Ele abriu a caixa, e lá dentro, bem arrumadinhos, estavam os bolinhos, cada um deles um quadrado com apenas dois centímetros e meio, cobertos por glacê de baunilha e com uma pequenina rosa cor-de-rosa espetada no centro. — Vai, pode comer.
Kya pegou um e, ainda sem olhar para Tate, deu uma mordida. Depois enfiou o resto inteiro na boca. E lambeu os dedos.
— Toma. — Tate colocou a caixa perto do carvalho. — Pode comer quantos quiser. Vamos começar. Eu trouxe um livro novo.
E foi isso. Eles começaram as aulas sem dizer uma palavra sequer sobre o outro assunto.
* * *
O outono estava chegando; as sempre-vivas podiam não ter reparado, mas os sicômoros, sim. As árvores irradiavam milhares de folhas douradas diante do céu cinza de ardósia. Num fim de tarde, depois da aula, quando Tate ainda estava lá embora já devesse ter ido, ele e Kya se sentaram em um tronco na mata. Ela enfim fez a pergunta que vinha querendo fazer havia meses.
— Tate, obrigada por ter me ensinado a ler e por todas essas coisas que você me deu. Mas por que você fez isso? Você não tem uma namorada ou algo do tipo?
— Não... Bom, às vezes sim. Eu tive uma, mas agora não. Gosto de ficar aqui no silêncio, e gosto do jeito como você se interessa tanto pelo brejo, Kya. A maioria das pessoas não presta atenção nenhuma a ele a não ser para pescar. Acham que é um descampado que deveria ser aterrado e desenvolvido. As pessoas não entendem que a maioria dos animais marinhos precisa do brejo, inclusive os que elas comem.
Ele não mencionou a pena que sentia por ela estar sozinha nem que ele sabia como as crianças a haviam tratado tantos anos atrás; como os moradores da cidadezinha a chamavam de Menina do Brejo e inventavam histórias a seu respeito. Esgueirar-se correndo até o barracão dela durante a noite e bater na porta de tela tinha se tornado uma tradição, uma iniciação para meninos virarem homens. O que isso dizia sobre os homens? Alguns deles já estavam apostando quem seria o primeiro a tirar sua virgindade. Coisas que o deixavam furioso e preocupado.
Mas esse não era o principal motivo pelo qual ele havia deixado penas para Kya na floresta, ou pelo qual continuava a visitá-la. As outras palavras que Tate não disse eram os seus sentimentos por ela, que pareciam embolados entre o doce amor por uma irmã perdida e o amor ardente por uma menina. Ele próprio não conseguia nem chegar perto de compreender aquilo, porém jamais fora atingido por uma onda tão forte. Uma potência de emoções ao mesmo tempo dolorida e prazerosa.
Enfiando uma folha de grama num buraco de formiga, ela finalmente perguntou:
— Onde está a sua mãe?
Uma brisa passou por entre as árvores e sacudiu de leve os galhos. Tate não respondeu.
— Não precisa falar nada não, se não querer — disse ela.
— Se não quiser.
— Não precisa falar nada não, se não quiser.
— Minha mãe e minha irmã mais nova morreram em um acidente de carro em Asheville. O nome da minha irmã era Carianne.
— Ah. Desculpa, Tate. Aposto que a sua mãe era muito legal e bonita.
— Sim. As duas eram. — Ele falava olhando para o chão, por entre os joelhos.
— Eu nunca falei disso. Com ninguém.
Nem eu, pensou Kya. Em voz alta, ela disse:
— Minha mãe foi embora um dia e nunca mais voltou. A mãe veado sempre volta.
— Bom, pelo menos você pode torcer para ela voltar. A minha com certeza não vai voltar.
Eles passaram alguns instantes calados, então Tate tornou a falar:
— Eu acho que...
Mas parou e desviou o olhar.
Kya o encarou, mas ele observava o chão. Sem dizer nada.
Ela perguntou:
— O quê? Você acha o quê? Pode me falar o que quiser.
Ele continuou sem dizer nada. Com a paciência conquistada pela compreensão, Kya aguardou.
Por fim, bem baixinho, ele disse:
— Acho que elas foram a Asheville comprar o meu presente de aniversário. Tinha uma bicicleta lá que eu queria, que eu precisava. Como a Western Auto não vendia essa bicicleta, eu acho que elas foram a Asheville comprar para mim.
— Isso não quer dizer que foi culpa sua — disse ela.
— Eu sei, mas eu sinto que foi — retrucou Tate. — Nem lembro mais que bicicleta era.
Kya chegou mais perto dele, não o suficiente para tocá-lo. Mas sentiu algo... quase como se o espaço entre seus ombros tivesse mudado. Pensou se Tate estaria sentindo também. Quis se aproximar mais, só o suficiente para seus braços roçarem de leve os dele. Quis tocá-lo. E se perguntou se ele iria perceber.
Nesse exato instante o vento ganhou força, e milhares e milhares de folhas amarelas de sicômoro se soltaram da árvore e começaram a flutuar pelo céu. Folhas de outono não caem; elas voam. Demoram-se bastante e passeiam devagar, sua única chance de voar. Refletindo a luz do sol, elas rodopiaram, avançaram e estremeceram nas correntezas do vento.
Tate se levantou do tronco com um pulo e a chamou:
— Veja quantas folhas você consegue pegar antes de elas caírem no chão!
Kya ficou de pé depressa, e os dois começaram a pular e saltitar por entre as cortinas de folhas que caíam, estendendo bastante os braços para agarrá-las antes que caíssem. Rindo, Tate mergulhou na direção de uma folha a poucos centímetros do chão, pegou-a e rolou, erguendo no ar seu troféu. Kya jogou as mãos para cima e soltou de volta no vento todas as folhas que havia resgatado. Quando passou correndo no meio, elas refletiram no seu cabelo feito ouro.
Então, ao girar, ela trombou com Tate, que tinha se levantado, e os dois ficaram paralisados, encarando-se. Pararam de rir. Ele a segurou pelos ombros, hesitou um segundo, então a beijou nos lábios enquanto as folhas choviam e dançavam ao redor deles, silenciosas como a neve.
Ela não sabia nada sobre beijos, e manteve a cabeça e os lábios rígidos. Eles se afastaram e se entreolharam, perguntando-se de onde aquilo tinha vindo e o que fariam depois. Ele tirou uma folha do cabelo dela com um gesto delicado e a largou no chão. O coração de Kya batia alucinadamente. De todos os amores esgarçados que ela já conhecera dos parentes desajustados, nenhum a tinha feito se sentir daquele jeito.
— Eu sou sua namorada agora? — perguntou.
Ele sorriu.
— Você quer ser?
— Quero.
— Pode ser que você seja muito nova — disse ele.
— Mas eu conheço as penas. Aposto que as outras meninas não sabem nada das penas.
— Então está bem.
E ele a beijou de novo. Dessa vez ela inclinou a cabeça para o lado e suavizou os lábios. Pela primeira vez na vida seu coração ficou completo.