Um Lugar Bem Longe Daqui

Delia Owens · Capítulo 27 de 58

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Um Lugar Bem Longe Daqui

26. O barco ancorado

26.

 

O barco ancorado

 

1965

Na primeira semana que os dois passaram juntos, Chase foi à lagoa de Kya quase todos os dias depois do trabalho na Western Auto, e eles exploraram canais isolados margeados por carvalhos. No sábado de manhã, ele a levou bem para o norte do litoral para uma expedição até um lugar ao qual ela nunca tinha ido, porque era distante demais para seu barquinho. Ali — em vez de estuários e áreas imensas de mato do seu brejo — a água cristalina fluía até onde a vista dela alcançava por entre uma floresta de ciprestes brilhante e aberta. Garças e cegonhas ofuscantes de tão brancas passeavam entre nenúfares e plantas aquáticas tão verdes que pareciam cintilar. Acomodados em curvas de troncos de cipreste grandes como espreguiçadeiras, eles comeram sanduíches de queijo apimentado e batatas chips, sorrindo ao verem os gansos passarem bem abaixo dos seus pés.

Como a maioria das pessoas, Chase entendia o brejo como um lugar para se andar de barco e pescar, ou então que devia ser aterrado para a agricultura, de modo que o conhecimento de Kya sobre os animais, correntezas e plantas o intrigava. Mas ele desdenhava seu toque suave, seu hábito de manter o barco em velocidade baixa, de passar silenciosamente pelos cervos, de sussurrar junto aos ninhos dos pássaros. Não tinha interesse algum em aprender sobre conchas ou penas, e a enchia de perguntas ao vê-la fazer anotações no seu diário ou coletar espécimes.

— Por que está desenhando capim? — perguntou certo dia na cozinha dela.

— Estou desenhando as flores do capim.

Ele riu.

— Capim não tem flor.

— Claro que tem. Olhe estas aqui. São minúsculas, mas lindas. Cada espécie de capim tem uma flor ou inflorescência diferente.

— Mas o que vai fazer com tudo isso, afinal?

— Estou registrando tudo para aprender sobre o brejo.

— Tudo que você precisa saber é quando e onde os peixes mordem a isca, e isso eu posso te dizer — falou ele.

Ela riu para agradá-lo, algo que nunca tinha feito. Cedendo mais um pedacinho de si só para ter alguém.

 

* * *

 

Naquela tarde, depois de Chase ir embora, Kya saiu sozinha de barco e foi até o brejo. Mas não se sentiu só. Acelerou um pouquinho mais do que de costume, o cabelo comprido esvoaçando ao vento e um leve sorriso esboçado nos lábios. O simples fato de saber que o veria de novo em breve, que estaria com alguém, a alçava a um lugar novo.

Então, ao rodear um trecho de mato alto, viu Tate mais à frente. Ele estava bem distante, a uns quarenta metros talvez, e não tinha ouvido o barco dela. No mesmo instante, Kya soltou o acelerador e desligou o motor. Pegou o remo e recuou até o meio do capim.

— Ele deve ter voltado da faculdade — sussurrou para si mesma.

Vira-o algumas vezes ao longo dos anos, mas nunca tão de perto assim. Mas ali estava ele, com as mechas do cabelo despenteado saindo de outro boné vermelho. O rosto bronzeado.

Tate estava calçando galochas que iam até as coxas e andava por uma lagoa recolhendo amostras de água em frasquinhos. Não mais os vidros velhos de geleia que eles usavam quando eram duas crianças descalças, mas frasquinhos que chacoalhavam num suporte especial. Dignos de um professor universitário. Muito além do alcance de Kya.

Ela não remou para longe. Ficou observando-o por um tempo, pensando que provavelmente nenhuma garota esquece o seu primeiro amor. Soltou o ar, então remou de volta na direção de onde tinha vindo.

 

* * *

 

No dia seguinte, Chase e Kya subiam o litoral rumo ao norte quando quatro botos entraram na esteira da lancha e começaram a segui-los. O céu estava nublado, e dedos de névoa se agitavam acima das ondas. Chase desligou o motor e, enquanto a lancha seguia boiando, pegou a gaita e tocou “Michael Row the Boat Ashore”, uma velha canção triste e melodiosa cantada nos anos 1860 pelos escravos que remavam os barcos do continente até as ilhas da Carolina do Sul, conhecidas como Sea Islands. Ma costumava cantá-la enquanto faxinava, e Kya meio que se lembrava da letra. Como que inspirados pela música, os botos chegaram mais perto e passaram a nadar em volta da lancha, seus olhos atentos fixos em Kya. Então dois deles se aproximaram do casco, e ela baixou a cabeça até poucos centímetros da deles e cantou baixinho:

Irmã, ajeite a vela do barco, aleluia

Irmão, também venha ajudar, aleluia.

Meu pai partiu não sei para onde, aleluia.

Michael, reme até a margem, aleluia.

Largo e fundo é o rio Jordão,

Minha mãe do outro lado vou encontrar, aleluia.

Gelado e frio é o rio Jordão,

Congela o corpo, mas a alma, não, aleluia.

Os botos encararam Kya por mais alguns segundos, em seguida deslizaram de volta para dentro do mar.

Ao longo das semanas seguintes, Chase e Kya passaram finais de tarde na praia com as gaivotas sem fazer nada, deitados de costas na areia ainda morna de sol. Chase não a levou à cidade, nem ao cinema nem para dançar; eram apenas os dois, o brejo, o mar e o céu. Ele não a beijava, apenas segurava sua mão ou colocava de leve o braço em volta dos seus ombros quando esfriava.

Então, certa noite, ele ficou até escurecer, e os dois se sentaram na praia sob as estrelas junto a uma fogueira pequena, com os ombros encostados, envoltos por um cobertor. O fogo iluminava seus rostos e escurecia a margem atrás deles, como as fogueiras de acampamento costumam fazer. Encarando-a, ele perguntou:

— Tudo bem se eu te beijar agora?

Ela aquiesceu, e ele se inclinou e a beijou, suavemente no início, depois como um homem.

Eles se deitaram por cima da colcha, e ela se aconchegou o máximo que pôde junto a ele. Sentindo seu corpo forte. Ele a abraçava apertado usando ambos os braços, mas apenas tocava seus ombros com as mãos. Nada mais. Ela inspirou fundo, sorvendo o calor e o cheiro dele e do mar, daquela união.

 

* * *

 

Apenas alguns dias mais tarde, Tate, ainda de férias da universidade, foi de barco até o canal de Kya no brejo, a primeira vez que fazia isso em cinco anos. Ainda não conseguia explicar para si mesmo por que não fora procurá-la antes disso. Principalmente por ter sido um covarde, por vergonha. Mas ia enfim ao encontro dela, para dizer que nunca havia deixado de amá-la e para implorar pelo seu perdão.

Nos quatro anos de graduação na universidade, tinha se convencido de que Kya não se encaixaria no mundo acadêmico que ele buscava. Passara a graduação inteira tentando esquecê-la; afinal, havia muitas distrações femininas em Chapel Hill. Chegou até a ter alguns relacionamentos longos, mas ninguém chegava aos pés de Kya. O que ele tinha aprendido — logo depois do DNA, dos isótopos e dos protozoários — era que não respirava sem ela. Sim, Kya não poderia viver no mundo universitário que ele havia buscado, mas agora ele poderia viver no mundo dela.

Planejara tudo. Seu professor dissera que ele poderia concluir a pós-graduação em três anos, pois já vinha fazendo a pesquisa para a dissertação de doutorado durante toda a graduação, e estava quase concluída. Então, recentemente, Tate ficara sabendo que um laboratório de pesquisa federal seria construído perto de Sea Oaks, e que ele teria muita chance de ser contratado como pesquisador em tempo integral. Não havia ninguém no mundo mais qualificado para o cargo: ele tinha passado praticamente a vida inteira pesquisando aquele brejo, e em breve teria o título de doutor para comprovar isso. Dali a alguns anos poderia viver no brejo com Kya e trabalhar no laboratório. Casar-se com Kya. Se ela aceitasse.

Ele quicava nas ondas em direção ao canal dela, quando de repente o barco de Kya passou depressa indo para o sul, num curso perpendicular ao seu. Tate soltou a cana do leme, ergueu os braços acima da cabeça e acenou feito um doido para chamar sua atenção. Gritou seu nome. Mas ela estava olhando para leste. Tate olhou para o mesmo lado e notou a lancha de Chase fazendo uma curva na direção dela. Manteve o barco parado e observou Kya e Chase rodearem um ao outro nas ondas azul-acinzentadas, em círculos cada vez menores, feito águias se cortejando no céu. As esteiras de suas embarcações agitadas, espumando.

Tate observou os dois se encontrarem e tocarem as pontas dos dedos sobre a água agitada. Tinha escutado os boatos pelos velhos amigos em Barkley Cove, mas torcera para que não fossem verdade. Entendia por que Kya se apaixonaria por um homem assim, bonito, sem dúvida romântico, que a levasse para passear na sua lancha de luxo e para fazer piqueniques elegantes. Ela não devia saber nada sobre a vida de Chase na cidade, que ele namorava e paquerava outras mulheres em Barkley e até mesmo em Sea Oaks.

E quem sou eu para dizer qualquer coisa?, pensou Tate. Eu mesmo não a tratei melhor. Quebrei uma promessa, não tive sequer coragem de terminar com ela.

Ele baixou a cabeça, então deu outra olhada bem a tempo de ver Chase se inclinar para beijá-la. Kya, Kya, pensou. Como pude deixar você? Bem devagar, acelerou e tornou a virar na direção do porto da cidade para ajudar o pai a embalar e transportar a pesca.

 

* * *

 

Alguns dias mais tarde, como nunca sabia quando Chase poderia aparecer, Kya mais uma vez se flagrou atenta aos barulhos da lancha dele. Como fazia com Tate. Assim, quer estivesse arrancando ervas daninhas, cortando lenha para o fogão ou catando mariscos, inclinava a cabeça num ângulo preciso para captar o som. “Estreitando os ouvidos”, Jodie costumava dizer.

Cansada da tensão que a esperança lhe causava, enfiou na mochila alguns pães de minuto, melado frio e sardinhas suficientes para três dias e foi a pé até o velho chalé de madeira caindo aos pedaços; o “chalé da leitura”, como o chamava em pensamento. Lá, nos verdadeiros confins, era livre para caminhar, coletar o que quisesse, ler as palavras, ler a natureza. Não esperar o som de alguém era uma libertação. E uma força.

Num bosque de carvalhos-californianos, apenas uma curva depois do chalé, encontrou a pena minúscula do pescoço de uma mobelha-pequena e gargalhou. Nem sabia quanto tempo fazia que desejava aquela pena, e ali estava ela, a uma curta distância correnteza abaixo.

Acima de tudo, tinha ido lá para ler. Depois que Tate fora embora, tantos anos antes, ela não tinha mais acesso a livros, então certa manhã havia pegado o barco, passado de Point Beach e percorrido mais uns quinze quilômetros até Seven Oaks, cidade ligeiramente maior e bem mais refinada do que Barkley Cove. Pulinho tinha dito que qualquer um podia pegar livros emprestados na biblioteca de lá. Ela duvidava que isso valesse para alguém que morava num pântano, mas estava determinada a descobrir.

Havia amarrado o barco no cais da cidade e atravessado a praça rodeada de árvores junto ao mar. Enquanto caminhava para a biblioteca, ninguém olhou para ela nem cochichou pelas suas costas ou a enxotou da frente de uma vitrine. Ali ela não era a Menina do Brejo.

Entregou à bibliotecária Sra. Hines uma lista de didáticos.

— Poderia, por favor, me ajudar a encontrar Princípios da química orgânica, de Geissman, Zoologia de invertebrados do pântano costeiro, de Jones, e Fundamentos de ecologia, de Odum?

Tinha visto esses títulos nas referências do último livro que Tate lhe dera antes de ir para a faculdade.

— Ah, sim. Entendi. Vamos ter de pedir esses livros emprestados para a biblioteca da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill.

Então, naquele momento, sentada em frente ao velho chalé, ela pegou uma coletânea de artigos científicos. Um dos artigos sobre estratégias reprodutivas tinha o título “Fodedores dissimulados”. Kya riu.

Como se sabe, começava o artigo, na natureza em geral os machos com as características sexuais secundárias mais proeminentes, como por exemplo as maiores galhadas, as vozes mais graves, os peitos mais largos e os conhecimentos mais vastos, conquistam os melhores territórios porque conseguem afugentar os machos mais fracos. As fêmeas optam por acasalar com esses alfas imponentes e são, portanto, inseminadas com o melhor DNA disponível, que é transmitido para a descendência dessa fêmea: um dos fenômenos mais poderosos na adaptação e continuidade da vida. Além disso, essas fêmeas conseguem os melhores territórios para seus filhotes.

No entanto, alguns machos inferiores, que não são fortes, vistosos nem espertos o suficiente para conquistar bons territórios, têm truques para tapear as fêmeas. Exibem suas formas menores em posturas infladas ou gritam com frequência, ainda que com vozes esganiçadas. Com base em fingimentos e sinais falsos, copulam aqui e ali. Sapos machos pequeninos, escrevia o autor, encolhem-se no mato e se escondem perto de um macho alfa coaxando com energia para atrair fêmeas. Quando várias fêmeas são atraídas ao mesmo tempo pelo canto forte e o macho alfa está ocupado copulando com uma delas, o mais fraco se intromete e acasala com uma das outras. Esses machos impostores são conhecidos como “fodedores dissimulados”.

Kya se lembrou, muitos anos antes, de Ma alertando as irmãs mais velhas sobre rapazes que turbinavam as picapes enferrujadas ou dirigiam calhambeques velhos com o rádio no volume máximo. “Garotos que não prestam fazem muito barulho”, dissera ela.

Mas havia um consolo para as fêmeas. A natureza é audaciosa o suficiente para garantir que os machos que enviam sinais desonestos ou passam de uma fêmea para outra quase sempre terminem sozinhos.

Outro artigo abordava a grande rivalidade entre espermatozoides. Na maioria das formas de vida, os machos competem para inseminar as fêmeas. Às vezes os leões lutam até a morte; elefantes rivais travam presas e destroem o chão que pisam enquanto dilaceram a carne uns dos outros. Embora muito ritualizados, os conflitos ainda podem acabar em mutilação.

Para evitar esses ferimentos, os inseminadores de algumas espécies competem segundo modalidades menos violentas e mais criativas. Os insetos são os mais imaginativos. O pênis do macho de lavadeira é equipado com uma conchinha, que retira os espermatozoides ejetados pelo rival anterior antes de depositar os seus.

Kya largou o artigo no colo e deixou seu pensamento devanear com as nuvens. Alguns insetos fêmeas devoram o parceiro, mães mamíferas estressadas abandonam as crias, muitos machos inventam maneiras arriscadas ou ardilosas de vencer os espermatozoides dos concorrentes. Nada parecia ser excessivamente indecoroso, contanto que o ciclo da vida se perpetuasse. Ela sabia que aquele não era um lado obscuro da natureza, apenas modos inventivos de sobreviver contra todos os obstáculos. Com certeza no caso dos humanos não devia ser só isso.

 

* * *

 

Depois de três dias seguidos sem ver Kya, Chase começou a perguntar se poderia aparecer em determinado dia e horário para visitá-la no barracão ou nesta ou naquela praia, e sempre chegava pontualmente. De longe, ela via sua lancha de cores vivas flutuando nas ondas — como as penas chamativas da plumagem de uma ave na época reprodutiva — e sabia que ele tinha vindo só para vê-la.

Começou a imaginá-lo levando-a para um piquenique com os amigos. Todos rindo e correndo para as ondas, chutando a espuma. Ele a pegando no colo e fazendo-a girar. Depois sentada com os outros, comendo sanduíches e tomando as bebidas trazidas num isopor. Aos poucos, imagens de casamento e filhos foram se formando apesar da resistência dela. Deve ser algum impulso biológico que me pressiona para reproduzir, pensou. Mas por que ela não podia ter pessoas queridas como todo mundo? Por que não?

Mas toda vez que ela tentava perguntar quando ele iria apresentá-la aos amigos e parentes, as palavras grudavam na sua língua.

Um dia, boiando à deriva no mar, poucos meses depois de se conhecerem, ele disse que estava perfeito para nadar.

— Não vou olhar — disse ele. — Tire a roupa e pule, eu vou depois.

Ela ficou em pé na frente dele, equilibrando-se no barco, mas enquanto puxava a camiseta por cima da cabeça Chase não desviou os olhos. Ele estendeu a mão e passou de leve os dedos pelos seios firmes. Ela não o impediu. Ele a puxou mais para perto, abriu o zíper do short dela e o baixou com facilidade pelos quadris estreitos. Então tirou a própria camisa e o short e a deitou delicadamente nas toalhas.

Ajoelhado a seus pés, sem dizer nada, passou os dedos como num sussurro por seu tornozelo esquerdo até a parte interna do joelho, e depois lentamente pela parte interior da coxa. Ela ergueu o corpo contra a mão dele. Os dedos pararam no alto da coxa, esfregaram por cima da calcinha, então seguiram para a barriga, suaves como um pensamento. Ela sentiu os dedos dele subirem pela barriga em direção aos seios e torceu o corpo para longe. Com firmeza, ele a empurrou para que deitasse novamente e deslizou os dedos até o seio, contornando devagar com o dedo um dos mamilos. Olhou para ela sem sorrir enquanto baixava a mão e puxava o cós da sua calcinha. Ela o queria, queria-o por inteiro, e seu corpo se encostou no dele. Segundos depois, contudo, ela cobriu a mão dele com a sua.

— Qual é, Kya — disse ele. — Por favor. A gente já esperou um tempão. Eu fui bem paciente, não acha?

— Chase, você prometeu.

— Que droga, Kya. A gente está esperando o quê? — Ele se sentou. — Eu com certeza já mostrei que gosto de você. Qual é o problema?

Ela se sentou e vestiu a camiseta.

— O que vai acontecer depois? Como sei que você não vai me deixar?

— Como é que alguém pode saber isso? Mas, Kya, eu não vou a lugar nenhum. Estou apaixonado por você. Quero estar com você o tempo todo. O que mais posso fazer para provar isso?

Ele nunca havia falado daquele jeito. Kya perscrutou seus olhos em busca da verdade, mas tudo que encontrou foi um olhar firme, difícil de interpretar. Não sabia exatamente o que sentia por Chase, mas não estava mais sozinha. Isso parecia bastar.

— Logo, está bem?

Ele a puxou para perto.

— Ok. Vem cá.

Ele a abraçou e os dois ficaram deitados sob o sol, à deriva no mar, ouvindo o schlep, schlep, schlep das ondas sob a lancha.

O dia foi morrendo e a noite caiu pesada. As luzes do vilarejo dançavam aqui e ali na margem distante. Estrelas piscaram acima do seu mundo de mar e céu.

— O que será que faz as estrelas piscarem? — perguntou Chase.

— Perturbações na atmosfera. Altos ventos atmosféricos, essas coisas.

— Ah, é?

— Você sabe, né, que as estrelas ficam longe demais para a gente ver. Só vemos a luz delas, que pode ser distorcida pela atmosfera. Mas é claro que as estrelas não estão paradas, elas se movem muito depressa.

Kya sabia, por ter lido os livros de Albert Einstein, que, assim como as estrelas, o tempo não é fixo. O tempo avança e se dobra ao redor de planetas e sóis, é diferente nas montanhas e nos vales, e faz parte da mesma matéria que o espaço, que se dobra e incha como o mar. Os objetos, sejam eles planetas ou maçãs, caem ou orbitam, não por causa de alguma energia gravitacional, mas por despencarem nas dobras sedosas de espaço-tempo criadas por objetos de massa maior, como nos círculos concêntricos de um lago.

Mas ela não falou nada disso. Infelizmente, a gravidade não tem influência alguma no pensamento humano, e os textos do ensino secundário ainda ensinavam que as maçãs caem no chão por causa de uma força poderosa exercida pela Terra.

— Ah, adivinhe só? — disse Chase. — Fui chamado para ajudar a treinar o time de futebol americano da escola.

Ela sorriu para ele.

Então pensou: Como tudo o mais no universo, nós despencamos em direção àqueles que têm a massa maior.

 

* * *

 

Na manhã seguinte, numa rara ida ao Piggly Wiggly para comprar artigos pessoais que Pulinho não vendia, Kya saiu da mercearia e quase trombou com os pais de Chase: Sam e Patti Love. Eles sabiam quem ela era; todos sabiam.

Ela já os tinha visto na cidade vez ou outra ao longo dos anos, quase sempre de longe. Sam podia ser visto atrás do balcão da Western Auto recebendo clientes, abrindo a caixa registradora. Kya se lembrava de como, quando ela era criança, ele a havia enxotado da vitrine como se ela pudesse afugentar os verdadeiros clientes. Patti Love não trabalhava em tempo integral na loja, o que lhe dava tempo para percorrer depressa as ruas distribuindo folhetos do Concurso Anual de Colchas de Retalho ou do Festival da Rainha do Caranguejo. Sempre em um traje elegante e escarpins de salto alto, com uma bolsinha e um chapéu, tudo em tons que combinavam entre si exigidos pelo clima no sul. Não importava o assunto, ela sempre dava um jeito de comentar que Chase era o melhor quarterback que aquela cidade já vira.

Kya deu um sorriso tímido e encarou Patti Love, torcendo para eles falarem com ela de algum jeito pessoal e se apresentarem. Quem sabe reconhecerem-na como namorada de Chase. Mas os dois estacaram bruscamente, não disseram nada e a contornaram, abrindo um espaço maior do que o necessário. E seguiram em frente.

Na noite seguinte a esse encontro, Kya e Chase estavam no barco dela, com o motor desligado, debaixo de um carvalho tão imenso que os galhos curvos se estendiam por cima d’água, criando pequenas grutas para lontras e patos. Com a voz baixa, em parte para não incomodar os patos e em parte por medo, Kya contou a Chase que tinha visto os pais dele e perguntou se poderia conhecê-los.

O garoto ficou sentado sem dizer nada, o que a deixou com um nó na barriga.

Por fim, ele falou:

— Pode, claro. Logo, logo, eu prometo.

Mas não olhou para ela quando disse isso.

— Eles sabem sobre mim, não é? Sobre a gente? — perguntou ela.

— Claro.

O barco deve ter chegado perto demais do carvalho, porque nesse exato instante um jacurutu grande, roliço e macio feito um travesseiro de plumas pendeu de uma árvore com as asas estendidas, então saiu voando lenta e tranquilamente acima da lagoa, com as penas do peito refletindo desenhos discretos na superfície da água.

Chase estendeu a mão e segurou a de Kya, torcendo a dúvida para fora dos dedos dela.

Durante semanas, nasceres e pores do sol acompanharam os movimentos tranquilos de Chase e Kya pelo brejo. Mas toda vez que ela resistia aos seus avanços, ele parava. Imagens de fêmeas de cervo ou de peru sozinhas com filhotes exigentes, após os machos as terem trocado tempos antes por outras fêmeas, pesavam na sua mente.

O máximo que acontecia era os dois ficarem nus deitados na lancha, independentemente do que os moradores de Barkley Cove diziam. Embora Chase e Kya fossem discretos, a cidade era pequena e as pessoas os viam juntos na lancha dele ou nas praias. Os catadores de camarão não deixavam passar muita coisa despercebida no mar. As pessoas comentavam. Fofocavam.