Um Lugar Bem Longe Daqui

Delia Owens · Capítulo 34 de 58

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Um Lugar Bem Longe Daqui

33. A cicatriz

33.

 

A cicatriz

 

1968

Certa manhã do inverno de 1968, Kya estava sentada à mesa da cozinha espalhando num papel tintas de aquarela laranja e rosa para criar o formato bojudo de um cogumelo. Havia terminado seu livro sobre aves marinhas e preparava um guia de cogumelos. Já tinha planos para outro sobre borboletas e mariposas.

Feijão-fradinho, cebola roxa e presunto salgado ferviam na velha panela amassada sobre o fogão a lenha, que ela ainda preferia ao fogão novo. Principalmente no inverno. O telhado de zinco cantava sob uma chuva fina. Então, de repente, o barulho de uma caminhonete atravessando a areia veio da estradinha. Um ronco mais alto do que o do telhado. Sentindo o pânico brotar, ela foi até a janela e viu uma picape vermelha percorrendo os sulcos enlameados.

O primeiro pensamento de Kya foi fugir, mas a picape já estava encostando em frente à varanda. Agachada sob o peitoril da janela, ela observou um homem de uniforme militar cinza e verde saltar do veículo. Ele ficou ali parado, com a porta da picape entreaberta, olhando para a mata e para a trilha que ia em direção à lagoa. Então fechou delicadamente a porta do carro, deu uma corridinha debaixo da chuva até a porta da varanda e bateu.

Kya xingou. O homem provavelmente estava perdido, iria pedir informações e partir em seguida, mas ela não queria lidar com aquilo. Ficaria escondida ali na cozinha e torceria para ele ir embora. Mas ouviu-o chamar:

— Ei! Alguém em casa? Oi!

Irritada, mas curiosa, atravessou a sala recém-mobiliada até chegar à varanda. O desconhecido alto e de cabelo escuro estava em pé no degrau da frente segurando a porta de tela para mantê-la aberta, a um metro e meio de onde Kya estava. O uniforme parecia engomado o bastante para se sustentar sozinho, como se estivesse segurando o sujeito em pé. Seu peito estava coberto por medalhas retangulares coloridas. Porém, o mais chamativo de tudo era uma cicatriz vermelha serrilhada que dividia o rosto ao meio, da orelha esquerda até o alto da boca. Ela arquejou.

No mesmo instante, voltou ao domingo de Páscoa uns seis meses antes de Ma ir embora de vez. Enquanto cantavam o hino cristão “Rocha Eterna”, ela e Ma foram de braços dados da sala até a cozinha e pegaram os ovos coloridos que haviam pintado na véspera. As outras crianças tinham saído para pescar, então ela e Ma tiveram tempo para esconder os ovos, depois pôr no forno o frango e os pães de minuto. Os irmãos e irmãs eram grandes demais para procurar ovos, mas correriam de um lado para outro à procura, fingindo não encontrá-los, depois levantariam bem alto cada tesouro descoberto, rindo.

Ma e Kya estavam saindo da cozinha com os cestos de ovos e coelhinhos de chocolate da Five and Dime bem na hora em que Pa surgiu pela quina do corredor.

Arrancando o gorro de Páscoa da cabeça de Kya e brandindo-o no ar, ele gritou para Ma:

— Onde que você arrumou dinheiro para esses trecos chiques, hein? Gorros e sapato de verniz? Esses ovos e esses coelhos de chocolate metidos a besta? Me diga. Onde?

— Por favor, Jake, fale baixo. Hoje é Páscoa. Isso é para as crianças.

Ele empurrou Ma.

— Você saiu por aí bancando a puta, isso sim. Foi assim que arranjou o dinheiro? Me diga agora.

Ele agarrou Ma pelos braços e a sacudiu com tanta força que o rosto dela pareceu chacoalhar ao redor dos olhos, que permaneceram fixos e bem abertos. Os ovos caíram do cesto e saíram rolando coloridos pelo chão.

— Pa, para, por favor! — gritou Kya, soluçando.

Ele ergueu a mão e deu um tapa na cara da filha.

— Cala essa boca, sua bebê chorona metida a besta! Tira agora esse vestido idiota e esses sapatos caros! Tudo roupa de puta.

Kya se encolheu, segurando o rosto, e foi atrás dos ovos pintados de Ma.

— Estou falando com você, mulher! Onde que anda arrumando esse dinheiro todo?

Ele pegou o atiçador de lareira no canto e avançou para cima de Ma.

Kya gritou o mais alto que conseguiu e segurou o braço de Pa bem na hora em que ele desferiu o atiçador de lareira no peito de Ma. O sangue salpicou o vestido florido sem mangas feito uma estampa vermelha de bolinhas. Então um corpo grande apareceu no corredor, e quando Kya se virou encontrou Jodie segurando Pa por trás, e os dois caíram no chão. O irmão separou Ma e Pa e gritou para Kya e Ma saírem correndo, e foi o que elas fizeram. Antes de se virar, porém, Kya viu Pa levantar o atiçador e bater na cara de Jodie, fazendo a mandíbula dele se torcer de um jeito horrível e o sangue esguichar. A cena se desenrolou na sua mente num clarão. O irmão desabando no chão e caindo entre ovos cor-de-rosa e roxos e coelhinhos de chocolate. Ela e Ma correndo pelo palmeiral para se esconder no mato. Com o vestido ensanguentado, Ma repetia que estava tudo bem, que os ovos não iriam quebrar e que elas ainda poderiam assar o frango. Kya não entendeu por que elas ficaram escondidas ali; tinha certeza de que o irmão estava morrendo, de que precisava da ajuda delas, mas estava apavorada demais para se mexer. As duas esperaram muito tempo e então voltaram de fininho, olhando pelas janelas para conferir se Pa tinha ido embora.

Jodie estava caído no chão, frio, no meio de uma poça de sangue, e Kya gritou que ele estava morto. Mas Ma o acordou e o levou para o sofá, onde costurou seu rosto com a agulha de costura. Quando tudo se acalmou, Kya recolheu o gorro do chão, foi correndo para a mata e o jogou com toda a força no meio do capim-navalha.

Kya encarou os olhos do desconhecido em pé na sua varanda e disse:

— Jodie.

Ele sorriu, entortando a cicatriz, e respondeu:

— Kya, eu estava torcendo para encontrar você aqui.

Eles continuaram se encarando, procurando um ao outro em olhos mais velhos. Jodie não tinha como saber que estivera com ela ao longo de todos aqueles anos, que em dezenas de ocasiões havia lhe indicado o caminho pelo brejo, lhe ensinado infinitas vezes sobre garças e vaga-lumes. Mais do que qualquer um, ela quisera rever Jodie ou Ma. Nesse pacote, seu coração havia apagado a cicatriz e toda a dor. Não surpreendia que a sua mente houvesse enterrado aquela cena; não surpreendia que Ma tivesse ido embora. Atingida no peito com um atiçador de lareira. Kya tornou a ver como sangue aquelas manchas esfregadas no vestido florido sem mangas.

Ele quis abraçá-la, tomá-la nos braços, mas, quando foi na direção dela, Kya inclinou bem a cabeça para um dos lados com profunda timidez e recuou. Ele apenas subiu na varanda.

— Entre — disse ela, e conduziu-o até a salinha de estar abarrotada com seus espécimes.

— Ah — disse ele. — Então é mesmo. Eu vi seu livro, Kya. Não tinha certeza se era mesmo você, mas, sim, agora vejo que era. Incrível.

Ele andou pela sala observando as coleções dela e examinou também o cômodo em si, com móveis novos, espiando pelos corredores até os quartos. Sem querer bisbilhotar, mas vendo tudo.

— Quer um café, um chá?

Ela não sabia se ele tinha ido fazer uma visita ou se viera para ficar. O que poderia querer, depois de tantos anos?

— Um café seria ótimo. Obrigado.

Na cozinha, ele reconheceu o velho fogão a lenha junto ao fogão a gás e à geladeira novos. Passou a mão na mesa antiga da cozinha, que ela havia mantido do mesmo jeito. Com todo o seu histórico de tinta descascada. Ela serviu o café em canecas e os dois se sentaram.

— Então você é soldado.

— Duas temporadas no Vietnã. Vou ficar mais alguns meses no Exército. Eles foram bons comigo. Pagaram minha faculdade... Engenharia mecânica na Georgia Tech. O mínimo que eu posso fazer é ficar mais um pouco.

A Geórgia não era assim tão longe... Ele poderia ter ido visitá-la antes. Mas estava ali.

— Todos vocês foram embora — disse ela. — Pa ainda ficou um tempo depois de você ter ido, mas então também se foi. Não sei para onde, não sei se ele está vivo ou não.

— E você está aqui sozinha desde aquela época?

— Aham.

— Kya, eu não deveria ter deixado você com aquele monstro. Me arrependi, me senti péssimo por causa disso por anos. Fui covarde, um burro covarde. Estas porcarias de medalhas não significam nada. — Ele passou a mão no peito. — Eu abandonei você, uma menininha, para sobreviver sozinha num pântano com um homem louco. Não espero que me perdoe algum dia.

— Não faz mal. Você mesmo era só um menino. O que poderia ter feito?

— Eu poderia ter voltado quando fiquei mais velho. No começo tive que sobreviver um dia depois do outro nas ruas de Atlanta. — Ele sorriu com desdém. — Saí daqui com setenta e cinco centavos no bolso. Roubei do dinheiro que Pa guardava na cozinha; roubei sabendo que isso deixaria você sem nada. Fiquei vivendo de bicos até o Exército me aceitar. Depois do treinamento, fui direto para a guerra. Quando voltei, tinha passado tanto tempo que imaginei que você já tivesse ido embora, fugido também. Foi por isso que não escrevi. Acho que me alistei para voltar como uma autopunição. Era o que eu merecia por ter te abandonado. Aí, quando me formei na Tech uns dois meses atrás, vi seu livro numa livraria. Catherine Danielle Clark. Meu coração se partiu ao meio e pulou de alegria ao mesmo tempo. Eu precisava encontrar você... Pensei em começar por aqui e seguir seu rastro.

— Bem, aqui estamos então. — Ela sorriu pela primeira vez. Os olhos dele eram os mesmos de antes. Os rostos mudam com as agruras da vida, mas os olhos continuam sendo uma janela para o passado, e ela o viu ali. — Jodie, eu sinto muito por você ter ficado preocupado por me abandonar. Nunca culpei você. Nós fomos as vítimas, não os culpados.

Ele sorriu.

— Obrigado, Kya.

As lágrimas brotaram e ambos desviaram o olhar.

Ela hesitou, então disse:

— Pode ser difícil acreditar, mas durante algum tempo Pa foi bom comigo. Bebeu menos, me ensinou a pescar, e a gente saía bastante de barco por todo o brejo. Mas depois, claro, ele voltou a beber e me deixou aqui para me virar sozinha.

Jodie assentiu.

— É, eu vi esse lado dele algumas vezes, mas sempre voltava para a bebida. Uma vez me disse que tinha algo a ver com a guerra. Eu mesmo estive na guerra e vi coisas que poderiam levar um homem a beber. Mas ele não deveria ter descontado na esposa, nos próprios filhos.

— E Ma e os outros? — perguntou ela. — Você teve notícias, sabe para onde eles foram?

— Não sei nada sobre Murph, Mandy ou Missy. Não os reconheceria se os visse na rua. A essa altura imagino que tenham se espalhado com o vento. Mas sobre Ma, bem, Kya, esse é outro motivo pelo qual eu queria te encontrar. Tenho notícias dela.

— Notícias? Que notícias? Me fale.

Calafrios percorreram os braços dela até a ponta dos dedos.

— Kya, as notícias não são boas. Eu só fiquei sabendo semana passada. Ma morreu faz dois anos.

Kya dobrou o corpo para a frente e segurou o rosto com as mãos. Grunhidos suaves brotaram da sua garganta. Jodie tentou abraçá-la, mas ela se afastou.

Ele continuou:

— Ela tinha uma irmã, Rosemary, que tentou nos achar pela Cruz Vermelha quando Ma morreu, mas não conseguiu. Então, uns dois meses atrás, eles me encontraram por meio do Exército e me colocaram em contato com Rosemary.

Com a voz rouca, Kya balbuciou:

— Ma estava viva até dois anos atrás. Passei esses anos todos esperando ela aparecer na estradinha. — Kya se levantou e se segurou na pia. — Por que ela não voltou? Por que ninguém me disse onde ela estava? E agora é tarde demais.

Jodie foi até a irmã e a abraçou, embora ela tenha tentado se esquivar.

— Eu sinto muito, Kya. Venha se sentar. Vou contar o que Rosemary falou. — Ele esperou ela se acomodar, então disse: — Ma estava doente por causa do colapso nervoso grave que teve quando nos abandonou e foi para Nova Orleans... onde ela cresceu. Estava doente de corpo e alma. Eu me lembro um pouquinho de Nova Orleans. Acho que tinha cinco anos quando saímos de lá. Tudo que lembro é uma casa bonita com janelas grandes que davam para um jardim. Mas depois que nos mudamos para cá Pa não deixava nenhum de nós falar sobre Nova Orleans, nossos avós, nada. Então tudo se apagou.

Kya aquiesceu.

— Eu nunca soube.

Jodie prosseguiu:

— Rosemary falou que nossos avós tinham sido contra o casamento de Ma com Pa desde o início, mas que Ma se mudou para a Carolina do Norte com o marido sem um tostão no bolso. Depois de algum tempo, Ma começou a escrever para a irmã e contar como estavam as coisas: que ela morava num barracão no pântano com um bêbado que batia nela e nos filhos. Então um dia, anos depois, Ma apareceu. Estava com aqueles sapatos de salto de pele falsa de jacaré que tanto adorava. Fazia dias que não tomava banho nem se penteava.

“Ma passou meses muda, sem dizer nenhuma palavra. Ficava no seu antigo quarto na casa dos pais, quase sem comer. Chamaram médicos, é claro, mas ninguém conseguia ajudá-la. O pai de Ma entrou em contato com o xerife de Barkley Cove para perguntar se os filhos dela estavam bem, mas o escritório do xerife respondeu que nem sequer tentava acompanhar de longe a vida das pessoas no brejo.”

Kya fungava de vez em quando.

— Por fim, quase um ano depois, Ma ficou histérica e disse a Rosemary que se lembrava de ter abandonado os filhos. A irmã a ajudou a escrever uma carta para Pa perguntando se poderia nos buscar e nos levar para morar com ela em Nova Orleans. Ele respondeu dizendo que se ela voltasse ou entrasse em contato com qualquer um de nós, iria nos bater tanto que nos deixaria irreconhecíveis. Ela sabia que ele era capaz de uma coisa dessas.

A carta no envelope azul. Ma tinha pedido para buscá-la, para buscar todos os filhos. Tinha querido vê-la. Mas o desfecho da carta fora bem diferente. As palavras dela haviam enfurecido Pa e o fizeram voltar a beber, e então Kya o perdera também. Não comentou com Jodie que ainda guardava as cinzas da carta em um pote de vidro.

— Rosemary contou que Ma nunca fez amigos, nunca jantava com a família nem interagia com ninguém. Não se permitia qualquer tipo de vida, de prazer. Depois de algum tempo, começou a falar mais e não tinha outro assunto que não os filhos. Rosemary disse que Ma nos amou a vida inteira, mas ficou paralisada em algum lugar horrível no qual acreditava que seríamos machucados se voltasse e abandonados se não voltasse. Ela não nos abandonou por algum caso de amor passageiro; enlouqueceu e mal sabia que tinha ido embora.

— Como ela morreu? — perguntou Kya.

— Leucemia. Rosemary disse que era possivelmente tratável, mas ela recusou qualquer medicação. Ficou cada vez mais fraca e dois anos atrás se foi de vez. Rosemary disse que ela morreu de um jeito bem semelhante ao que vivia. No escuro, em silêncio.

Jodie e Kya ficaram sentados sem se mexer. Ela pensou no poema de Galway Kinnell que Ma havia sublinhado em seu livro:

Devo confessar meu alívio por ter acabado.

No final tudo que eu conseguia sentir era pena

Daquele impulso em direção a mais vida.

… Adeus.

Jodie se levantou.

— Venha comigo, Kya. Quero mostrar uma coisa. — Ele a levou até a picape lá fora e os dois subiram na caçamba. Com cuidado, ele retirou uma lona e abriu uma caixa grande de papelão, e um a um foi tirando de lá de dentro e desembrulhando alguns quadros a óleo. Colocou todos em pé na caçamba da picape. Um deles mostrava três meninas pequenas, Kya e as irmãs, de cócoras na margem da lagoa, observando libélulas. Outro mostrava Jodie e seu outro irmão segurando uma fieira de peixes. — Eu trouxe para o caso de você ainda estar aqui. Rosemary me mandou. Disse que Ma passou anos pintando a gente, noite e dia.

Uma das pinturas mostrava todas as cinco crianças posando como se estivessem de frente para a artista. Kya encarou os olhos dos irmãos que a fitavam de volta.

Num sussurro, perguntou:

— Quem é quem?

— O quê?

— Nunca teve nenhuma foto. Eu não conheço eles. Quem é quem?

— Ah. — Jodie não conseguiu respirar, então enfim falou: — Bem, esta aqui é Missy, a mais velha. Depois vem Murph. Mandy. Este bonitinho aqui sou eu, claro. E esta aqui é você. — Ele esperou algum tempo, então disse: — Olhe este aqui.

Diante dele estava um quadro a óleo espantosamente colorido de duas crianças agachadas em meio a espirais de capim verde e flores silvestres. A menina era bem pequena, talvez com três anos, e seu cabelo preto e liso caía por cima dos ombros. O menino, um pouco mais velho e com cachos dourados, apontava para uma borboleta-monarca com as asas pretas e amarelas abertas sobre uma margarida. Estava com a mão no braço da menina.

— Acho que é o Tate Walker — disse Jodie. — Com você.

— Acho que você tem razão. Parece com ele. Por que Ma pintaria o Tate?

— Ele vinha bastante aqui pescar comigo. Vivia te mostrando insetos e coisas assim.

— Por que não me lembro disso?

— Você era muito pequena. Certa tarde, o Tate entrou de barco na nossa lagoa e Pa estava muito bêbado. Você estava na água e Pa deveria estar te vigiando. De repente, sem motivo nenhum, Pa agarrou você pelos braços e te sacudiu com tanta força que sua cabeça foi para trás. Então te largou na lama e começou a rir. Tate pulou do barco e correu até você. Tinha só sete ou oito anos, mas gritou com Pa. Pa bateu nele, claro, e gritou para ele sair do terreno e nunca mais voltar senão ia tomar um tiro. A essa altura a gente já tinha ido até lá para ver o que estava acontecendo. Mesmo com Pa ali xingando, Tate pegou você do chão e te entregou para Ma. Se certificou de que você estava bem antes de ir embora. A gente ainda saiu para pescar algumas vezes depois disso, mas ele nunca mais voltou aqui.

Só quando me mostrou o caminho na primeira vez que saí de barco pelo brejo, pensou Kya. Olhou para a pintura a óleo... tão suave, tão tranquila. De algum modo, a mente de Ma extraíra beleza da loucura. Qualquer um que observasse aqueles retratos pensaria que eles representavam a mais feliz das famílias, vivendo à beira-mar e brincando sob o sol.

Sentados na beirada da caçamba da picape, Jodie e Kya continuaram olhando para os quadros em silêncio. Ele tornou a falar:

— Ma estava isolada e sozinha. Nessas circunstâncias as pessoas se comportam de outro jeito.

Kya grunhiu de leve.

— Por favor, não venha me falar de isolamento. Ninguém precisa me dizer como isso muda uma pessoa. Eu vivi isso. Eu sou o próprio isolamento — sussurrou Kya com um quê de raiva na voz. — Eu perdoo Ma por ter ido embora. Mas não entendo por que ela não voltou... por que me deixou. Você não deve lembrar, mas depois que ela foi embora você me disse que a raposa às vezes abandona as crias quando está morrendo de fome ou em alguma outra situação de estresse extremo. Os filhotes morrem, como teriam morrido de qualquer jeito, mas a raposa sobrevive para acasalar de novo quando as condições melhoram, quando tem chance de criar uma nova ninhada até a maturidade.

“Desde então eu li muito sobre isso. Na natureza, lá onde cantam os lagostins, esses comportamentos, à primeira vista cruéis, na verdade aumentam o número de descendentes da fêmea ao longo da vida, e assim seus genes relacionados ao abandono das crias em momentos de estresse são transmitidos para a geração seguinte. E assim por diante. Acontece com os humanos também. Alguns comportamentos que nos parecem cruéis garantiram a sobrevivência do homem primitivo em qualquer que fosse o pântano no qual se vivesse na época. Sem eles a gente não estaria aqui. Continuamos com esses instintos armazenados nos nossos genes, e eles se expressam quando determinadas circunstâncias prevalecem. Parte de nós vai ser sempre aquilo que fomos, que precisamos ser para sobreviver... muito tempo atrás.

“Talvez algum instinto primitivo, algum gene antigo que não é mais útil, tenha levado Ma a nos abandonar por causa do estresse, do terror e do perigo real de viver com Pa. Mas nem por isso foi certo; ela deveria ter escolhido ficar. Mas saber que essas tendências fazem parte do nosso mapeamento biológico talvez ajude a perdoar até mesmo uma mãe desnaturada. Isso pode explicar por que ela foi embora, mas ainda não entendo por que ela não voltou. Por que nem sequer me escreveu. Ela poderia ter escrito cartas e mais cartas, ano após ano, até uma delas finalmente chegar a mim.”

— Acho que algumas coisas não podem ser explicadas, só perdoadas, ou não. Não sei a resposta. Talvez não exista resposta. Desculpe por ter te trazido essa notícia ruim.

— Passei quase a vida inteira sem família nem notícias da minha família. Agora, em poucos minutos, encontrei um irmão e perdi minha mãe.

— Desculpe mesmo, Kya.

— Não precisa se desculpar. Na verdade, eu perdi Ma anos atrás, e agora você voltou, Jodie. Nem sei dizer o quanto eu queria te ver de novo. Hoje é um dos dias mais felizes e mais tristes da minha vida.

Com os dedos, ela tocou o braço do irmão, que já a conhecia bem o bastante para saber que isso era raro.

Os dois caminharam de volta até o barracão, e ele olhou ao redor para as coisas novas, as paredes recém-pintadas, os armários de cozinha feitos à mão.

— Como você conseguiu, Kya? Antes do livro, como arrumava dinheiro, comida?

— Ah, é uma história longa e chata. Mas eu vendia mariscos, ostras e peixe defumado para o Pulinho.

Jodie inclinou a cabeça para trás e deu uma gargalhada.

— Pulinho! Faz anos que não penso nele. Ele continua por aqui?

Kya não riu.

— Pulinho tem sido meu melhor amigo, durante anos, meu único amigo. Meu único parente, a não ser que você considere as gaivotas.

Jodie ficou sério.

— Você não tinha amigos na escola?

— Só fui à escola um dia na vida — disse ela com uma risadinha. — As crianças riram de mim, então nunca mais voltei. Passei semanas fugindo dos agentes educacionais. O que não foi muito difícil, depois de todas as coisas que você me ensinou.

Ele pareceu espantado.

— Como aprendeu a ler e escrever? Para fazer seu livro?

— Na verdade, quem me ensinou a ler foi o Tate Walker.

— Você ainda o vê?

— De vez em quando. — Ela ficou parada de frente para o fogão. — Mais café?

Jodie sentiu a vida solitária pairar na cozinha. Estava presente no estoque minúsculo de cebolas no cesto de legumes, no único prato secando no escorredor, no bolo de milho enrolado cuidadosamente num pano de prato, como uma velha viúva faria.

— Já bebi bastante, obrigado. Mas que tal um passeio de barco pelo brejo? — sugeriu ele.

— Claro. Você não vai acreditar, estou com um motor novo, mas ainda uso o mesmo barco de antigamente.

O sol tinha feito as nuvens se abrirem e brilhava forte e quente para um dia de inverno. À medida que Kya os guiava por canais estreitos e estuários espelhados, Jodie se espantou com a mesma árvore morta de antes e com um abrigo de castor ainda erguido exatamente no mesmo lugar. Eles riram ao chegar à lagoa onde Ma, Kya e as irmãs tinham atolado o barco na lama.

De volta ao barracão, ela organizou um piquenique, que eles foram comer na praia com as gaivotas.

— Eu era muito nova quando todos foram embora — disse ela. — Me fale sobre todo mundo.

Jodie então lhe contou histórias sobre o irmão mais velho, Murph, que costumava colocá-la nos ombros e carregá-la pela mata.

— Você não parava de rir. Ele corria e ficava rodando com você lá em cima. E uma vez você riu tanto que molhou a calça bem no pescoço dele.

— Ai, não! Eu não fiz isso.

Kya se recostou para trás, rindo.

— Fez, sim. Ele resmungou um tanto, mas seguiu em frente e correu direto para a lagoa até ficar submerso, com você ainda nos ombros. Estava todo mundo assistindo, Ma, Missy, Mandy e eu, e choramos de tanto rir. Ma precisou se sentar no chão de tanto que ria.

A mente de Kya foi inventando imagens para acompanhar as histórias. Recortes e fiapos de família que ela jamais pensara ter.

— Foi Missy quem começou a dar comida para as gaivotas — continuou Jodie.

— O quê? Sério? Pensei que eu tivesse começado sozinha, depois que todo mundo foi embora.

— Não, ela dava comida para as gaivotas sempre que podia. Deu nome a todas elas. Chamava uma de Vermelho Grande, disso eu me lembro, por causa da mancha vermelha no bico, sabe?

— Não é o mesmo pássaro, claro... Eu já acompanhei algumas gerações de Vermelhos Grandes. Mas lá, ali à esquerda, é o Vermelho Grande de agora.

Ela tentou se conectar com a irmã que havia lhe dado as gaivotas, mas tudo que conseguiu ver foi o rosto do quadro. O que era mais do que tinha antes.

Kya sabia que a mancha vermelha no bico de uma gaivota era mais do que decoração. Somente quando os filhotes batiam os bicos nesse ponto o pai ou a mãe liberavam para eles a comida que haviam capturado. Se o ponto vermelho estivesse escondido e os filhotes não conseguissem bater, o pai ou mãe não davam comida e eles morriam. Mesmo na natureza, a paternidade é formada por uma linha mais tênue do que se poderia imaginar.

Eles ficaram sentados durante alguns instantes, então Kya falou:

— É que eu não me lembro de muita coisa.

— Você tem sorte. Continue assim.

Eles continuaram sentados ali em silêncio. Sem lembrar.

 

* * *

 

Ela preparou um jantar típico do sul como Ma teria feito: feijão-fradinho com cebola roxa, presunto frito, bolo de milho com torresmo, fava cozida no leite e na manteiga. Torta de amora com creme e um pouco do bourbon que Jodie trouxe. Enquanto comiam, ele disse que gostaria de ficar alguns dias, se não tivesse problema, e ela respondeu que ele seria bem-vindo pelo tempo que quisesse.

— Esta terra é sua agora, Kya. Você fez por merecer. Eu ainda vou passar um tempinho no meu posto em Fort Benning, então não posso ficar muito. Depois provavelmente vou arrumar um emprego em Atlanta, então a gente pode manter contato. Eu gostaria de te ver sempre que puder vir aqui. Saber que você está bem era tudo que eu queria na vida.

— Eu vou gostar, Jodie. Por favor, venha sempre que puder.

No fim da tarde seguinte, sentados na praia com as ondas fazendo cócegas nos dedos dos seus pés descalços, Kya tagarelou de modo pouco habitual e Tate parecia estar em cada parágrafo. Houvera a vez em que ele tinha mostrado o caminho de casa depois que ela, ainda criança, se perdeu no brejo. Ou o primeiro poema que Tate tinha lido para ela. Contou sobre a brincadeira das penas e como ele lhe ensinara a ler, e que agora era cientista no laboratório. Ele fora o seu primeiro amor, mas a abandonara quando foi para a faculdade e a deixara esperando na margem da lagoa. Então tudo havia acabado.

— Quanto tempo faz isso? — indagou Jodie.

— Uns sete anos, acho. Quando ele entrou para Chapel Hill.

— Você chegou a ver ele de novo?

— Ele voltou para pedir desculpas, falou que ainda me amava. Foi ele quem sugeriu que eu publicasse livros de referência. É legal esbarrar com ele de vez em quando no brejo, mas eu não me envolveria de novo. Não dá para confiar.

— Kya, isso faz sete anos. Ele era só um menino, a primeira vez longe de casa, centenas de garotas bonitas rodeando. Se ele voltou, pediu desculpas e disse que te ama, talvez você devesse dar um desconto.

— A maioria dos homens pula de uma mulher para outra. Os de menor valor ficam se pavoneando e atraem você com falsidades. Provavelmente foi por isso que Ma se apaixonou por um homem como Pa. Tate não foi o único cara que me abandonou. Chase Andrews chegou até a falar em casamento, mas se casou com outra pessoa. Nem ao menos me disse, eu li no jornal.

— Eu sinto muito. Sinto mesmo, mas, Kya, não são só os caras que traem. Eu mesmo já fui enganado, largado e pisado algumas vezes. Vamos ser honestos, muitas vezes o amor não dá certo. Mas, mesmo quando fracassa, conecta você aos outros, e no fim isso é tudo que você tem: conexões. Olhe só para a gente: você e eu agora temos um ao outro, e pensa só, se eu tiver filhos e você tiver filhos, bom, aí vai ser toda uma nova sequência de conexões. E assim por diante. Kya, se você ama o Tate, dê uma chance.

Kya pensou no quadro que Ma pintou de Tate e ela quando crianças, nas cabeças próximas, cercadas por flores e borboletas em tons pastel. Talvez aquilo fosse finalmente um recado de Ma.

 

* * *

 

Na terceira manhã da visita de Jodie, eles desembalaram os quadros de Ma — todos menos um, que Jodie guardou — e penduraram alguns nas paredes. O barracão ganhou uma iluminação diferente, como se mais janelas tivessem sido abertas. Kya recuou alguns passos e olhou para os quadros; era um milagre ter algumas das pinturas de Ma de volta nas paredes. Resgatadas do fogo.

Ela então acompanhou Jodie até a picape e lhe entregou uma sacola com o almoço que havia preparado para a viagem dele. Eles olharam para o meio das árvores, para a estradinha, para todo lugar, menos para os olhos um do outro.

Por fim, ele falou:

— É melhor eu ir nessa, mas fique com meu endereço e meu telefone.

Ele estendeu um pedaço de papel. Kya ficou sem ar e se apoiou com a mão esquerda na picape enquanto pegava a anotação com a direita. Uma coisa tão simples: o endereço de um irmão num pedaço de papel. Que coisa mais surpreendente: um parente que ela podia encontrar. Um número para o qual podia ligar. Sentiu um nó na garganta quando ele a puxou para si. E, por fim, depois de toda uma vida, Kya jogou-se em cima dele e chorou.

— Nunca pensei que fosse ver você de novo. Pensei que tivesse ido embora para sempre.

— Vou estar sempre aqui, prometo. Toda vez que eu me mudar vou mandar meu endereço novo. Se algum dia precisar de mim, me escreva ou me ligue, ouviu bem?

— Pode deixar. E venha sempre que puder.

— Kya, procure o Tate. Ele é um homem bom.

Ele ficou acenando pela janela da picape até o fim da estradinha enquanto ela observava, chorando e rindo ao mesmo tempo. Quando ele entrou na estrada de terra batida, a picape vermelha ficava aparecendo nos buracos da floresta — onde um lenço branco sumira um dia — e seu braço comprido acenou até ele desaparecer.