Um Lugar Bem Longe Daqui
36. Como capturar uma raposa
36.
Como capturar uma raposa
1969
Joe entrou pela porta aberta da sala do xerife.
— Certo, recebi o parecer do laboratório.
— Vamos dar uma olhada.
Os dois conferiram com toda a pressa o documento, folheando-o da primeira à última página.
— É isso. Correspondência perfeita. Os fios do gorro dela estavam na jaqueta do Chase quando ele foi encontrado morto. — O xerife bateu o parecer no próprio pulso, então tornou a falar: — Vamos repassar o que temos aqui. Primeiro, o pescador de camarão vai testemunhar que viu a Srta. Clark de barco perto da torre logo antes de Chase cair e morrer. O colega dele vai confirmar o depoimento. Segundo, Patti Love disse que a Srta. Clark fez para Chase o colar de concha que sumiu na noite em que o rapaz morreu. Terceiro, fios do gorro dela estavam na jaqueta dele. Quatro, motivação: foi enganada. E um álibi que podemos refutar. Deve ser suficiente.
— Um motivo melhor ajudaria — disse Joe. — Ser largada não parece suficiente.
— Não é como se a gente tivesse terminado a investigação, mas temos o suficiente para convocá-la a depor. Provavelmente para indiciá-la. Vamos ver como as coisas andam depois que a gente trouxer ela até aqui.
— Bom, o problema é esse, né? Como? Ela passou anos fugindo de todo mundo. Agentes educacionais, pesquisadores do censo, todo mundo, ela fugiu de todo mundo. Inclusive de nós. Se a gente for atrás dela lá no meio do brejo, vamos fazer papel de bobos.
— Não tenho medo disso. Só porque ninguém mais conseguiu pegar a garota não significa que nós não vamos conseguir. Mas esse não seria o jeito mais inteligente de fazer isso. Acho que devemos armar uma arapuca.
— Ah, é? Bem... — disse o delegado. — Eu sei uma coisinha ou outra sobre arapucas. E quando você quer armar uma arapuca para uma raposa, em geral é a arapuca que cai na armadilha. Não temos mais o fator surpresa a nosso favor. Já batemos na porta dela um número suficiente de vezes para espantar um urso-pardo. E os cachorros? Isso seria tiro e queda.
O xerife passou alguns segundos calado.
— Não sei. Talvez eu esteja ficando velho e cheio de frescura na idade avançada de cinquenta e um anos. Mas perseguir uma mulher com cães para conseguir um depoimento não me parece correto. Para foragidos tudo bem, é gente que já foi condenada. Mas, assim como qualquer um, ela é inocente até que se prove o contrário, e não acho certo soltar cachorros atrás de uma suspeita. Talvez como último recurso, mas ainda não.
— Muito bem. Que tipo de arapuca?
— É isso que precisamos pensar.
* * *
No dia 15 de dezembro, enquanto Ed e Joe conversavam sobre alternativas para chamar Kya para depor, alguém bateu na porta. Um homem grandalhão se avultava atrás do vidro jateado.
— Pode entrar — disse o xerife.
Quando o sujeito entrou, Ed falou:
— Ora, olá, Rodney. Em que podemos ajudar?
Rodney Horn, mecânico aposentado, passava a maior parte dos dias pescando com o amigo Denny Smith. Os moradores do vilarejo o conheciam como alguém calmo e tranquilo, sempre de macacão. Nunca faltava à missa, mas ia à igreja de macacão, com uma bela camisa limpa passada a ferro e engomada pela esposa, Elsie, até ficar dura feito uma tábua.
Rodney tirou o chapéu de feltro e o segurou em frente à barriga. Ed ofereceu uma cadeira, mas ele negou com a cabeça.
— Não vai demorar muito — disse ele. — É só uma coisa que talvez ajude no caso do Chase Andrews.
— O quê? — perguntou Joe.
— Bom, já faz um tempinho. Eu e Denny estávamos pescando no dia 30 de agosto e vimos uma coisa lá em Cypress Cove. Pode ser que seja interessante para vocês.
— Pode falar — disse o xerife. — Mas, por favor, Rodney, sente-se. Todos nós ficaríamos mais à vontade se você se sentasse.
Rodney acomodou-se na cadeira oferecida e nos cinco minutos seguintes contou sua história. Depois de ir embora, Ed e Joe se entreolharam.
— Bom, agora temos um motivo — disse Joe.
— Vamos trazê-la até aqui.