Um Lugar Bem Longe Daqui

Delia Owens · Capítulo 6 de 58

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Um Lugar Bem Longe Daqui

5. Inquérito

5.

 

Inquérito

 

1969

Lá em cima, as cigarras se esgoelavam contra um sol cruel. Todas as outras formas de vida estavam escondidas do calor, emitindo apenas um zum-zum monótono na vegetação baixa.

O xerife Jackson enxugou a testa e disse:

— Vern, tem mais coisa para fazer aqui, mas não parece certo. A esposa e a família do Chase não sabem que ele morreu.

— Vou lá avisar para eles, Ed — respondeu o Dr. Vern Murphy.

— Agradecido. Pode pegar minha picape. Mande a ambulância vir buscar o Chase, e Joe trazer minha picape de volta. Só não fale nada com mais ninguém. Não quero todo mundo da cidade aqui, e é exatamente o que vai acontecer se você abrir o bico.

Antes de se mexer, Vern ficou um minuto olhando para Chase, como se houvesse deixado passar alguma coisa. Sendo médico, deveria dar um jeito naquilo. O ar pesado do pântano estava parado atrás deles, esperando sua vez.

— Fiquem aqui — disse Ed, virando-se para os meninos. — Não preciso de ninguém fofocando lá na cidade sobre o que aconteceu, e não metam as mãos em nada nem deixem mais pegadas na lama.

— Sim, xerife — disse Benji. — Acha que alguém matou Chase, né? Porque não tem nenhuma pegada. Será que alguém empurrou ele?

— Eu não disse nada disso. Isto aqui é um procedimento policial padrão. Então fiquem fora do nosso caminho e não repitam nada do que escutarem aqui.

O delegado Joe Purdue, um homem baixinho de costeletas grossas, apareceu na picape do xerife menos de quinze minutos depois.

— Não consigo acreditar. Chase está morto. Ele foi o melhor quarterback que esta cidade já viu. A casa caiu.

— É exatamente isso. Bom, vamos ao trabalho.

— O que achou até agora?

Ed se afastou um pouco mais dos meninos.

— Bom, é claro que à primeira vista parece um acidente: ele caiu da torre e morreu. Mas até agora não encontrei nenhuma das pegadas dele indo para a escada, nem pegadas de mais ninguém. Vamos ver se conseguimos encontrar algum indício de que alguém as escondeu.

Os dois oficiais de justiça dedicaram dez minutos inteiros passando pente fino na área.

— Tem razão, nenhuma pegada fora as dos meninos — disse Joe.

— É, e nenhum sinal de alguém ter apagado. Eu não entendo, não mesmo. Vamos sair daqui. Mais tarde eu penso nisso — falou Ed.

Eles fotografaram o corpo, sua posição em relação à escada, e fotos dos ferimentos na cabeça e da perna dobrada para o lado errado. Joe fazia anotações do que Ed ia ditando. Quando estavam medindo a distância do corpo até a trilha, ouviram a carroceria da ambulância arranhar os arbustos densos que margeavam a estradinha. O motorista, um homem negro e velho que se encarregava havia décadas de recolher os feridos, doentes, moribundos e mortos, baixou a cabeça em sinal de respeito e sussurrou sugestões.

— Então: não vai dar para juntar muito os braços dele, então não vai dar para rolar ele para a maca, vai ter que levantar ele do chão, e ele deve ser pesado. Xerife, segura por favor a cabeça do Sr. Chase. Isso, muito bom. Eita, caramba.

No fim da manhã, eles tinham conseguido colocar o corpo de Chase completamente coberto de lama na traseira da ambulância.

Como a essa altura o Dr. Murphy já devia ter avisado aos pais de Chase sobre a sua morte, Ed disse aos meninos que eles podiam ir para casa, e ele e Joe começaram a subir a escada que ziguezagueava até o topo e estreitava a cada nível. Conforme eles subiam, os cantos redondos do mundo foram se afastando e as exuberantes florestas arredondadas e o brejo alagado se estenderam até as bordas.

Quando eles chegaram ao último degrau, Jackson ergueu as mãos e levantou com um empurrão uma grade de ferro. Depois que pisaram na plataforma, tornou a fechá-la porque ela fazia parte do piso. Tábuas de madeira cheias de farpas e cinza de tão velhas formavam o centro da plataforma, mas em volta o piso era uma série de grades quadradas e vazadas que podiam ser abertas e fechadas. Contanto que estivessem baixadas, dava para caminhar sobre elas com segurança, mas se uma estivesse aberta corria-se o risco de cair quase vinte metros até lá embaixo.

— Ei, olhe isto aqui.

Ed apontou para o lado mais afastado da plataforma, onde uma das grades estava aberta.

— Que diabo é isso? — indagou Joe enquanto iam até o buraco.

Ao espiarem lá embaixo, viram o contorno perfeito do corpo torto de Chase impresso na lama. Uma gosma amarelada e plantas aquáticas se espalhavam para os lados como num desenho feito com espirros de tinta.

— Não faz sentido — disse Ed. — Às vezes as pessoas se esquecem de fechar a grade de cima da escada. Quando descem, sabe? Já achamos aberta algumas vezes, mas as outras quase nunca ficam abertas.

— Por que Chase iria abrir esta daqui, para início de conversa? Ou qualquer outra pessoa?

— A menos que alguém estivesse planejando matar outra pessoa empurrando ela lá embaixo — disse Ed.

— Então por que não fechar depois?

— Porque se Chase tivesse caído sozinho ele não poderia ter fechado a grade. Precisava ficar aberta para parecer um acidente.

— Olhe aquela viga de sustentação abaixo do buraco. Está toda amassada e cheia de farpas.

— É, estou vendo. Chase deve ter batido a cabeça ali quando caiu.

— Vou descer até lá e procurar amostras de sangue ou fios de cabelo. Colher algumas farpas da viga.

— Obrigado, Joe. E tire algumas fotos de perto. Vou pegar uma corda por segurança. Não precisamos de dois cadáveres na lama num dia só. E temos que recolher as digitais desta grade, da grade de cima da escada, do guarda-corpo, dos corrimões. De tudo que alguém possa ter tocado. E colher amostras de cabelo ou fiapos.

 

* * *

 

Mais de duas horas depois, eles alongaram as costas para aliviá-las de tanto se debruçar e se abaixar.

— Não estou dizendo que foi um crime — disse Ed. — Está muito cedo. Além disso, não consigo pensar em ninguém que quisesse matar Chase.

— Bom, já eu diria que tem uma lista e tanto — falou o delegado.

— Tipo quem? Do que você está falando?

— Ah, Ed, qual é. Você sabe como o Chase era. Sempre atrás de um rabo de saia, ouriçado feito um touro que acaba de ser solto do curral. Antes de se casar, depois de se casar, com moças solteiras, com mulheres casadas. Já vi cães excitados se comportarem melhor no meio das cadelas.

— Qual é, também não era tanto assim. É verdade. Tinha fama de mulherengo. Mas não imagino ninguém nesta cidade cometendo assassinato por causa disso.

— Só estou dizendo que tinha gente que não gostava dele. Algum marido ciumento. Com certeza foi alguém que ele conhecia. Alguém que todos nós conhecemos. É improvável que Chase tenha subido aqui com um desconhecido — disse Joe.

— A menos que ele tivesse com dívidas até o pescoço com alguém de fora da cidade. Algo desse tipo que a gente não soubesse. E um homem forte o suficiente para empurrar Chase Andrews. Não é tarefa fácil.

— Consigo pensar em alguns caras que fariam isso — disse Joe.