Um Lugar Bem Longe Daqui
37. Tubarões-cinzentos
37.
Tubarões-cinzentos
1969
Poucos dias antes do Natal e mais cedo de manhã do que de costume, Kya, devagar e sem fazer barulho, seguiu no seu barco até o posto de Pulinho. Desde que o xerife ou o delegado começaram a aparecer de fininho no barracão tentando pegá-la em casa — tentativas fracassadas que ela havia observado escondida do palmeiral —, vinha comprando gasolina e mantimentos antes do raiar do dia, quando só os pescadores estavam acordados. Agora, nuvens baixas se moviam depressa acima de um mar agitado, e ao leste — enrolado bem apertado, feito um chicote — um temporal ameaçava no horizonte. Ela teria de fazer depressa o que precisava no posto de Pulinho e voltar para casa antes da chuva. A meio quilômetro, viu o cais dele cercado pela névoa. Diminuiu ainda mais a velocidade e olhou em volta para o silêncio enevoado à procura de outras embarcações.
Por fim, quando faltavam uns quarenta metros, viu a silhueta de Pulinho na velha cadeira encostada na parede. Acenou. Ele não acenou de volta. Nem se levantou. Balançou de leve a cabeça, só um pouquinho. Ela soltou o acelerador.
Tornou a acenar. Pulinho continuou encarando-a, mas não se mexeu.
Ela deu um tranco no acelerador e se virou bruscamente na direção do mar de novo. Mas um barco grande vinha da névoa com o xerife no leme. Ladeado por duas outras embarcações. E, logo atrás deles, o temporal.
Ela acelerou ao máximo e passou pelo espaço ínfimo entre as embarcações que vinham na direção dela, chocando o casco nas cristas de espuma à medida que se apressava rumo ao alto-mar. Quis dar meia-volta e ir para o brejo, mas o xerife estava perto demais, iria alcançá-la antes que ela chegasse lá.
O mar não se movia mais em ondas simétricas; se agitava de modo confuso. A água foi se enfurecendo à medida que a borda do temporal a engolia. Em poucos segundos, começou a chuva torrencial. Ela ficou encharcada, com os fios do cabelo comprido colados no rosto. Virou-se a favor do vento para não tombar, mas o mar batia por cima da proa.
Sabendo que as embarcações deles eram mais velozes, ela seguiu direto para dentro do vendaval. Talvez conseguisse despistá-los naquele dilúvio ou mergulhar e fugir a nado. Sua mente percorreu num segundo os detalhes da possibilidade de pular, que parecia ser sua melhor chance. Tão perto assim do litoral, devia haver uma contracorrente ou um repuxo que a sugaria para debaixo d’água bem mais depressa do que eles pensavam que ela seria capaz de nadar. Subindo de vez em quando para respirar, ela poderia chegar à terra firme e se esgueirar para dentro de alguma vegetação na margem.
Atrás dela, os motores deles faziam mais barulho do que o temporal. Chegando mais perto. Como ela podia simplesmente parar? Nunca havia desistido. Precisava pular agora. Mas de repente, como tubarões-cinzentos, eles a rodearam, aproximando-se. Uma das embarcações apareceu do nada diante dela e seu barquinho se chocou com toda força na lateral. Ela foi arremessada para trás por cima do motor e sentiu um tranco no pescoço. O xerife estendeu o braço e segurou a lateral do barco dela, todos sacudidos pelas ondas agitadas. Dois homens subiram a bordo da embarcação dela ao mesmo tempo em que o delegado dizia:
— Srta. Catherine Clark, a senhora está presa pelo assassinato de Chase Andrews. Tem o direito de permanecer calada...
Ela não ouviu o resto. Ninguém nunca ouve o resto.