Um Lugar Bem Longe Daqui

Delia Owens · Capítulo 5 de 58

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Um Lugar Bem Longe Daqui

4. Escola

4.

 

Escola

 

1952

Alguns dias depois do seu aniversário, andando descalça sozinha pela lama, Kya se abaixou para olhar um girino que começava a ganhar patas de sapo. De repente ficou de pé. Um carro revirava a areia funda perto do fim da estradinha. Ninguém nunca ia até lá de carro. Depois o murmúrio de pessoas falando — um homem e uma mulher — flutuou por entre as árvores. Kya correu depressa até a moita, de onde podia ver quem estava chegando e ter como fugir. Como Jodie havia ensinado.

Uma mulher alta saltou do carro se equilibrando precariamente em saltos altos como Ma tinha feito na estradinha de areia. Deviam ser as pessoas do orfanato que tinham ido buscá-la.

Com certeza eu consigo correr mais do que ela. Ela vai cair de cara no chão com esses sapatos. Kya ficou onde estava e observou a mulher subir os degraus até a porta de tela da varanda.

— Alguém em casa? É a agente educacional. Vim levar Catherine Clark para a escola.

Aquilo era novidade. Kya ficou sentada, muda. Tinha quase certeza de que deveria ter entrado na escola aos seis anos. Ali estavam eles, com um ano de atraso.

Ela não fazia a menor ideia de como conversar com outras crianças, nem com um professor, mas queria aprender a ler e saber o que vinha depois de vinte e nove.

— Catherine, meu bem, se estiver me ouvindo, por favor, venha aqui. É a lei, meu amor; você tem que ir para a escola. E você vai gostar, meu bem. Vai poder almoçar comida quente todo dia de graça. Acho que hoje é empadão de frango com casquinha.

Aquilo era outra novidade. Kya estava com muita fome. No café da manhã, havia preparado mingau de milho misturado com biscoito salgado porque não tinha sal. Uma coisa que ela já sabia sobre a vida: não dava para comer mingau sem sal. Tinha comido empadão de frango poucas vezes, mas nunca se esquecera da casquinha dourada, crocante por fora e macia por dentro. Sentia o sabor do caldo do frango, tão grosso que chegava a ser redondo. Foi seu estômago agindo por vontade própria que a fez se levantar entre as folhas de palmeira.

— Oi, meu bem. Eu sou a Sra. Culpepper. Você está bem grandinha e pronta para ir para a escola, não é?

— Sim, senhora — disse Kya, com a cabeça baixa.

— Não tem problema, pode ir descalça, outras crianças também vão, mas como você é menina tem que ir de saia. Tem um vestido ou uma saia, meu amor?

— Sim, senhora.

— Então, ótimo, vamos vestir sua roupa.

A Sra. Culpepper seguiu Kya pela porta da varanda e teve que passar por cima da fileira de ninhos de passarinho que a menina havia disposto ao longo das tábuas. No quarto, Kya colocou o único vestido que cabia, uma jardineira xadrez com uma das alças presas por um alfinete de fralda.

— Está ótimo, meu bem, você está ótima.

A Sra. Culpepper estendeu a mão. Kya ficou encarando a mão dela. Fazia semanas que não tocava em outra pessoa, e nunca na vida havia tocado um desconhecido. Mas pôs a mãozinha dentro da mão da Sra. Culpepper e foi levada pela estrada até o Ford Crestliner conduzido por um homem calado de chapéu de feltro cinza. Sentada no banco de trás, Kya nem sorriu nem se sentiu um pintinho abrigado sob a asa da mãe.

Barkley Cove tinha uma escola para brancos. Do primeiro até o décimo segundo ano, as crianças frequentavam uma escola de tijolos de dois andares que ficava no outro extremo da Main em relação ao escritório do xerife. As crianças negras tinham a própria escola, uma estrutura de cimento de um andar só perto de Colored Town.

Quando Kya foi levada até a secretaria da escola, encontraram seu nome nos registros de nascimento da cidade, mas não a data de nascimento, então a puseram no segundo ano, apesar de ela nunca ter frequentado a escola na vida. De toda forma, disseram, o primeiro ano estava cheio demais, e que diferença aquilo faria para gente do brejo que passaria alguns meses na escola, talvez, para depois nunca mais ser vista. Enquanto o diretor a acompanhava por um corredor largo no qual os passos ecoavam, o suor brotou da sua testa. Ele abriu a porta de uma sala de aula e lhe deu um empurrãozinho.

Camisas xadrez, saias amplas, sapatos, muitos sapatos, alguns pés descalços, e olhos: todos a encarando. Ela nunca tinha visto tanta gente. Uma dúzia de pessoas, talvez. A professora, a mesma Srta. Arial que aqueles meninos tinham ajudado, acompanhou Kya até uma carteira quase nos fundos da sala. Ela podia pôr suas coisas no escaninho, falou, mas Kya não tinha nada.

A professora voltou até a frente da sala e disse:

— Catherine, por favor, levante-se e diga à turma o seu nome completo.

O estômago da menina se revirou.

— Vamos, meu bem, não seja tímida.

Kya se levantou.

— Catherine Danielle Clark — falou, porque uma vez Ma dissera que aquele era o seu nome todo.

— Você consegue soletrar dez para nós?

Com os olhos fixos no chão, Kya ficou em silêncio. Jodie e Ma tinham lhe ensinado algumas letras. Mas ela nunca tinha soletrado nada para ninguém.

Sentiu a barriga estremecer de nervoso; mesmo assim, tentou:

— D-e-i-z.

Risadas percorreram a fileira de carteiras.

— Shh! Silêncio! — gritou a Srta. Arial. — Não é para rir, entenderam, nunca é para rir dos amigos. Vocês sabem muito bem disso.

Kya se sentou depressa em sua cadeira nos fundos da sala e tentou desaparecer feito um besouro de casca que se camufla no tronco de um carvalho. No entanto, por mais nervosa que estivesse, conforme a professora continuava a aula, ela se inclinou para a frente, ansiosa para aprender o que vinha depois de vinte e nove. Até então, a Srta. Arial só tinha falado sobre uma coisa chamada método fônico, e os alunos, com os lábios formando O, repetiam os sons a, e, i, o, u, todos arrulhando feito pombos.

Por volta das onze da manhã, o cheiro morno e amanteigado de pãezinhos e massa de empadão no forno tomou conta dos corredores e invadiu a sala. A barriga de Kya doía e se retesava, e quando a turma enfim formou uma fila e marchou até o refeitório sua boca se encheu de saliva. Imitando os outros, ela pegou uma bandeja, um prato de plástico verde e talheres. Uma janela grande com uma bancada se abria para dentro da cozinha, e disposta na sua frente havia uma travessa imensa e esmaltada de empadão de frango com uma casca quadriculada de massa grossa em cima e um caldo espesso borbulhando. Uma mulher negra, alta, sorridente e que chamava algumas das crianças pelo nome serviu no seu prato um pedaço grande de empadão, depois um pouco de feijão de corda na manteiga e um pãozinho. Ela recebeu um pudim de banana e uma caixinha vermelha e branca de leite para pôr na bandeja.

Dirigiu-se para a área das mesas, a maioria delas cheia de crianças rindo e conversando. Reconheceu Chase Andrews e seus amigos, que quase a tinham derrubado da calçada com suas bicicletas, então virou a cabeça para o outro lado e foi para uma mesa vazia. Várias vezes, em rápida sucessão, seus olhos a traíram e relancearam os meninos, os únicos rostos que conhecia. Mas eles, como todos os outros, a ignoraram.

Kya ficou encarando o empadão recheado de frango, cenouras, batatas e pequenos grãos de feijão. A crosta marrom e dourada por cima. Várias meninas se aproximaram, todas de saias rodadas afofadas por várias camadas de crinolina. Uma delas era alta, magra e loura, outra era gordinha e bochechuda. Kya se perguntou como elas podiam subir numa árvore ou num barco usando aquelas saionas. Com certeza não podiam caçar sapos; elas nem sequer conseguiriam ver os próprios pés.

Enquanto elas chegavam perto, Kya ficou encarando o próprio prato. O que diria se elas se sentassem ao seu lado? Mas as meninas passaram por ela, trinando feito passarinhos, e se juntaram às amigas em outra mesa. Apesar da fome, ela constatou que tinha ficado com a boca seca, o que tornava difícil engolir. Assim, depois de comer apenas algumas garfadas, bebeu todo o leite, enfiou o máximo de empadão que conseguiu dentro da caixinha, tomando cuidado para ninguém ver, e enrolou a caixinha e o pão no guardanapo.

Passou o resto do dia sem abrir a boca. Mesmo quando a professora lhe fez uma pergunta, ficou sentada, muda. Achava que devia aprender com eles, não eles com ela. Por que me expor para os outros rirem de mim?, pensou.

No último sinal, disseram-lhe que o ônibus a deixaria a cinco quilômetros da estradinha da sua casa porque o caminho a partir dali era arenoso demais, e que ela teria de andar até o ônibus todos os dias. Voltando para casa, enquanto o ônibus se balançava sobre grandes sulcos e passava por trechos de capim-da-praia, um cântico emanou lá da frente:

— SRTA. Catherine Danielle Clark! — gritaram Louraaltaemagra e Gordinhaebochechuda, as meninas do almoço. — Galinha do brejo! Ratinho do pântano!

O ônibus finalmente parou num cruzamento não sinalizado de vários caminhos emaranhados bem lá no fundo da mata. O motorista abriu a porta, e Kya saltou depressa e correu por quase um quilômetro, parou para recuperar o fôlego, depois retomou uma corrida mais lenta até chegar à estradinha da sua casa. Não parou no barracão; passou às carreiras pelo meio do palmeiral até a lagoa e desceu a trilha que percorria o meio dos carvalhos densos e altos até o mar. Chegou à praia árida onde o oceano aguardava de braços bem abertos, e o vento forte soltou seu cabelo trançado quando ela parou na beira d’água. Estava prendendo o choro como fizera o dia inteiro.

Mais alto do que o rugido das ondas, Kya gritou para os pássaros. O timbre do mar era baixo; o das gaivotas, soprano. Aos gritos estridentes, elas ficaram voando em círculos acima do brejo e da areia enquanto Kya jogava a massa de empadão e os pãezinhos na praia. Com as pernas dependuradas e virando as cabeças, pousaram.

Alguns dos pássaros começaram a bicá-la de leve entre os dedos dos pés, e as cócegas a fizeram rir até as lágrimas escorrerem pelo seu rosto, liberando por fim imensos soluços entrecortados daquele lugar apertado depois da garganta. Quando a caixinha de leite ficou vazia, ela achou que não fosse suportar a dor, tamanho seu medo de que as gaivotas a abandonassem como todos os outros. Mas as aves pousaram na praia à sua volta e puseram-se a limpar as asas cinza abertas. Ela então sentou-se também e desejou poder reuni-las e levá-las consigo para dormir na varanda. Imaginou todas reunidas na sua cama, um bolo macio de corpos quentes e emplumados sob as cobertas.

Dois dias depois, ela ouviu o Ford Crestliner revirar a areia e correu para dentro do brejo, pisando firme nos bancos de areia e deixando pegadas claras como o dia, depois entrando na água na ponta dos pés sem deixar rastros, dando meia-volta e seguindo em outra direção. Quando chegou à lama, correu em círculos para criar uma confusão de pistas. Então, ao alcançar a terra firme, passou sobre ela feito um sussurro, pulando de tufos de vegetação para gravetos sem deixar vestígio.

Nas semanas seguintes eles continuaram aparecendo de dois em dois ou de três em três dias, e o homem do chapéu de feltro efetuava a busca e a perseguição, mas nunca chegava perto. Até que numa semana ninguém apareceu. Houve apenas o grasnar dos corvos. Kya deixou as mãos caírem junto ao corpo e ficou encarando a estradinha deserta.

Ela nunca mais retornou à escola na vida. Voltou a observar as garças e a colecionar conchas, atividades com as quais achava que podia aprender alguma coisa.

— Eu já sei arrulhar que nem um pombo — falou para si mesma. — E muito melhor que eles. Mesmo com todos aqueles sapatos elegantes.

 

* * *

 

Certa manhã, algumas semanas depois do seu dia na escola, o sol brilhava branco e quente quando Kya subiu na casa da árvore de seus irmãos na praia e ficou procurando barcos a vela com bandeiras de caveiras e ossos cruzados. Provando que a imaginação brota nos terrenos mais estéreis, gritou:

— Ei! Ei, piratas! — Brandindo a espada, pulou da árvore para atacar. De repente, sentiu uma dor no pé direito que subiu feito fogo pela perna. Seus joelhos perderam a força, ela caiu de lado e guinchou. Viu um prego comprido e enferrujado cravado bem fundo na sola do seu pé. — Pa! — gritou. Tentou lembrar se ele tinha voltado para casa na noite anterior. — Pa, SOCORRO! — chamou, mas não houve resposta.

Com um movimento rápido, estendeu a mão e arrancou o prego, berrando para mascarar a dor. Moveu os braços pela areia em gestos sem sentido, choramingando. Por fim, sentou-se e examinou a sola do pé. Quase não havia sangue, apenas o furo minúsculo de um ferimento pequeno e fundo. Foi nessa hora que se lembrou do tétano. Sentiu um aperto no estômago e ficou com frio. Jodie tinha lhe contado sobre um menino que havia pisado num prego sem ter tomado a vacina. O maxilar do garoto tinha travado, fechado com tanta força que ele não conseguia abrir a boca. Depois sua coluna havia se retesado para trás feito um arco, e ninguém pôde fazer nada a não ser ficar ali parado vendo ele se contorcer até a morte.

Jodie fora muito claro num detalhe: era preciso tomar a vacina no máximo dois dias depois de pisar num prego, senão era o fim. Kya não fazia ideia de como tomar uma vacina dessas.

— Tenho que fazer alguma coisa. Se esperar Pa, com certeza vou ter tétano.

Com o suor a escorrer em gotas pelo rosto, ela atravessou a praia cambaleando até finalmente chegar aos carvalhos mais frescos em volta do barracão.

Ma costumava embeber os machucados em água com sal e cobri-los com compressas de lama misturada com todo tipo de poção. Como não havia sal na cozinha, Kya entrou mancando na floresta e foi até uma vala de água salobra que, na maré baixa, ficava tão salgada a ponto de cristais brancos reluzirem nas bordas. Sentou-se no chão e mergulhou o pé na salmoura do brejo enquanto mexia a boca sem parar: abre, fecha, abre, fecha, bocejos de mentira, movimentos de mastigação, qualquer coisa para impedir a boca de travar. Depois de quase uma hora, a maré recuou o suficiente para ela cavar com os dedos um buraco na lama preta, então ela delicadamente enfiou o pé no solo sedoso. O ar ali estava fresco, e os gritos das águias a amparavam.

No fim da tarde, como já estava com muita fome, ela voltou para o barracão. O quarto de Pa continuava vazio, e ele provavelmente ainda demoraria horas para chegar. Jogar pôquer e beber uísque mantinham um homem ocupado durante a maior parte da noite. Não havia mingau, mas ela revirou a casa até encontrar uma embalagem velha e engordurada de margarina Crisco, então pegou um pedacinho da gordura branca e a passou num biscoito de água e sal. Primeiro deu uma mordidinha, depois comeu mais cinco.

Subiu na sua cama na varanda, atenta ao barulho do barco de Pa. A noite chegou repleta de barulhos e movimentos, e o sono veio por partes, mas ela deve ter dormido quase de manhã, pois acordou com o sol já forte no rosto. Abriu rapidamente a boca: ainda estava funcionando. Ficou indo e voltando entre a vala de água salobra e o barracão até saber, pelo movimento do sol, que dois dias tinham se passado. Abriu e fechou a boca. Talvez tivesse conseguido.

Nessa noite, ao se enfiar sob os lençóis do colchão no chão, com o pé coberto de lama enrolado num trapo velho, ela se perguntou se acordaria morta. Não, lembrou, não seria tão fácil assim: suas costas se arqueariam; seus membros se contorceriam.

Alguns minutos depois, sentiu uma fisgada na base das costas e sentou-se.

— Ah, não, ah, não. Ma, Ma. — A sensação nas costas se repetiu e a fez se calar. — É só uma coceira — sussurrou ela.

Por fim, realmente exausta, ela dormiu, e só abriu os olhos quando os pombos já arrulhavam no carvalho.

Passou uma semana indo à vala duas vezes por dia, vivendo à base de biscoitos e margarina, e durante todo esse tempo Pa não apareceu em casa. No oitavo dia, já conseguia girar o pé sem rigidez e a dor se limitava à superfície. Ela fez uma dancinha levantando o pé do chão, guinchando:

— Eu consegui, eu consegui!

Na manhã seguinte, tomou o rumo da praia para encontrar mais piratas.

— A primeira coisa que vou fazer é mandar minha tripulação catar todos os pregos.

 

* * *

 

Ela acordava cedo todo dia de manhã, ainda esperando o tumulto de Ma atarefada na cozinha. A comida preferida de Ma para o café da manhã eram ovos das próprias galinhas mexidos, tomates vermelhos maduros fatiados e bolinhos de milho de frigideira preparados com uma massa de fubá, água e sal e despejados numa gordura tão quente que a mistura borbulhava e as bordas fritavam até virar uma renda crocante. Ma costumava dizer que, se não fosse possível ouvir a comida fritando do cômodo ao lado, não era realmente fritura, e a vida inteira Kya acordara com o som daqueles bolinhos de milho estalando na gordura. Com o cheiro da fumaça de milho quente e azul. Mas agora a cozinha estava silenciosa e fria, e Kya saiu de sua cama na varanda e foi até a lagoa.

Meses se passaram e o inverno se instalou com suavidade, como fazem os ventos do sul. O sol, quente feito um cobertor, envolvia os ombros de Kya, chamando-a mais para o fundo do brejo. Às vezes ela escutava ruídos noturnos que não conhecia ou se assustava com algum relâmpago próximo demais, mas, sempre que titubeava, era a terra quem a amparava. Até, por fim, em algum instante que passou despercebido, a dor no coração se esvair para dentro da areia como água. A dor continuou ali, mas no fundo. Kya pousou a mão na terra molhada que respirava, e o brejo virou sua mãe.