Uma Vida Pequena

Hanya Yanagihara · Capítulo 10 de 19 · parte 2/3

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Uma Vida Pequena

IV. O Axioma da Igualdade

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Mas agora Harold também começava a lhe fazer perguntas.

– Este lugar é fantástico – falou quando esteve na cidade no mês anterior para o jantar de aniversário que ele ordenara a Willem para não organizar, e que Willem organizara mesmo assim.

Harold deu uma passada no apartamento no dia seguinte e, como sempre fazia, o elogiou incessantemente, dizendo as mesmas coisas de sempre: “Este lugar é fantástico”, “É tudo tão limpo aqui”; “Malcolm fez um ótimo trabalho.” E, nos últimos tempos:

– Mas é muito grande, Jude. Não se sente sozinho às vezes?

– Não, Harold – respondeu. – Gosto de ficar sozinho.

Harold resmungou.

– Willem parece estar feliz – falou. – Robin parece uma boa menina.

– Ela é – falou, preparando uma xícara de chá para Harold. – E acho que ele está feliz.

– Jude, você não gostaria de ter algo assim? – perguntou Harold.

Ele deu um suspiro.

– Não, Harold, estou bem.

– Sim, mas e quanto a mim e Julia? – perguntou Harold. – Nós gostaríamos de ver você com alguém.

– Sabe que eu gostaria de deixar vocês felizes – falou, tentando manter o mesmo tom de voz. – Mas, infelizmente, acho que não vou poder ajudar nesse sentido. Aqui. – E passou o chá a Harold.

Às vezes ele se pergunta se aquela ideia de solidão seria algo que ele viria a sentir caso não tivesse sido alertado quanto ao fato de que deveria estar se sentindo sozinho, de que existia algo estranho e inaceitável no tipo de vida que levava. Sempre há alguém perguntando se não sentia falta de algo que nunca lhe passou pela cabeça desejar, que nunca lhe passou pela cabeça que um dia pudesse ter: Harold e Malcolm, é claro, mas também Richard, cuja namorada, também artista, chamada India, praticamente fora viver com ele, e ainda outras pessoas que via com menos frequência – Citizen, Elijah, Phaedra e até Kerrigan, seu velho colega da época do juiz Sullivan, que o procurou alguns meses atrás quando esteve na cidade com o marido. Alguns perguntavam com pena; outros, com desconfiança: o primeiro grupo fica triste porque acha que sua solteirice é algo que lhe foi imposto, e não uma decisão sua; já o segundo sente uma espécie de hostilidade em relação a ele, pois acham que a solteirice é uma decisão sua, uma violação e uma afronta a uma lei fundamental da vida adulta.

De qualquer jeito, ser solteiro aos quarenta anos é diferente de ser solteiro aos trinta, e a cada ano isso se torna menos compreensível, menos invejável, e mais patético, mais inapropriado. Nos últimos cinco anos, compareceu desacompanhado a todos os jantares de sócios e, um ano atrás, quando se tornou sócio igualitário, compareceu ao retiro anual dos sócios também desacompanhado. Na semana anterior ao retiro, Lucien aparecera em seu escritório numa sexta-feira à noite e sentara para rever os negócios da semana, como costumava fazer. Os dois conversaram sobre o retiro em Anguilla, algo de que ambos tinham pavor, diferentemente dos outros sócios, que fingiam não gostar, mas, na verdade (ele e Lucien concordavam neste ponto), estavam loucos para ir.

– Meredith também vai? – perguntou.

– Sim. – Os dois ficaram em silêncio, e ele sabia o que viria a seguir. – Vai levar alguém?

– Não – respondeu.

Novo silêncio. Lucien olhou para o teto.

– Você nunca leva ninguém para esses eventos, não é mesmo? – perguntou Lucien, com a voz propositalmente casual.

– Não – falou, e depois, vendo que Lucien não se pronunciou mais: – Está tentando me dizer alguma coisa, Lucien?

– Não, claro que não – respondeu Lucien, olhando para ele. – Este não é o tipo de firma em que ficamos controlando essas coisas, Jude, você sabe disso.

Sentiu uma onda de raiva e vergonha tomar seu corpo.

– Só que, na verdade, é. Se o conselho administrativo está dizendo alguma coisa, Lucien, você precisa me falar.

– Jude – disse Lucien. – Não estamos. Sabe o quanto todos aqui te respeitam. Eu só acho, e aqui não é a firma falando, mas eu mesmo, que gostaria de ver você ao lado de alguém.

– Tudo bem, Lucien, obrigado – disse, esgotado. – Vou levar isso em consideração.

Mas, por mais que se preocupe em parecer normal, ele não quer um relacionamento simplesmente por ser algo adequado: quer porque percebeu que se sente sozinho. Sente-se tão sozinho que às vezes a sensação parece física, como um bolo encharcado de roupa suja apertando seu peito. É um sentimento que não consegue esquecer. As pessoas fazem parecer algo fácil, como se a decisão de desejar uma relação fosse a parte mais difícil do processo. Mas ele sabe que não é assim: manter um relacionamento significaria ter de ficar nu diante de alguém, o que ainda não fez com ninguém a não ser Andy; significaria confrontar seu próprio corpo, que ele não vê sem roupa há mais de uma década – não olha para si mesmo nem quando toma banho. E significaria ter relações sexuais com alguém, o que não faz desde os quinze anos, e a ideia lhe causa tanto horror que, só de pensar nisso, seu estômago se enche de algo ceroso e frio. Quando começou a se consultar com Andy, este sempre lhe perguntava se ele era sexualmente ativo, até que um dia finalmente respondeu que avisaria quando e se isso acontecesse, mas até lá era para deixar de fazer aquelas perguntas. Então Andy nunca mais voltou a perguntar, e Jude nunca precisou oferecer qualquer informação. Não fazer sexo: aquela era uma das melhores coisas de ser adulto.

Mas, por mais que tenha medo de fazer sexo, também tem vontade de ser tocado, tem vontade de sentir as mãos de outra pessoa em seu corpo, por mais que a ideia também o aterrorize. Às vezes olha para os braços e se enche de um ódio tão intenso contra si mesmo que mal consegue respirar: muito do que aconteceu com seu corpo não estava sob seu controle, mas os braços foram obras suas, e só tem a si mesmo para culpar. Quando começou a se cortar, seus primeiros alvos foram as pernas – só a panturrilha – e antes de aprender a ser sistemático na hora de fazer os cortes, passava a lâmina pela pele a esmo, para que parecesse ter se arranhado na grama. Ninguém jamais percebera – ninguém olha para as panturrilhas de outra pessoa. Nem mesmo o Irmão Luke o importunou por causa daquilo. Mas, agora, ninguém poderia deixar de notar seus braços, ou suas costas, ou suas pernas, que são marcadas com arroios nos trechos em que o tecido e os músculos feridos foram removidos, com entalhes do tamanho de impressões digitais nos pontos em que aparafusaram os pinos do aparelho que atravessavam a carne e chegavam ao osso, e poças de pele acetinada nos lugares em que sofreu queimaduras durante o episódio do carro, e os locais onde as feridas haviam fechado e nos quais agora a carne afundava levemente, e a área ao redor delas assumira um tom bronzeado e opaco permanente. Quando está vestido é uma pessoa, mas sem roupas ele se revela como de fato é, e os anos de podridão se manifestam em sua pele, sua própria carne alardeia seu passado, suas depravações e corrupções.

Certa vez, no Texas, um de seus clientes era um homem tão grotesco – tão gordo que o estômago despencava num pendente de carne por entre as pernas, com o corpo todo coberto por placas de eczema, e com a pele tão seca que, ao se mover, pequenas tiras espectrais flutuavam de seu braço e de suas costas, e então se perdiam no ar. Sentira-se enojado ao ver esse homem, mas todos eles o enojavam, então, de certa forma, aquele não era melhor ou pior que os outros. Enquanto lhe pagava um boquete, com a barriga do homem pressionando seu pescoço, o homem começou a chorar, se desculpando: Me perdoa, me perdoa, dizia, com a ponta dos dedos sobre sua cabeça. O homem tinha unhas compridas, grossas feito ossos, e ele as arrastava pelo seu escalpo, embora com leveza, como se fossem os dentes de um pente. De alguma forma, é como se, com o passar dos anos, ele tivesse se tornado aquele homem, e sabe que, se alguém o visse, também sentiria repulsa, ficaria nauseado por suas deformidades. Ele não quer que ninguém tenha de se ajoelhar diante do vaso sanitário com ânsia de vômito, como ele mesmo fez naquele dia, levando à boca as mãos cheias de sabonete líquido, engasgando com o gosto, tentando voltar a ser limpo.

Nunca mais terá de fazer qualquer coisa que não queira em troca de comida ou de abrigo: agora tem certeza disso. Mas o que está disposto a fazer para se sentir menos só? Seria capaz de destruir tudo o que construíra e protegera com tanta diligência para ter um pouco de intimidade? Quanta humilhação estaria disposto a suportar? Não sabe dizer; e tem medo de descobrir a resposta.

Mas a cada dia aumenta o seu medo de talvez nunca ter a oportunidade de descobrir. O que significa ser humano, se não se pode ter isso? Por outro lado, lembra a si mesmo de que a solidão não é como a fome, a privação ou uma doença: ela não é fatal. Sua erradicação não é um direito seu. Ele tem uma vida melhor que a de muitas pessoas, melhor do que um dia pensou que pudesse ter. Desejar uma companhia, além de tudo o que já tem, parece uma forma de ganância, de querer tudo sem que lhe tirem nada.

As semanas passam. A rotina de Willem é errática e ele telefona em horários aleatórios: à uma da manhã, às três da tarde. Parece cansado, mas Willem não é de reclamar, e de fato não reclama. Conta a Jude sobre as locações, os sítios arqueológicos onde tiveram permissão para filmar, os pequenos contratempos no set. Quando Willem está viajando, ele se sente muito mais inclinado a ficar em casa sem fazer nada, mesmo sabendo que não é saudável. Por isso, vem se empenhando em preencher os fins de semana com eventos, festas e jantares. Vai a exposições em museus, a peças com Henry Young Negro, a galerias com Richard. Felix, de quem fora tutor muito tempo atrás, agora é o vocalista de uma banda punk chamada Amerikanos Silenciosos, e Jude faz Malcolm acompanhá-lo a um show. Conta a Willem sobre o que viu e sobre o que leu, sobre as conversas com Harold e Julia, sobre o último projeto de Richard e sobre seus clientes na ONG, sobre o aniversário da filha de Andy e o novo emprego de Phaedra, sobre as pessoas com quem falou e o que elas disseram.

– Mais cinco meses e meio – diz Willem ao fim de uma conversa.

– Mais cinco e meio – repete ele.

Naquela quinta-feira, vai a um jantar no apartamento novo de Rhodes, que fica próximo à casa dos pais de Malcolm, e que Rhodes lhe contara, enquanto bebiam em dezembro, ser a fonte de todos os seus pesadelos: acordava à noite vendo contas passando pela mente, tudo em sua vida – mensalidades escolares, hipotecas, custos de manutenção, impostos – reduzido a números gigantescos e assustadores.

– E isso é com a ajuda dos meus pais – falou. – E Alex quer ter outro filho. Estou com quarenta e cinco anos, Jude, e já entreguei os pontos; terei que trabalhar até os oitenta se tivermos um terceiro.

Jude fica aliviado ao ver que, naquela noite, Rhodes parece mais relaxado, com o pescoço e as bochechas rosadas.

– Cristo – diz Rhodes –, como consegue continuar magro ano após ano?

Quando se conheceram na Procuradoria, quinze anos antes, Rhodes ainda parecia um jogador de hóquei, cheio de músculos e tendões, mas, desde que começara a trabalhar para o banco, havia engordado, envelhecendo de uma maneira abrupta.

– Acho que a palavra que está procurando é “esquelético” – diz a Rhodes.

Rhodes ri.

– Acho que não – fala –, mas gostaria eu de ser esquelético assim.

Há onze pessoas no jantar, e Rhodes tem de pegar a cadeira do escritório e o banco do closet de Alex. Era disto que se lembrava dos jantares na casa de Rhodes: a comida era perfeita, havia sempre flores na mesa e ainda assim sempre acontecia algo de errado com a lista de convidados e os assentos – Alex resolvia chamar alguém que acabara de conhecer e se esquecia de avisar a Rhodes, ou Rhodes errava no cálculo, e o que fora programado para ser um evento formal e organizado se tornava caótico e casual.

– Merda! – diz Rhodes, como sempre faz, mas ele é sempre o único que se importa.

Alex está sentada à sua esquerda, e os dois conversam sobre o trabalho dela como diretora de relações públicas numa grife chamada Rothko, do qual acabara de pedir demissão, para o desespero de Rhodes.

– Já está sentindo falta de lá? – pergunta ele.

– Ainda não – responde ela. – Sei que Rhodes não está muito feliz com isso – ela sorri –, mas vai acabar superando. Só achei que deveria passar mais tempo em casa enquanto as crianças são pequenas.

Ele pergunta sobre a casa de campo que os dois compraram em Connecticut (outra fonte de pesadelos para Rhodes), e ela conta sobre a reforma, que já está entrando em seu terceiro verão, e Jude abre um sorriso de compaixão.

– Rhodes me disse que você estava procurando algo no Condado de Columbia – diz ela. – Acabou comprando?

– Ainda não – responde.

Fora uma escolha: era a casa ou ele e Richard reformariam o térreo do prédio, deixariam a garagem utilizável e construiriam uma pequena academia e uma piscina – com uma corrente contrária, para poder nadar sem sair do lugar –, e ele optara pela reforma. Agora nada todo dia pela manhã com total privacidade; nem mesmo Richard entra na área da academia quando ele está lá.

– Queríamos ter deixado a casa para mais tarde, na verdade – admite Alex. – Mas não tivemos escolha; queríamos que as crianças tivessem um quintal enquanto ainda eram pequenas.

Ele concorda com a cabeça; ouvira aquela história antes, da boca de Rhodes. Muitas vezes, é como se ele e Rhodes (e ele e quase todos os colegas da sua idade na firma) estivessem experimentando versões paralelas da vida adulta. O mundo deles é dominado pelos filhos, pequenos déspotas cujas necessidades – escola, colônias de férias, atividades e tutores – ditam cada decisão, e continuarão a ditar pelos próximos dez, quinze, dezoito anos. Ter filhos preenchera suas vidas com um sentido imediato e inegociável de propósito e direção: eram eles que decidiam a duração e o local das férias naquele ano; eram eles que determinavam se sobraria algum dinheiro e, caso sobrasse, como poderia ser gasto; eles davam forma ao dia, à semana, ao ano, à vida. Filhos são como uma espécie de cartografia, e tudo o que se deve fazer é obedecer ao mapa que eles traçam para você no dia em que nascem.

Mas ele e os amigos não têm filhos e, diante dessa ausência, o mundo se abre para eles, sendo quase sufocante nas possibilidades que oferece. Sem filhos, o status de adulto de uma pessoa nunca é algo certo; um adulto sem filhos cria a vida adulta para si próprio e, por mais divertido que isso geralmente seja, é também um estado de insegurança perpétua, de dúvida perpétua. Ou pelo menos o é para algumas pessoas – certamente é assim para Malcolm, que recentemente repassou com ele uma lista que fizera com pontos a favor e contra sobre ter filhos com Sophie, bem parecida com a que fizera antes de decidir se casaria ou não com ela, quatro anos atrás.

– Não sei, Mal – disse ele, depois de ouvir a lista de Malcolm. – Parece que a razão para ter filhos é porque você acha que precisa ter e não porque realmente quer.

– Mas é claro que acho que preciso – respondeu Malcolm. – Você nunca sente como se ainda estivéssemos basicamente vivendo feito crianças, Jude?

– Não – falou. E nunca se sentira daquela maneira: sua vida era tão distante da sua infância quanto se poderia imaginar. – É o seu pai que pensa assim, Mal. Sua vida não vai ser menos válida ou menos legítima se não tiver filhos.

Malcolm soltou um suspiro.

– Talvez – disse ele. – Talvez tenha razão. – E abriu um sorriso. – A verdade é que não quero mesmo ter filhos.

Jude retribuiu o sorriso.

– Bem – falou –, você sempre pode esperar. Talvez um dia possa adotar um adulto triste de trinta e um anos.

– Talvez – disse Malcolm outra vez. – Afinal, ouvi dizer que isso é moda em algumas partes do país.

Agora Alex pede licença para ir à cozinha ajudar Rhodes, que vem gritando seu nome com uma urgência cada vez maior – “Alex. Alex! Alex!” –, e ele então se vira para a pessoa à sua direita, que não reconhece das outras festas de Rhodes, um homem de cabelos escuros, com um nariz que parecia ter sido quebrado: começava descendo decididamente em uma direção antes de reverter o rumo, também decididamente, logo abaixo do osso nasal.

– Caleb Porter.

– Jude St. Francis.

– Deixe eu adivinhar: católico.

– Deixe eu adivinhar: não católico.

Caleb ri.

– Acertou.

Os dois começam a conversar, e Caleb diz que acabou de se mudar para a cidade, vindo de Londres, onde passou a última década como presidente de uma grife, para assumir como novo presidente executivo da Rothko.

– Alex foi muito gentil e espontânea ao me convidar ontem, então pensei – ele dá de ombros – por que não? Seria isto, uma bela refeição com pessoas simpáticas, ou então passar a noite trancado no quarto do hotel, olhando os anúncios de imóveis sem prestar muita atenção.

Da cozinha ouve-se o tinido de metal caindo e Rhodes praguejando. Caleb olha para ele, com as sobrancelhas erguidas, e Jude sorri.

– Não se preocupe – tranquiliza-o. – Isso sempre acontece.

Durante o restante da refeição, Rhodes tenta encurralar seus convidados numa conversa em grupo, mas não funciona – a mesa é muito grande, e ele ingenuamente colocou pessoas que já eram amigas para sentar lado a lado –, então Jude acaba conversando com Caleb. Ele tem quarenta e nove anos, cresceu no Condado de Marin e desde a casa dos trinta anos não morava em Nova York. Também estudara direito, embora, segundo ele, nunca tenha usado no trabalho qualquer coisa do que aprendeu na faculdade.

– Nunca? – pergunta Jude. Sempre se mostra cético quando alguém diz aquilo; é cético em relação a quem diz que a faculdade de direito foi um desperdício de tempo monumental, um equívoco de três anos. Por outro lado, também reconhece seu excesso de sentimentalismo em relação à faculdade de direito, que lhe deu não apenas seu sustento, mas, em muitas maneiras, sua vida.

Caleb pensa.

– Bom, talvez não nunca, mas não do jeito que se espera – diz, finalmente. Sua voz é grave, cuidadosa e lenta, ao mesmo tempo relaxante e, de certa forma, levemente ameaçadora. – A coisa que me acabou sendo realmente útil foi, veja só, o direito processual civil. Conhece algum estilista?

– Não – responde. – Mas tenho muitos amigos artistas.

– Você entende, então. Sabe como pensam diferente. Quanto melhor o artista, maior a probabilidade de não ter o menor tino para os negócios. E eles não têm mesmo. Trabalhei em cinco casas de moda nos últimos vinte e poucos anos, e era fascinante testemunhar os padrões de comportamento: a recusa em seguir prazos, a incapacidade de se manter dentro do orçamento, a quase incompetência no que diz respeito a gerir uma equipe... Tudo isso era tão frequente que você começava a se perguntar se a ausência dessas qualidades era um pré-requisito para conseguir o emprego, ou se é o próprio trabalho que encoraja esses tipos de falhas conceituais. Então o que você tem que fazer, numa posição como a minha, é construir um sistema de administração dentro da companhia, e depois garantir que ele seja aplicável e punível. Não sei bem como explicar: não dá para dizer a eles que seria bom para os negócios fazer uma coisa ou outra. Isso não significa nada para eles, ou pelo menos para alguns deles, por mais que digam que entendam. Então, o que tem de fazer é apresentar suas propostas como um estatuto do próprio mundinho onde vivem, e convencê-los de que, caso não sigam as regras, o mundo deles irá desabar. Se conseguir convencê-los disso, consegue que eles façam o que você precisa. É completamente enlouquecedor.

– E por que continua trabalhando com eles então?

– Porque... eles realmente pensam diferente. E é fascinante observar. Alguns são quase semianalfabetos: você recebe os bilhetes que escrevem e vê que mal conseguem construir uma frase. Mas, quando os vê desenhar, ou decorar, ou simplesmente combinar cores, é uma coisa... não sei. Maravilhosa. Não sei explicar de outra maneira.

– Entendo perfeitamente o que está falando – diz Jude, pensando em Richard, e JB, e Malcolm, e Willem. – É como se recebesse permissão para entrar num modo de pensar cuja linguagem você não consegue nem imaginar, quanto mais expressar.

– É exatamente isso – diz Caleb, sorrindo para ele pela primeira vez.

O jantar ganha um ar mais relaxado e, enquanto todos tomam café, Caleb descruza as pernas sob a mesa.

– Vou indo – diz ele. – Acho que ainda estou no horário de Londres. Mas foi um prazer conhecer você.

– O prazer foi meu – diz ele. – De verdade. E boa sorte ao tentar estabelecer um sistema de administração civil na Rothko.

– Obrigado, vou precisar – diz Caleb, e então, quando está prestes a levantar, para por um instante e pergunta: – Gostaria de sair uma hora destas para jantar?

Por um momento, ele fica paralisado. Mas logo em seguida repreende a si mesmo: não tem nada a temer. Caleb acabou de se mudar para a cidade – sabe o quanto deve ser difícil encontrar alguém com quem conversar, o quanto é difícil encontrar um amigo quando, durante sua ausência, todos os seus conhecidos formaram famílias e se tornaram estranhos para você. É só um papo, nada mais.

– Seria ótimo – diz ele, e os dois trocam cartões.

– Não levante – diz Caleb, quando ele começa a se levantar. – A gente se fala.

Ele vê Caleb – que é mais alto do que imaginara, pelo menos uns cinco centímetros a mais que ele, com suas costas de aparência imponente – despedir-se de Alex e Rhodes com sua voz estrondosa e sair sem virar para trás.

No dia seguinte, recebe uma mensagem de Caleb e os dois marcam um jantar para quinta-feira. No fim da tarde, telefona a Rhodes para agradecer pelo jantar e pergunta sobre Caleb.

– Infelizmente sou obrigado a dizer que não conversei com ele – diz Rhodes. – Alex o convidou no último minuto. É exatamente disto que reclamo sobre os jantares: Por que convidou alguém que vai assumir uma companhia da qual ela está saindo?

– Então não sabe nada sobre ele?

– Nada. Alex disse que ele é respeitado e que a Rothko lutou bastante para trazê-lo de Londres. Mas isso é tudo que sei. Por quê? – Ele quase consegue ouvir Rhodes sorrindo. – Não me diga que vai expandir sua clientela além do fascinante mundo dos títulos financeiros e da indústria farmacêutica?

– É exatamente isso que estou fazendo, Rhodes – responde. – Mais uma vez, obrigado. E diga também a Alex que agradeço.

Chega a quinta-feira e ele encontra Caleb num izakaya na parte oeste de Chelsea. Depois de fazerem os pedidos, Caleb diz:

– Sabe, fiquei olhando para você durante o jantar inteiro, tentando me lembrar de onde o conhecia, até me dar conta: era de um quadro de Jean-Baptiste Marion. O diretor criativo da última companhia em que trabalhei o comprou. Na verdade, ele tentou fazer a companhia pagar pelo quadro. Mas isso é outra história. É um close bem fechado do seu rosto, e você está ao ar livre; dá para ver a luz de um poste às suas costas.

– Certo – diz. Aquilo já acontecera algumas vezes antes, e ele sempre acha um pouco desconfortável. – Sei exatamente de que quadro está falando; é de “Segundos, Minutos, Horas, Dias”, a terceira série.

– Isso mesmo – diz Caleb, e sorri para ele. – Você e Marion são próximos?

– Não mais – responde, e, como sempre, é doloroso admitir isso. – Mas fomos colegas de quarto na universidade. Conheço-o há anos.

– É uma série fantástica – diz Caleb, e eles conversam sobre outras obras de JB, e sobre Richard, cujo trabalho Caleb também conhece, e sobre Henry Young Asiático; e sobre a escassez de restaurantes japoneses decentes em Londres; e sobre a irmã de Caleb, que mora em Mônaco com o segundo marido e uma prole enorme; e sobre os pais de Caleb, que morreram após longas enfermidades, quando ele estava na casa dos trinta; e sobre a casa em Bridgehampton que o colega da faculdade de direito de Caleb lhe emprestará no verão enquanto estiver em Los Angeles. E depois falam o bastante sobre a Rosen Pritchard e a confusão financeira que a Rothko se encontrava após a saída do último presidente, para convencê-lo de que Caleb estava à procura não só de um amigo, mas também de um possível advogado, e ele começa a pensar em quem na sua firma deveria se responsabilizar pela companhia. Pensa: talvez deva passar isso para Evelyn, uma das jovens sócias que a firma quase perdeu no ano anterior para, veja só, uma casa de moda, onde trabalharia como conselheira exclusiva. Evelyn seria um bom nome para aquela conta: é inteligente e se interessa por moda, seria uma boa combinação.

Está pensando nisso quando Caleb pergunta abruptamente:

– Você é solteiro? – E depois, abrindo um sorriso: – Por que está me olhando desse jeito?

– Desculpe – diz ele, espantado, mas sorri de volta. – Sim, eu sou. Mas... eu tive exatamente esta conversa com um amigo no outro dia.

– E o que o seu amigo disse?

– Ele disse... – começa, para logo em seguida parar, envergonhado e confuso pela mudança súbita de assunto, de tom. – Nada – fala, e Caleb sorri, quase como se tivesse de fato acabado de ouvir como fora a conversa, mas não o pressiona.

Jude pensa em como transformará aquela noite numa história para contar a Willem, em especial esta última parte. Você venceu, Willem, dirá a ele, e, se Willem tentar tocar no assuntou outra vez, decide que o deixará prosseguir e que dessa vez não fugirá das perguntas.

Ele paga a conta e os dois caminham pela rua. Chove, não muito forte, mas num ritmo constante o suficiente para que não haja táxis, e as ruas brilham feito alcaçuz.

– Tenho um carro me esperando – diz Caleb. – Posso deixar você em algum lugar?

– Não se importaria?

– Nem um pouco.

O carro os leva até o Baixo Manhattan, e, quando chegam a Greene Street, chove bem forte lá fora, tanto que não conseguem identificar as formas através das janelas, apenas cores, lantejoulas de luzes vermelhas e amarelas, e a cidade é reduzida a buzinas e ao barulho da chuva batendo no teto do carro, tão alto que mal conseguem ouvir a voz um do outro em meio aos estrondos. O carro para, e ele está prestes a sair quando Caleb lhe diz para esperar, pois tem um guarda-chuva e o acompanhará até o prédio. Antes que possa fazer qualquer objeção, Caleb já está saindo e abrindo o guarda-chuva, e os dois se espremem debaixo dele até entrarem no saguão. A porta bate às suas costas, deixando-os parados na entrada escura do prédio.

– Este é um belo saguão – diz Caleb, casualmente, olhando para a lâmpada pendurada no teto. – Embora tenha uma certa elegância decadente. – Ele cai na gargalhada, e Caleb sorri. – A Rosen Pritchard sabe que você mora num lugar destes? – pergunta, e antes que ele possa responder, Caleb se inclina e o beija com força, pressionando suas costas contra a porta. Os braços de Caleb formam uma jaula em torno dele.

Naquele momento, sua mente congela. O mundo, seu próprio ser, tudo se apaga. Faz muito, muito tempo desde que alguém o beijara pela última vez, e ele lembra o quanto se sentia indefeso quando isso acontecia, e como o Irmão Luke costumava dizer que era só abrir a boca, relaxar e não fazer nada, e agora – por hábito e reflexo, e pela incapacidade de fazer outra coisa – é isso que ele faz, e espera até que acabe, contando os segundos e tentando respirar pelo nariz.

Até que finalmente Caleb dá um passo para trás e olha para ele, e depois de alguns instantes ele retribui o olhar. E então Caleb o beija outra vez, desta vez segurando seu rosto entre as mãos, e ele tem aquela sensação que sempre tinha quando era criança e o beijavam, de que seu corpo não lhe pertence, de que cada gesto que faz é pré-determinado, reflexo seguido por reflexo seguido por reflexo, e de que nada pode fazer além de sucumbir ao que quer que pudesse lhe acontecer em seguida.

Caleb para outra vez e dá um novo passo para trás, olhando para ele e erguendo as sobrancelhas do jeito que fizera durante o jantar na casa de Rhodes, esperando que diga algo.

– Pensei que estivesse procurando um representante legal – diz, finalmente, e as palavras são tão estúpidas que sente seu rosto começar a arder.

Mas Caleb não ri.

– Não – responde. Os dois voltam a ficar em silêncio e desta vez é Caleb quem volta a falar. – Não vai me convidar para subir? – pergunta.

– Não sei – diz ele, e deseja, de repente, que Willem estivesse ali, embora este não seja o tipo de problema com o qual Willem já o tenha ajudado antes. Na verdade, provavelmente não era nem o tipo de problema que Willem consideraria um problema. Ele sabe a pessoa impassível e cautelosa que é, e embora essa impassibilidade e esse senso de cautela façam com que ele nunca seja a pessoa mais interessante, mais provocante ou mais atraente de qualquer reunião, em qualquer ambiente, eles o protegeram até aquele momento, eles lhe deram uma vida adulta livre de sordidez e imoralidade. Mas, às vezes, ele questiona se teria se isolado de tal forma que passara a ignorar alguma parte fundamental da experiência humana: talvez esteja pronto para estar com alguém. Talvez já tenha passado tempo suficiente para que desta vez seja diferente. Talvez esteja errado e Willem, certo: talvez aquilo não seja algo eternamente proibido para ele. Talvez seja menos repugnante do que pensa. Talvez ele seja realmente capaz de fazer aquilo. Talvez não acabe machucado de forma alguma. Naquele momento, Caleb parece ter sido invocado, feito um gênio, alguém nascido de seus piores medos e de suas maiores esperanças, colocado em sua vida como uma espécie de teste: de um lado está tudo o que ele conhece, e os ritmos de sua existência têm a regularidade e a banalidade das gotas que caem num intervalo regular de uma torneira com defeito, onde vive sozinho, mas em segurança, e é protegido de tudo que possa machucá-lo. Do outro lado há ondas, tumulto, tempestades, agitação: tudo o que ele não pode controlar, tudo que é potencialmente terrível e cheio de êxtase, tudo o que passou sua vida adulta inteira tentando evitar, tudo cuja ausência priva sua vida de cor. Dentro dele, a criatura hesita, apoiada nas pernas de trás, dando patadas no ar como se buscasse respostas.

Não faça isso, não engane a si mesmo, não importa o que diga a si próprio, sabe bem o que você é, diz uma voz.

Arrisque, diz a outra voz. Você está se sentindo sozinho. Precisa tentar. Essa é a voz que ele sempre ignora.

Talvez nunca aconteça de novo, acrescenta a voz, o que o faz parar.

Isso vai acabar mal, diz a primeira voz, e então as duas vozes ficam em silêncio, esperando para ver o que ele vai fazer.

Ele não sabe o que fazer; não sabe o que vai acontecer. Precisa descobrir. Tudo que aprendeu lhe diz para ir embora; tudo o que deseja lhe diz para ficar. Tenha coragem, diz a si mesmo. Tenha coragem, pelo menos uma vez na vida.

Ele então olha para Caleb.

– Vamos lá – diz, e embora já esteja com medo, inicia a longa caminhada pelo corredor estreito na direção do elevador como se não o estivesse e, junto ao som do seu pé direito arrastando no cimento, ele ouve os passos de Caleb, as explosões de chuva se chocando contra a escada de incêndio e o seu próprio coração batendo agitado.

–

Um ano atrás, começou a trabalhar na defesa de uma companhia farmacêutica gigantesca chamada Malgrave e Baskett, cujo conselho administrativo estava sendo processado por um grupo de acionistas por prevaricação, incompetência e inadimplência de obrigações fiduciárias.

– Nossa – dissera Lucien, sarcástico. – Por que será que pensam isso?

Jude soltara um suspiro.

– Pois é – falara.

A Malgrave e Baskett era um desastre, e todo mundo sabia disso. Nos últimos anos, antes de ser representada pela Rosen Pritchard, a companhia tivera de enfrentar duas ações promovidas por denúncias (a primeira alegava que uma das fábricas seguia normas e procedimentos perigosamente ultrapassados, a segunda que outra fábrica vinha produzindo produtos contaminados), recebera duas citações relacionadas à investigação de um elaborado esquema de propinas envolvendo uma cadeia de retiros para idosos e fora acusada de supostamente anunciar um de seus remédios mais vendidos, aprovado somente para o tratamento de esquizofrênicos, para pacientes com o mal de Alzheimer.

Assim, ele passara os últimos onze meses entrevistando cinquenta dos diretores e administradores da Malgrave e Baskett, antigos e atuais, e compilando um relatório para responder às alegações da ação. Contava com outros quinze advogados em sua equipe; certa noite, entreouviu um deles se referindo à companhia como Mau-caráter e Bastarda.

– Nunca deixe o cliente ouvir vocês falarem isso – repreendeu ele.

Já era tarde, duas da manhã. Sabia que estavam cansados. Se fosse Lucien, teria gritado com eles. Mas Jude também estava cansado. Na semana anterior, outra advogada no caso, uma jovem, levantara de sua mesa às três da manhã, olhara ao redor e desabara no chão. Ele chamara uma ambulância e liberara todos para irem para casa, contanto que voltassem às nove da manhã; continuara ali por mais uma hora e depois resolvera também ir descansar.

– Você deixou eles irem para casa e ficou aqui? – perguntou Lucien no dia seguinte. – Está amolecendo, St. Francis. Graças a deus não age assim quando estamos no tribunal, ou nunca chegaríamos a lugar nenhum. Ai de nós se o advogado deles soubesse que está lidando com um molenga.

– Quer dizer então que a firma não vai mandar flores à pobre da Emma Gersh?

– Ah, já mandamos – disse Lucien, levantando e saindo do escritório. – “Emma: melhoras. Volte logo. Senão já sabe. Com todo o carinho da sua família na Rosen Pritchard.”

Ele adorava julgamentos, adorava argumentar e falar diante do tribunal – aquilo nunca o cansava –, mas seu objetivo com a Malgrave e Baskett era conseguir que um juiz desconsiderasse o caso antes que tivesse uma chance de entrar nos anos maçantes e tediosos de investigações e descobertas. Ele redigiu o pedido de anulação e, no início de setembro, o juiz da corte distrital jogou fora o processo.

– Estou orgulhoso de você – diz Lucien aquela noite. – A Mau-caráter e Bastarda não sabe a puta sorte que teve; aquele processo era sólido.

– Bom, tem muita coisa que a Mau-caráter e Bastarda não parece saber – responde ele.

– É verdade. Mas acho que eles podem ser completos cretinos, contanto que tenham o bom senso de contratar o advogado certo.

Ele fica de pé.

– Tem algum plano para o fim de semana?

– Não.

– Bem, faça alguma coisa relaxante. Saia um pouco. Vá a algum restaurante. Você não está com uma cara boa.

– Boa noite, Lucien!

– Tudo bem, tudo bem. Boa noite. E parabéns. De verdade. Essa foi das grandes.

Ele continua no escritório por mais duas horas, arrumando e organizando documentos na tentativa de se livrar dos detritos constantes. Não tem nenhuma sensação de alívio, ou de vitória, depois daqueles resultados: somente cansaço, mas um cansaço simples e merecido, como se tivesse completado um dia de trabalho físico. Onze meses: entrevistas, pesquisas, mais entrevistas, apuração dos fatos, escrever, reescrever – e então, num instante, está tudo acabado e outro caso vem em seu lugar.

Vai finalmente para casa, onde sente uma fadiga repentina e para a caminho do quarto para sentar no sofá, acordando uma hora depois, desorientado e com sede. Nos últimos meses, não tem visto nem falado com a maioria de seus amigos – até mesmo as conversas com Willem vinham sendo mais curtas que o normal. Parte disso pode ser atribuída à Mau-caráter e Bastarda e à preparação frenética que o caso exigira; mas a outra parte pode ser atribuída à sua confusão constante em relação a Caleb, sobre quem não contou a Willem. Mas Caleb passará o fim de semana em Bridgehampton, e ele está feliz por ter algum tempo sozinho.

Ainda não sabe o que sente por Caleb, mesmo depois de três meses. Não tem certeza absoluta de que Caleb goste dele. Ou melhor: sabe que gosta de conversar com ele, mas às vezes o pega olhando em sua direção com uma expressão que beira o repúdio.

– Você é muito bonito – disse Caleb uma vez, com a voz confusa, segurando seu queixo entre os dedos e virando seu rosto para ele. – Mas... – E por mais que não tenha terminado a frase, Jude podia sentir o que Caleb queria dizer: “Mas tem algo errado. Mas você ainda me causa repulsa. Mas não entendo por que não gosto de você, não de verdade.”

Sabe que Caleb detesta seu jeito de andar, por exemplo. Algumas semanas depois de começarem a sair, Caleb estava sentado no sofá e ele levantara para pegar uma garrafa de vinho. Quando estava voltando, notou Caleb o observando tão intensamente que chegou a ficar nervoso. Serviu o vinho, e eles beberam. Então Caleb disse:

– Sabe, quando conheci você, a gente estava sentado. Não sabia que mancava.

– É verdade – falou, lembrando a si mesmo de que aquilo não era algo pelo que deveria se desculpar: ele não havia armado uma arapuca para Caleb; não tivera a intenção de enganá-lo. Respirou fundo e tentou soar levemente curioso. – Não teria saído comigo se soubesse?

– Não sei – disse Caleb, após um instante de silêncio. – Não sei.

Naquela hora, teve vontade de sumir, de fechar os olhos e voltar no tempo, até antes de conhecer Caleb. Teria recusado o convite de Rhodes; teria continuado a viver sua vidinha; nunca saberia o que poderia ter acontecido.

Mas, por mais que Caleb deteste seu jeito de andar, o que ele abomina mesmo é a cadeira de rodas. Na primeira vez que Caleb foi visitá-lo pela manhã, Jude lhe mostrou o apartamento. Tinha orgulho do seu lar, e todo dia sentia-se agradecido por viver ali, sem conseguir acreditar que aquilo fosse realmente seu. Malcolm mantivera a suíte de Willem, como a chamavam, no mesmo lugar, mas a ampliara e acrescentara um escritório nos fundos ao norte, próximo ao elevador. Havia ainda o amplo espaço aberto, com um piano e uma área de sala de estar voltada para o sul e uma mesa que Malcolm projetara na área norte, o lado que não tinha janelas e, atrás dela, uma estante de livros que cobria toda a parede até a cozinha, cheia de obras de amigos, e de amigos de seus amigos, além de outras que comprara ao longo dos anos. Toda a parte leste do apartamento era dele: você atravessava o quarto, do lado norte, passando pelo closet e entrando no banheiro, que tinha janelas viradas para o leste e para o sul. Embora mantivesse as persianas do apartamento fechadas na maior parte do tempo, dava para abri-las todas de uma vez, e o lugar virava um retângulo de pura luz, onde o véu entre você e o mundo lá fora se tornava tão fino que chegava a hipnotizar. Muitas vezes Jude sente que o apartamento representa uma mentira: sugere que a pessoa que mora ali é alguém aberto, cheio de vida, generoso em suas respostas, e ele obviamente não é aquela pessoa. Lispenard Street, com suas alcovas escuras, e corredores apertados e sombrios, com paredes tantas vezes pintadas que dava para sentir as falhas e os montículos onde traças e percevejos haviam sido sepultados entre suas camadas, formava um reflexo mais preciso de quem ele era.

Para a visita de Caleb, deixou a luz do sol se difundir pelo apartamento. Pôde ver que Caleb ficou impressionado. Os dois o percorreram lentamente, e Caleb examinava as obras e fazia perguntas sobre elas: onde as comprara, quem era o autor, atentando-se aos que reconhecia.

Chegaram então ao quarto, e ele estava mostrando a Caleb a pintura pendurada nos fundos, um retrato de Willem na cadeira de maquiagem, que comprara da mostra “Segundos, Minutos, Horas, Dias”, quando Caleb perguntou:

– De quem é essa cadeira de rodas?

Voltou-se para onde Caleb estava olhando.

– Minha – falou, após uma pausa.

– Mas por quê? – perguntou Caleb, com um ar confuso. – Você consegue andar.

Não sabia o que dizer.

– Às vezes preciso dela – respondeu, no fim. – Raramente. Não uso com muita frequência.

– Que bom – disse Caleb. – Melhor que não use.

Ele ficou espantado. Seria aquilo um sinal de preocupação ou uma ameaça? Mas, antes que conseguisse entender o que deveria sentir, ou o que deveria responder, Caleb deu meia-volta e partiu na direção do closet, e ele o seguiu, continuando a mostrar a casa.

Um mês depois, encontrou Caleb uma noite, bem tarde, do lado de fora do escritório onde ele trabalhava, no limite ocidental do Meatpacking District. Caleb também fazia serão; era início de julho e a Rothko apresentaria sua linha de primavera em oito semanas. Tinha ido de carro ao trabalho naquele dia, mas a noite estava seca e preferiu sair do veículo e sentar em sua cadeira ao lado de um poste até o momento em que Caleb apareceu, conversando com alguém. Sabia que Caleb o vira – havia erguido a mão em sua direção e Caleb respondera com um aceno de cabeça quase imperceptível: nenhum dos dois era uma pessoa efusiva – e ficou observando-o até terminar a conversa e o outro homem partir na direção leste.

– Oi – falou quando Caleb se aproximou.

– Por que está na cadeira de rodas? – questionou Caleb.

Por um instante foi incapaz de responder. Quando conseguiu, gaguejou.

– Precisei dela hoje – finalmente disse.

Caleb soltou um suspiro e esfregou os olhos.

– Pensei que não a usasse.

– Não uso – falou, tão envergonhado que sentiu seu corpo começar a suar. –

Não no dia a dia. Só quando realmente preciso.

Caleb assentiu com a cabeça, mas continuou apertando o osso do nariz. Não olhava para ele.

– Olhe – rompeu o silêncio. – Acho melhor não sairmos para jantar. Você obviamente não se sente bem, e eu estou cansado. Preciso dormir um pouco.

– Ah – disse ele, decepcionado. – Tudo bem. Eu entendo.

– Que bom – disse Caleb. – Ligo para você mais tarde.

Ficou observando Caleb descer a rua com seus passos largos até dobrar a esquina e sumir. Entrou no carro e voltou para casa, onde se cortou até sangrar tanto que não conseguia mais segurar a lâmina com firmeza.

O dia seguinte era uma sexta-feira, e Caleb não ligou. Pois bem, pensou. É isso. E não tinha problema: Caleb não gostara do fato de vê-lo numa cadeira de rodas. Ele também não gostava. Não podia ficar magoado com Caleb por não conseguir aceitar algo que ele próprio não aceitava.

Mas então, na manhã de sábado, Caleb telefonou quando ele subia da piscina para o apartamento.

– Queria pedir desculpas por quinta à noite – disse Caleb. – Sei que pode parecer insensível e bizarra essa... aversão que tenho à sua cadeira de rodas.

Sentou numa das cadeiras em volta da mesa de jantar.

– Não parece nada bizarra – falou.

– Contei a você que meus pais ficaram doentes durante uma boa parte da minha vida adulta – disse Caleb. – Meu pai teve esclerose múltipla, e minha mãe... ninguém sabia o que tinha. Adoeceu quando eu estava na universidade e nunca mais ficou boa. Sentia dores no rosto, enxaquecas; vivia numa espécie de desconforto de baixa intensidade constante e, por mais que não duvidasse de que fosse real, o que me incomodava era ela nunca demonstrar que queria melhorar. Simplesmente desistiu, assim como ele. Para todo lugar que você olhava havia um sinal da entrega deles à doença: primeiro bengalas, depois andadores, depois cadeiras de rodas, depois carrinhos motorizados, e frascos de comprimidos, lenços e o cheiro perpétuo de pomada anestésica, gel e sabe-se lá mais o quê.

Ele fez uma pausa.

– Quero continuar a sair com você – falou, rompendo o silêncio. – Mas... mas não consigo ficar perto desses acessórios que lembram fraqueza, doença. Simplesmente não consigo. É uma coisa que detesto. Que me dá vergonha. Que me deixa... não deprimido, mas furioso, como se eu precisasse enfrentá-la. – Fez outra pausa. – Só não sabia que você era assim quando o conheci – falou, enfim. – Pensei que conseguiria lidar com isso. Mas agora não tenho tanta certeza. Você entende o que estou dizendo?

Ele engoliu em seco; queria chorar. Mas podia entender; sentia o mesmo que Caleb.

– Sim – respondeu.

E assim, apesar da improbabilidade, continuaram juntos. Ele ainda ficava surpreso com a velocidade e a amplitude com que Caleb se insinuou em sua vida. Era como num conto de fadas: Uma mulher que mora na beira de uma floresta escura ouve uma batida e abre a porta de sua cabana. E por mais que seja apenas por um instante, por mais que não veja ninguém, naqueles poucos segundos, dezenas de demônios e fantasmas passaram por ela e entraram na casa, e ela nunca mais conseguirá se livrar deles, jamais. Às vezes a sensação era essa. Seria assim com as outras pessoas? Não sabe dizer; tem medo demais de perguntar. Pega a si mesmo relembrando velhas conversas que já teve ou que entreouviu com pessoas falando de seus namoros, tentando aferir a normalidade do seu próprio relacionamento tomando o dos outros como parâmetro, procurando pistas sobre como deveria se comportar.

E então há o sexo, que é pior do que ele imaginara: tinha esquecido o quanto era doloroso, o quanto era aviltante, o quanto o odiava. Detesta as posições, as posturas que tinha de assumir, todas degradantes, pois o deixam completamente indefeso e fraco; odeia os gostos e os cheiros. Mas, acima de tudo, odeia os sons: as pancadas carnosas de pele contra pele, os gemidos e grunhidos feito os de um animal ferido, as coisas ditas a ele que supostamente seriam excitantes, mas que só conseguia interpretar como humilhações. Ele se dá conta de que parte de si sempre acreditara que o sexo seria melhor quando fosse adulto, como se a simples questão da idade pudesse transformar a experiência em algo glorioso e agradável. Durante a universidade, quando tinha seus vinte, trinta anos, ouvia sempre as pessoas falarem do assunto com tanto prazer, com tanto encanto, que pensava: É isso mesmo que excita vocês tanto assim? De verdade? Não é bem desse jeito que eu lembro. E, ainda assim, ele não pode ser o único a estar certo, enquanto todos os outros – milênios de pessoas – estão errados. Então, claramente existe algo no sexo que ele não consegue entender. Claramente está fazendo algo errado.

Naquela primeira noite que subiram juntos ao apartamento, sabia o que Caleb esperava.

– A gente vai precisar ir devagar – disse a ele. – Faz muito tempo.

Caleb olhou para ele em meio à escuridão; não havia acendido as luzes.

Continuar: parte 3 de 3