38 Estratégias para Vencer Qualquer Debate: A Arte de Ter Razão

Introdução

KARL OTTO ERDMANN

 

MÉTODOS E TRUQ UES NA ARTE DA ARG UMENTAÇÃO

Diz Eleonora, na peça de Goethe, Torquato Tasso:

Escuto com prazer a discussão dos sábios:

Quando sobre as forças, que no peito do hom em

Se m ovem de m aneira tão am igável e terrível,

Os lábios do orador se m ovim entam com graça.

 

Isto é inconfundível. Aqui fala um ouvinte orientado puram ente pela estética, que não se interessa tanto pelo conteúdo, m as sim pelas form as, m odos e recursos psicológicos de um a discussão dialética entre oradores brilhantes. Estetas desse tipo desfrutam de um a discussão com o se fosse um verdadeiro duelo m edieval; não questionam o propósito da discussão, se este ou aquele representa um a boa causa; querem apenas se divertir com a força e a agilidade dos com batentes. No entanto, tal posição só pode ser m antida em raras ocasiões, não apenas porque as disputas entre espíritos cultos, que cruzam espadas intelectuais e “m ovim entam os lábios com graça”, não são espetáculos exatam ente com uns; m as porque é im possível para a m aioria considerar disputas discursivas com o um m ero j ogo. Em especial as que são definidas de form a ética e dependem da vitória da j ustiça e da verdade deixam provavelm ente um a im pressão dolorosa da m aioria dos debates. É chocante ver com que frequência ter razão e ficar com a razão não são equivalentes; que o vencedor de um a discussão não é o que está do lado da verdade e da razão, m as sim o que é m ais espirituoso e sabe lutar de m aneira m ais ágil. Persuasão em otiva, espirituosidade e ironia, aparência convincente e representar um papel autoritário triunfam sobre a perspicácia e o conhecim ento. E quantas vezes aquele que é sutil, honesto e crítico é violentado de m aneira dialética por gritos brutais e inescrupulosos! Muitos vão — assim com o Fausto — renunciar a um a discussão no m eio do cam inho:

Eu lhe peço — assim com o m eus pulm ões —

Quem quer ficar com a razão e tem apenas um a língua,fique com ela.

E vam os, estou cansado da falação;

Então você tem razão, principalm ente porque devo cedê-la.

 

Com o em qualquer disputa, em um a discussão o que está em ação não é o desej o pela verdade, m as o desej o pelo poder. E o ser hum ano, que não é um ser especialm ente nobre, revela seu lado m ais som brio: a vaidade e a hipocrisia triunfam . Desafiar um a convicção soa com o desvalorizar a personalidade; um a refutação é considerada acusação de inferioridade intelectual. Portanto, cada um se agarra desesperadam ente às suas afirm ações; m esm o aqueles que duvidam da legitim idade de sua causa, fazem todos os esforços para, pelo m enos, parecer vitoriosos. Assim atacam m uitas vezes de m aneira intencional, e outras tantas vezes de form a parcial ou com pletam ente passional com todos os tipos de truques e subterfúgios dialéticos. E eles são num erosos e variados, m as repetem -se por toda parte: nas conversas diárias e nas polêm icas dos j ornais, em debates parlam entares e em processos j udiciais; e até m esm o em discussões acadêm icas, deparam os hoj e com os m esm os truques e subterfúgios utilizados há séculos.

* * *

Dois m il anos atrás, Aristóteles j á acrescentava aos seus Tópicos um apêndice sobre as “falácias dos sofistas”: um livro hoj e pouco palatável cuj os exem plos são insuportavelm ente banais e podem até parecer bobos. Quem deve m ergulhar a sério nesses casos de “diérese”, com o a afirm ação de que um núm ero pode ser tanto par quanto ím par porque dois m ais três é igual a cinco; quem deve se deixar enganar por falácias, por exem plo, de que duas palavras escritas da m esm a form a devem ser tratadas com o sinônim as em bora possam ser diferenciadas quando pronunciadas por entonações diferentes? Ou por contestações infantis com o “o negro é preto e branco ao m esm o tem po” — ou sej a, tem a m aioria da pele negra, m as branco se estiverm os focados nos dentes, etc. Ao m esm o tem po, quem entender o princípio do m ecanism o dessas estratégias e conseguir tirar conclusões dos casos m ais com plicados será visto com adm iração, pois com preende os num erosos casos de Aristóteles que realm ente têm a ver com as falácias e ainda são usados a todo m om ento e não são fáceis de identificar no dia a dia. No entanto, o autor as coloca na form a m ais sim ples possível e, provavelm ente de m aneira intencional, as ilustra por m eio dos exem plos bastante óbvios, para tornar a contestação contundente. Esta divisão aristotélica povoou e am pliou a lógica m edieval. O ensino das “falácias”, pelas quais se podem com preender os sofism as utilizados norm alm ente, desem penhou um grande papel nos antigos livros de lógica até o século XIX. Em parte, a velha term inologia escolástica ainda é usada hoj e pelos estudiosos; alguns term os até fazem parte da linguagem cotidiana dos intelectuais, com o “petitio principii”, “ignoratio elenchi” ou o form al “post hoc, ergo propter hoc”.

Outros foram com pletam ente esquecidos ou substituídos por term os com uns e m odernos. Quando, por exem plo, alguém am plia um a afirm ação válida apenas sob certas condições; quando ele conclui que o vinho é nocivo por causa dos efeitos nocivos do consum o im oderado de vinho, os antigos lógicos cham ariam isso de um a “fallacia um dicto secundum quid ad dictum simpliciter”, enquanto hoj e se diria apenas um a “generalização não confiável” ou um a “confusão entre precisão relativa e absoluta”. Mas, em casos com plicados e de difícil com preensão, term os técnicos curtos estão ausentes por com pleto, e por isso é difícil im pedir as falácias do adversário de form a clara e concisa no decorrer de um debate acalorado.

Seria um a em preitada m uito útil substituir a sabedoria acadêm ica em poeirada e ornam entada por um a técnica de debate verdadeiram ente m oderna. Em certo m om ento, Schopenhauer quis fazer isso, com o ele explica em seu ensaio “Sobre a lógica e dialética” no segundo volum e de seu Parerga e Paralipomena; m as depois desistiu porque achou “que tal exam e detalhado e m inucioso dos atalhos e truques que a natureza hum ana com um usa para esconder suas deficiências” — j á não era — apropriado. O m aterial inédito que ele coletou foi publicado por Frauenstädt em um a obra póstum a cham ada de “erística”, isto é, um a doutrina do debate. Neste trabalho está contido a “base da dialética” introdutória que trata das doutrinas lógicas com uns da afirm ação e da refutação por m eio de “estratagem as”. Eles podem ser considerados o início de um a reunião de textos. Estão encadeados aleatoriam ente, em parte, equivalentes, em parte, subordinados; e em alguns são idênticos; ao lado de erros básicos de raciocínio encontram -se engodos e subterfúgios especiais, que, com seus ataques à lógica, podem parecer até fora de propósito. Por exem plo, quando ele “aconselha” um oponente a provocar a raiva do inim igo, pois com raiva ele é incapaz de j ulgar corretam ente. O m eio para deixá-lo com raiva é ser explicitam ente inj usto com ele, achincalhando-o e até sendo insolente.

Aparentem ente, Schopenhauer fez alguns registros desses, com o ele cham a, “estratagem as” segundo experiências pessoais. É possível sentir com o o velho senhor fica com raiva e não se cansa de desabafar com seu hum or som brio sobre a vaidade, a obstinação e a desonestidade que acom panham a inj ustiça e a incom petência dos seres hum anos.

Aliás, a erística contém alguns truques que são apenas retórica e nada têm a ver com a ilusão dialética. Por exem plo, a estratégia 25: um golpe brilhante do retorsio argumenti (argum ento contrário) — quando o argum ento que o oponente quer usar contra o inim igo pode parecer inicialm ente um a atenuante. Por exem plo, ele diz “é um a criança, deve-se dar um desconto”. Para depois com pletar: “Mesm o por ser um a criança, devem os puni-la para que ela não insista em hábitos ruins”.

É lam entável que Schopenhauer não tenha concluído sua “erística” com o pretendia. A utilidade prática de tais técnicas de debate é inconfundível. Qualquer um que se lem bre, tam bém de m aneira abstrata, das m últiplas porém recorrentes falácias e dom ine determ inados term os técnicos, e tam bém conheça todos sofism as do outro, está m ais bem equipado para a disputa do que aquele que se baseia exclusivam ente em seus bons m otivos. É com o um oficial que estudou táticas e conhece m uito bem todos os todos os estratagem as, as estratégias. Ele tem as paradas obrigatórias nas m ãos e prontos os exem plos cruciais contra os desvios dos inim igos para serem usados sem m uitos rodeios. É com um desdenhar o palavreado acadêm ico, m as é claro que sua form ação lógica teve algum m érito: quando em um a discussão um orador exclam ava para o outro que aquilo era um a “fallacia causae ut non causae” ou um a “petitio principii”, o outro se sentia com preendido, e os ouvintes tinham um a orientação e sabiam onde procurar o ponto fraco do argum ento. Se hoj e não se discutisse de m aneira tão sem sentido ou infrutífera em reuniões políticas, no parlam ento ou no congresso, se não se falasse de m aneira tão vã uns dos outros, estar com a razão não se sobreporia tantas vezes, com gritos de obj eção, a ter a razão, se estivessem presentes m ais pessoas conhecedoras da dialética, que prestassem atenção na técnica do debate, definissem rapidam ente todas as falácias, subterfúgios e truques do orador e o punissem .

As construções a seguir não têm a intenção de ser um a coleção com pleta de todos os truques com uns usados em discussões. Selecionei o que m e pareceu m ais típico. A m aioria dos principais sofism as está num a dessas categorias: eles exploram as im perfeições naturais e inevitáveis da inteligência e da transferência de conhecim ento hum anas. Eles tratam essencialm ente dos seguintes fenôm enos:

1. Inadequação da linguagem do ponto de vista lógico. Goethe diz: “Assim que fala, a

pessoa j á com eça a divagar.”

2. Conflito entre o universal e o particular: os perigos da generalização, esquem atização

e tipificação; as contradições e as im perfeições da indução.

3. O fato de que nossas principais convicções baseiam -se em valores e, portanto, estão

ligadas à ideia de certo e errado.

4. O fenôm eno inevitável de que cada experiência própria se dá ao m esm o tem po que a

dos outros, e de que ninguém pode prescindir das autoridades.

5. A tendência erradicável de todas as pessoas ao pensam ento absoluto, enquanto nossos

valores, conceitos e conhecim entos são relativos.

 

Esses fatos estão, evidentem ente, interligados de várias m aneiras, de m odo que um a distinção clara é quase im possível. Quase todas as falácias podem ser observadas de diferentes pontos de vista, e algum as surgem da ligação entre dois ou m ais truques.

Nos pontos de vista especificados não se enquadram com entários sobre artifícios legítim os, a saber, os subterfúgios e truques acim a m encionados nada têm a ver com a lógica, especialm ente os ignoratio elenchi propositais, que descrevo com o a “perversão da questão”; e, finalm ente, as falácias propriam ente ditas são violações das regras do silogism o.

 

Nota do editor: Estratagem a e estratégia são sinônim os. O prim eiro utilizado em assuntos dialéticos e acadêm icos, o outro em assuntos relacionados ao am biente trivial e corporativo.

Adotam os então a segunda acepção, cuj o uso se tornou m ais com um em nossos dias.

Karl Otto Erdmann (1858 – 1931) foi um reconhecido estudioso da filosofia e respeitado linguista alem ão na virada do século passado. Autor de inúm eras obras, textos e estudos na área da sem ântica, dentre elas,Die Bedeutung des Wortes, 1910 O significado das palavras – Ensaio na fronteira da psicologia da linguagem e da lógica.