38 Estratégias para Vencer Qualquer Debate: A Arte de Ter Razão
Dialética Erística
A arte de ter razão
A DIALÉTICA ERÍSTICA é a arte de discutir, e m ais especificam ente de discutir de m odo a ter razão, isto é, per fas et nefas [por m eios lícitos ou ilícitos]. É possível ter razão obj etiva em relação ao assunto em si e, ainda assim , aos olhos dos observadores, e às vezes aos próprios, não ter razão. Quando, por exem plo, o oponente recusa m inhas evidências, isso serve com o refutação da afirm ação em si, para a qual é possível dar outras evidências; nesse caso, naturalm ente, a relação é inversa para o oponente: ele tem razão, sem tê-la de m aneira obj etiva. Assim , a verdade obj etiva de um a argum entação e sua aceitação pelo oponente e pelo ouvinte são coisas diferentes. (A lógica tem a ver com o conteúdo da argum entação e a dialética tem a ver com o convencim ento dos dem ais.)
De onde vem isso? Do com ponente altam ente perverso da natureza hum ana. Se não fosse isso, se fôssem os com pletam ente honestos, então em todo debate teríam os a intenção de exigir que a verdade fosse m ostrada, sem nos preocupar se nossa opinião ou a do outro é que estava correta: isso seria absolutam ente indiferente, ou pelo m enos algo com pletam ente secundário. Mas a natureza hum ana torna esta a questão central. A vaidade congênita, que é sensível em especial em relação às faculdades intelectuais, não quer reconhecer estar errada, e que o oponente tenha razão. Pela lógica, cada um deveria apenas se esforçar para em itir opiniões verdadeiras, sólidas, para o que seria preciso prim eiro pensar e depois falar. Mas à vaidade congênita, se j untam a verborragia da m aioria e a doentia desonestidade do hom em . Falam antes de pensar, e depois percebem que sua afirm ação era falsa ou que não tinham razão; ainda assim , atuam de m odo a parecer o contrário. O interesse pela verdade, que deveria ser o único m otivo da proposição de afirm ações, é totalm ente substituído pelo interesse da vaidade: a verdade deve parecer falsa e o falso deve parecer verdadeiro.
Entretanto, essa m esm a desonestidade, essa persistência em um a afirm ação que j á nos parece errada, ainda tem um a desculpa: m uitas vezes, com eçam os plenam ente convencidos da verdade de nossa afirm ação, m as o argum ento do oponente parece arrasador. Se abrirm os m ão da nossa de um a vez, talvez descubram os m ais tarde que tínham os razão: nossa evidência estava errada, m as m esm o assim podia existir um a correta. O argum ento que nos salvaria não nos ocorreu logo de im ediato. Portanto, vem o-nos diante da m áxim a: m esm o quando o argum ento contrário parece certo e persuasivo, ainda devem os lutar contra ele na esperança de que essa certeza sej a apenas aparente, e de que ainda nos ocorra um argum ento durante a discussão que arrase com todos os outros, ou um que confirm e nossa posição de outra m aneira. Desse m odo, m esm o sem nos darm os conta conscientem ente do fato, som os im pelidos à desonestidade durante a discussão. Nesse contexto, a fragilidade de nossa com preensão e a perversidade de nossa vontade colaboram m utuam ente. Isso quer dizer que quem discute, via de regra, não luta pela verdade, m as por suas afirm ações, e age pro ara et focis [por interesse pessoal] e per fas et nefas [por m eios lícitos ou ilícitos], j á que não é possível fazer de outro m odo, com o foi dem onstrado.
Portanto, em geral cada um quer im por sua afirm ação, m esm o que ela pareça por um m om ento falsa ou duvidosa. Até certo ponto, todo hom em está arm ado de tal procedim ento com sua própria esperteza e m aldade: isso se aprende com a experiência diária com as discussões, e assim cada um passa a ter sua dialética natural e sua lógica natural. No entanto, ninguém vai m uito além quando se trata da lógica. Pensar ou fazer suposições contrárias às leis da lógica não é fácil: opiniões erradas são frequentes e silogism os errados, m uito raros. Tam bém não é fácil dem onstrar carência num a lógica natural; por outro lado, existe m uita gente com deficiências na dialética natural: esse é um talento distribuído de m aneira desigual (o m esm o acontece com a capacidade de raciocínio e com a racionalidade, que é distribuída de m aneira m uito desigual). Por isso, é m uito com um as pessoas se confundirem com argum entações aparentes e se deixarem refutar quando na verdade têm razão, ou o contrário. E quando se saem vitoriosas de um a discussão, não raro atribuem isso m enos à certeza de sua verdade sobre os fatos, m as à capacidade de raciocínio na construção de suas frases, à esperteza e à destreza com que se defenderam . Aqui, com o em todos os outros casos, os dons inatos são os m elhores; no entanto, m uito pode ser feito para tornar alguém m estre dessa arte por m eio da prática e da análise das táticas que podem ser usadas para derrotar um oponente, ou para com bater as táticas que ele usa para o m esm o fim . Mesm o quando a lógica não tem nenhum a utilidade real ou prática, a dialética certam ente tem . Parece-m e que Aristóteles elaborou sua própria lógica (analítica) principalm ente com o base e preparação para sua dialética, e ela era a coisa m ais im portante para ele. A lógica se ocupa com a form a das afirm ações, a dialética, de seu significado ou m atéria, do conteúdo: é por isso que se deve contem plar prim eiro a form a de todas as afirm ações antes de analisar seu conteúdo.
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Aristóteles não determ ina o obj etivo da dialética de form a tão exata quanto eu: ele a indica com o finalidade principal da discussão, e ao m esm o tem po tam bém com o a descoberta da verdade (Tópicos, I, 2). Mais tarde, ele diz outra vez que, do ponto de vista filosófico, “Lidam os com as argum entações de acordo com sua verdade; e a dialética parte do ponto de sua credibilidade ou de acordo com a aprovação dos outros (δοξα)” (Tópicos, I, 12). O filósofo tem consciência de que a verdade de um a afirm ação deve ser distinguida e separada da m aneira com o ela é apresentada e da aprovação que recebe; m as ele não faz um a distinção m uito clara entre esses dois aspectos da questão, então reserva a dialética apenas para convencer os ouvintes. Algum as das regras que ele m uitas vezes cria para a dialética na verdade pertencem à lógica; e por isso m e parece que ele não ofereceu um a solução adequada para o problem a.
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Nos Tópicos, Aristóteles abordou a elaboração da dialética de m aneira m uito m etódica e sistem ática com sua m ente extrem am ente científica, e isso m erece adm iração. Mas com o acredito que o obj etivo devesse se pautar de m odo m ais prático, isto não foi am plam ente alcançado. Depois de analisar conceitos, ideias e conclusões segundo a form a pura em Analíticos, ele parte para o conteúdo, do qual ele só lida com os conceitos: pois é nele que está o conteúdo. Argum entos e conclusões são apenas sim ples form as: os conceitos são seu conteúdo. Seu cam inho é o seguinte: toda discussão parte de um a tese ou problem a (eles se diferenciam apenas na form a) e então argum entações, que devem servir para resolvê-la. Isso sem pre tem a ver com a relação entre os conceitos. Essas relações são quatro. Procura-se em um conceito por: 1. sua definição; 2. seu gênero; 3. sua particularidade, característica considerável, proprium, idion; ou 4. seu accidens, isto é, um a qualidade, tanto faz se particular e exclusiva ou não, em resum o, um predicado. O problem a de cada discussão está sem pre relacionado à um a dessas quatro relações. Essa é a base de toda a dialética. Nos oito livros, ele apresenta todas as relações que os conceitos podem ter com aquelas quatro considerações e apresenta as regras para cada relação possível; com o um conceito deve se relacionar com o outro para ser seu proprium, accidens, genus, definitum ou definição; quais erros se tornarão m ais com uns de ocorrer, e tudo o que se deve observar quando se estabelece, quando se conecta, um a dessas quatro relações (κατασκεναζειν), e o que se deve fazer para desestabilizá-la se é o oponente quem a expõe (ανασκευαζειν). Ao estabelecim ento de cada um a dessas regras e da relação entre classes de conceitos ele dá o nom e de topos (locus) e oferece 382 topos — em sua obra Tópicos. Entre eles ainda estão algum as regras gerais, principalm ente da discussão, que apesar de longas não são exaustivas.
O topos, portanto, não é com pletam ente m aterial, não cobre um obj eto determ inado, ou conceito: pelo contrário, ele sem pre tem a ver com um a relação com toda a classe de conceitos, que podem ser incontáveis se exam inados em relação às quatro considerações m encionadas acim a, que se verificam em toda discussão. E essas considerações apresentam as classes secundárias. A análise ainda é aqui sem pre form al, por assim dizer, m esm o que não de todo form al quanto na lógica, que se ocupa com pletam ente com o conteúdo do conceito, m as de m aneira form al. Ela cita com o o conteúdo do conceito A deve se relacionar com o do conceito B, para que esse estabelecim ento sej a reconhecido com o seu genus ou seu proprium (m arco) ou seu accidens ou sua definição, ou segundo as rubricas secundárias de oposição αντικειμεον, causa e efeito, ter e faltar e assim por diante — toda disputa deve girar em torno de tal relação. As regras que ele cita apenas com o topos são em sua m aioria aquelas que estão na natureza da relação dos conceitos, da qual todos são conscientes, e a qual ele insiste que o oponente acate, assim com o ocorre na lógica, sendo m ais fácil observar essas regras ou perceber seu uso negligente em casos especiais do que se lem brar do topos relacionado. Assim , a utilidade prática dessa dialética não é grande. Ele diz coisas m uito sim ples, que podem ser com preendidas apenas pela observação da pessoa com senso com um saudável. Exem plos: “Quando o genus de um a coisa é destacado, tam bém se deve encontrar algum a species para esse genus; se isso não acontecer, então a afirm ação é errada. Por exem plo, caso se afirm e que a alm a tem m ovim ento, então tam bém deve se determ inar que tipo de m ovim ento é esse: voo, cam inhada, crescim ento, dim inuição, etc. Sem isso, então ela não tem nenhum m ovim ento. Assim , quando nenhum a species pode ser atribuída, então tam bém não há genus; este é o topos”. Esse topos serve para construir ou desconstruir um a argum entação. É o nono topos. E, ao contrário, quando o genus não existe, tam bém não existe species: por exem plo, se diz que alguém falou m al de outra pessoa. E com provam os que ela não havia falado nada, então ela não pode ter falado m al. Onde não há genus, não pode haver species.
Sob a rubrica da particularidade, proprium, o locus 215 afirm a o seguinte: “Em prim eiro lugar, para refutar: quando o oponente cita algo com o particularidade com provável só pelos sentidos, então a citação foi m alfeita: tudo o que for sensorial será considerado incerto por pertencer unicam ente ao âm bito dos sentidos. Quando se dizia, por exem plo, com o particularidade do Sol o fato de ele ser a estrela m ais brilhante que ilum ina a Terra, isso está incorreto. Com o por do Sol, não sabíam os se ainda era quem m ais ilum inava a Terra, pois ele estava fora do alcance dos sentidos. Em segundo lugar, para construir a assertiva: a particularidade é citada corretam ente quando se trata de algo que não pode ser percebido pelos sentidos, ou quando puder ser reconhecido pelos sentidos e aplica-se a assertiva por necessidade. Por exem plo, é citada com o particularidade de um a superfície o fato de ela ter sido prim eiro pintada. Isso é um a característica sensorial, m as de um tipo perceptível o tem po todo, e portanto correta”. Com isso quis lhes dar um a ideia do que é a dialética de Aristóteles. Ela não m e parece ter atingido seu obj etivo: então experim entei outra coisa. Os Tópicos de Cícero são um a im itação aristotélica feita de cabeça: m uito superficial e pobre. Cícero não tem nenhum conceito claro do que é um topos e qual seu obj etivo, portanto diz todo tipo de besteira ex ingenio [por conclusão própria] e equipa isso com m uitos exem plos j urídicos. O que a transform a num a de suas piores obras.
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Para definir bem a dialética, deve-se, independentem ente da verdade obj etiva (que é coisa da lógica), observá-la sim plesm ente com o a arte de ter razão, o que é o propósito, e será tão m ais facilm ente alcançado quando realm ente se está com a razão. Mas a dialética com o tal deve ser aprendida, para que possam os nos defender de ataques de todo tipo, especialm ente contra os desonestos, e m esm o porque, com o se pode atacar o que o outro afirm a sem se contradizer e principalm ente sem ser refutado? Deve-se separar com pletam ente a descoberta da verdade obj etiva da arte de tornar suas afirm ações verdadeiras. Cada um a dessas coisas é tarefa de um a πραγματεια [atividade] com pletam ente diferente, é o trabalho das faculdades do j ulgam ento, do pensam ento, da experiência, e para isso não há um a arte específica; m as a segunda é obj etivo da dialética, a arte de tornar suas afirm ações verdadeiras. Definiu-se dialética com o a lógica da aparência. Errado: assim ela seria útil só para defender afirm ações falsas; m as quando se tem razão, tam bém é preciso a dialética para vencer, e é preciso conhecer truques desonestos para conseguir isso, dos quais um é m uito utilizado: atacar o oponente com as m esm as arm as. Por isso, na dialética, a verdade obj etiva precisa ser deixada de lado ou vista com o acidental; deve-se focar em defender suas afirm ações e em com o destruir as do oponente. Segundo as regras, a verdade obj etiva não deve ser levada em consideração, porque na m aioria dos casos não se sabe onde ela está. Muitas vezes a própria pessoa tam bém não sabe se tem razão ou não, ela acredita nisso e se engana, e não raro os dois lados acreditam nisso; pois veritas est in puteo [A verdade está nas profundezas] (εν βυθῳ ἡ αληθεια, Dem ócrito). Em geral, quando surge um a discussão, todos acreditam ter a verdade a seu lado; a seguir, os dois ficam em dúvida; no final, a verdade deve ser definida e confirm ada. A dialética não deve participar deste debate: assim com o o m estre de esgrim a não deve levar em consideração quem tem realm ente razão na disputa que causou o duelo — acertar e recuar, é isso que interessa, até m esm o na dialética: ela é um a esgrim a intelectual, que só quando com pletam ente com preendida pode ser apresentada com o disciplina individual, pois se determ inam os com o m eta a verdade verdadeiram ente obj etiva, então voltam os à lógica sim ples. Se, pelo contrário, nos im pom os a m eta de utilizar afirm ações falsas, então tem os a sofística. E nos dois casos, parte-se do pressuposto que j á sabem os o que é obj etivam ente certo e errado — m as é raro sabê-lo com antecedência. O verdadeiro conceito da dialética é o seguinte: um a esgrim a m ental para vencer um a disputa, apesar do nom e erística ser m ais apropriado. O m ais certo seria dialética erística, dialectica erística. E ela é m uito útil, e hoj e em dia é negligenciada de m aneira inj usta.
Nesse sentido, a dialética deve ser apenas resum ida a um sistem a de regras e à representação de cada um a das naturezas inspiradas pela natureza. A m aioria das pessoas se serve da dialética quando percebe que em um a briga a verdade nem sem pre fica do seu lado, e ainda assim tenta ficar com a razão. Por isso tam bém seria m uito inapropriado, caso se quisesse levar em consideração na dialética científica a verdade obj etiva e sua proposta de esclarecê-la sim plesm ente, o que não acontece na dialética original e natural ao hom em , cuj o obj etivo sim plesm ente é ter razão. A dialética científica em nosso sentido tem com o tarefa principal, por consequência, levantar e analisar estratégias desonestas na disputa: com isso pode-se, por m eio do debate verdadeiro, tanto reconhecê-las com o negá-las. Com isso ela deve ter com o obj etivo final e confesso apenas ter razão e não ter a verdade obj etiva.
Segundo todas as m inhas pesquisas, nada foi alcançado dessa m aneira. Este é, portanto, um cam po ainda virgem . Para chegar a esse obj etivo, seria preciso aproveitar a experiência para observar com o se deve, nos debates casuais frequentes, aplicar este ou aquele conceito de um a ou outra parte. Ao encontrar os elem entos com uns nas estratégias recorrentes, seria possível apresentar certas estratégias gerais que podem ser úteis para uso próprio ou para se prevenir quando outros os utilizarem .
O que vem a seguir deve ser visto com o um a prim eira tentativa.