38 Estratégias para Vencer Qualquer Debate: A Arte de Ter Razão

38 - Como último recurso, parta para o ataque pessoal.

38 ÚLTIMA ESTRATÉG IA

Como último recurso, parta para o ataque pessoal.

 

Q UANDO SE PERCEBE que o oponente é superior e que vam os nos dar m al, então devem os partir para o lado pessoal, ser ofensivos e rudes. Isso significa sair do assunto da discussão (porque ali o j ogo está perdido) e atacar de algum a m aneira aquele com o qual se disputa é a últim a esperança. Isso pode ser cham ado de argumentum ad personam em oposição ao argumentum ad hominem, que se afasta do assunto com pletam ente obj etivo para se ater ao que o oponente tenha dito ou adm itido em relação ao assunto. Mas ao ir para o lado pessoal, abandona-se o assunto com pletam ente e os ataques são direcionados à pessoa do oponente: a pessoa então será suj eita a hum ilhações, m aldades, afrontas e grosseiras. É um apelo da força da m ente sobre as virtudes do corpo, ou sobre a anim alidade. Esse truque é m uito apreciado, pois pode e costum a ser usado por qualquer um . Agora a questão é: quais os truques disponíveis para o oponente? Se ele usar os m esm os, isso se tornará um a luta, um duelo ou processo de inj úria. Estaríam os m uito enganados em achar suficiente sim plesm ente não ir para o lado pessoal. Pois ao m ostrar a alguém que ele está errado e, portanto, j ulga e pensa de m aneira errada, o que é o caso em qualquer disputa dialética, você o enerva m ais do que se usar algum a expressão rude ou um insulto. Por quê? Pois com o diz Hobbes no capítulo 1 de Do Cidadão: Omnis animi voluptas, omnisque alacritas in eo sita est, quod quis habeat, quibuscum conferens se, possit magnifice sentire de seipso [Todo o prazer intelectual e toda a felicidade se baseiam no fato de ter um a pessoa com quem se com parar e em relação a quem se sentir superior.] Nada supera a satisfação da própria vaidade e nenhum m achucado dói m ais do que o ataque a ela. (Daí surgem ditados com o “a honra vale m ais do que a vida” e assim por diante.) Essa satisfação da vaidade consiste principalm ente na com paração de si com o outro, em relação a qualquer coisa, m as principalm ente em relação às forças intelectuais. Isso acontece de m aneira efetiva e m uito intensa nas disputas. Daí a exasperação do derrotado, sem que lhe inflij am inj ustiças, e por isso ele se apega aos últim os m eios, a esta últim a estratégia, do qual não se pode escapar por m eio da sim ples gentileza da nossa parte. Ter m uito sangue frio pode aj udar a qualquer um . Neste caso, assim que o oponente for para o lado pessoal, responda com tranquilidade “isso não tem a ver com o assunto”, e im ediatam ente colocar a conversa nos trilhos novam ente, e continuar para provar que ele está errado, sem dar atenção aos seus insultos — assim com o Tem ístocles diz para Euribíades: παταξον μεν, ακουσον δε [bata em m im , m as m e ouça]. Não é todo m undo que consegue fazer isso.

Por isso, a única regra contrária segura é aquela que Aristóteles j á deu no últim o capítulo dos Tópicos: não discuta com o prim eiro que aparecer, m as só com os conhecidos que sabem os que têm conhecim ento suficiente para não dizer coisas absurdas que os envergonhariam ; disputar com argum entos e não com afirm ações de força e, finalm ente, valorizar a verdade, ouvir bons argum entos com prazer, m esm o os saídos da boca do oponente, e ter integridade suficiente para poder suportar não estar com a razão quando a verdade estiver do outro lado. Por isso, dentre centenas de pessoas raram ente existe m ais que um a com quem valha a pena discutir. Deixe o restante falar o que quiser, pois desipere est juris gentium [a ignorância é um direito do ser hum ano]; e pensem os no que disse Voltaire: La paix vaut encore mieux que la vérité [A paz ainda é m elhor do que a verdade]; e um ditado árabe: “Na árvore do silêncio crescem os frutos da paz”.

No entanto, a discussão com o atrito entre m entes m uitas vezes é necessária para os dois lados, para a correção dos próprios pensam entos e para a produção de novos pontos de vista. Mas as duas partes devem ter form ação e inteligência bastante equivalentes. Se um não tiver o prim eiro, ele não entende nada, não está no m esm o nível. Se lhe faltar o segundo, a exacerbação resultante o levará à desonestidade e à astúcia, ou à grosseria.

(1830)