38 Estratégias para Vencer Qualquer Debate: A Arte de Ter Razão

30 - Aposte em credenciais e acue a todos

ESTRATÉG IA 30

Aposte em credenciais e acue a todos

 

O ARGUMENTUM ad verecundiam [sobre o respeito ao argum ento utilizado]. Em vez de m otivos, utiliza-se a autoridade, conform e o grau de conhecim ento do oponente. Unusquisque mavultcredere quam judicare [todos irão preferir acreditar do que j ulgar], diz Sêneca [De vita beata, I, 4]; assim o j ogo é m ais fácil quando se tem um a autoridade que o oponente respeita. Por isso, quanto m ais lim itados forem seus conhecim entos e habilidades, m aior é o núm ero de autoridades que pesam sobre ele. Mas, se seus conhecim entos e habilidades forem m uitos, daí serão poucas; na verdade, quase nenhum a. Ele pode, talvez, adm itir a autoridade de um profissional versado em um a ciência, um a arte ou um ofício sobre o qual ele pouco sabe; m as m esm o assim olhará com suspeitas. Por outro lado, pessoas com uns têm profundo respeito por hom ens de todos os tipos. Eles não sabem que um hom em que faz da coisa que am a sua profissão não a exerce pela coisa em si, m as pelo dinheiro que recebe; ou, na m aioria dos casos, é raro um hom em que ensine um a disciplina a conheça bem , pois se fosse um profundo estudioso não teria tem po para ensinar. Mas existem m uitas autoridades que gozam do respeito da m ultidão, e se você não tiver nenhum a que sej a adequada, pode pegar um a que assim se pareça; ou você pode citar o que alguém disse em outro sentido ou em outras circunstâncias. Os leigos têm um respeito peculiar por um floreio em grego ou em latim . Tam bém é possível, se necessário, não só forçar a im portância dessas autoridades, m as falsificá-las, ou citar algum a coisa com pletam ente inventada: a m aioria das pessoas não está com o livro por perto e tam bém não saberia com o lidar com ele se o tivesse. O m elhor exem plo disso é dado pelo pároco francês que, recusando-se a ser obrigado a pavim entar a rua em frente a sua casa com o os outros m oradores, citou um ditado que disse ser bíblico: paveant illi, ego non pavebo [todos podem trem er, eu não vou trem er]. Isso convenceu os responsáveis pela cidade que confundiu a pronúncia em latim com o seu sentido em francês, paver, de pavim entar. Preconceitos em geral tam bém são utilizados com o autoridade. A m aioria das pessoas pensa com o Aristóteles ἁ̔ μεν πολλοις δοκει ταυτα γε εινειφαμεν [o que parece m uito certo, dizem os que está certo]. Sim , não existe ideia, por m ais absurda que sej a, que as pessoas não tom em com o suas com tanta facilidade e tão logo se convençam de que tal coisa é adotada de m aneira geral. O exem plo lhes influencia o pensam ento e as ações. São ovelhas que seguem o pastor aonde ele for: para elas é m ais fácil m orrer do que pensar. É m uito curioso que a universalidade de um pensam ento tenha tanto peso sobre as pessoas, é com o se sua própria experiência lhes dissesse que sua aceitação é um processo sem questionam ento e por im itação. Mas essa visão crítica não lhes diz nada, pois elas não têm praticam ente nenhum autoconhecim ento. Apenas os m ais sofisticados estão com Platão quando ele diz τοις πολλοις πολλα δοκει [Muitas pessoas têm m uitas ideias], isto é, os leigos têm m uitas besteiras na cabeça, e se quiséssem os dar atenção a elas, teríam os m uito que fazer.

A universalidade de um a ideia, para falar a verdade, não prova nada, nem m esm o é m otivo de probabilidade de sua validade. Aqueles que defendem isso devem assum ir que 1. A distância no tem po priva qualquer universalidade de sua força dem onstrativa; se fosse o contrário, todos os velhos erros que um a vez foram tom ados universalm ente com o verdadeiros seriam lem brados. Por exem plo, o sistem a ptolom aico precisaria ser restabelecido, ou o catolicism o em todos os países protestantes; 2. Que a distância espacial tem o m esm o efeito, senão a universalidade respectiva de um a opinião entre os seguidores do budism o, do cristianism o e do islam ism o os poriam em apuros. (Segundo Bentham , Tactique des assemblées législatives , vol. II, p. 76.)

O que se cham a de pensam ento universal, visto à luz, é o pensam ento de duas ou três pessoas; e seríam os convencidos disso se pudéssem os ver com o realm ente surgem esses pensam entos. Descobriríam os então que existem duas ou três pessoas que a princípio os aceitaram , prom overam ou defenderam ; e que foram tão boas a ponto de se confiar que os testaram m uito bem . Então, convencidas de antem ão de que estas tinham capacidade, algum as outras pessoas tam bém aceitaram a opinião. Estas, por sua vez, receberam a confiança de m uitos outros, cuj a preguiça lhes sugeriu que era m elhor acreditar de um a vez do que ter o trabalho de testar a questão por si m esm as. Assim , dia após dia, cresce o núm ero de tais preguiçosos e seguidores crédulos; então logo a opinião tem um bom núm ero de defensores, e os seguidores atribuem isso ao fato de que tal opinião só poderia ser obtida pela convicção de seus argum entos. Os que ainda tivessem dúvidas eram com pelidos a validar o que era adm itido universalm ente, para não passarem por cabeças-duras que resistem às opiniões validadas pela m aioria, ou por pessoas rudes que querem ser m ais espertas que o resto do m undo. Agora, aderir, torna-se um a obrigação. A partir deste ponto, os poucos que são capazes de j ulgar se calam . E quem se aventura a falar é com pletam ente incapaz de ter ideia ou j ulgam ento próprios, sim plesm ente ecoam a opinião alheia; e m esm o assim a defendem com grande zelo e ignorância. Pois o que elas odeiam nas pessoas que pensam de outra m aneira não são as ideias que elas professam , m as a pressuposição de que querem j ulgar as coisas por si m esm as, o que elas m esm as nunca fazem e disso são conscientes. Em resum o, poucos conseguem pensar, m as todos querem ter opiniões — o que resta a não ser pegá-las prontas dos outros em vez de form ar as suas próprias? Com o é isso o que acontece, qual o valor da voz de centenas de m ilhões de pessoas? Tanto quanto um fato histórico presente em centenas de relatos que com provadam ente plagiaram uns aos outros, a opinião pode ser rastreada até um a única fonte. (Segundo Bay le, Pensées sur les Comètes, v. I, p. 10.)

Dico ego, tu dicis, sed denique dixit et ille

Dictaque post toties, nil nisi dicta vides.

 

[Eu digo isso, você diz isso, e finalm ente todos tam bém dizem isso. Diz-se isso com tanta

frequência que não se vê nada além do que foi dito.]

 

Mesm o assim , pode-se usar a opinião universal com o autoridade na discussão com pessoas com uns. Pois em geral se vai descobrir que quando duas cabeças com uns brigam entre si, na m aioria das vezes am bas escolhem a arm a da autoridade, e com isso atacam -se m utuam ente. Se alguém com cabeça m elhor precisar lidar com eles, então é aconselhável que se esforce para usar essa arm a e escolha as autoridades de acordo com a parte frágil do oponente. Pois, ex hypothesi, ele é insensível a todos os argum entos racionais assim com o um Siegfried com chifres escondidos, m ergulhado na m aré da incapacidade de pensar e de j ulgar.

Diante de um tribunal, só há a disputa entre autoridades e afirm ações de autoridade, quer dizer, exercício do j ulgam ento consiste em descobrir que lei ou autoridade se aplica ao caso em questão. Há, no entanto, espaço suficiente para a dialética; pois se o caso em questão e a lei não com binarem de verdade, podem , se necessário, serem distorcidos até parecerem com binar, ou vice-versa.