A Casa do Saltimbanco
Adalberto scismava se Gella tinha coração.
Adalberto scismava se Gella tinha
coração.
No dia seguinte um ar frio e saudavel dava aos habitantes da Bohemia vigor e animação. Quando Adalberto acordou teve medo; depois, lembrando-se do que se tinha passado, pensou que este tempo de miseria não duraria muito, e que depressa sahiria d'aquella maldita casa.
Não era o que se chama uma criança estragada pelo mimo; tinha sido educado sem pieguice e por isso havia contrahido habitos energicos. Comia de tudo, supportava o frio sem se queixar, sabia resignar-se, esperar, e tinha muita coragem. Quando em Valneige{64} lhe acontecia magoar-se, só chorava por grandes coisas, porque seu pae quando o via chorar por bagatellas, não deixava de lhe dizer:
—Que tens tu, minha pequenina?
Só esta palavra valia um grande discurso, e lembrava-lhe que era um homem, como elle dizia.
O nosso amiguinho, tendo em si a força de caracter e de energia physica que dá uma boa educação, não se deixou vencer pela desanimação, que de nada serve a não ser para tornar os males insupportaveis. De mais, tinha todas as illusões da juventude e parecia-lhe impossivel que fosse infeliz por muito tempo. Sendo elle só um estorvo, como dizia a velha Cigana, deixaram-no socegado; mas tendo acordado cedo, fingiu que estava dormindo e não se mexeu, ganhando assim tempo, e reparando disfarçadamente n'algumas scenas intimas.
A velha Praxedes parecia apenas respirar; mas, as poucas forças que lhe restavam, eram misturadas com uma agitação que a atormentava, e aos outros tambem.
Azedada pela fadiga, pela miseria, e pelos incommodos da idade, era o verdadeiro typo de tyranno da companhia. Praxedes queria mal a todos. Embirrava com seu genro a quem chamava o homem de ferro, e que ella detestava; com Gella, que não lhe tinha respeito algum; com seu neto Karik, que lhe resistia praguejando{65} já como seu pae. Quando todos tinham gritado mais do que ella, e lhe provavam que a consideravam mais como criada do que como mãe, ia embirrar com o cão, o horroroso Wolf.
Wolf costumado ás pancadas e a toda a especie de maus tratos, nunca se deixava intimidar. A cada ameaça da velha, respondia rosnando, e quasi que lhe mordia, quando ella lhe dava um pontapé. Respeitava-o até um certo ponto, porque era obrigada a temel-o. Mas havia n'esta mesquinha habitação dois entes, que ella não temia, porque não tinham defesa, e era sobre elles que recahia ordinariamente o seu mau humor. A pobre Tilly era tão pallida e tão fraca, que não ousavam bater-lhe com medo que ella adoecesse e que fosse preciso tratal-a. Praxedes contentava-se de lhe fallar brutalmente, como se não falla a um animal. Exigia, d'esta criança de oito annos uma attenção constante para obedecer ao menor gesto. Quando a pobre pequena tinha commettido alguma falta de vigilancia ou de promptidão, davam-lhe por castigo menos de comer.
Natchès era uma victima. Esta bonita criança de dez annos, cuja robusta natureza havia triumphado dos maus tratos, tinha uma vida digna de compaixão. Praxedes sobretudo não cessava de lhe fazer sentir, que ella não era mais do que um ganha pão. A sua natural docilidade{66} tornada inercia pela sujeição, não a desarmava e muitas vezes a irritava. Batiam-lhe pelo mais pequeno descuido, batiam-lhe por ter respondido e batiam-lhe por estar callada. Adalberto, da sua cama de trapos, assistiu a uma das injustas provocações, que lhe faziam a proposito de tudo.
Na vespera tinha tido a desgraça de quebrar uma gamella rachada, na qual, havia annos, se dava de comer ao cão. Era mais do que o preciso para que a velha se enfurecesse, porque queria mais á sua loiça do que a tudo. Chamou Natchès com voz áspera e disse-lhe:
—Foste tu que quebraste a gamella?
—Sim, disse-lhe o pequeno, que não tinha mesmo a idéa de mentir; fui eu, mas não o fiz de proposito.
—É o que faltava! exclamou a velha, vermelha de colera; ah! tu vais pagar-m'a, mandrião! deixa estar! Canalha! Vibora!
Dito isto uma chuva de bofetões cahiu sobre o pequeno desgraçado. Praxedes, em vez de forças vitaes, tinha uma força nervosa que o furor redobrava; era incrivel a agilidade d'aquellas malditas mãos. Os movimentos ageis e dextros do rapazinho conseguiam felizmente evitar a maior parte das pancadas; mas, vendo isto, a furia pegou n'uma corda para lhe chegar com mais certeza.
Então a pallida e adoentada Tilly deitou-se{67} sobre a pobre criança a quem chamava irmão, por causa da sua desgraça commum.
—Perdão, perdão! gritou ella, oh! não lhe faça mal.
Mas a velha, como se não ouvisse esta supplica afflictiva, batia á vontade para vingar a sua gamella. E Gella? Gella tratava da casa, tomando conta da panella do almoço, na especie de cosinha microscopica armada fóra n'um cotovello da escada. Como! Pois Gella, uma rapariga, não acudia em soccorro de Natchès? Não; estas horrorosas scenas repetiam-se tantas vezes, que já estava habituada, e só intervinha em casos excepcionaes. O seu coração tinha-se endurecido vivendo com gente má, e, ainda que houvesse n'ella uma bondade natural, como o seu sorriso o provava, raras vezes se commovia.
Quem fallará pois em favor de Natchès? O homem da mão de ferro, fuma em silencio o seu cachimbo; o horrivel Karik faz escarneo. Gella não diz palavra, e a meiga Tilly chora e supplica sem obter nada. Quem defenderá a victima? Ha de ser Adalberto, em quem se acham gravadas em caracteres indeleveis as tradições de familia, a justiça e a piedade. Levantou-se com resolução e cobriu com o seu corpo o pequeno, e recebendo por elle algumas pancadas, gritou com todas as suas forças:
—Você não tem direito de lhe fazer mal, e Deus ha de castigal-a. {68}
Se Adalberto não estivesse no primeiro dia do seu triste desterro, é fóra de duvida que se teria arrependido da sua nobre ousadia; mas, logo no principio, a intervenção audaz do infeliz pequeno encheu de admiração aquelles espiritos grosseiros. O homem de ferro lançou para o ar uma baforada de fumo e com uma tremenda gargalhada, quebrou a furia de sua sogra. Á gargalhada seguiram-se graças de Karik e algumas boas palavras de Gella, que não desgostou de vêr Natchès em liberdade, apesar de não dar grande importancia a tudo aquillo.
Uma palavra dita por Adalberto produziu o effeito mais singular. Tinha dito: «Deus a castigará.»
—Onde está o teu Deus? perguntou o homem do chapeu grande, dirigindo-se pela primeira vez a Adalberto.
—Está em toda a parte, disse orgulhosamente o pequeno de Valneige, excitado pela indignação.
—Sim, senhor, não é mal respondido; querem vêr que tambem está na minha barraca?
—Está, sim, respondeu o pequeno; está e vê tudo.
Envergonhado do seu atrevimento, Adalberto abaixou os olhos, e viu a boa Tilly assentada no chão e olhando compadecida para o pobre Natchès, de quem gostava mais desde que lhe batiam. O mestre voltou-se para o nosso amiguinho e disse-lhe sem colera:{69}
—Ouve, meu rapaz, por uma vez passa, mas não caias n'outra. Quando a mãe dá pancada, é preciso deixal-a, isso é com ella.
Estas palavras fizeram pensar a Adalberto que, nos detalhes da vida ordinaria, aquelle homem era talvez menos mau do que a velha.
O que mais o espantava, era a frieza de Gella, a quem os gritos de dôr não tinham feito chorar. Lembrava-se das lagrimas de sua irmã Camilla, por causa d'um cão que julgaram damnado e que fôra preciso matar. Tinha-se Camilla resignado á ordem do pae, mas n'esse dia, como tinha ouvido os gritos do cão, não poude jantar!
Lembrava-se ainda que sua mãe, vendo um pequeno camponez ferido por uma ferramenta de que imprudentemente se servira, tinha curado a criança como se fosse sua, dizendo, pallida de emoção: «Chego a estar doente!»
Portanto, é natural ter pena de vêr soffrer os outros, quando se tem coração, pensava Adalberto. Porque seria que Gella não soffria quando maltratavam Natchès? Porventura o habito de vêr o mal dá cabo do coração?
Quando lhe passou a furia a avó pensou que era tempo de occupar o recem-chegado, e de lhe dar nome e fato, isto é, uma alcunha e miseraveis farrapos. Era com visivel aborrecimento que cuidava d'elle, não cessando de dizer a seu genro que bem podia tel-o deixado aonde estava, porque lhe parecia que elle não{70} servia para nada. «Quem sabe?» respondia o homem de ferro inclinando a cabeça sobre seus largos hombros. N'aquella posição, que muitas vezes tomava, parecia-se com as estatuas de Hercules descançando dos seus trabalhos. Como elle raras vezes fallava, a sua presença não augmentava as questões; parecia pelo contrario que diante d'elle estavam menos zangados uns com os outros n'aquella maldita barraca.
O caso é que o Hercules era temido por todos, se não era respeitado; chamavam-lhe pae, e muitas vezes mestre; a sua palavra fazia a lei, porque representava uma authoridade absoluta; mas tinha nos detalhes a longanimidade que acompanha muitas vezes a certeza de ser obedecido. Não fallava sem necessidade; comtudo a sua vontade impunha-se, assim como uma barreira; não se podia passar além, nem fazel-a recuar. Sombrio rei d'aquella triste habitação, ordenava só com a sua presença, e é provavel, que se alguma vez tivesse empregado a força, redrobada pela colera, teria esmagado tudo.
Por isso a velha, para não o descontentar, tratou, resmungando como sempre, de dar ao pobre Adalberto o vestuario que d'ali por diante devia ser o seu. Procurou no fato velho de Karik e de Natchès, e achou umas calças muito curtas e um casaco muito comprido, o que para ella era um vestuario completo.{71}
—Vamos lá, gritou ella muito zangada, anda cá maroto. É verdade, é preciso, pôr-lhe um nome; ora, como te chamas tu?
—Hei de chamar-me sempre Adalberto de Valneige, disse o pequeno levantando a cabeça.
—Ta, ta, ta, fazes favor de te calar? Se tornas a repetir esse nome, corto-te em bocados, piso-te n'um gral, e dou-te a comer ao cão!...
Adalberto sentiu talvez menos o horror d'esta ameaça, do que a maldade d'aquelles olhos pequenos e pardos, fitos nos seus com uma expressão, exquisita. Cahiram-lhe os braços, e, em attitude d'uma desanimação absoluta, ouviu a velha gritar-lhe ao ouvido:
—Hasde chamar-te Mustaphá.
—Sim, senhora, respondeu humildemente Adalberto.
—E a mim, hasde chamar-me avó.
Estas palavras fizeram ferver o sangue ao joven Valneige. Tinha conhecido sua avó, a mãe de sua mãe, tão boa, tão respeitavel, que uma tarde tinha adormecido para acordar no Céo, segundo lhe tinham dito, e teria de dar o seu nome a uma creatura infame?
—Não! exclamou elle com horror.
—Que dizes tu?
—Digo que não.
Immediatamente duas grandes bofetadas estalaram sobre a face do prisioneiro, que pela{72} força da pancada, perdeu o equilibrio e foi rolar aos pés de Gella, que lhe disse em voz baixa:
—Aqui nunca se deve dizer que não, meu pequeno.
Quando fallava baixo, a rapariga tinha a voz sympathica. Adalberto sentiu-o, e começou a ter esperança n'ella, sobretudo quando ella, levantando-o e cobrindo-lhe a cabeça com as suas trigueiras e lindas mãos disse sorrindo e graciosa:
—Pois sim, avó, elle não torna mais.
—Melhor para elle, respondeu Praxedes, que começou o horroroso vestuario da criança, tirando-lhe o fato simples, mas fino e limpo, que podia fazer conhecer a sua origem.
O desgraçado pequeno olhava para a sua jaqueta de panno azul escuro, e para as suas calças da mesma côr. Olhava tambem para o collarinho com um borrão de tinta; fôra a brincar com Eugenio, que tinha feito aquella maldade. Viu-se despojado de tudo quanto usava; teve de vestir uma das grossas camizas de Natchès, as feias e curtas calças, e aquelle casaco sujo e ridiculo, que lhe dava o ar d'um velho que não cresceu.
Image pg073
O mestre fez signal para lhe não cortarem os cabellos. (Pag. 72).
Quando acabou este feio vestuario, Praxedes metteu uma grande tesoura no cabello loiro e fino de que a senhora de Valneige tanto gostava. Adalberto estremeceu; mas, por um feliz capricho, o mestre fez signal para lhe não cortarem os cabellos naturalmente annelados{73}
{74}
{75} e que tanto contribuiam para dar á criança uma belleza insinuante. Comtudo, como aquella carinha era muito distincta para o papel que ia representar, pozeram de roda da cabeça d'Adalberto uma feia fita d'ouro avermelhado, e logo perdeu aquella graça natural, que tinha por tanto tempo feito o justo orgulho de sua mãe.
Karik, o filho de Hercules, era mau por instincto e por educação; foi buscar o espelho diante do qual se enfeitava sua irmã mais velha nos dias de representação, quando dançava e seu pae a acompanhava, ao mesmo tempo que Karik batia com força sobre o seu grande tambor e que Natchès agitava as campainhas.
Adalberto, quando viu o espelho, sentiu dolorosamente o procedimento do joven saltimbanco. Vendo quanto o captivo soffria com o seu feio trajo, Karik quizera que elle podesse saborear a humilhação vendo o seu retrato desfigurado.
Tilly sentiu tambem a offensa, apesar da sua infancia. Quando o espelho passou por ella, a boa pequena bafejou-o com o seu halito para o fazer baço, ao menos n'um bocado. Adalberto comprehendeu a bondade d'esta acção, e olhou amigavelmente para Tilly que não ousava dar palavra nem mexer-se. Mas Gella em tres passos chegou-se a seu mau irmão, arrancou-lhe bruscamente das mãos o espelho e foi pôl-o no seu logar.{76}
Adalberto ficou-lhe grato por esta delicadeza, no meio da sua grosseria masculina e popular; voltou-se para ella com um sentimento de esperança, e disse comsigo mais uma vez:
—É ella, sim, ella é que ha de livrar-me!
Uma coisa o affligia; era vêr a velha Praxedes cortar com a grande tesoura a roupa branca e o fato que acabava de lhe tirar.
Era sem duvida para que não ficasse na carruagem um unico objecto que podesse causar suspeitas.
Tinha instinctivamente mettido na algibeira um feio botão cosido pela Rosinha na algibeira das suas calças de panno azul, no momento de deixar Valneige; na sua precipitação, não achando um que dissesse bem, a boa mulher tinha posto aquelle que dizia mal e que, apesar d'isso, tinha ficado, como muitas vezes succede ao que não é senão provisorio. Pelo mesmo instincto de exilado apanhou o pequeno bocado do collarinho em que tinha deitado o borrão brincando com seu irmão. Na sua dôr infantil, eram para elle duas imagens do passado, de que fazia dois thesouros. Ah! como elle apreciava agora todas as felicidades de Valneige: a familia, a casa, um agasalho em tudo, sem fallar da polidez, da boa educação. Aqui, tudo era grosseiro!
Foi um momento bem penoso aquelle em que elle pela primeira vez teve de comer a sopa dos ladrões. O prisioneiro morria de fome; {77} como já disse, não jantára na vespera; o seu estomago soffria, e quando a velha lhe trouxe uma sopa de batatas n'um prato rachado, experimentou ao mesmo tempo um nojo e uma irresistivel necessidade de alimento.
Tomou pois aquella sopa que, na verdade, não era muito má, e que pelo menos devia ser substancial, porque uma colher de ferro mettida n'ella ficava em pé.
Emquanto almoçava, parecia-lhe vêr a casa de jantar do castello; quatro pratos de porcelana muito branca, postos sobre a linda mesa de pau santo, e Rosinha servindo a sopa ás crianças. A querida mãe, passando para ir dar as suas ordens, e vendo a porta entre aberta, dizia jovialmente: «Bom appetite!» e riam; e elle, Adalberto, corria para a abraçar, mas Rosinha conservando o seu espirito de exactidão gritava-lhe:
—Faz favor de ficar aqui, pequeno lambusado; quem é que se levanta da meza antes de acabar? Não são horas de dar abraços, são horas de comer.
Em presença d'este quadro que lhe offerecia a sua imaginação, Adalberto sentia as lagrimas nos olhos, e, comtudo, não queria chorar; mas ser forte, corajoso, e conseguir fugir, era, o seu unico pensamento.
Tilly vendo que a sua tristeza augmentava julgou que elle não tinha comido bastante e{78} apresentou-lhe delicadamente o seu prato, dizendo-lhe familiarmente:
—Se tu quizesses acabar a minha sopa? eu quando não como bastante não me faz mal.
—O que! disse Adalberto com um gesto de reconhecimento, quando se não come bastante soffre-se.
—Oh! eu soffro sempre.
—De que?
—De tudo.
Taes foram as primeiras palavras que estas duas crianças trocaram ás escondidas, e o rapazinho cheio de illusão dizia comsigo:
—Pobre pequena! Que pena não poder eu leval-a commigo quando fugir!
Passada a manhã começava o trabalho. O que era o trabalho na casa do saltimbanco? O trabalho era todo o exercicio que póde tornar o corpo flexivel. O mestre collocava em linha Karik, Natchès e Tilly; faziam passos de dança, davam pulos e cambalhotas. O Hercules punha sobre os seus robustos hombros os bonitos pésinhos de Tilly e andava, levando-a como em triumpho. Era preciso que ella estivesse direita, que a cintura se conservasse flexivel, e que se ensaiasse a sorrir e a atirar beijos. Desde muito tempo Tilly não tinha medo, tão forte e dextro era o mestre; o que lhe parecia difficil n'este exercicio era unicamente sorrir e mostrar-se feliz.
O bom Natchès tinha chegado ao ideal da{79} flexibilidade e da graça. Tinham-lhe batido tanto desde a sua infancia que previa as ordens do mestre, applicando-se de todo o coração e fazendo maravilhas.
Era uma bella criança cheia de saude, mas o moral tinha fraquejado; o seu olhar tinha um tanto de servil; e quando obedecia ao menor signal, parecia-se com o cão de caça que se chega arrastando-se muito humilde, e felicissimo por lhe não baterem. Adalberto lamentava-o, não tanto pela sua desgraça como por não sentir a miseria da sua sorte. A natureza energica do pequeno de Valneige não comprehendia esta natureza fraca e completamente domada.
Quanto ao feio e mau Karik, exercia o seu rude officio imitando seu pae nas posições herculeas, nos seus olhares sombrios e nas suas terriveis juras. Era d'um caracter ligeiro, e juntava a isto chalaças triviaes que repetia a si mesmo, estudando debalde tornal-as finas.
Asseguravam que tinha um futuro, que se faria d'elle alguma coisa! Não se prestando o seu exterior aos papeis graciosos, dedicava-se ás forças. Esperavam vel-o como seu pae, andar de roda de uma praça publica, sustentando entre os dentes uma grande pedra presa a uma corda; o pescoço inchado, as veias quasi a arrebentarem, a cara a escorrer; era a este genero de proezas, que se destinava aquelle rapaz.
Para descançar, torcia os membros da maneira{80} mais grotesca, deitando-se para traz e levantando uma cadeira com destreza, engulindo pedras, comendo fogo... que sei eu? Adalberto estava espantado!