A Casa do Saltimbanco

Mme. de Stolz · Capítulo 21 de 30

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A Casa do Saltimbanco

Adalberto tinha já passado dezoito mezes na casa do saltimbanco.

Adalberto tinha já passado dezoito

mezes na casa do saltimbanco.

 

Longe do lar paterno crescia o querido exilado de Valneige. O habito, suavisando a aspereza da sua nova existencia, dava-lhe uma especie de consolação physica, mas o seu espirito e o seu coração revoltavam-se.

Não perdia, comtudo, nem a esperança nem a coragem, e não esquecia que muitas vezes seu pae tinha repetido diante d'elle, que a unica coisa que torna um homem menos forte do que a desgraça é a falta de animo.

—Eu, pensava elle, sou um homem como o papá, excepto a idade e a altura; é preciso ter coragem.{171}

O querido pequeno, no meio de estranhos, vivia das suas recordações de familia, e o seu juizo, amadurecido pelo infortunio, fazia-lhe comprehender tudo quanto havia bom e excellente em casa de seu pae. Não achava prazer algum na companhia do bom Natchès, que só tinha a intelligencia necessaria para obedecer, e que, por este facto, era menos desgraçado do que parecia, porque não sentia o horror da sua situação.

Experimentava Adalberto um grande interesse pela pequena Tilly, tão fraca e doente. Tossindo quasi sempre, a delicadeza do seu peito teria despertado a sollicitude d'uma mãe; mas Tilly não chegava a saber o que era uma mãe. Como era bonita, geitosa e meiga quasi nunca tinham que a reprehender; comtudo a velha furia, que governava a casa, achava ainda pretextos para ralhos.

Se se preparava um espectaculo e a pobre criança estava com mau parecer ralhavam-lhe. Por isso tinha ella todo o cuidado em esconder os progressos do que ella chamava o seu defluxo. Esse defluxo era uma indisposição geral, acompanhado muitas vezes d'alguma febre, e muitas vezes de vontade de chorar sem saber bem porque. Era então que dizia com tristeza a Adalberto, sempre tão compadecido d'ella:

—Tudo me dóe, mas, em mim, não importa.

As duas crianças raras vezes conversavam.{172} Desde a sua fuga, Adalberto era vigiado de perto, não só para evitar uma segunda tentativa, mas pelo receio que o seu fallar ousado trahisse a irritação que a sua indignação lhe causava. Comtudo soube que aquella interessante doente não tinha lembrança alguma da sua primeira infancia, e que a casa do saltimbanco era a unica habitação que conhecia. Ainda que nunca tivesse visto outra casa repugnava-lhe por instincto tudo quanto ali se dizia e fazia. O seu aspecto era d'uma outra origem, e ella propria o sentia tão bem que evitava quanto possivel de pedir qualquer coisa á velha Praxedes, tanto lhe custava chamar-lhe avósinha. Esta querida criança ficou espantada, quando viu no joven Valneige um coração doce mas energico, um espirito que sabia dobrar-se sem servilismo. Nas suas raras conversas ensinou-lhe Adalberto que ella tinha alma e que ha um Céo.

—Acreditas que eu vou para o Céo, perguntava ella ingenuamente?

—Sim, has de ir, porque a mamã diz que se vai para lá com certeza, quando a vontade é boa, quando se não faz mal de proposito, e quando se ama a Deus de todo o coração.

—Se eu o não amava, vês tu, é porque o não conhecia; mas, dize-me, acreditas que é d'aqui a muito tempo, muito tempo, que eu hei de ir para o Céo?

—Essas coisas não se sabem.{173}

—Pois eu penso que será brevemente, por causa de meu defluxo. Quando tusso doem-me as costas; é talvez a morte que chega, e depois o Céo.

—Pode ser, não entendo d'isso.

D'este modo o pobre preso dava á doentinha as luzes que tinha recebido de seus paes, e, quando ella queria testemunhar-lhe o seu affectuoso reconhecimento, procurava um instante em que os outros estavam ausentes, e repetia baixinho, muito baixinho ao seu amiguinho o seu verdadeiro nome:

—Adalberto! Adalberto!

Para o exilado era uma grande felicidade. Quanto á brusca filha do Hercules cada dia que passava, mais ella se prendia ao seu protegido; e apezar de lhe fallar sempre em tom rude e breve, elle não podia duvidar da sua bondade, e esforçava-se por lhe testemunhar a sua gratidão, fazendo-lhe mil pequenos serviços.

Quando, de longe em longe, os trabalhos da casa do saltimbanco, ou as compras, isolavam um momento estes dois membros da companhia, Gella cessava de ser rude, e tornava-se boa. Sentia que no seu coração desabrochavam pensamentos delicados e uma sollicitude que tinha alguma coisa do amor maternal. Em troca recebia mais do que dava; crescia moralmente, e aprendia como Tilly que tinha alma e que ha um Céo.

Na ingenua criança, não havia difficuldade{174} em aprender; mas na morena filha dos Ciganos, havia combate, e muitas vezes dizia:

—Olha, pequeno, não entendo muito de todas essas coisas; aprendi só a trabalhar para comer e beber; tenho uma cabeça rude. E, de mais, o que sou eu? nada; vivo sem saber porque nem para que. Ora! elle não gosta de mim, o teu Deus!

Adalberto respondia:

—A mamã dizia que elle ama a toda a gente. Não fazes tu parte d'essa mesma gente? Oh! Querida Gella, elle conhece-te; sabe todos os nomes e vê todas as caras.

O bom rapazinho tinha tanta sinceridade d'alma, e na voz tanta meiguice, que a pobre rapariga ficava ás vezes meia convencida, e a sua miseria moral humilhava-a diante do prisioneiro.

Havia algum tempo que Adalberto se admirava muito d'uma coisa, era do desejo que Gella mostrava de aprender a escrever certas palavras, sempre as mesmas. Estas palavras pareciam não ter entre si ligação alguma, e, comtudo, Gella prestava-lhes uma idéa seria, que tinha o cuidado de esconder.

Muitas vezes, quando se achava só com o captivo, pegava n'um pau e traçava grosseiramente no chão as letras, cujo modelo elle lhe fazia.

—Mas para que são sempre as mesmas palavras? perguntava o pequeno professor.{175}

—Cala-te, meu mestre, respondia Gella rindo. Vejamos, faze-me escrever o oe, a a, o que é preciso para escrever pae... vós... eu... etc. etc., cá tenho as minhas razões.

O pequeno, sem perceber nada, traçava com um paosinho estas palavras no chão; depois a discipula experimentava copiar; o mestre dizia que estava muito mal feito e apagava tudo com os pés. Estas lições mysteriosas eram quasi sempre um divertimento para o pobre pequeno Valneige.

Em troca, Adalberto aprendia com Gella muitas coisas; era ella quem todos os dias lhe fazia estudar o que chamava os seus exercicios, quer dizer movimentos a compasso, saltos, curvas, passos de dança, tudo quanto póde tornar o corpo flexivel. A criança tinha uma grande facilidade em comprehender e executar; era um rapaz que dava esperanças, dizia o mestre, deitando bem alto o fumo do seu grande cachimbo, o que n'elle era indicio de um contentamento perfeito. Estas disposições naturaes, juntas ao cuidado que elle tinha em satisfazer Gella, fizeram-no adiantar depressa no unico estudo que exigiam d'elle, e em pouco tempo poude figurar com vantagem nas representações, nas grandes feiras e nos espectaculos das cidades. Era um triste officio! Estar vestido como um dançarino de corda, dar cambalhotas, dançar a polka, saracotear-se até se estafar; e depois andar a pedir com a bandeja para{176} ganhar alguns vintens. E, comtudo, era o que tinha que fazer o pequeno castellão; mas, quando acabava de figurar, doía-lhe o coração e tinha vontade de chorar. O seu vestuario, ainda que muito gracioso, humilhava-o, e os applausos de toda aquella gente faziam-lhe vergonha.

Tinha sido educado em idéas totalmente differentes; seus paes tinham por principio que uma criança nunca deve occupar os outros com a sua pessoa; que a boa educação consiste em responder quando se é interrogado, sem nunca ser o primeiro a dirigir a palavra; em não fazer notar nem valer as suas pequenas habilidades, senão quando positivamente lh'o authorisem. Eis o systema adoptado em Valneige, e, apezar de Adalberto ser estouvado, estes excellentes principios, tinham impresso traços indeleveis no seu espirito. Por isso lhe era tão penoso subir para o palco diante d'um publico grosseiro, cujo ludibrio elle se tornava.

Natchès, ao contrario, nunca parecia tão contente como nos dias das grandes feiras. Estava á sua vontade vestido de palhaço, e, como se sahia muito bem das suas cambalhotas e caretas, o mestre provava-lhe ordinariamente a sua satisfação por algum presente, como um boneco de bolacha, ou um grande frito de maçã; os dons da sua magnificencia nunca iam mais longe, e Natchès era-lhe muito reconhecido. Não levar pancadas parecia-lhe já uma tão feliz sorte, que o menor presente, junto a este{177} favor, tornava-se inapreciavel. Pobre de espirito, limitado por natureza, acanhado ainda mais pela sujeição, parecia uma machina bastante aperfeiçoada; mas nada revelava n'elle a vida intellectual. A unica coisa que quebrava ás vezes a monotonia da sua escravidão, era da sua parte ataques de teima que espantavam toda a companhia, e que se terminavam, já se sabe, por pancadas. Estes ataques eram uma nova prova da sua fraca intelligencia, porque, é sabido, a teima é o defeito dos burros.

Não se póde imaginar a agitação, a actividade dos saltimbancos nos dias de grande espectaculo. O Hercules despia o velho casacão arruinado, e enfiava uma camisola côr de carne e um vestuario de phantasia, que provavelmente não se parecia nada com o de Hercules. Quando tinha desembaraçado e deitado para traz a espessa cabelleira, e que o fato justo desenhava as formas colossaes do seu corpo, o homem da mão de ferro não deixava de ter uma certa belleza selvagem. Esta belleza, comtudo, não era nada sympathica; era a dos soberbos leões que todos admiram, com a condição de uma grade de ferro os conservar a distancia.

Quanto a Karik, mascarava-se com o fato mais grotesco e não perdia com isso.

O rapazinho, uma vez que começava, obtinha do seu humor trivial uma grande quantidade de graças ordinarias, qual d'ellas mais tola, que mereciam grandes gargalhadas da multidão.{178} O pequeno Valneige acabava ás vezes por tambem rir, não dos ditos de Karik, os quaes a sua innocencia não comprehendia, mas do espectaculo de tantas caras estupidas, que, de bocca aberta, applaudiam as enormes tolices que lhe diziam, e que, ainda em cima, pagavam um vintem.

A pequena Tilly parecia muito bonita quando figurava. A cabeça coroada de rosas, os braços ornados de braceletes, o pescoço rodeado de contas, um corpo decotado, uma saia branca e doirada, muito curta, as meias côr de carne, os sapatinhos azues claros, tal era o seu vestuario. Tinha muita distincção natural, e a delicadeza da sua figura, junta ao encanto do todo, enthusiasmava o mestre quando a via dançar a polka com Adalberto, em quanto que Karik e Natchès tocavam uma musica atroadora, que não era senão grande barulho a compasso.

O final de todas as representações, o mais lindo do programma, era a dança de Gella. Quando ella apparecia com o seu vestuario de velludo preto bordado de prata, que saudava o publico, e que os seus lindos movimentos de braços attrahiam a multidão e a juntavam de roda do theatro, Adalberto não deixava de cahir em um espanto visinho da admiração. Os cabellos pretos de Gella, entremeiados com flores de romeira, cercavam-lhe o rosto moreno e os seus animados olhos lançavam faiscas; havia{179} o quer que fosse de imponente em toda a sua pessoa, e uma grande bondade no seu sorriso. O seu aspecto era o de uma bella hespanhola, e por isso lhe chamavam nos dias das festas populares: Gella, a Andaluza. Tocava muito bem castanholas, e dançava lindamente a cachucha, produzindo grande enthusiasmo nos espectadores, que a applaudiam com a voz e com o gesto, e algumas vezes mesmo lhe deitavam flores. Adalberto contemplava-a com uma affectuosa surpresa, mas um pouco envergonhado. Como lhe queria muito pela bondade que ella lhe dedicava, teria querido vêl-a sempre occupada com trabalhos de costura ou da casa, em vez de servir assim de divertimento ao populacho grosseiro, que não a respeitava.

O pequeno notava e com prazer, que, se acontecia Gella ter tido o que chamavam um triumpho, não parecia mais feliz por isso. Pelo contrario uma immensa fadiga lhe tolhia os membros; tornava-se semsabor, e muitas vezes, depois de tornar a vestir os seus vestidos pobres, dizia a Adalberto:

—Vês tu, meu pequeno, eu canso-me porque é o meu officio; mas se julgas que me divirto enganas-te. Estimaria muito mais ser como tantas outras mulheres, que vivem socegadamente em sua casa, sem andarem sempre d'um lado para o outro para divertir a uma chusma de patetas, mais burros que os proprios burros.

Exprimindo por esta forma nobres pensamentos{180} na sua linguagem trivial, a filha do Hercules suspirava; Adalberto agradecia-lhe esses pensamentos e esse suspiro, e, ao affectuoso reconhecimento, que sentia por ella, juntava uma verdadeira estima. {181}

Image pg181

Dançava lindamente. (Pag. 179).

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