A Casa do Saltimbanco

Mme. de Stolz · Capítulo 12 de 30

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A Casa do Saltimbanco

Capitulo VIII

Adalberto dava que pensar á senhora

Tourtebonne.

 

Ha pessoas que querem sempre saber como acaba o que vêem começar. D'este numero era a honesta vendedeira, que nós ouvimos fazer perguntas a Adalberto. Tinha ficado parada diante do seu carro de mão, seguindo com os olhos, o mais longe possivel, o pequeno que corria.

A tia Tourtebonne, era o seu nome, experimentava uma continua necessidade de expansão; dizia a todos o que pensava, e como a sua unica occupação era andar com o seu carro por todos os bairros, tinha por confidente intimo a cidade inteira. Pouco importava que lhe respondessem{99} ou não; o essencial era communicar os seus pensamentos; por isso acontecia constantemente acabar de contar á mulher do cortador a historia de que a tendeira distrahida tinha ouvido o principio. A querida mulher era conhecida de todos, e estimada porque era obsequiadora, como o são em geral as pessoas que gostam de se metter em tudo. Não temia incommodar-se pelos outros, e, com certeza, se fosse preciso para fazer um serviço fallar tres horas seguidas, teria fallado quatro.

Como já havia quarenta annos que andava pela cidade, sabia de cór as ruas, as casas e os habitantes; era quasi como um diccionario, que basta folhear para se achar a palavra que se procura com as indicações desejadas. A tia Tourtebonne estava tanto em dia com o que se passava, graças ao seu commercio e á sua perspicacia, que tinha sido chamada bastantes vezes como testemunha, perante a justiça. Esses dias tinham sido dias de triumpho para a excellente mulher; a sua memoria era tão fiel, as suas observações tão minuciosas, a sua palavra tão facil, que na verdade tinha dado grandes esclarecimentos sobre os negocios de que se tratava. Tambem, as pessoas que não andavam pelo bom caminho evitavam-na como se fosse lume; escondiam-se d'ella para fazer o mal, como quem se esconde de todo o instrumento de publicidade.

Voltando ao que nos interessa; apenas a tia{100} Tourtebonne perdeu o rasto de Adalberto, voltou-se para o dizer a alguem, e não viu senão o gordo Baptista, personagem pesado, enfadonho e improprio para a conversação. Era o mesmo, não estava ali mais ninguem, e como elle não vendia n'aquelle momento nem harenques nem queijo, duplo perfume commercial de que elle se occupava, podia sem indiscrição fazel-o ouvir de boa ou má vontade o que lhe quizesse contar.

—Então já se viu uma coisa assim? Um homemsinho a quem eu ia ensinar o caminho, e que me escorrega dos dedos?! Que diz a isto senhor Baptista?

O casmurro Baptista, que não dizia nada, porque não se tratava de harenques, nem de queijo, fez hum! com voz forte e rouca. Era uma maneira airosa de se livrar de todos os negocios que não diziam respeito ao seu duplo commercio.

O senhor Baptista não se interessava absolutamente senão pela sua venda e pelo seu cachimbo, que era para elle o symbolo d'uma immortal tranquillidade.

Dar um passo, olhar para o que se passava, procurar tirar consequencias d'um facto, tudo isto lhe parecia um inutil augmento de trabalho; por isso tambem pouca importancia lhe davam na cidade de cinco mil almas que habitava, onde as bisbilhoteiras sobretudo o consideravam como um zero. A tia Tourtebonne era capaz de dar valor a um zero se ella o precedesse,{101} quer dizer se chegasse a adaptal-o a um assumpto escolhido por ella. Este famoso hum que o bom do homem applicava a tudo não a satisfez nada, e replicou vivamente:

—Viu-o, não é assim senhor Baptista, aquelle pequeno basbaque que olhava para a direita e para a esquerda, e a quem eu fallei? viu-o? diga?

Como o hum de Baptista não era um som vão, e que elle não empregasse muito a proposito, foi ainda a sua resposta, mas d'esta vez acompanhada de um signal affirmativo com a cabeça.

O que tudo junto queria dizer sim, tanto quanto era possivel, porque o senhor Baptista nunca dizia positivamente que sim, sendo natural de um cantão da Normandia, onde as tradições se tinham conservado intactas desde o celebre Rollon. Quando se tratava da venda, era preciso dar aos freguezes mais alguma coisa do que huns. Usava então de rodeios engenhosos, de interjeições expressivas, mas nunca chegava o sim compromettedor.

Era inevitavelmente: ora essa!... isso depende!... porque não?... o que pensa?... vamos!...

O FREGUEZ.

Os seus arenques são frescos?

O VENDEDOR.

Ainda o pergunta!{102}

O FREGUEZ.

São os que lhe trouxeram esta manhã?

O VENDEDOR.

Então quaes haviam de ser?

O FREGUEZ.

São os mais frescos que tem? não é assim?

O VENDEDOR.

Julga que eu era capaz de lhe mostrar má fazenda? Diga lá.

O FREGUEZ.

Está bom, dê-me seis.

O VENDEDOR.

Aqui estão e dos bons. Agora ha de querer queijo, não é verdade?

O FREGUEZ.

Não pense n'isso.

O VENDEDOR.

Pois é bom e estomacal. Quem não come queijo sente peso no estomago.

O FREGUEZ.

Parece-lhe?

O VENDEDOR.

A prova é que eu nunca tal sinto, eu que vivo entre queijos desde que me conheço; portanto...

O FREGUEZ.

Pois sim, dê-me um pouco, não muito.

O VENDEDOR.

O que quizer.

O FREGUEZ.

D'esse não; está muito duro, não está?{103}

O VENDEDOR.

Excellente!

O FREGUEZ.

Este deve ser melhor.

O VENDEDOR.

Optimo!

O FREGUEZ.

De qual ha de ser.

O VENDEDOR.

Leve d'ambos.

O FREGUEZ.

Oh! não, basta-me um, e já é de mais.

O VENDEDOR.

Corta-se em dois, o que faz com que só se veja metade.

O FREGUEZ.

Este parece-me menos sêcco.

O VENDEDOR.

Com certeza.

O FREGUEZ.

E o outro?

O VENDEDOR.

O outro tambem.

O FREGUEZ.

Conservar-se-ha?

O VENDEDOR.

Depois me dirá.

O FREGUEZ.

Responde por isso?

O VENDEDOR.

Se o não achar bom torne a trazel-o.{104}

D'este modo o gordo Baptista tinha resposta para tudo, e o freguez, cansando primeiro do que elle, comprava arenques e queijo, que, devemos dizel-o, tinham todas as qualidades requeridas, visto que o que se quer é que cheirem bastante.

Tal era o senhor Baptista, não fallando por sua vontade senão para os seus negocios, e silencioso para tudo mais. D'ahi vinha aquella resposta. Mas, quando a tia Tourtebonne agarrava alguem, não era facil escapar-lhe; por isso continuava com viva emoção e no interesse da moral:

—Pois é verdade, já não ha crianças! quem tal havia de imaginar? Um pequenote que não responde quando a gente lhe quer fazer um serviço? Ah! se o papá tivesse vindo por aqui tinha-lhe feito os meus comprimentos. É preciso ser bem creado e não voltar as costas quando alguem falla.

Estas palavras foram ditas justamente quando o senhor Baptista tinha dado meia volta á direita para entrar na loja; applicou o dito a si, e a polidez franceza, que os Normandos adoptaram como os outros, fêl-o parar, sem querer, no limiar da porta.

—Mas quem havia de imaginar uma coisa assim? um pequeno que não sabe o caminho devia estimar muito que eu deixasse as maçãs para lhe dar attenção. Mas qual! Emquanto se lhe mostrava a rua Verde eil-o que{105} enfia pela rua Azul. Demais, pois que! digamos tudo, ha paes que batem nos filhos como se elles fossem de pedra e isto não os prende em casa. As crianças basta só castigal-as, não se devem espancar. Este pobre pequeno é talvez muito infeliz. Ainda agora estava á porta do carvoeiro com sua irmã mais velha e duas outras crianças, um rapaz e uma pequenita. Viu-os senhor Baptista?

Ainda que a pergunta fosse directa, o vendedor de queijo livrou-se ainda d'ella com o tal hum! que preferia a tudo, e ao mesmo tempo fez tres signaes com a cabeça d'alto a baixo, o que equivalia a sim, sim, sim.

—Ah! vossemecê viu-os? Pois bem! quer que eu lhe diga? não faço grande conceito d'aquella gente. A pequena é uma magrizela, tem cara de fuinha; o rapaz tem umas grandes bochechas, mas parece aparvalhado! é que lhe teem batido de mais. A rapariga maior parece um tambor mór; é bonita, mas faz-me o effeito d'uma dançarina de feira, com a sua saia curta, e cabello mal penteado. Este pobre pequeno, é talvez uma criança furtada? Pois não! tem-se visto. E é bonito apezar do fato ser feio. Ah! se é d'elles, não dá ares da familia. É loiro, delgado, tem uns pulsosinhos de estorninho, a pelle fina e branca, parece uma criança que teve outra criação... Olhe, olhe, senhor Baptista, acolá vae o papá, é preciso chamal-o. {106}

—Eh! ouça cá, ó senhor! por aqui! É o seu pequeno que procura, com uma fita doirada no cabello?

O Hercules a esta voz voltou-se e deu tres passos para a vendedeira, emquanto esta continuava:

—Eu bem vi que elle procurava a sua gente, e quiz fazel-o parar; mas qual historia! é como o cão do João, quanto mais se chama, mais elle corre. Mas é preciso que vossemecê o ache. Escute, se o rapaz quer fazer das suas, vou ensinar-lhe a vossemecê o meio de o apanhar. Conheço este bairro, e os outros; ha, a vinte passos d'aqui, um commissario de policia que tem sempre gente para mandar para a esquerda e para a direita; eu vou conduzil-o lá, vossemecê diz-lhe o seu negocio e elle lhe fará achar o pequeno.

Apenas a boa da mulher tinha acabado esta phrase, que o Hercules, até então impassivel como de costume, abriu uns grandes olhos, e, fingindo affirmar-se bem, como se avistasse o pequeno na direcção da igreja, deitou a correr para aquelle lado e desappareceu.

Não se pode descrever o espanto da tia Tourtebonne; ficou de braços cahidos em frente das suas maçãs reinetas do Canada, seguindo com olhos penetrantes o Hercules, que de certo não procurava coisa alguma, porque ella ao luar não distinguia mais do que tres crianças cujos nomes lhe eram familiares.{107}

Teve a felicidade de achar, em falta de melhor, o senhor Baptista para lhe dizer:

—Então não vê isto? é uma criança roubada. Primeiro, este homem tem do diabo; e depois não reparou nos seus olhos quando lhe fallei no commissario de policia?

—Hum!

—Pobre pequeno! e seria bonito como um amor se estivesse penteado, e vestido como toda a gente; ai! que dó tenho d'elle! pobre cherubim! A prova de que ha alguma coisa n'isto tudo, é que quando eu lhe perguntei o seu nome respondeu-me Adalberto, e depois, depressa como se tivesse medo: Não, não, não! uma criança ordinariamente diz tudo com franqueza, e não esconde o seu nome. Que pensa d'isto, senhor Baptista, vossemecê que teve um filho, o seu pobre Augusto?

Ao nome de Augusto o mercador pareceu sahir do seu lethargo, e respondeu á tia Tourtebonne;

—Penso como vossemecê, que é uma criança roubada.

O senhor Baptista vivia n'uma especie de somnolencia a respeito das coisas d'este mundo, salvo o seu commercio. Havia comtudo um cantinho do seu coração que não dormitava; aquelle onde se conservava, na sua graça infantil, a imagem do seu pequeno Augusto, que elle tinha visto morrer na idade pouco mais ou menos do pequeno de Valneige. Nunca{108} se invocava em vão esta lembrança, e, em memoria de Augusto, o tranquillo Baptista sahia sempre do seu adormecimento.

—Então? vejamos, disse a vendedeira, o que se ha de fazer? Eu, primeiro do que tudo, não posso ficar assim, não dormiria quanto preciso. Pensar que a estas horas, ha uns pobres paes que procuram o seu filhinho, que lhes roubaram, e eu ficar aqui, diante das maçãs, sem dar um passo para que o achem! não, não é possivel. Olhe eu nunca tive filhos, infelizmente para mim; mas gosto das crianças, quero-lhes bem. Ah! se eu os tivesse tido, como tomaria cuidado n'elles! parece-me que os dependuraria todos ao meu pescoço com medo de os perder.

A tia Tourtebonne, dizendo isto e toda inquieta pensando em Adalberto, pôz-se a chorar, como ella fazia de tempos a tempos, pelas crianças que nunca tinha visto.

Depois, tendo tirado da algibeira um grande lenço de quadrados, enxugou os olhos e tornou a sorrir. Tudo era verdade na boa mulher, mas as impressões succediam-se rapidamente.

—Mas é tarde, são horas de nos deitarmos. Se nós fizessemos antes uma declaração ao commissario de policia? Diga, o que acha senhor Baptista? vossemecê que gostava tanto do seu pequeno Augusto? hein! se lh'o tivessem roubado?{109}

—Vamos ao commissario, respondeu o bom do homem, a quem a emoção da vendedeira, junta ás proprias recordações, acordou quasi completamente; deixe-me só fechar os postigos e estou ás suas ordens.

Os postigos fechados, o vendedor metteu por um momento o pequeno carro da tia Tourtebonne no seu pateo, cortejou, pediu desculpa e offereceu cortezmente o braço ao seu mais antigo conhecimento; era assim que lhe chamavam, porque na cidade de G... era ella com effeito o mais antigo conhecimento de quasi todos aquelles que a viam passar havia quarenta annos. O seu coração inflammavel, a vivacidade do seu fallar, as suas maneiras amaveis tinham-lhe conciliado esta especie de affeição que se basêa sobre um fundo de estima, e sobre o aturado costume de sentir alguem andar de roda de si. Quando se vê uma pessoa todos os dias, necessariamente se ha de gostar um pouco d'ella, ou tomar-lhe zanguinha; e ninguem se lembrava de antipathisar com aquella boa cara vermelha, rodeada de uma touca bem branca, e que sorria a toda a cidade como a uma amiga de infancia.

Os pobres, e sobretudo os pequenos mendigos, encontravam-na com grande gosto, porque em lugar de deixar a sua fructa estragar-se, ia dando-a pelo caminho quando não tinha podido vendel-a, e dizia:

—Toma lá, meu pequeno, péga n'esta maçã,{110} está meia podre; se eu fosse rica dava-te das boas, mas tu tiras o mau e o resto ainda presta.

E quando a pobre criança dizia obrigado, respondia:

—Não por isso, meu canito; dá-me gosto vêr-t'a roer.

Chegaram a casa do commissario de policia. A Tourtebonne fallou muito tempo sem dizer grande coisa, e o senhor Baptista disse tres ou quatro palavras e alguns huns!