A Casa do Saltimbanco
Capitulo XVI
Adalberto estava ali.
Que lindo tempo! nem uma nuvem no Céo! um perfeito dia de primavera!
Josephina, bonita alsacianna de treze para quatorze annos, tinha acabado de se enfeitar e de se pentear com muita pommada. Estava contentissima, fazendo tenir na algibeira a sua pequena fortuna de tres tostões, e esperando á porta que os seus amigos passassem e a levassem como se tinha ajustado. Estes amigos eram a tia Tourtebonne e o senhor Baptista; iam á feira de M...
O tempo corria, e a rapariguinha não deixava de estar inquieta, vendo demorar-se um{207} prazer ha tanto tempo esperado. É que a tia Tourtebonne, a quem seus paes a confiavam era a exactidão em pessoa, e, por força, alguma circumstancia independente da sua vontade a demorava. Effectivamente não se enganou; eis o que tinha succedido.
Deve primeiro saber-se, que a feira de M... occupava muito o pensamento da tia Tourtebonne. Havia mais de quarenta annos que se não lembrava de faltar a ella uma só vez. Fazia negocios todo o anno, mas esta feira, que durava tres dias, achava-a invariavelmente em optima disposição de espirito. Fazia tenção de se divertir, e por isso se divertia muito. Era um d'esses genios felizes que qualquer coisa distrahe, que ri porque os outros riem, que está contente porque os outros estão contentes.
Todos os annos combinava com alguns visinhos irem na mesma carruagem, porque o logar da festa ficava distante dez kilometros. Este anno tinha um excellente meio de transporte; a carroça do senhor Baptista. Ia-se bem saccudido, é verdade, e a velha Manon não deixava de tropeçar, mas afinal chegava-se. O bom do homem, que não tinha nada de divertido, ia simplesmente á feira no interesse dos seus queijos e dos seus arenques, esperando encontrar algum rendeiro rico com quem podesse travar relações. Este anno, coitado! ia sobretudo porque havia tres semanas que tinha insupportaveis dôres de dentes, que o não deixavam{208} dormir, e porque lhe asseguravam que um certo dentista, bem conhecido na feira de M..., os arrancava sem dôr. Estas palavras têem um poder magico sobre o espirito dos camponezes; mas o pobre homem, que de certo ainda não tinha adquirido a elegancia das cidades, tinha comtudo perdido um pouco da sua simplicidade nativa no trato dos cidadãos. Por isso não acreditava senão metade no prodigioso talento de que lhe fallavam.
Em consequencia d'esta falta de fé, demorava a partida de minuto para minuto, achando que era sempre cedo para apparelhar, que o seu relogio se adiantava, que era preciso deixar comer a egoa; depois porque ella tinha sede... Ora, o que querem? os outros iam divertir-se, e elle, no fim de contas, ia a casa do dentista, o que todos nós sabemos não ser caso de pressa.
Josephina, depois de duas horas de espera, julgou ouvir o trote desigual da velha Manon. N'um instante abraça a sua mamã e eil-a na carroça.
—Até que afinal partimos! que felicidade! oh! como eu estou contente e como nos vamos divertir!
Josephina no meio d'estas alegres expansões, olhou para a cara do senhor Baptista. Custou-lhe a conter uma gargalhada. Esta dôr de dentes, justamente no momento em que iam dar cabo d'ella, tentava um esforço supremo e ameaçava uma grande inchação. O desgraçado, para{209}
{210}
{211} conjurar tantos males reunidos, tinha applicado sobre a face direita um enorme parche d'algodão em rama, seguro por um lenço azul atado por baixo da barba. Tinha além d'isto amarrado a cabeça com outro lenço vermelho, e por cima um barrete d'algodão branco, sobre o qual se enrolava como um turbante um terceiro e grande lenço de seda côr de vinho; e apezar d'esta armação ter attingido uma altura respeitavel, o honrado Baptista tinha agarrado por costume, no seu forte boné de lontra, e tinha-o pespegado sobre tudo isto! Imagine-se que effeito!
Image pg209
Os arrancava sem dôr. (Pag. 208.)
Josephina estava espantada. Olhava para a sua velha amiga, a tia Tourtebonne, que fazia todas as diligencias para não perder o seu sério, ainda que o seu bom coração se resentisse dos soffrimentos do seu companheiro de jornada. Como as chicotadas inoffensivas que era preciso dar a Manon de dois em dois minutos occasionassem ao paciente pequenas saccudidelas, que lhe augmentavam a dôr, a boa da mulher tomou sob a sua responsabilidade o animal e o seu tropeçar, e, de redeas na mão, começou a governar. «Hi! hi! anda, anda Manon!» Esta maneira de a animar acompanhada do continuo movimento de braço eram necessarias, para que Manon não parasse de todo; era pacifica mais do que tudo, e não gostava de mudar de logar.
Quanto ao seu dono estava absorvido pelas{212} dôres de dentes, o que é facil de perceber, porque não ha nada que absorva tanto.
Houve antigamente philosophos que negaram a dôr. Oh! de certo que não tinham tido dôres de dentes! O Senhor Baptista tinha muito bom senso para se assemelhar a estes senhores, e não seria elle com certeza quem negasse a dôr. Pelo contrario não se passavam cinco minutos sem dizer ih! ou ai! alguma coisa emfim que attestasse a presença do inimigo. Como era naturalmente laconico, não dizia mais; mas a sua cara dizia o resto. Não sahia de todo aquelle preparo de algodão e de lenço e companhia, senão uma bochecha que parecia mais morta que viva, um olho amortecido, um meio nariz sem expressão e um canto da bocca tristemente descahido, signal d'uma grande desconsolação. Nem pensava no feliz cachimbo, que, com o queijo e o seu companheiro o arenque, fazia o encanto d'aquella tranquilla existencia; emfim não achava n'este mundo senão aquelles repellões!.... Pobre homem!
Josephina, apezar da sua vontade de rir, tinha um coraçãosinho bom e lamentava o senhor Baptista. Quanto á sua visinha teria de boa vontade acceitado metade d'aquelle terrivel mal para alliviar o seu companheiro; disse-lh'o nove ou dez vezes; mas, como era uma coisa impossivel, o pobre homem cortejava-a por delicadeza, ficando com todas as suas dôres.{213}
Chegaram ao meio da feira. Josephina abria os olhos tres vezes mais do que costumava.
Passava esta rapariguinha uma grande parte do tempo no meio d'um lindo prado guardando as vaccas de sua mãe; tinha um viver doce mas um pouco monotono. Dava portanto grande apreço aos divertimentos, e a feira estava tão bonita, tão bonita! Fazia-se tanta bulha! A bulha é a base de todas as festas populares, e não faltava n'esta. Os cavallos, os bois, as vaccas, os carneiros, as cabras, os porcos, tudo isto rinchava, mugia, balava e grunhia sem se querer calar.
Os cães ladravam em todos os tons, e os gallos faziam mais bulha do que todos com os seus continuados e magnificos co-co-ro-cós... Dir-se-hia que estes animaes tinham combinado entre si atordoar a multidão, que, para não perder a superioridade, gritava mais do que todos. Oh! como tudo estava bonito e em boa ordem! Aqui um charlatão, chamava toda a gente para a livrar dos callos; ali uma somnambula via melhor do que todos, ao perto, ao longe, como quizessem, sem oculos, e mesmo com os olhos vendados. Á direita os cães sabios faziam exercicio; á esquerda os macacos faziam rir os homens imitando-os o melhor que podiam. A cada passo um botequim ao ar livre, sempre rodeado de amadores; grande tentação para o senhor Baptista em tempos ordinarios: um copo de vinho nunca faz mal; sabia-o elle bem, e{214} por isso bebia um muitas vezes; mas hoje, coitado! apenas tinha tempo para gemer.
Entre todos estes divertimentos, todas estas distracções, acima de todo este trabalho havia uma coisa que occupava constantemente o espirito de Josephina; era a maneira tumultuosa por que os pellotiqueiros annunciavam que se tinham juntado n'esta feira. Este anno eram ainda mais do que o costume, e a bonita rapariguinha ouvia com ingenua alegria os admiraveis e estrondosos bumbuns! mil vezes repetidos pelo grande tambor e que significavam: Venham depressa, porque vamos começar!
Tinham ajustado tomar os logares na primeira fila a fim de vêr, sem perder nada, os jogos, as danças e as cambalhotas. Josephina esperava divertir-se immenso; mas tinha de se ir contentando com o que encontrava, porque o senhor Baptista, no meio das maravilhas d'este dia, só via as suas dôres de dentes, e a todos succederia outro tanto.
A tia Tourtebonne, como boa conselheira dizia:
Meu querido senhor Baptista, se me quizesse acreditar, procurariamos sem demora a carruagem pintada de encarnado, que tem um tambor adiante, uma trombeta atraz e cortinas aos lados. Uma vez a coisa feita não pensaria mais n'isso e teria ainda um bom bocadinho; que diz?
O pobre homem não se atrevia a desapprovar á sua visinha que tinha toda a razão, por{215} isso não respondia senão: hum! n'um certo tom, que equivalia a dizer: amen! Comtudo fazia o que podia para não vêr por em quanto a maldita carruagem pintada de vermelho, que toda a gente, que não tinha dôres de dentes, via muito bem.
Se lhe diziam: «Olhe, ali á tem!» experimentava no mesmo instante um grande prazer em comprar bolos para Josephina, e extasiava-se diante de algum illustre ventriloquo.
Josephina era cruel; sabia que não se estabeleceriam na feira sem fazer a operação; não pensava portanto noutra coisa, e estendia a vista sobre esta multidão, que enchia todo o campo. Quem procura sempre acha; chegou o momento em que era impossivel deixar de ver a vinte passos a carruagem vermelha com o seu circulo de basbaques, a maior parte d'elles com um lenço pela barba e uma cara de palmo e meio, domo se fosse o costume de rigor para ser admittido ás recepções.
A quarta parte de face, que se via na cara do bom do homem, tornou-se livida em vez de pallida.
—Vamos; senhor Baptista, o que tem de ser seja. Porte-se como um homem. De que tem medo? Olhe que não é coisa do outro mundo.
Estas palavras pronunciadas com firmeza pela tia Tourtebonne animaram o paciente, que com a coragem que póde ter um cobarde envergonhado, dirigiu-se para a carruagem e esperou a sua vez. Cessaram immediatamente as dôres{216} de dentes, o que o fez pensar em voltar para traz; mas tinha-se adiantado muito, ficou por honra de firma.
Ainda que o charlatão não cessasse de declarar com emphase que arrancava os dentes sem dôr, não se sahia das suas mãos sem a cara transtornada e as lagrimas nos olhos. Com effeito toda a gente achava que fazia doer, mas o annuncio não mentia, era pois a clientela que se enganava. Um tinha mexido a cabeça, outro o pé; este estava mal disposto, aquelle tinha tido a imprudencia de comer um quarto de hora antes da operação; alguns tinham desde muito as gengivas em mau estado e todos tinham os dentes apertados. Estas justificações, que o ultimo cliente nunca acceitava, deixavam, comtudo, ao que se lhe seguia um resto de esperança.
O senhor Baptista subiu para a carruagem; houve um momento de silencio. O celebre operador, vestido como um principe estrangeiro, de chapeu de plumas e mangas arregaçadas, absteve-se esta vez de palavras ociosas, e, com ar altivo, preparou-se para vencer pela força o que lhe oppozesse resistencia; era o segredo da sua arte. O senhor Baptista fez depressa conhecimento com este genero de talento, e sentiu o que todos sentem n'este caso.
Não se póde dizer uma palavra; o dente arranca-se porque não póde deixar de ser, mas parece que a cabeça vai atraz d'elle.{217}
O tambor e a trombeta uniram-se espontaneamente para annunciar a toda a gente que o senhor Baptista era o mais feliz dos mortaes; e, com effeito, não se tinha ouvido o grito agudo do pobre homem, mas só um rrran! rataplan! pan! pan! depois uma musica alegre, e mais longe um realejo, que tocava desde a aurora o Galope de Gustavo. O senhor Baptista pagou e desceu depressa, depressa; tão azafamado estava o operador.
O dente tinha sido arrancado; n'este ponto estavam de accordo, mas sem dôr é que não. O senhor Baptista, sempre indulgente, pensou que tinha provavelmente mexido sem querer. Não disse palavra, não proferiu uma queixa, mas, com ar commovido, consolou-se d'este desengano cuspindo todo o caminho; não havia outra coisa a fazer.
Afinal a emoção, a sacudidela, e o Galope de Gustavo ainda em cima acabaram por estonteal-o; a senhora Tourtebonne, como prudente que era, fez com que elle se sentasse.
Josephina, graças aos seus quatorze annos, ficou espantada. Julgava que uma vez este negocio terminado o bom do visinho passaria a divertir-se muito, e que todos os abafos seriam desnecessarios. Quanto se enganava! O senhor Baptista juntou aos outros o lenço da algibeira, com que tapou a bocca, e declarou que tinha mais uma dôr de cabeça furiosa.
Que desengano! Josephina assustou-se com{218} a idéa de tornar a subir para a carreta, mas felizmente não foi preciso. O honrado mercador de queijo installou-se n'uma pequena casa de pasto improvisada, estabelecida por tres dias debaixo de uma barraca parda, e em vez de fazer ali algum gasto entregou-se pelo mesmo preço ao aborrecimento resultante do seu incommodo.
Ainda que d'uma apparencia muito feia o bom do homem não era nada egoista; exigiu pois dos seus companheiros de viagem que não fizessem mesmo caso d'elle. Josephina achou esta idéa magnifica; mas a senhora Tourtebonne prometteu vir de vez em quando perguntar como elle estava, e partir no meio do dia se o seu incommodo se tornasse insupportavel.
Josephina resignou-se e andou com a sua digna conductora uns duzentos passos n'uma hora; tantas coisas havia para admirar!
Apezar de se extasiar vendo isto e aquillo, a boa rapariguinha exclamou:
—Oh! o que eu desejo vêr, mais do que tudo, são os saltimbancos.
—E eu tambem, minha pequena.
—Bem sei eu porque. Está pensando no seu rapazinho?
—Justamente. Desde esta manhã que só penso n'elle, e toda a noite sonhei com aquelle desgraçadinho querido filho!
—E acha que poderia reconhecel-o?
—Oh! com certeza se o vir de perto, um loirinho, que tem ar d'um principe, e que se{219} chama Adalberto. Pobre anjo! pensar a gente que elle tem mãe! É horroroso! Se eu tivesse tido filhos e me succedesse tal desgraça endoidecia.
E n'isto, com grande espanto de Josephina, a tia Tourtebonne enterneceu-se, pensando na familiasinha que podia ter e que não tinha.
A conversação sobre Adalberto não podia interromper-se; ambas repetiam:
—Está talvez ali! Quem sabe?
De repente, no meio da multidão avistam os caros amigos Julião e sua mulher, que seus amos tinham mandado á festa, para que se divertissem um bocado.
Este encontro foi theatral; prometteram não se separarem; e o bondoso Baptista, feliz por vêr que as senhoras tinham um cavalheiro, e cansado da barafunda que encantava Josephina, aproveitou a occasião para se retirar. Julião tinha tratado de segurar meio de conducção para a volta; combinaram que partiriam todos quatro juntos, e começaram a gozar tranquillamente em quanto o senhor Baptista se safava com tenções de esquecer n'um bom somno o tal sujeito que fazia tanto mal, arrancando os dentes sem dôr.
Divertiram-se muito, muito. Josephina gastou tres tostões. Comprou bolos que offereceu amavelmente a todos, bebeu duas limonadas, ganhou na loteria, sahindo-lhe a primeira vez um copo para comer ovos cosidos, deu um vintem{220} a um cego, e a boa pequenita, guardou dois vintens para fazer de generosa quando chegasse a hora feliz do espectaculo.
Essa hora chegou. Fartaram-se de habilidades, de dansas, de pantomimas. Josephina pulava de contente, mas atravez da sua alegria jactava-se uma grande preoccupação.
Em cada pequeno pellotiqueiro queria reconhecer Adalberto. A tia Tourtebonne e Sophia não cessavam tambem de pensar no pequeno da adêga, mas a pequena camponeza, com o enthusiasmo da sua idade, não duvidava da sua presença, chegando a parecer-lhe impossivel que elle não estivesse ali. Tinham estas quatro pessoas todas a mesma idéa.
Sophia dava tudo para poder levar á sua ama a criança, cuja sorte ella não cessava de deplorar. A tia Tourtebonne imaginava a alegria que sentiria a pobre mãe do pequeno da adêga, quando lhe levassem o seu querido filhinho; Josephina desejava ardentemente um acontecimento, uma aventura, uma emoção; teria sido uma felicidade para todos e um divertimento para ella; o senhor Julião, amigo zeloso da justiça e pontual antes de tudo, só queria uma coisa—denunciar aos policias a infame companhia e fazel-a prender, afim dos ladrões pagarem na cadeia o crime commettido; era tambem esta a opinião de seu amo.
Movidos por estes diversos sentimentos gastaram horas a passear pela feira; um lindo dia{221} favorecia os passeantes, mas apezar d'isso havia entendedores com idéas negras que repetiam: «Vamos ter agua!» Josephina achava que se não devia dizer uma coisa a que ninguem prestava attenção. Entretanto ia-se acabando o dia e todos pensavam em voltar para suas casas, e, bem contra a vontade de Josephina, foi preciso tomar o caminho que conduzia á carruagem. Umas nuvens negras ameaçavam chuva, havendo já quem sentisse cahir alguns pingos d'agua.
A cincoenta passos da carruagem Julião exclamou:
—Olhem para a Andaluza! vale a pena de se vêr! Dez minutos mais ou dez minutos menos não faz nada ao caso.
Josephina approvou Julião.
—Como ella é bonita! accrescentou o marido de Sophia.
—E como ella dança bem, com as suas flôres de romã na cabeça, respondeu a tia Tourtebonne, que se não fartava de a admirar, dizendo a todo o instante: Oh! se me fizessem mexer assim cahiria por terra, com certeza!
Toda a gente estava espantada; a hespanhola era extraordinaria e todos lhe gritavam: «bis! bis!» A pobre rapariga saudava, dançava e tornava a saudar. No momento em que, estafada, ia para se retirar, uma criança vestida como um dançarino de corda rompeu{222} por entre a turba com uma bandeja na mão; parecia que o signal para partir estava dado, toda aquella gente se affastou. Cada um deu meia volta á direita ou á esquerda, para não despender um vintem e conservar a sua dignidade aos olhos dos outros.
O movimento instantaneo de toda a multidão tinha é verdade differentes causas: a dansa acabára, Gella tinha desapparecido, a noite aproximava-se e uma forte pancada d'agua desconsolava e punha todos em debandada.
Corriam, encontravam-se, empurravam-se; os felizes abriam os guardas chuvas, os outros cobriam a cabeça com o lenço.
Era uma scena de barulho, de confusão, de gritos, de mau humor, de que se não póde fazer idéa.
A encantadora e loira criança continuava o seu peditorio.
Chegou perto de Josephina, que não tirava os olhos d'ella. A pequena alsacianna, levada pela sua idéa, puxou-lhe pelo braço e disse-lhe com um ar absoluto:
—Não é verdade que te roubaram, e que te chamas Adalberto?
O pequeno não pareceu nada admirado, olhou com toda a confiança para Josephina e disse-lhe que sim.
—Conheço-te! conheço-te! exclamou a tia Tourtebonne abrindo-lhe os braços.
O pobre pequeno lançou-se n'elles sem hesitar;{223} parecia adevinhar toda a bondade d'aquelle coração.
Ao mesmo tempo a chuva cahia em torrentes, o tumulto tinha chegado ao seu auge e mal se via na escuridão, que augmentava, um pequeno pellotiqueiro, que tres ou quatro pessoas arrastavam precipitadamente para a estrada.
A criança subia já para a carruagem, quando Julião disse ás mulheres:
—Partam sem mim, quero fallar com os policias, o negocio não ha de ficar assim.
—Deixa os policias e vem comnosco, Julião; uma vez que pilhámos o pequeno é tudo quanto queremos.
—Nada, nada. A cadeia não foi feita para os cães.
Julião desappareceu.
Ao mesmo tempo, uma mulher com vestuario de camponeza, bonita, pallida e tremula precipitou-se para a carruagem gritando com desespero:
—És tu?
Sophia, assustada, cobriu com o seu grande chale a cabeça do pequeno, e a sua companheira disse ao conductor:
—Partamos! partamos!
O cavallo partiu a trote, e a desgraçada mulher, encostando-se a uma arvore, desmaiou e cahiu por terra.{224}