A Casa do Saltimbanco
Capitulo XVII
Adalberto volta para o subterraneo.
Não se póde descrever a alegria da senhora Deschamps quando lhe levaram em triumpho o rapazinho, que logo conheceu a casa branca. Imaginava a boa senhora ter encontrado um dos seus netos, e provava-lhe com os seus carinhos verdadeiramente maternaes um tal affecto, que Adalberto, em pouco tempo, estava perfeitamente á vontade. Desde muito que elle só via miseria de roda de si; póde por isso fazer-se idéa do que sentia percorrendo aquella casa tão aceada, tão bonita e que se não mexia!
Josephina e a sua gorda amiga não o deixaram sem lhe prometter tornar a vêl-o, promessa{225} que elle acceitou de todo o coração, porque sentia por ellas o mais vivo e justo reconhecimento.
O senhor Deschamps, homem positivo, tinha opposto ao primeiro enthusiasmo uma certa incredulidade; mas a duvida não podia resistir diante das respostas do rapazinho ás mais indagadoras perguntas.
Sophia desejára conduzil-o logo ao subterraneo. Seu amo não consentiu sem o ter interrogado. Adalberto fallou do carvão com que tinha escripto o seu nome e todos os nomes da sua familia; da fita doirada que tinha deitado no chão; soube dizer o que havia na adêga; indicou o logar onde estavam as garrafas vazias, o logar do tonel e o das tabuas. Fallou tambem dos bichos pretos e do rato que tinha roido a porta. O que notaram sobretudo foi o sobresalto do pequeno á primeira vez que ouviu dar horas na pendula da sala, cujo som elle reconheceu.
Quando Sophia, acompanhada pelos seus amos, o fez descer á adêga, Adalberto olhou para todos os lados com tristeza e fixou a vista na fresta, o que o fez contar a historia da estrella e tudo quanto podia dizer a respeito de Gella.
Passou-se uma meia hora n'estas primeiras emoções. O senhor Deschamps, que já sabia por Adalberto a residencia de seus paes, dispunha-se a escrever-lhes para que a carta partisse{226} no dia seguinte de manhã, quando sua mulher pensou que o seu protegido devia ter fome.
Por mais que este dissesse que durante o caminho Josephina lhe tinha feito comer bolos, nozes e maçãs, a boa senhora julgava que elle cahia de fraqueza.
Como Julião ainda não tinha voltado das suas buscas e Sophia, ensopada pela chuva, tinha ido mudar de fato, a senhora Deschamps quiz preparar pela sua mão o comer para a criança. Havia na copa carne fria, dôces e fructa; mas, por instincto maternal, imaginou um caldo bem quente e um ovo fresco cosido a que se seguiria uma fatia de carne assada fria e muitas outras coisas boas. Foi para ella uma alegria o ter de aquecer o caldo, e fazer ferver a agua para coser o ovo; sentia-se activa, estava risonha e contente.
Depois de cada volta que tinha de dar como dona de casa entrava na sala um momento, só para dizer pela trigessima vez:
—Oh! meu querido pequeno, como tua mãe Vae ser feliz!
Adalberto acceitou com prazer o caldo e o ovo, mas não poude comer mais nada. O que o encantava sobretudo era o arranjo, o guardanapo branco, a bonita faca, a colher e o garfo de prata.
Depois de viver tanto tempo na miseria tudo para elle era um gozo. Como lhe fizessem{227} novas perguntas, respondia a tudo com volubilidade e narrava com infinito prazer tudo quanto se dizia e fazia em Valneige. Á medida que fallava parecia-lhe que a casa do saltimbanco se affastava, que tinha tido um máu sonho e que conhecia desde muito os donos da casa branca. Comtudo suspirava algumas vezes e exclamou:
—Oh! Gella! minha boa Gella!
—Gostas então deveras d'essa pobre rapariga, perguntou o senhor Deschamps?
—Como não hei de eu gostar d'ella se foi tão boa, tão boa para mim!
Os olhos de Adalberto encheram-se de lagrimas ao pensar em Gella, e começou a lamental-a, como a uma flor deixada entre o matto. Pensava tambem com tristeza na pequena Tilly e mesmo em Natchès, que estava meio estupido, mas tão submisso e inoffensivo.
Por mais confiança que lhe inspirassem os seus hospedeiros o rapazinho não dizia tudo que pensava. Evitava fallar detidamente de Gella, temendo sempre fazer-lhe mal e trahir indirectamente o seu segredo.
Comprehendia que nenhuma das pessoas que o rodeavam conhecia a sua familia, que devia a sua liberdade aos bons corações que a Providencia tinha collocado no seu caminho, e que tudo tinha succedido fóra das provisões de Gella. Esta, ao contrario, não podia duvidar de que a desapparição do pequeno saltimbanco{228} fosse o fructo das suas diligencias; e com effeito assim parecia, mas não era.
A hora adiantava-se, a senhora Deschamps quiz que o seu amiguinho dormisse, e fez-lhe ella propria a cama. Era um grande canapé no seu proprio quarto, e que servia aos seus netinhos, quando vinha um depois do outro alegrar a casa branca.
Antes de se deitar o pequeno de Valneige pediu licença ao senhor Deschamps para escrever umas linhas no fim da carta que iam mandar a seu pae.
—Escreverei ámanhã a valer, mas queria que elle visse mais cedo a minha lettra.
Acharam a idéa delicada, e a criança, que havia dois annos não tinha pegado na penna, rabiscou como poude estas palavras:
«Meus queridos papás.
Sou eu; adoro-os de todo o meu coração.
Seu filho Adalberto.»
Logo depois, subiu para o quarto da senhora Deschamps. Tinha ella de proposito, deitado lá a fita doirada de modo que se visse bem; Adalberto assim que a viu por um sentimento de repugnancia invencivel pegou-lhe bruscamente e deitou-a para o fim do quarto.
A sua affectuosa protectora correu para elle de braços abertos e beijou-o, querendo assim reparar e apagar o que o tinha feito soffrer.
O rapazinho disse a sua oração, que não tinha esquecido, e sentiu-se feliz vendo-se de joelhos{229} defronte d'um Christo de marfim semelhante áquelle que via em Valneige no quarto de sua mamã.
Deitou-se e dormiu, o que parece incrivel, até ás onze horas da manhã! Respeitaram aquelle somno depois de tão vivas emoções. A senhora Deschamps nem quiz que abrissem as taboinhas; sahiu do seu quarto muito devagarinho, e passou para o do marido, onde elle fallava com Julião, que tinha chegado durante a noite.
O barulho das vozes que se cruzavam com vivacidade despertou Adalberto, que teve o pezar de ouvir, sem querer, uma parte da conversação.
Julião com um modo rude e inflexivel, fallava, não sem praguejar um pouco, de policias, de fuga, de buscas; contava a indignação da turba, as maldições de todos contra o chefe da companhia. Emfim, o que Adalberto ficou percebendo era que tinham prendido uma mulher, velha, a andaluza e duas crianças, e que estavam todos quatro na cadêa. Quanto ao chefe tinha fugido assim como seu filho, mas tinham-se expedido ordens e esperavam prendel-os como bandidos mais tarde ou mais cedo.
Adalberto começou a chorar, tanto mais que Julião accrescentava com bastante indifferença, que a Andaluza, para defender seu pae e favorecer a sua fuga tinha cahido de umas taboas mal seguras o que a magoára bastante.{230}
Uma coisa sobretudo entristecia Adalberto. Tinha um coração delicado e leal que lhe dizia: «A pobre Gella teve confiança no papá, que lhe deu a sua palavra de honra. Agora que está presa e que o Hercules é perseguido, vae julgar que a enganámos, que eu sou um ingrato e que o papá não cumpre a sua palavra. Oh! que desgraça, meu Deus, que desgraça!»
A senhora Deschamps não comprehendeu bem o desgosto de Adalberto, mas tentou consolal-o. O senhor Deschamps entreveio e repetiu umas poucas de vezes muito seriamente, que a rapariga estando sob o poder de seu pae e não tendo feito senão suavisar a sorte do prisioneiro, não se lhe faria mal algum, e que lhe dariam com certeza a liberdade logo que o chefe fosse preso e julgado; quanto a esse miseravel, accrescentou o senhor Deschamps, não merece compaixão alguma.
Estas palavras só socegaram em parte a inquietação do pequeno, e nenhuma das pessoas com quem elle estava percebia como e porque elle se interessava tanto pelo Hercules, o homem que o tinha arrancado tão rudemente ao amor da sua familia. Julião pensava e dizia simplesmente, que o pequeno tinha desarranjo de cabeça.
O mais engraçado foi quando a senhora Tourtebonne, empurrando o seu carrinho, veio de tarde saber noticias do pequeno da adêga.{231} Quasi que o não conheceu com o fato com que a senhora Deschamps o tinha vestido. Quando lhe disseram que o seu protegido estava triste, e que soube a causa da tristeza, a boa da mulher exclamou:
—É possivel! pois não gostaria de vêr aquelle maroto condemnado ás galés para o resto dos seus dias?
—Oh! não!
—Desculpe-me dizer-lhe que tem bondade de mais. Da rapariga não digo nada; a velha mesmo, passa; mas o chefe? É um monstro, e se eu fosse governo em vez de ser vendedeira de fruta, havia de fazer cortar a cabeça a todos os que roubam crianças.
Estas palavras fizeram estremecer Adalberto; mas tranquilisou-se, pensando que a boa da mulher era realmente vendedeira de fruta.
Para combater esta tristeza inesperada, a excellente senhora Deschamps levou Adalberto ao jardim. Um olhar que elle deitou para o lago fêl-o presumir que a pesca seria para elle uma distracção. Fallou logo n'isso a seu marido, que organisou a mais bonita pescaria que se póde imaginar. Deu o melhor apparelho ao seu hospede, ensinando-lhe com bondade todas as finuras da arte, e levando-o, por uma felicidade espantosa, a um verdadeiro triumpho. Cada peixe que cahia causava ao pescador um tal prazer, que os pensamentos penosos que o opprimam socegaram visivelmente. Voaram as{232} horas n'este util passatempo, e tendo-lhe passado de todo a dôr de cabeça, de que o pequeno se queixára, pediu papel, penna, tinta e poz-se a escrever:
«Meu querido papá e minha querida mamã.
«Quasi que já não sei escrever, apenas o bastante para lhes dizer que os amo sobre todas as coisas, e que desejo muito vêl-os e abraçal-os, assim como á minha irmã e meus irmãos. Tenho tantas coisas a dizer que não direi nada para não ser muito extenso. Ai! ha quanto tempo os não vejo! Estou em casa de um senhor muito bom e de uma senhora muito boa, no quarto de quem eu fico. Ella deu-me umas calças muito boas e uma jaqueta igual. O seu marido ensinou-me a pescar e apanhei cinco peixes; são para frigir. Oh! que felicidade quando eu abraçar os meus papás! Que desgraça que foi a minha desobediencia! Tudo quanto me tem succedido, foi por minha culpa; merecia ser castigado; mas se soubessem como eu tenho sido infeliz! Gella era muito boa, e eu gosto muito d'ella. Meu querido papá, veja que lhe não façam mal, e que lhe não prendam o pae.
«Ella está ferida n'um pé! Ha aqui pessoas que querem fazer condemnar o pae. Oh! venham depressa, peço-lh'o muito, por causa do que sabem e que se não póde dizer. Não me atrevo a fallar n'isso porque é segredo e receio{233} que se não devam confiar segredos ao correio. Este senhor e esta senhora sabiam que eu tinha cahido na sua adêga ha quasi seis mezes. Hei de contar-lhes tudo, e a minha mamãsinha ha de chorar, com certeza. Ha coisas bem exquisitas: ha pessoas tão bondosas que gostam de mim como se me conhecessem muito. Foi uma rapariguinha que me puxou pelo braço dizendo-me o meu nome, quando eu pedia esmola. Julguei que ella tinha sido mandada pelos meus papás, segui-a immediatamente; chovia, eu estava como atordoado. Empurraram-me, empurraram-me até á carruagem. Uma mulher gritou:
«És tu?»
«Tinha a voz da minha querida mamã, mas era uma camponeza. Emfim, eis-me a salvo e de um modo diverso do que eu esperava. Penso que foi Nosso Senhor que arranjou isto, visto que é elle quem faz tudo. Oh! como eu gosto dos meus papás!
«Adeus, querido papá e querida mamã, eu estou aqui muito bem, mas gostaria muito de voltar para casa. Abraço muito muito Camilla, Eugenio e Frederico. Oh! como nós vamos ser felizes! Abraço tambem Rosinha, de quem nunca me esqueci. Gosto de todos de Valneige, digam-no ao Philippe, ao Gervasio e aos outros.
«Ah! Como eu hei de ficar contente quando os tornar a vêr. Mas façam com que não prendam{234} aquelle horrivel homem, para que Gella não seja desgraçada por minha causa.
«Do seu filhinho
«Adalberto».
O senhor Deschamps lacrou a carta do pequeno diante d'elle sem a ler, depois mandou Julião ao correio.
Atravessando a pequena cidade, este encontrou a tia Tourtebonne, porque ella girava tanto que sempre a encontravam. A boa da mulher não deixou de lhe fallar em Adalberto, e como Julião desejava immenso que a justiça não deixasse de tomar parte n'este negocio, ella concordou com a sua opinião e desejou o momento em que chamada para testemunha, assim como o pesado Baptista, podesse emfim dizer diante dos juizes tudo quanto sabia.
Uma circumstancia se dava que lhe era desagradavel, e vinha a ser a inchação da cara do senhor Baptista, e essa inchação absorvia-o a ponto que apenas lhe restava a força de responder com os seus famosos huns! Só a idéa de figurar n'um processo lhe fazia estender a barba dois dedos, de sorte que a cara tendia outra vez a desapparecer como na vespera. Amigo do socego em todos os tempos, o honrado homem tornava-se fanatico por elle, em presença d'esta incommoda inchação; e quando a sua antiga conhecida o queria fazer ceder, respondia-lhe por um esforço supremo:{235}
—Visto que o pequeno se achou, não é preciso mais nada.
—Não, não, replicava a tia Tourtebonne empurrando o seu carrinho.
Ao mesmo tempo uma outra scena se passava em outro logar. Gella na prisão torcia as mãos de desespero. Ella que só tinha feito bem ao pequeno de Valneige, que tinha favorecido a sua fuga, fiando-se na fé jurada, julgava-se perdida pela criança que tanto amára e na sua afflicção exclamava:
—Que te fiz eu para me enganares assim? Ah! não foi isto o que tu me ensinaste? Dizias-me que o teu Deus ordena que se faça o bem pelo mal, e todos em Valneige me fizeram o mal pelo bem! Teu pae tinha-me escripto dando-me a sua palavra de honra. Devia não ter acreditado n'ella; acreditei porque me disseste que em tua casa nunca se mentia; e tu mentiste e todos me enganaram! Farão condemnar meu pae! Sou eu a causa disso, morrerei de pena, e és tu que me matarás, tu Adalberto!
Assim se lamentava a triste Gella, que, ferida n'um pé, ameaçada de todas as desgraças a um tempo, não duvidava que o pequeno francez não tivesse sido levado pelos seus paes, graças aos esclarecimentos d'ella.
Infelizmente Gella não era a unica a queixar-se. Na vespera á tarde, os camponezes, deixando a festa no meio da confusão causada por uma chuva torrencial, tinham visto ao pé d'uma{236} arvore uma mulher do campo desmaiada. Era alta, pallida, e as suas mãos brancas contrastavam com a simplicidade rustica do seu vestuario. Um homem, que não era certamente seu marido, nem seu irmão, esforçava-se para a fazer voltar a si, não lhe fallava com a sem ceremonia habitual na sua classe, antes parecia experimentar por ella um profundo respeito. Porque? quem era aquella mulher? {237}
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Uma mulher do campo desmaiada. (Pag. 236.)