A Casa do Saltimbanco

Mme. de Stolz · Capítulo 24 de 30

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A Casa do Saltimbanco

Adalberto ficou sabendo porque Gella escrevia na areia.

Adalberto ficou sabendo porque Gella

escrevia na areia.

 

Um dia de manhã tinham mandado Gella fazer compras a Nantua, porque era perto d'esta cidade que estavam então acampados.

O pequeno Mustaphá acompanhava a rapariga para ajudar a trazer as provisões. O unico prazer que tinha na vida era de longe em longe um passeio com Gella. N'esse dia, á volta, e em quanto caminhava junto d'ella, disse-lhe a sua protectora:

—Olha, tomemos este atalho, d'onde se não vê a carruagem, e vamos-nos sentar um instante; tenho uma coisa para te dizer.

—O que é, minha boa Gella?{197}

—Oh! grandes negocios; mas primeiro vais prometter-me não dizer palavra da nossa conversa.

—Ah! Gella, não tenha medo. Para que ha de desconfiar de mim? Posso eu fazer-lhe mal? E não vê que ha seis mezes, que não tento fugir, com medo que seu pae se enfureça comsigo?

—És muito bom rapaz, bem sei. Ouve: tu não podes viver assim, é preciso acabar com isto. Tenho muita pena quando penso que tens papá, mamã, uma casa, e que podias ser feliz.

—Eu tambem tenho pena, mas o que hei de fazer, se gosto da minha Gella? Ir-me-hia embora, acredite, se não fosse o receio de lhe fazer levar pancadas, e sabe Deus o que mais!

—Pois bem, tudo se ha de arranjar; vou dizer-te o meu segredo.

—Um segredo?

—Sim, um grande segredo. Eu escrevi a teu pae.

—A meu pae? para que?

—Para lhe pedir uma coisa. Lembras-te de eu te dizer uma tarde: meu pequeno, sabes tu o que quer dizer palavra de honra?

—Sim, lembro-me. Eu disse que era muito feio dar palavra de honra e faltar; que um dia em Valneige o papá tinha ralhado com Frederico, por me ter dado a sua palavra de honra de que não faria trapaça ao jogo da bola e{198} tel-a feito. O papá zangou-se muito e disse a meu irmão: Bem se vê que não sabes o que é palavra de honra; quando um homem honrado a dá, está compromettido solemnemente. Se quando fores homem, te acontecer faltar á tua palavra, não te chamarei mais meu filho. D'aqui até lá, responde sim ou não, é quanto basta.

—Conheço essa historia, já m'a contaste e disse commigo n'esse dia: Visto que se educam tão bem as crianças em Valneige, é porque é boa gente; quando dizem sim é sim, quando dizem não é não.

—Oh! de certo, lá em casa é assim. Ninguem mente. Mas, diga-me, o que escreveu ao papá?

Gella hesitou um pouco, depois olhou com bondade para a criança e com um tom grave respondeu-lhe:

—Pedi-lhe a sua palavra de honra de que não faria mal a meu pae; elle deu-m'a e então eu n'uma segunda carta, indiquei-lhe as festas a que havemos de ir, afim d'elle te procurar quando andares pedindo.

—Como! fez isso?

—É verdade. Fizeste-me doer o coração com tudo quanto me tens dito de tua mamã, que faz tanto bem, e d'aquella igreja onde tua irmã, toda de branco, fez a sua primeira communhão. Queres saber? ás vezes chorava de noite e dizia commigo: pois tu, desgraçada,{199} vais deixar este innocente n'um sitio onde elle vê só o mal, podendo salval-o com uma palavra?

—Que boa que é, minha querida Gella! tornarei então a vêr meus paes?

—Sim, has de vêl-os, meu pequeno.

—Mas a Gella o que ha de fazer para não a matarem? Dizia...

—Eu não corro risco, do momento em que te levarem, quando me não estiveres confiado, no meio de muita gente, por exemplo n'um dia de representação. Não importa, se fiz o que fiz é porque tenho confiança em ti e na palavra do senhor de Valneige. Bem sabes, um pae sempre é pae. O meu é aspero, é verdade, não me faz feliz; mas apezar disso se gosta d'alguem n'este mundo é de mim.

—Deveras? disse Adalberto espantado, porque não podia comprehender, que aquelle homem amasse alguem.

—Admiras-te? Pois ha quatro annos estive eu doente, bem doente, e elle estava como doido, e um dia, talvez não acredites, sentado ao pé da minha cama, vi-o chorar.

—Está fallando sério?!

—É a pura verdade. Ha muitos homens assim na nossa gente. São máos, têem comtudo um lado bom. Mas, disse eu commigo, se previno aquelle senhor, quando elle encontrar seu filho manda prender meu pae, que será julgado, condemnado, mandal-o-hão para os trabalhos{200} forçados, sósinho, desgraçado, e, se fôr eu a causa, morro de certo! Tem-me dado muitas vezes pancadas, é verdade, mas foi elle quem me deu de comer quando eu era pequena, que me livrou dos máos, e emfim é meu pae! Mas agora, que eu tenho a palavra de honra do senhor de Valneige, não receio nada.

—Oh! não; não receie! Meu pae não a atraiçôa! Oh! como estou contente! Nem sei o que digo, parece que até me falta o ar.

—Pobre pequeno, ainda bem que posso proteger-te! Fizeste-me grandes serviços; sem ti ignorava que houvesse um Céo, nunca m'o tinham dito, e do teu Deus nunca me tinham fallado.

—Agora, que Gella o conhece, póde bem servil-o.

—Como queres tu que eu o sirva aqui? Emfim, é talvez servil-o separar-me de ti para sempre. Se tu me esquecerás quando fores feliz?

—Nunca, disse a criança, olhando para a pobre rapariga. Hei de fallar de Gella á mamã que tambem lhe ha de querer muito.

—Obrigado, meu pequeno, obrigado! ai! quando tu te fôres embora, meu Deus! meu Deus!...

Dizendo isto, Gella olhava para o Céo, como se começasse a comprehender a vontade de Deus, e a criança viu duas grandes lagrimas, que lhe desciam pelas faces. Era a primeira{201} vez que chorava na sua presença. Diante da commoção d'esta natureza tão rude e forte, sentiu-se profundamente enternecido. Ambos estavam sentados sobre a relva no meio de uma grande planicie, onde tudo era socego e silencio. O pequeno pensava no seu papá, na sua mamã, nos seus irmãos e irmãs e tão commovido estava que não podia dizer nada. Ella tambem desejava fallar; mas não sabendo como se havia de exprimir, ousou pela primeira vez pronunciar, diante de Deus e longe dos homens, o nome do prisioneiro e repetiu duas vezes baixinho, como a pequena Tilly: Adalberto! Adalberto!

—Oh! que felicidade! disse o meu nome!

—Querido pequeno, bem cedo será tua mãe quem t'o dirá.

—Bem cedo?

—Espero que sim. Fiz o que pude; agora teus paes que façam o resto. Têem as necessarias indicações para te encontrarem.

—Mas como poude escrever-lhes? Não vejo na carruagem tinta nem penas.

—Ora! é bem facil. Comecei por guardar cuidadosamente um bocado de papel branco, em que um logista tinha embrulhado a fita escarlate para o meu corpete de velludo preto; depois cortei em bico um bocadinho de páu para fazer de penna; mas para ter tinta é que eu não sabia como havia de ser. A tinta faz nodoas, teriam desconfiado d'alguma coisa. Achei{202} que o melhor meio, era fazer um golpesinho no dedo e escrever com o meu sangue.

—Pobre Gella! fez-lhe muito mal?

—Que importa! Escrevi como pude, tudo errado, já se sabe, mas o teu pae poude ler porque me respondeu no dia seguinte.

—Oh! mostre-me a sua carta! só a letra.

—Não percebes que já a queimei?

—Ah! é verdade. Se a achassem, que desgraça! E como era o sobrescripto?

—Isso era a grande difficuldade. Sabia que meu pae ia ás vezes buscar cartas ao correio, e que estas cartas nem sempre tinham o seu nome, mas certos signaes combinados; decidi-me por este meio e consegui. Ah! mas para ir buscar a resposta ao correio de Nantua que trabalho! emfim fez-se.

Agora é esperar.

—Como eu hei de ser obediente quando voltar para Valneige!

—Espero que sim. Teus paes só te davam bons conselhos, é preciso seguil-os. Has de dizer á tua mamã, que sempre te aconselhei bem. Oh! não lhe deixes suppôr que eu sou má rapariga.

—Oh! socegue!

Como o tempo ia passando, Gella poz-se a caminho e apressou o passo. Quando se aproximou, com o seu pequeno companheiro da casa do saltimbanco, ouviu uma grande questão entre o Hercules e o seu filho, que, exagerando{203} {204}

{205} os principios recebidos, se tinha fartado de mentir e de roubar, abrindo furtivamente a gaveta em que seu pae mettia o dinheiro; a disputa era grande; pragas, blasphemias, pancadas, nada faltava.

Image pg203

Era fazer um golpesinho no dedo. (Pag. 202.)

Entrando para a carruagem Adalberto sentiu-se desesperado. A sua sorte pareceu-lhe então mais horrorosa, comparando-a com as dôces imagens que a esperança lhe tinha feito conceber. Com receio de se achar envolvido n'esta ignobil scena foi sentar-se sem dizer palavra n'um velho banco, perto da porta, e Gella, que começava a ser boa para todos, esforçou-se por apaziguar seu pae e por afastar a velha Praxedes, que se regalava em o irritar com os seus ditos.

Quando a zanga não era excitada pela propria filha, o Hercules deixava-lhe ás vezes bastante poder para pacificar a todos. É que a rapariga era como um raio de sol n'estas trevas moraes, em que todos se agitavam. Seu pae, é verdade, era capaz de tudo em um momento de colera, mas gostava d'ella a seu modo, como ella dizia, e a sua bella Andaluza, como elle lhe chamava nos seus raros momentos de bom humor, era o anjo bom d'aquelle coração semi-barbaro.{206}