A Casa do Saltimbanco
Adalberto hesitava.
Havia muito tempo que o filho da senhora de Valneige não se mexia, e que julgava realmente as suas forças esgotadas. O relogio acabava de dar oito horas. Como o céo estava escuro e a tempestade agitava a natureza, a estrella não appareceu, aquella estrella a que na vespera tinha chamado Adilia; estava pois alli sem consolação, esperando, sem saber mesmo o que esperava.
De repente, sentiu passos, depois a bulha de um vestido sobre o varão de ferro que atravessava a fresta, e uma voz muito doce que dizia baixinho:{132}
—Pequeno, estás ahi?
Bateu-lhe com força o coração; levantou-se de uma vez, espantado da força que a emoção lhe dava; mas bem depressa julgou sonhar porque não ouviu mais nada.
Cheio de anxiedade, escuta... Repetem baixinho:
—Pequeno, estás ahi?
—Sim, sim, estou, gritou Adalberto, tira-me d'aqui! tira-me d'aqui!
O prisioneiro acabava de reconhecer a voz de Gella, voz boa e doce quando ella fallava baixo e amigavelmente. A rapariga tinha-se inclinado sobre a fresta; uma luz fraca deixava vêr debaixo a sua cabeça, sem que se podesse distinguir mais do que um vulto negro.
—Escuta, diz ella, eu trouxe uma escada de corda; vou atal-a ao varão de ferro e tu vais subir. Uma vez cá em cima eu te ajudarei a sahir.
Ao mesmo tempo Gella punha em pratica o que dizia; e Adalberto via vagamente uma coisa que descia pela parede. Não se assustou muito d'este meio de salvação porque em Valneige mais de uma vez tinha feito esse exercicio gymnastico.
Os seus dedos apalpando podiam já apanhar a escada de corda, quando começou entre elle e a filha do Saltimbanco, um dialogo que pintava a luta horrorosa, do espirito contra as aspirações da vida e da esperança.{133}
—Menina Gella, se eu subir, vai levar-me para a casa do saltimbanco?
—Sim.
—Antes quero ficar.
—Mas, meu pobre pequeno, tu vais morrer de fome.
—Custa muito?
—Oh! se custa! muito!
—Não importa, antes quero morrer.
Respondendo antes quero morrer, o desgraçado tocava instinctivamente na escada de corda, unica ligação entre elle e o mundo. Comtudo, por outro lado, tinha tão grande medo da vida que lhe iam dar, que, tentando um ultimo esforço, foi pôr-se de joelhos defronte da fresta, no sitio onde a rapariga podesse talvez vêl-o, e, estendendo-lhe os braços, como se ella fosse a Providencia, disse-lhe:
—Oh! menina Gella, se eu subir deixe-me fugir pelo campo! Pode ser que me tomem por um ladrão e que me mettam n'uma prisão, e então terei de comer. Mas, rogo-lhe, não me leve! Oh! não me leve! deixe-me fugir!
—É impossivel, meu pobre pequeno!
—É sim! verá que é possivel! Oh! não diga que não; supplico-lhe pelo amor Deus!
Adalberto lembrou-se que não conheciam Deus na casa do saltimbanco. Disse-lhe então com ternura.
—Tenha dó de mim, pelo amor d'aquelles que estima.{134}
E, como ella não respondia, perguntou-lhe:
—Nunca gostou de ninguem?
—Palavra que não, disse bruscamente Gella; depois accrescentou com uma voz cheia de meiguice: mas gosto de ti agora, de ti, meu pobre pequeno, e deixei que me dessem pancadas para obter a promessa de que te não fariam mal.
—Gosta de mim?
Immediatamente a criança cessou de chorar; pondo o pé sobre o degrau da escada subiu, e, quando sentiu as mãos fortes de Gella tocar-lhe na cabeça, respirou mais livremente, porque tambem gostava da rapariga.
Ella, com o maior geito, ajudou os movimentos da criança, que, apoiando as mãos no varão de ferro e os pés na escada de corda, conseguiu, não sem custo, sahir do subterraneo.
Quando se viu em pé no chão, o seu primeiro pensamento foi lançar-se nos braços d'essa rapariga esfarrapada que acabava de lhe salvar a vida.
—Então, disse-lhe ella, já não tens medo de mim?
—Oh! não.
—Porque tinhas tu medo?
—É que eu não sabia se tinhas coração, disse ingenuamente Adalberto.
Gella, depois de um grande suspiro, respondeu:
—Ai, filho! no nosso modo de vida quasi não se sabe se o temos ou não. O officio assim{135} o quer; mas nada temas. Tomemos por este atalho. Podes tu andar depressa?
—Oh! não! tenho muita fome!
—É verdade, já não me lembrava. Toma, aqui tens metade do meu pão que guardei para ti; come.
Adalberto precipitou-se sobre o pão que lhe davam. O filho do senhor de Valneige achou-se muito feliz por poder comer os sobejos d'uma pobre dançarina de feira. De mais, este pão não era o pão da miseria, era o pão da amizade. Quando chegaram ao campo, Gella viu que as pernas de Adalberto fraquejavam.
A alma d'aquella rapariga: tinha-se revelado a si mesma pela compaixão; pensou que sendo grande e forte, tanto quanto o seu protegido era pequeno e delicado, podia poupar-lhe a extrema fadiga do caminho no estado de fraqueza em que elle se achava.
N'esse momento, o vento abrandou, o céo aclarou-se, e Gella viu que o pequeno estava todo preto.
—Que tens tu, Mustaphá?
Elle explicou-lhe o que tinha feito. Ella não se admirou; fôra o desejo de escapar a seu pae, a sua avó, e ao seu modo de vida: pareceu-lhe bem natural. Fez subir o pequeno para as suas costas e passando cada um dos pés por baixo dos seus robustos braços, encaminhou-se para um grupo de carvalhos, perto dos quaes estava parada, a carruagem. A distancia, era{136} grande, o caminho completamente deserto; puzeram-se a conversar com aquelle abandono que nasce de repente das situações extremas.
—Bem me parecia a mim, que tu estavas n'aquella adêga. Porque não me respondeste tu hontem quando eu te chamei? Julgavas-me então muito má?
—Não sabia o que havia de pensar; quando batiam em Natchès, não dizias nada.
—Podéra! isso succede tantas vezes, que já não se faz caso. E depois, é tão tolo, aquelle pobre pequeno! provoca pancadas que um outro saberia evitar. Agora, que penso n'isto vejo bem que não é feliz. Mas, vês tu, quando se é creado com pancadas não se faz caso das que levam os outros.
—Tem ar de bom, Natchès.
—Dize antes que tem ar de tolo. Não comprehende, nada, a não ser uma cambalhota. Quanto mais cresce mais tolo se torna.
—Menina Gella, é talvez porque ninguem gosta d'elle.
—É possivel; nunca tinha pensado n'isso.
—Tu, ouve, chama-me só Gella; não sabes que eu gosto de ti?
—Oh! sim! visto que lhe deram pancada por minha causa! que bondade! Mas diga-me o que se passou quando viram que eu tinha fugido.
—Digo: o pae entrou furioso e disse-me que eu respondia por ti, Mustaphá.{137}
—Oh! Gella, quer fazer-me um favor?
—Sim, mas qual?
—Não me trate nunca por esse feio nome quando estivermos sós; diga como diziam lá em casa: Adalberto.
—Oh! meu filho, o que me pedes tu? é impossivel.
—Está bem, chame-me como ainda agora quando me dizia baixinho: Pequeno, estás ahi?
—Pois sim. Dizia eu que o pae estava furioso. Poz-se a procurar pela cidade; uma mulher fel-o parar e fallou-lhe do commissario de policia. Elle então disse que te avistava e safou-se. Quando nos juntámos, elle e eu, sem te havermos achado, cahiu sobre mim e deu-me pancada! oh! mas que pancadas! a tal ponto que eu, que tive sempre medo d'elle, zanguei-me e resisti-lhe.
—Como! teve animo?
—É verdade, sentia-me fóra de mim. Disse-lhe que estava bem contente de te haver perdido, porque se era muito infeliz com elle, e accrescentei: «Sei onde elle está, mas não irei buscal-o com medo que o espanques. Se elle fallar, tanto peior para ti.» Elle tornou a praguejar e a bater-me...
—Pobre Gella, tudo por amor de mim!
—E acabei por lhe gritar: «Pois olha não has de tel-o, só se prometteres não lhe bater se eu o trouxer.» Ainda não sei como esta palavra o acalmou; deixou de me maltratar e disse-me:{138} «Vai buscal-o, que lhe não tocarei, e prohibo a mãe de o castigar.»
—Oh! boa Gella! quanto lhe agradeço! Mas sabia então que eu estava n'aquella adêga?
—Estava certa d'isso. Tive pena, mas pena como nunca tive de ninguem! Dizia commigo: se o deixo ali dentro, que triste morte! e se o levo, que triste vida!
—Gella, visto gostar de mim, porque me não deixa fugir?
—Oh! meu pobre pequeno! Toda a cidade está álerta por se ter perdido uma criança. Se te escapas, far-te-hão perguntas, prenderão meu pae, mas antes de o levarem matar-me-ha elle, e serás o culpado. Queres fazer-me mal?
—Não, não, minha boa Gella, prommetto-lhe que hei de ter juizo, respondeu affectuosamente Adalberto, que o reconhecimento já prendia á sua protectora.
Não disse mais nada; mas olhava de longe para uma lanterna, que dava uma luz baça sobre os carvalhos. Era a da carruagem.
A uns cem passos de distancia, Gella poz o pequeno no chão e deu-lhe a mão.
Elle não pensou mais em fugir. Que o Hercules fosse preso, e que elle, Adalberto, fosse a causa, parecia-lhe uma desgraça bem pequena; mas excitar a vingança de um homem como aquelle, e entregar á sua terrivel colera Gella, que o salvára... que ingratidão! Caminhava{139} devagar ao pé d'ella dando dois passos em quanto ella dava um.
Quando chegaram poz-se a tremer; a boa rapariga apertou-lhe a mão e socegou-o. Gella, era uma authoridade.
Tornando a tomar por natureza e tambem por calculo os seus modos asperos, disse bruscamente:
—Aqui o tens, elle aqui está, o teu pequenote. Vamos, Mustaphá, sobe, avia-te.
Todos dormiam, excepto o homem de ferro que não disse palavra. A criança morria de medo por tornar a entrar na carruagem; Gella seguio-a e a porta da casa do saltimbanco fechou-se sobre elles.
Adalberto ousava apenas respirar.
Teve então logar uma scena horrorosa, que se não pode descrever. A colera do cigano, excitada pela falta de vigilancia de Gella, tinha crescido de hora para hora; fez explosão. Tinha promettido não bater no fugitivo, e cumpriu a palavra; mas o seu furor voltou-se contra a filha. Por causa d'ella, eram obrigados a mudar por em quanto de itinerario, e a tornar a passar o Rheno, afim de deixar socegar os boatos que não deixariam de correr pela cidade. Palavras fortes e entrecortadas sahiram primeiro dos seus beiços contrahidos pela raiva, depois Hercules deitou um olhar sobre Gella, que muito bem conhecia, e que parecia o do tigre em frente da sua presa. Algumas{140} palavras imprudentes, que ella pronunciou, acabaram de o irritar, e cahindo sobre a desgraçada espancou-a!
Adalberto via-a sem defesa, prostrada no estreito corredor, gemendo, pedindo perdão!... Inutil! o pae, fóra-de-si, parecia ter-se esquecido de que ella era sua filha, e querer dar cabo d'ella.
O pobre pequeno, estendia os braços para a sua victima, recebia algumas vezes sôcos e pontapés, que eram destinados para ella, e ninguem se mexia na casa do saltimbanco, a não ser a pobre Tilly que, apenas coberta com a sua camisinha, acudiu chorando, de mãos postas, como um anjo de Deus por elle mandado para defender uma alma contra o demonio. Quando ella appareceu, Adalberto julgou que a matariam, mas a Providencia mandando-a havia-lhe dado do seu poder.
O Hercules, que tinha descarregado a sua colera, olhou para ella envergonhado; proferindo a mais terrivel das suas blasphemias, sahiu e foi sentar-se na almofada da carruagem. Alguns minutos depois, duas ou tres chicotadas applicadas ao cavallo pozeram a caminho a casa do saltimbanco. Era preciso passar depressa o Rheno.
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Cahiu sobre a desgraçada e espancou-a. (Pag. 140.)
Gella, pallida e quasi desfallecida, ficou estendida entre Adalberto e a pequena Tilly; mas a velha chamou esta bruscamente e ella apressou-se a obedecer. Quanto ao cativo ficou junto d'aquella que lhe tinha dito: «Gosto de{141}
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{143} ti,» e julgou que ella ia morrer, porque o sangue corria, pobre rapariga, e ensopava-lhe os seus cabellos d'ebano.
—Tu vês, disse-lhe ella baixinho, com os olhos sempre fechados, se te fores, em quanto estiveres a meu cargo, elle matta-me!
N'este momento, diante de Gella e de Deus, o desgraçado pequeno esqueceu o seu paiz, a sua familia e a si proprio; viu só o sangue que corria por amor d'elle, e, exaltado pelo duplo sentimento de uma devoção profunda e de um igual reconhecimento, deitou-se aos pés da pobre rapariga e fez este juramento:
—Ó Gella, eu juro que nunca mais fugirei, em quanto estiver a seu cargo; dou-lhe a minha palavra de honra!
Gella abriu os seus grandes olhos cheios de lagrimas, as mais amargas que se podem chorar n'este mundo, fitou-os nos olhos meigos do pequeno de Valneige e respondeu apenas:
—Acredito-te.
A criança viu-a soffrer toda a noite. Lavou-lhe a cara magoada e os cabellos ensanguentados; não sabia o que havia de imaginar para lhe fazer bem, e dizia-lhe baixinho, muito baixinho: «Coragem! porque ha um céo!»
No dia seguinte, quando viu o Hercules, Adalberto sentia-se como esmagado pelo seu juramento: era não só o prisioneiro d'esse homem barbaro, mas ainda, e muito mais, o prisioneiro da amizade reconhecida.{144}