A Casa do Saltimbanco

Mme. de Stolz · Capítulo 7 de 30

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A Casa do Saltimbanco

Capitulo V

 

Adalberto sabe emfim até onde pode

levar a desobediencia.

 

Em quanto a familia de Valneige estava triste e consternada, em quanto se procurava por todos os lados, em Praga e nos arredores; onde estava o querido pequeno Adalberto? Ninguem o sabia, excepto a infame creatura que o tinha roubado ao amor de seus paes. Habituada a desobedecer, não podia mais tarde ou mais cedo deixar de succeder grande desgraça áquella criança. No dia em que desapparecêra, havia desobedecido oito vezes! e como ninguem tinha dado por isso, não fôra castigado. Deus vê tudo que os paes e as mães não vêem; foi Elle quem se encarregou de{53} castigar por uma vez, com um castigo terrivel, todas as desobediencias que o rapazinho commettera, desde que sabia o que fazia; e bem cedo tinha elle tido intelligencia.

Eis aqui como as coisas se passaram: Perdemos de vista Adalberto, no momento em que um homem d'uns cincoenta annos, embrulhado num capote de lã grossa, o levou, depressa, depressa, depressa... Este homem tinha, é verdade, cara de poucos amigos, e o olhar sombrio; mas fallava um pouco francez. Na sua grande afflicção, a criança, que não suspeitava uma traição, seguiu-o em silencio. Andou muito tempo, tanto tempo que as suas perninhas fraquejaram, e que de repente, desanimado pela fadiga, pelo medo, pela fome e pelo sangue frio d'aquelle que o conduzia começou a chorar.

«Tu choras?» disse-lhe o desconhecido com um tom de falsa bondade, e, repetindo-lhe que sabia onde estavam seus paes, e que os iam encontrar, o homem trigueiro, do qual um grande chapeu escondia quasi toda a enorme cabeça, fêl-o entrar em uma casa suja e meia escura, onde lhe disse que esperasse um instante. A criança estava morta de fome e de sede; o desconhecido fêl-a comer e beber, beber, beber tanto, que, sob as vistas do malvado, o querido pequeno sentiu-se como sobrecarregado por um peso extraordinario; os olhos fecharam-se-lhe, já não{54} tinha medo; uma especie de indifferença e quasi de bem estar succedêra a toda a emoção triste... emfim, adormeceu profundamente. Era o que o homem do chapeu grande, tinha preparado; e tomando nos braços a sua innocente victima, dirigiu-se precipitadamente para a estação do caminho de ferro, deixando a cidade, e tendo o cuidado de embrulhar Adalberto no grande capote de lã, afim de o fazer passar por uma criança doente.

Desde então, o que succedeu? Onde foram? O pequeno dormia; quando, sahiu d'esta especie de lethargo, não obteve resposta alguma ás suas perguntas, e viu passar na sombra uns homens que se pareciam com aquelle que o levava. Estava morto de susto. Depois de mil voltas avistou uma grande carruagem, uma especie de casa ambulante, tendo janellas com taboinhas: o homem trigueiro deu uma grande pancada na porta, e disse algumas palavras na lingua particular dos Ciganos; depois, com uma mão de ferro, agarrou o pequeno francez, e levantou-o: um rapaz abriu a porta fazendo chacota, e Adalberto achou-se no meio de um corredor estreito, que dava communicação para miseraveis compartimentos... a que chamavam quartos.

Uma mulher muito velha, feia, negra, e secca, dirigindo-lhe a palavra em mau francez, fallou-lhe como ordinariamente se falla aos cães. Elle não comprehendeu bem; desejou sómente{55} descer os degraus que acabava de subir para entrar na carruagem: mas a porta tinha-se fechado. O pequeno imprudente olhou para a velha e disse-lhe imperiosamente:

—Abra!

—Não, não, não, respondeu a terrivel velha; uma vez que se sobe é para sempre.

—Para sempre? repetiu Adalberto com indignação, e, comprehendendo o horror d'estas palavras, levantou os braços e começou a gritar!

Uma mão suja, horrenda, decrepita, collou-se-lhe sobre a bocca, em quanto aquella furia soltava horrorosas blasphemias.

A criancinha estava cheia de susto sem saber o que havia de pensar: era como a destruição completa de toda a sua vida, e, não só por medo como tambem por surpreza, perdeu os sentidos.

Quando fechou os olhos, a mão suja e má, que o tinha obrigado ao silencio, despregou-se-lhe dos beiços; mas, aquella mão, como se estivesse resolvida a fazel-o soffrer, foi buscar um pucaro d'agua bem fria e deitou-lh'a sobre a cara. O querido pequeno abriu os olhos, olhou de roda de si como para procurar sua mãe, e disse lavado em lagrimas e muito humildemente:

—Senhora, deixe-me voltar para casa da mamã, se faz favor.

Uma gargalhada formidavel acolheu esta supplica{56} de criança, e, juntando a ironia á crueldade, a velha Praxedes exclamou:

—Vai para casa de tua mamã, vai, corre, anda vai!

O prisioneiro viu bem que tudo estava acabado, que o crime estava consummado; que o tinham roubado!

A velha furia, que parecia uma bruxa, era a sogra do homem do chapeu grande, a avó, não de Gella, a filha do amo, mas de seu irmão Karik, e o chamado Mentor de duas pobres crianças, Natchès e Tilly, um pequeno e uma pequena, cahidos como Adalberto nas mãos dos ladrões. O desgosto do captivo foi tão profundo, que cessou de se queixar achando-se horrivelmente desgraçado.

Dotado de grande força moral, a sua dôr tornou-se em desespero, e inspirou-lhe a firme vontade de se evadir: mais tarde ou mais cedo.

Tinha uma incrivel energia, e ainda que o seu corpo fosse magro e pequeno, sentia-se capaz de vencer grandes obstaculos. Por em quanto nada havia a dizer nem a fazer.

«Se estás doente, deita-te,» disse-lhe bruscamente a velha Praxedes, mostrando ao recem-chegado um monte de trapos e de fato velho no canto do seu horroroso quarto. Elle não esperou que lh'o repetissem, julgando, com rasão, que o melhor era obedecer. Como não lhe deram cobertores não se despiu; estendeu-se sobre os trapos, tendo o cuidado de puxar{57} para os pés alguns pedaços de fato velho para evitar o frio, e pôz a mão debaixo da cara para não se encostar a esses farrapos.

Uma vez deitado, fechou os olhos, não fez movimento algum, e bem depressa o julgaram a dormir. Não percebeu uma só palavra do que se dizia, porque os Ciganos entre si só fallam o seu dialecto; comtudo julgou vêr que Gella mostrava benevolencia para com elle e que tratava de apaziguar a colera de sua avó. Quando a rapariga fallava alto, tinha um som de voz que o habito de gritar ao ar livre tornava duro; e em geral tinha modos d'homem. Adalberto, que de vez em quando abria um olho, podia vêr aquelle todo atrahente.

Gella tinha vinte annos, era bonita, mesmo com os seus vestidos pobres, mas d'uma belleza um pouco selvagem; estatura elevada, flexivel como um vime, os movimentos bonitos, a cara queimada pelo sol, os cabellos pretos com reflexos azulados; a bocca bastante mal desenhada, mas franca e com um sorriso de bondade; os olhos doces quando estava socegada, atrevidos quando se tratava de resistir, muita força de corpo e de bondade.

Era filha do homem do chapeu grande e da sua primeira mulher, que tinha morrido logo depois do nascimento de sua filha. O Cigano, contra os costumes da sua raça, tinha{58} casado com ella por capricho, apesar de não ser Cigana, mas uma pobre rapariga de Lyão. Achava-se orphã e na miseria; e a miseria e a inexperiencia dos dezeseis annos tinham-na levado a aceitar esta exquisita união; uma irmã mais velha, não deixando de a condemnar, interessava-se comtudo pela criança nascida d'aquelle imprudente casamento, e dava de tempos a tempos uma lembrança a Gella.

Assim como era, esta robusta e trigueira rapariga produziu no prisioneiro uma impressão de temor e de confiança. A maneira de fallar depressa, os olhos tão pretos, as sobrancelhas carregadas, tudo isto o intimidava; e, comtudo, aquelles lindos braços deviam ser carinhosos; era impossivel que uma criança infeliz se lançasse n'elles sem que a rapariga a apertasse contra o coração, porque, emfim, devia ter um coração.

Adalberto tinha tanta necessidade de o acreditar que dava esperança a si proprio, e disse comsigo:

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Gella tinha 20 annos. (Pag. 57.)

—Um dia dir-lhe-hei que me quero ir embora, e ella ha de consentir em me deixar fugir. Se não deixar, fugirei sem ninguem me ajudar... Depois lembrava-se das suas caminhadas em Praga, e da difficuldade que se encontra quando se não sabe para onde se deve ir e quando não se falla a mesma lingua da outra gente. Este primeiro dia passou-se{59}

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{61} pois n'um profundo desgosto. O mau vinho tinha-lhe feito tanto mal que elle não quiz comer. Á noite ouviu dizer a velha ás crianças que se deitassem, e admirou-se comsigo mesmo de que Karik, que não tinha mais de quatorze annos, recusasse obedecer; uma boa bofetada decidiu-o. Adalberto ficou vexado de encontrar o seu grande defeito n'um garoto tão mal creado. Quanto aos outros dois, foram mansos como cordeiros, e promptamente cumpriram o que mandou Praxedes; mas o pequeno de Valneige notou, que nem a velha nem Gella disseram como Rosinha sempre dizia:

—Vamos, meus meninos, ponham-se de joelhos e digam a sua reza.