A Casa do Saltimbanco

Mme. de Stolz · Capítulo 14 de 30

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A Casa do Saltimbanco

Adalberto tinha fome

 

Deixámos o filho do senhor de Valneige victima de uma grande agitação no seu tenebroso isolamento.

Esta solidão durou muitas horas. Tão depressa julgava que a ratazana estava perto d'elle, como lhe parecia sentil-a subir pelo corpo acima. A sua imaginação criava mil soffrimentos que não existiam.

Distrahiu-se d'este penoso estado por uma outra preocupação que, livrando-o do feio bicho, lhe fez novas perplexidades.

Ouvia a alguns passos a bulha de alguem que trabalhava em madeira. Assimilhava-se a um{114} marceneiro que quizesse fazer um buraco n'uma porta. Esgravatava, furava, rapava, tudo isto depressa, depressa, como se effectivamente estivesse muito apressado; depois cessava de repente, descançando apparentemente; mas então a immobilidade era absoluta, o silencio completo, nem respirar se ouvia.

Quando Adalberto poz na idéa, que estava um homem do outro lado da porta e na escuridão, perturbou-se muito. Por um lado pensou que esse homem seria o seu salvador e o faria sahir do subterraneo; por outro lado, via-se á mercê de um estranho que podia ser outro malvado, um ladrão de crianças!

Havia momentos em que o rapazinho queria chamar; abria a bôcca para dizer: Senhor marceneiro quer acudir-me se faz favor? Mas, de todas as vezes faltava-lhe a voz como em um sonho máu. Graças a esta extraordinaria inquietação, tinha esquecido o rato, lembrando-se só do operario.

Adalberto admirava-se tanto mais d'este trabalhador mysterioso, que muitas vezes em casa de seu pae, tinha visto marceneiros fazerem differentes obras, mas sem pararem assim a todo o instante. E depois, este individuo trabalhava ás escuras mais outra coisa para admirar!

Se Adalberto fosse um rapaz medroso, o que é uma grande vergonha quando se está destinado{115} a ser um homem, a conduzir, a governar, é provavel que adoecesse de medo; mas seu pae tinha-lhe dito muitas vezes, e tinha-lhe mesmo provado, que, as bulhas que se não podem explicar logo, são quasi sempre produzidas por uma causa muito simples. O senhor de Valneige tinha tido o cuidado de esclarecer o espirito dos seus filhos, desde que elles tinham, começado a mostrar algum discernimento.

Adalberto, ainda que muito estonteado, tinha comprehendido as lições praticas dadas todas as vezes que as circumstancias se prestavam a isso. Valia-lhe isto na sua cruel posição, porque, no meio das suas afflicções, não deixava de ser o mais razoavel que a sua idade permittia.

Quando o operario tinha trabalhado um certo tempo, parou de todo, fosse porque estivesse cansado, ou porque tivesse acabado aquella obra singular. Todo o barulho cessou, mas não se ouviram os passos de uma pessoa que se affastasse.

A criança prostrada por successivas emoções, moida pela sua propria agitação, acabou por sentir no corpo o peso que precede o somno, e no espirito a quietação a que se segue o esquecimento. Isto durou até ao momento em que o relogio deu duas horas. Depois, nada mais ouviu; tinha adormecido.

O somno é o amigo dos desgraçados, Deus concedeu-o para contrabalançar poderosamente{116} os nossos males; é n'esta especie de banho refrigerante que os nossos pensamentos descansam, que os nossos receios se dissipam, que a nossa vontade recupera o socego e a força, que são necessarios para nos conduzirmos; mas se o somno é doce para aquelle que soffre, como é amargo o seu despertar! Tinha esquecido, e todas as sensações, penosas lhe são restituidas uma a uma. O silencio em redor d'elle, e n'elle mesmo, faz desapparecer, é verdade, os fantasmas da imaginação; mas a realidade está alli, e o coração começa de novo a soffrer.

Quando Adalberto despertou, a primeira claridade do dia chegava apenas ao subterraneo; não podia ainda distinguir o que o rodeava, mas as suas recordações voltavam dolorosamente, e lamentava-se por não poder dormir sempre.

Os seus pensamentos eram tão tristes que não sabia como escapar-lhes. Entre as imagens que lhe appareciam escolheu uma para descansar das outras; representava-a, como se a visse diante de si, a sua querida e pobre mamã, e via-a realmente com o seu coração, porque a ternura que tinha por ella não lhe deixava esquecer o menor detalhe. Parecia-lhe mesmo vêl-a até com a alliança que ella usava, e que tinha sido sempre uma das grandes alegrias de Adalberto. Esta alliança tinha de particular que, sendo mais grossa do que estes anneis costumam ser ordinariamente, havia sido do agrado da senhora de Valneige fazer{117} gravar na parte de dentro as iniciaes dos nomes dos seus filhos por ordem de nascimento.

Quando Adalberto era pequeno, se havia sido bonito, obtinha da sua mamã o favor de abrir elle mesmo a alliança e de vêr a lettra A, que representava o seu nome.

Antes mesmo de saber o alphabeto correntemente, o rapazinho, quando o famoso annel se abria, nunca deixava de exclamar:

—Isto é um C, quer dizer Camilla; isto é um E, quer dizer Eugenio; isto é um F, quer dizer Frederico, e isto é um A, quer dizer Adalberto!

Quando chegava aqui, dava duas ou tres pancadinhas no peito, para se assegurar que era effectivamente elle; depois batia palmas, e a sua mamã beijava-o; acabava sempre assim.

Este annel representava um grande papel na educação maternal do pequenito, e n'um dia que tinha commettido uma falta enorme, quer dizer, que tinha dito um não pensando sim, que tinha, n'uma palavra, mentido, a senhora de Valneige havia-lhe declarado, olhando muito severamente para elle, que se semelhante coisa tornasse a succeder, mandaria o seu annel ao ourives para apagar a lettra A. E o bom pequeno não tinha mentido mais desde esse dia.

Quando, n'este triste subterraneo, o prisioneiro deixava de pensar na sua mamã, não encontrava no seu espirito senão motivos de{118} receio. O resto das trevas impedia-lhe de seguir os movimentos da ratazana. E depois, perguntava a si proprio com medo onde estaria o trabalhador mysterioso? Teria adormecido ali perto, ou, teria partido? Não, nenhuma porta, se tinha aberto, e Adalberto não podia duvidar que, excepto o balancear da pendula, tudo na casa estava immovel.

Evitava pensar no marceneiro, mas então voltava o Hercules. Oh! que medo! se tivesse de o tornar a ver, e ser apanhado pelas suas grandes mãos que o teriam esmagado se lhe tocassem! O rapazinho tremia só com esta idéa. E a velha? oh! a velha, ainda lhe fazia mais medo; a impressão que ella produzia no seu cerebro fatigado, e sobre os seus nervos doentes, era pouco mais ou menos a mesma impressão produzida pela feia ratazana que se agitava na escuridão. E Gella? ah! Gella! teria talvez sido boa! Porque não tinha elle respondido quando ella lhe disse tão devagarinho:

—Pequeno, estas tu ahi?

Tinha pena de o não ter feito, e comtudo ella tel-o-hia provavelmente levado para a casa ambulante, e então o que teria succedido? O Hercules ter-lhe-hia dado pancadas como em um pobre cão? ou antes, na sua furia, não o teria matado? Este homem, pela sua grande estatura, pelos seus olhares carregados, e pelo seu silencio quasi continuo, havia impresso no espirito do prisioneiro um temor inexplicavel.{119}

Quando conseguia não pensar n'elle, interrogava-se a si proprio, para saber como sahiria do seu tumulo, ou se não morreria antes n'elle, sósinho, e longe dos seus bons paes?

Entretanto o dia augmentava; Adalberto pôde emfim tomar conhecimento da sua triste habitação. Como não tinha tido na infancia a cabeça transtornada por contos pavorosos e absurdos, não imaginava estar n'um sitio muito escondido, visitado de tempos a tempos por alguma fada malfazeja, ou algum monstro horroroso. Não; julgava simplesmente ter cahido n'uma adêga subterranea ou n'uma casa da lenha, como a adêga e a casa da lenha de seu pae; e assim era effectivaménte; estava n'um subterraneo que fazia as vezes de ambas as coisas. A casa isolada em que elle se achava, em consequencia da sua deploravel aventura, era uma casa de pouca importancia, assaz tafula na sua simplicidade, muito querida dos donos; via-se isto pelo cuidado com que estavam tratadas as taboinhas verdes, as paredes brancas, e até nos menores detalhes. Um unico subterraneo, grande e salubre, servia de adêga, de casa de lenha, de carvoeira e de arrecadação. Os olhos do cativo, desde que se costumaram á meia luz, encontraram achas de toda a grossura, e alguns centos de garrafas vazias, bem arrumadas sobre duas ordens de prateleiras. Por outro lado, velhos instrumentos de jardinagem, taboas, um tonel,{120} uma gaiola quebrada. Viu tambem a especie de cama sobre que tinha passado a noite; era o pó do carvão, misturado, com alguns bocadinhos, resto da provisão que de certo, tinham o costume de pôr n'aquelle canto justamente debaixo da fresta. As mãos do rapazinho estavam todas pretas, cara e cabello deviam estar cobertos d'aquelle pó; devia parecer exactamente um limpa-chaminés.

—Tanto melhor, disse comsigo, se eu puder fugir e encontrar o mau homem, tomar-me-ha por um pretinho e deixar-me-ha passar.

N'esta idéa, imaginou mascarrar-se de preto, e apanhando ás mãos cheias o pó do carvão, esfregou a cara, tendo o cuidado de carregar mais nas sobrancelhas e de empoar desde a raiz os seus cabellos loiros, depois de ter deitado para longe de si a horrorosa fita que lhe tinham enrolado na cabeça.

Ah! se a boa velha Rosinha o tivesse visto n'aquelle miseravel estado, nunca teria podido reconhecer o seu querido loirinho; quando muito a senhora de Valneige, por instincto maternal, teria presentido n'elle o seu filho querido, o seu ultimo filho, o seu Benjamim!

Quando Adalberto acabou de mascarrar-se, teve horror de si mesmo. Ao seu vergonhoso fato, accrescentou voluntariamente uma camada de côr preta que o desfigurava; comtudo, era um bom meio de passar desapercebido.

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Tomar-me-ha por um pretinho. (Pag. 120.)

Se elle tivesse podido arrastar o tonel para{121} {122}

{123} debaixo da fresta e pôr-lhe em cima algumas taboas, pode ser que se tivesse podido içar com grande custo até á abertura; mas era impossivel fazer mover aquelle tonel; Adalberto era mais geitoso e mais agil do que forte e o tonel parecia agarrado ao chão. O que havia de fazer? As horas da manhã passaram-se em mil tentativas infructuosas, sem que podesse conceber a menor esperança de resultado.

Um dos supplicios da pobre criança, era o frio de Novembro, que descia pela fresta e lhe gellava sobretudo os pés, que tinham estado parados havia tanto tempo. Tinham-no felizmente habituado em Valneige a supportar os rigores do inverno. Quando se queixava de frio, em lugar de lhe dizerem «aquece-te» diziam-lhe: «Vai correr, e não te ponhas a chorar, porque homens não choram por tolices.»

O pequeno sabia pois fazer todos os exercicios proprios para restabelecer a circulação do sangue, e por consequencia para chamar o calor. Pensou que era este o caso de empregar as suas habilidades.

Sósinho no subterraneo e longe de todo o soccorro humano, porque o trabalhador não dava signal de vida, Adalberto experimentou um sentimento de reconhecimento para com seus paes, e para com todos aquelles que o tinham rodeado de cuidados varonis, razoaveis sobretudo. Nada tinha abrandado no seu espirito os instinctos masculinos. «Ah! se eu tivesse{124} sido educado como uma rapariga, que seria hoje de mim?» Graças a esses movimentos gymnasticos que elle estava habituado a fazer, Adalberto sentiu um doce calor espalhar-se-lhe por todo o corpo e por este lado não teve mais inquietação. Este socego deu-lhe vagar para pensar mais no marceneiro. Estaria elle ou não alli?

O prisioneiro olhava para o lado da porta, espreitava pelo buraco da chave; mas inutilmente. As trevas eram espessas da parte de fóra, e a criança apressava-se a voltar para debaixo da fresta porque o ar, a claridade, a liberdade tudo ali estava. A fresta parecia-lhe o unico intermedio entre elle e o mundo.

Comtudo, o solitario conseguira vêr assim distinctamente o que o rodeava. Notou na parte debaixo da porta um entulho muito recente, de forma semi-circular, e sobre o chão uma poeira amarellada que não era mais do que a madeira reduzida a pó por um trabalho perseverante. A criança, que tinha uma imaginação viva, sabia aproveitar as suas recordações. Pouco tempo antes da viagem, a cosinheira de Valneige tinha fallado dos estragos causados pelos ratos; tinha sido preciso tapar alguns buracos, reparar em certos sitios a madeira damnificada pelos dentes incisivos d'estes animaes roedores, e Joanna tinha exclamado: «Ai! que ruins bichos! pois não parece que isto foi feito por um marceneiro?»{125}

E Gervasio, que dormia d'aquelle lado da casa, ainda que no segundo andar tinha accrescentado: «Na verdade, se eu esta noite não soubesse que era um rato que roia a madeira, em vez de ir cahir na ratoeira que eu lhe tinha armado, teria julgado que era um marceneiro a trabalhar.»

Adalberto applicou á circumstancia estas diversas lembranças, e, comparando os factos, veiu a concluir positivamente que o supposto marceneiro tinha passado a noite no canto da adêga, e não era outro senão o rato que, effectivamente, tinha desapparecido do canto antes de começar a bulha. Foi para o espirito preoccupado do rapazinho uma verdadeira consolação; mas esta mesma consolação permittiu-lhe pensar mais em um outro genero de miseria, mais grave que os outros e cem vezes mais ameaçador. O que era?

A criança bocejava a cada instante; não era o somno que causava estes bocejos repetidos.

Sentia um incommodo desconhecido; parecia que lhe apertavam a cabeça carregando-lhe nas fontes, e o seu estomago, que tinha tido tempo para esquecer a ordinaria sopa dos Ciganos, pedia imperiosamente alimento.

Cada momento augmentava este soffrimento, e a pendula, que se ouvia na casa de cima, parecia cantar as horas de vida que restavam ao joven Valneige. Os mais tristes pensamentos o{126} perseguiam. Como estava bastante adiantado nos estudos para uma criança da sua idade, tinha lido as aventuras de viajantes, que tinham ido parar a ilhas desertas, sem saberem a sorte que os esperava.

Comtudo, havia dois ou tres coqueiros cujos fructos elles comiam, uma ave brava que assavam bem ou mal, ou pelo menos um rochedo de que arrancavam algumas ostras; mas n'este subterraneo, nada, nada, senão carvão, madeira, garrafas vazias; era preciso sahir d'alli a todo o custo, ou então morrer á fome.

Á medida que o dia ia passando a cabeça do prisioneiro enfraquecia-se, e, sem querer, a coragem abandonava-o.

Não se atrevia a andar, tendo notado que a sua dôr de estomago se tornava insupportavel quando se mexia. Encolhido ao pé do tonel contra o qual encostava a sua pobre cabeça, e olhando para a fresta, esperava ainda, porque sabia que não estava completamente abandonado. Deus via-o, e, para responder ás suas innocentes supplicas, enviava-lhe de tempos a tempos pensamentos dôces e beneficos, como tudo quanto nos vem do céo.

O cativo lembrava-se de ter aprendido de cór a linda historia de José, que a Providencia tinha retirado de uma cisterna, onde seus maus irmãos, o tinham deitado; e disse comsigo:

—José era quasi tão infeliz como eu, e pensava{127} em Jacob como eu penso no papá; mas elle ao menos não tinha deixado Rachel!... Devia ter tido grande medo, e, comtudo, sahiu da cisterna. E eu tambem hei de sahir d'este subterraneo. Não é assim, meu Deus, vós me enviareis alguem! eu sou um outro pequeno José, tende compaixão de mim!

D'este modo a esperança renascia no seu coração, e um quarto d'hora depois uma tristeza profunda o acabrunhava.

Voltavam então todas as recordações de Valneige; estas recordações despedaçavam-no. Parecia-lhe que tudo estava perdido, e chorando lagrimas amargas sobre a sua desobediencia, dizia baixinho, como se o podessem ouvir!

—Perdão papá! perdão mamã! perdão todos!

Uma idéa pungente lhe veio no meio d'esta atroz desgraça; lembrou-se que n'aquelle mesmo dia, ás nove horas da noite, fazia nove annos. Era o dia 3 de Novembro anniversario do seu nascimento, e, n'estas occasiões, havia em Valneige uma pequena festa. Como cada criança que nascia era mais uma alegria, agradeciam-na a Deus todos os annos redobrando de ternura entre os membros da familia, por beijos, presentinhos, e um festim, que Joanna preparava com muito mysterio, e ao qual Rosinha juntava alguns pasteis feitos pela sua mão. O senhor de Valneige estava n'estes dias mais alegre do que o costume, brincando com seus{128} filhos, fechando os olhos ás ligeiras infracções do regulamento. Se por desgraça dava por qualquer coisa desagradavel, voltava-se para outro lado para não ser obrigado a castigar.

Em quanto á doce e paciente Adilia bastava não sahir dos seus habitos quotidianos para a sua presença tornar todos felizes; e não ha duvida que se ella faltasse á reunião todos exclamariam: «Onde está então a festa? falta a mamã aqui.»

—Que farão lá em casa, perguntava a si mesmo Adalberto suspirando. Ninguem dirá em voz alta: é hoje que elle faz 9 annos. Mas toda a gente o pensará. Não haverá festa; o papá ficará na sua poltrona a ler o jornal, e póde ser que ao jantar diga: «Então, Adilia, tu não comes?» Mas não perguntará porque á mamã. Saberá que é por causa do seu filhinho. Oh! que desgraça! meu Deus, que desgraça!

A pobre criança era tristemente distrahida dos seus tormentos por uma d'estas inquietações pueris que, em toda a idade, cansam e preoccupam. Havia ao longo da parede bichos pretos, feios e delgados, com uma grande quantidade de pernas. Iam e vinham em todo o sentido, entrando em pequenos buracos, d'onde sahiam logo depois. Adalberto olhava-os de revez, tendo tanto horror de os vêr como de os esborrachar. Uma enorme aranha occupava o canto da direita; mas trabalhava com tanta actividade no seu officio de tecedeira, que{129} o pequeno não lhe dava grande attenção; eram os bichos pretos que o atormentavam.

Ainda que a vida n'este subterraneo fosse horrivel, sobretudo com os soffrimentos da fome, Adalberto por um lado desejava suster as horas, porque via com um susto progressivo o aproximar da noite. O relogio tinha dado quatro horas; havia ainda na estrada e no campo uma luz pallida, mas no subterraneo o dia ia fugindo, e com elle esta esperança que o sol dá aos desgraçados e que a noite lhes rouba, juntando aos seus pezares as vagas tristezas da escuridão.

Então a pobre criança pensou que tudo se tinha acabado para ella, e que o novo anniversario do seu nascimento seria o ultimo da sua vida. As suas forças diminuiam, sentia a cabeça pesada, todo o seu corpo se tornava molle e perguiçoso, como se fosse dormir o seu ultimo somno. Alguma claridade allumiava ainda a parede que ficava defronte da fresta. Adalberto via o dia acabar, e não julgava tornal-o a ver mais.