A Casa do Saltimbanco
Adalberto era o assumpto de todas as conversações.
Adalberto era o assumpto de todas as
conversações.
—Ora, até que emfim chegaram!
—É como diz, e trazemos o bom tempo.
—Já tardava. Que inverno! Como choveu! Tinha as pernas encolhidas de andar sobre o molhado.
—Faço idéa.
—Que quer, senhora Juliana, quando se está no mundo é preciso aceitar o tempo como Deus o manda.
—Vendeu bastante ao menos?
—Ora, vossemecê bem sabe, maçãs sempre maçãs. Em quanto as ha vive-se. As violetas não renderam quasi nada; e agora ainda as coisas vão peior.{163}
—Então porque?
—Porque a batata temporã já tarda.
—Ai! que preguiçosa.
—É assim mesmo. Ah! mas tudo isto são pequenas miserias; ha outras no mundo muito maiores, senhora Juliana.
—Oh! se ha! senhora Tourtebonne!
Este dialogo tinha lugar diante da casa branca. As duas mulheres estavam de pé ao lado da carreta. Viam-se, como todos os annos, com grande prazer; era uma distracção encontrarem-se duas vezes por semana, sempre no mesmo lugar. D'esta vez, desde o primeiro encontro, não se separaram. Havia com certeza alguma coisa para dizer; e pode ser que fosse a mesma coisa.
Cada uma pensava em contar a sua historia; a batata temporã, não se prestando ás confidencias, foi Sophia quem começou, voltando á sua primeira idéa, á falta d'outra melhor.
—É verdade, eis-nos outra vez de volta... não me dá cuidado; eu gosto do campo. Aqui ha só uma coisa que aborrece, é a solidão.
—Não diga isso, senhora Juliana! a duzentos passos d'uma villasinha tão bonita!
—Mesmo por isso; se nós estivessemos a dez passos era melhor.
—Faz-me rir, senhora Juliana. Vossemecê não era medrosa.
—Não era, mas sou agora.
—Queira desculpar, mas a razão vem com{164} a idade. Ora diga, como quer que entrem aqui? uma casa fechada que nem uma cidadella.
—Apesar d'isso, entraram.
—Pelo buraco da chave?
—Não, pela fresta da adêga.
—O que! vossemecê está a mangar; não cabe uma perna minha.
É preciso saber que a senhora Tourtebonne era gorda, mais do que o ordinario, e quasi redonda, de modo que, para lhe caber uma perna n'uma fresta, seria necessario fazel-a de proposito. Acostumada ás suas dimensões, não suppunha que alguem podesse penetrar por ali, e os medos de Sophia pareciam-lhe destituidos de fundamento; a cosinheira, vendo-a duvidar accrescentou:
—Não me acredita? Pois bem, venha vêr.
Dito isto, metteram no pateo a pequena carreta, e a tia Juliana, acendendo a sua véla, conduziu á adêga a tia Tourtebonne.
—Que felizes que são, disse a gorda creatura rindo ás gargalhadas, aquelles que cabem pela tal fresta! Eu mal passo pela escada! Como é estreita! não tem mesmo geito nenhum! E a porta? Mas em que pensava o architecto?
Indo ás apalpadellas conforme podia, porque a véla quasi que não allumiava, a tia Tourtebonne chegou á adêga. Uma vez sobre o terreno, Sophia contou, sem faltar nada, a scena do dia da chegada; o seu susto, as taboas, o diabo e a fita doirada; o que tinha dito a senhora, o{165}
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{167} que tinha dito o senhor, o que tinha dito Julião; e a vendedeira, quando o seu espirito se achou sufficientemente preparado para uma grande eommoção, foi convidada a voltar-se para a parede e a ler ella mesma as palavras escritas com carvão.
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Maçãs, sempre maçãs. (Pag. 162.)
Quando chegou a isto: «Chamo-me Adalberto...»
Parou de repente, e exclamou:
—É elle minha querida, é elle! Pobre pequeno, querido amorsinho! Ora vejam! quem havia de dizer tal ha uns poucos de mezes! Oh! Senhor! É possivel!...
A emoção foi tão repentina, que a tia Tourtebonne recuou tres passos, e por pouco não cahiu sobre as garrafas vazias.
—Tome cuidado! disse Sophia.
A estas palavras que revelavam um perigo, a boa mulher precipitou-se em sentido contrario, e poz os seus enormes pés no pó de carvão, que, não tendo nunca sido pisado por um tal peso, saltou até ao avental branco da vendedeira. Pois ella tão aceada, tão cuidadosa, não fez caso d'isso, e repetiu tantas vezes: «É elle! é elle!» que Sophia julgou que ella tinha endoidecido. Bem depressa viu que não era assim; a sua antiga conhecida tirou o lenço da algibeira, e enxugando os olhos, porque se enternecia facilmente, contou como n'aquelle inverno, em novembro, um pequenito loiro, d'uma apparencia delicada e fraca, lhe{168} tinha escorregado dos dedos; era a sua expressão favorita.
Em dez minutos Sophia soube tudo quanto era possivel saber-se, sem faltar o olhar carregado do supposto pae, o seu horror pelo commissario de policia, as palavras arrancadas ao senhor Baptista, que tinha sido testemunha, e a declaração de ambos feita n'aquella mesma tarde.
Se o carrinho cheio de fructa não tivesse ficado lá em cima, e se um bom bocado de vitella sobre o lume não reclamasse os cuidados da cosinheira, não se sabe quanto tempo as duas mulheres teriam ficado na adêga.
As supposições da tia Tourtebonne não tinham fim; a imaginação ajudando o seu bom coração, rodeava a criança de chimeras; tinha chegado a querer-lhe tanto que, com as intimas, chamava-lhe de boa vontade: o meu rapazinho.
Sophia tendo prevenido seus amos, estes interrogaram a tia Tourtebonne com o mais vivo interesse. Felicissima por vêr o negocio em boas mãos, disse tudo quanto sabia e mesmo mais. O senhor Deschamps viu nos seus discursos, ainda que só acreditasse em metade, indicios de que poderia tirar partido.
A senhora Deschamps sentiu redobrar a esperança, porque, depois da descoberta, não tinha cessado de pensar no dia que reuniria a criança a sua mãe. Ainda mais, acabou por{169} sonhar acordada, o que era a maneira de arranjar ella mesma as circumstancias para com mais facilidade chegar ao desfecho.